A Origem da Revolta do Suíço

Ganimedes encarava as três magistradas por sobre a balaustrada do tribunal. Nas cadeiras atrás dele, outros também aguardavam. Empreiteiros que utilizaram materiais de qualidade duvidosa para erigir prédios que agora ruíam, os destroços amparados em redes de contenção gravitacional que emporcalhavam a área urbana; vizinhos brigando pela divisão das áreas com o melhor sinal da internet comunitária; motoristas envolvidos em batidas de trânsito causadas por falha nos sistemas de navegação; famosas que processavam perseguidores com drones rondando as janelas de suas casas e carros 24 horas por dia.

Ganimedes estava ali porque havia perdido a filha. Numa batida policial de rotina no Morro do Suíço. Ela brincava na frente de casa e levou um tiro na cabeça, confundida com um fugitivo que vestia uma camiseta do Flamengo. De acordo com a defesa policial, o agente respondeu em legítima defesa a uma troca de tiros, mas tanto Ganimedes quanto os vizinhos testemunharam que o único tiro ouvido naquele horário nas redondezas foi o que levou a vida da menina. Como argumentar contra as gravações de uma máquina, em tese, incorruptível? Ele e o Morro todo sabiam que a polícia adulterava as gravações para apagar seus erros e plantar evidências, mas os magistrados, a mídia e qualquer um com algum peso político ignorava o fato.

A primeira juíza disse que as provas apresentadas para contrapor a defesa da polícia eram insubstanciais, e corroborou o argumento de que o agente agia em legítima defesa. Era uma lástima que a morte tivesse ocorrido, acrescentou, mas enganos ainda aconteciam na era do policiamento robótico. Sugeriu um bônus à indenização paga pelo estado. A segunda juíza concordou com a colega, a terceira voltou a ressaltar que tais fatalidades eram o preço da drástica redução das estatísticas de criminalidade nos bolsões mais pobres. Ganimedes perguntou, antes de ser retirado pelos seguranças, se as juízas tinham filhos e se estavam dispostas a pagar o preço também.

Fora do tribunal, atravessou a aglomeração de parentes que aguardavam os veredictos e tomou o bonde. O esposo o havia deixado depois de dividirem a indenização, incapaz de continuar ali, assombrado pelas memórias. Entrou em casa, pegou a camisetinha do Flamengo estendida no varal, intocada desde que foi lavada para tirar o sangue, enfiou numa sacola de mercado e jogou fora.

Ligou a TV, assistiu um pouco da reprise da novela, levantou, foi até o lixo da rua, recuperou a camiseta e a amarrou na testa. Andou até a delegacia. Pediu para ver o agente N-247, o responsável pela tragédia. Descobriu que ele foi realocado para outra cidade. A resolução padrão: agentes envolvidos em tragédias ou assuntos sensíveis eram realocados, embora pudessem ser apenas formatados e o resultado seria o mesmo — caprichos para apaziguar os previsíveis desejos de vingança à la Ganimedes. Agradeceu, deu a volta na construção, escalou a mureta da casa mais próxima e pulou no topo da delegacia. Dois agentes logo saíram, apontaram-lhe os fuzis e pediram que descesse. Ele ignorou e começou a escalar a torre de comunicação. Outros agentes saíram, um deles pulou no topo e tentou escalar também, mas viu que era muito pesado pra estrutura. Moradores do Morro começaram a se juntar ao redor.

Lá em cima, tirou a camiseta da filha da testa e a amarrou na ponta da torre. Ela se encheu de vento e tremulou feito uma bandeira. Não demorou muito pra multidão começar a entoar coros de incentivo. Sabiam, ou ficaram sabendo ali, o que havia acontecido com a filha de Ganimedes; muitos tinham perdido parentes e amigos de forma parecida. Os helicópteros da TV chegaram e o rodearam, filmando de todos os ângulos. Quando o dos bombeiros se aproximou com a rede de contenção preparada, ele decidiu que era hora. Pulou de olhos fechados. O conflito que se seguiu, a destruição da delegacia do Morro do Suíço e o saldo de vítimas na casa das dezenas foram o estopim do levante.

Ainda hoje, nos anos tardios da Revolta do Suíço, com o patrulhamento do Morro todo gerido pela própria comunidade, os helicópteros de TV sobrevoam aquela massa de casas sem reboco durante os vendavais, para registrar a onda fulgurante de camisetas vermelhas que dançam ao vento penduradas nas antenas, nos postes, em varas de pesca, em suportes improvisados.