Alvariomano [#189]

O mercado brota na esquina.

Encontro Alvariomano na prateleira de temperos exóticos, entre a pimenta com gergelim e o molho shoyu. Não parece grande coisa tão pequeno, mas já possui aquela voz irrecusável que massacra qualquer fagulha de livre arbítrio. Pergunto pro moço se é o único que tem em estoque e o próprio Alvariomano responde com um grave que faz escorrer cera do ouvido: você só precisa de um.

Convencido, levo ele pro caixa. A mulher o segura pelo tronquinho e passa o pé no leitor. O menino abre a sacola pra colocá-lo dentro mas uma simples encarada de canto de olho de Alvariomano é suficiente pra fazê-lo entregar o crachá e o uniforme à supervisora, sair tropeçando e viver o resto dos seus dias incapaz de acreditar em si mesmo e na bondade alheia.

Alvariomano pede pra que eu instale sua cama na bancada da cozinha, onde fica rodeado por caixas de leite que azedam sem explicação. De manhã senta no meu ombro e se agarra à correntinha de ouro. Quando cruzamos com alguém na rua ele fala. É sempre algo ruim, que machuca, incomoda, desarma, intimida, apavora. Me pergunto como conhece a intimidade desses desconhecidos mas fico quieto porque sei que é melhor não saber. Chega esgotado do passeio e dorme até a manhã seguinte, acordando reenergizado pro novo festival de atrocidades que se atiram da sua boquinha venenosa. A cada dia cresce alguns centímetros.

A agressividade nas palavras piora com o tempo. Não consigo mais dormir, comer, trabalhar. Vendo o carro, as coisas da casa e as roupas até que vendo a própria casa e durmo na calçada com Alvariomano do tamanho de uma criança de 10 anos agarrada aos meus pés. Por fim não suporto mais sua presença desoladora e acordo de sonhos com aranhas mortas e pequenos esqueletos retorcidos. Procuro o mercado mas tudo o que acho no lugar é um casebre abandonado.

Quando Alvariomano já é homem feito, formado em maldade e falta de caráter, belo, alto e encorpado, enquanto de mim resta uma tripa seca e uma nisca de cabelo, a mulher o encontra e diz que chegou a hora. Se despede com um beijo negro antes de agradecer por tudo. Me encolho no chão, mordo os punhos e espero. Alguém me pega, acaricia com dedos quentes e me coloca na prateleira, mirrado, indefeso, incapacitado, mas obstinado e dono de um vozerio grave, a língua irrefreável preparada pra semear a vingança contida nas memórias borradas de uma vida que já não recordo.


*Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:
-Herança inesperada [Trilogia Terror - capítulo 1]
-O monstro no sótão
-Batata frita
-Bonihkomara
-Homúnculo
-Golem de churrascaria
-Debaixo da cama