Apartamento 221, ainda o mesmo

No fundo do armário, atrás do macarrão integral, do saco de farinha que mandaram de presente uns natais atrás, dos potes de compota vazios, o grampo de roupa ainda engatilhado como dente esfomeado.

Achei, querido, tá aqui, eu sabia que tinha guardado.

Quanta consideração, Marta. Oito anos. Oito anos sem dar notícia. Achei que você nem fosse abrir a porta.

Imagina, querido.

Abre o saco ainda na despensa, no conforto da parede que rasga o olho um do outro. Mete os dedos na camada embolorada do topo, joga no lixo, fecha de novo. Ele abana a camisa com dois dedos enfiados entre um botão e outro. Um dos botões é de textura diferente e costura flácida, logo cai de novo, ela pensa. Pega a chaleira do armário, enche com água da torneira, liga a bocarra na temperatura máxima, encosta a tampa do fósforo, o fogo ruge, ajeita o filtro no V de plástico marrom sobre a garrafa.

Que você tem feito nesse tempo todo, Marta? Parece que nada mudou por aqui.

Quando tá bom a gente não muda, querido.

É. Comigo tá tudo bem. A barriga de Minas Gerais é gorda. Aquele interior todo é de uma fartura que você não faz ideia. Eita povo pra te tratar bem, viu. Não é igual aqui, que já te olham com desconfio no canto do olho, zangando palavra que sai até amortecida na língua, agradecendo ou enxotando, que dá tá tudo na mesma e você se sente um mendigo pedindo moeda. Lá eles te recebem, passam um café, dão interesse no que tu tá vendendo, compram mesmo.

Que bom, né, querido. Então você se deu bem com a mudança.

Dei sim.

O que é que você vende mesmo?

Camisa. De botão. Coisa fina. Algodão puro, que o pessoal quer suar e deixar na camisa, sabe.

Sei sim. Coisa durável, então.

Isso.

Só um momentinho.

Ela sai da cozinha, entra no quarto, senta na cama, pega a revista de receitas. A que tava lendo antes dele chegar, lê outros três pastelões que não vai fazer, olha demoradamente a propaganda do creme de leite, olha pela janela do quarto. Volta na cozinha, despeja a água, o cheiro encharca tudo.

Não vai tomar, Marta?

Vou não, parei. Pressão alta e cafeína não combinam.

É verdade. Papai tinha esse problema também.

Ele toma um gole. Não toma outro. Come um biscoito de polvilho. Não come outro.

E o que você tem feito, Marta? Lendo bastante, vendo TV?

Um pouco disso, um pouco daquilo.

Que bom. Você parece bem saudável pra sua idade.

Parecer é a minha maior preocupação, tem hora.

Risada. Curta.

Bom, foi bom passar aqui. Bom te rever. Mas já tenho que ir. Muita visita acumulada, sabe.

Claro. Não vou te segurar, querido. Pode fazer suas coisas.

Brigado pelo café.

Ele sorri. O vinco da bochecha é o mesmo, a marca do corte na testa saliente e escura, machucado que sara debaixo do sol. Bom que meus olhos tão ruins, ela pensa, definição aguça a memória.

Passe bem, Marta.

Você também, querido.

Fecha a porta. Joga o café na pia. Guarda o saco no armário.