Castelo

Ele sai da cabana, olha as árvores, parece que olha pra mim mas sei que não me enxerga no meio dos arbustos e das folhas, espreguiça os braços, coça a barba, mija pela cerca no fosso e volta pra dentro. Logo a fumaça sai pelo buraco no teto e se o vento bate na minha direção, como agora, carne assada escala meu nariz e coça meus dentes. O estômago é obrigado a se contentar com o caju que mastigo e engulo e é a única coisa que encontro aqui perto e ainda não fiquei tão desesperada a ponto de comer terra ou casca ou folha pra sentir outro gosto.

Se ele só tiver levado os dois coelhos deve tá perto de acabar. Não sei quanto tempo vou guentar plantada aqui. Penso em Caíto e Caíria, só os dois, e eu sei que ele é um garoto responsável mas 6 anos não é nada. Se a nenê se afogar, se um estranho passar e quiser tirar proveito, se qualquer outro imprevisto acontecer. Rezo. Mas temo. Que se rezar fosse garantia de alguma coisa eu não tava aqui.

Outro dia longo e quente. Se fizesse um ensopado com os mosquitos que matei até agora alimentava uma vila. Não guento mais me estapear, vermelha de canseira. A garganta reclama da acidez dos cajus, mas e se justo quando saio pra achar um riacho ele resolve sair.

É só no pé do outro dia, quando o escuro começa a escalar o céu, que ele aparece cheio das peles e com duas lanças cruzadas nas costas. Puxa as cordas que seguram o portão na cerca, ergue, rasteja por baixo e começa a soltar do outro lado. Chego de mansinho com uma pedra pesada em cada mão. Ele vira, atiro uma, pega de raspão na cabeça, ele perde o equilíbrio, cai no fosso, mergulho atrás, uma das lanças finca no chão e a ponta me vara pela barriga. Engulo a dor, ele nem sabe o que tá acontecendo, desço a outra pedra, plosh.

O ar entra doído, quebro a madeira, puxo por trás. Argh como o diabo. Escalo o fosso sentindo as pontadas nas costas, na virilha, no pescoço, no corpo todo. Rastejo por baixo da cerca, manchando o chão. Sigo até a cabana, seguro na armação de madeira, a luz do dia pouca ali dentro. Recupero o fôlego com os olhos no breu. Vejo os restos da fogueira, pilhas de peles, brinquedos de ossos, potes cheios de líquidos lodosos. Ali no canto. Menina toda suja, emporcalhada, amarrada com as mãos pra trás, sangue nas pernas. Shh, shh, vou te soltar. Calma, filha, não corre. Não quero teu mal. Aqui, me ajuda a acender a fogueira de novo. Ele não vai voltar, calma. Calma. Shh. Isso, assopra. Assopra.

Presta atenção. Consegue andar? Tá doendo mas precisa fazer isso. Ouça. Descendo a trilha daqui, vai reto até a árvore ressequida com um galho apontando pra baixo. São uns dois dias. Vai pelo mato, se esconde se aparecer alguém. Você vai saber quando chegar. Pega a outra trilha que começa na raiz e vai até a gruta perto do riacho. Atravessa. Do lado de lá tem uma cabana bem menor que essa, um neném e um garoto dentro. Fala que Tora mandou você. Pega o que der pra carregar, traz eles. Vai, por favor. Eu me viro aqui. Não vou morrer. Pode ir, filha, vou esperar, você fica com a gente. Não se preocupa. Vai.

Ela manca pra fora. Coitada. Fico orando pra ela chegar. Acho outra lança, esquento a ponta no fogo. Já tô fraca. Caíto vai ter que cuidar de mim. Enfio a ponta pelando no buraco da barriga. Grito pra dentro. Esquento de novo. Nas costas ou o sangue vai todo embora. A madeira empretecendo. Quase lá. Meus filhos, finalmente, do lado de dentro de uma cerca.

Quando chegam me abraçam mas não abraço de volta. Ainda rezo sob suas pisadas. Rezo pra chover mosquito, pra azedar caju, pra ninguém tocaiar o refúgio que é a única herança deles.