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	<title>Flash Fiction &#187; Comédia</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
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		<title>Mamute é um bom companheiro</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Dec 2018 22:51:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Mamute abre a bocarra. Ele abre nessa boa vontade porque sabe que depois da escovação vem o osso, e tá pra nascer cachorro que gosta mais de osso que o Mamute. Coloco um pouquinho de pasta na ponta das cerdas, ele deita a cabeça na minha coxa, e começo pelos de trás. Ele se irrita de vez em quando, porque por mais cuidado que eu tenha, a gengiva é sensível. O sol tá forte, dá pra ver quase tudo. Mas pra enxergar atrás dos últimos, só com a luz do farol da bicicleta. É a parte que ele mais odeia, porque encosto no céu da boca e acho que ele sente ânsia, pelo menos é o que eu sentiria.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mamute abre a bocarra. Ele abre nessa boa vontade porque sabe que depois da escovação vem o osso, e tá pra nascer cachorro que gosta mais de osso que o Mamute. Coloco um pouquinho de pasta na ponta das cerdas, ele deita a cabeça na minha coxa, e começo pelos de trás. Ele se irrita de vez em quando, porque por mais cuidado que eu tenha, a gengiva é sensível. O sol tá forte, dá pra ver quase tudo. Mas pra enxergar atrás dos últimos, só com a luz do farol da bicicleta. É a parte que ele mais odeia, porque encosto no céu da boca e acho que ele sente ânsia, pelo menos é o que eu sentiria.</p>
<p>Já teve dia que meu pai me pegou escovando os dentes dele e disse que eu não devia brincar com um cachorro de 50 quilos desse jeito, que não dá pra prever reação de animal, ainda mais socando a mão na goela dele. Mas eu faço, nem que seja escondido, porque sei que o Mamute gosta da refrescância que fica, quem não gosta, e se tem um cachorro que não tem aquele bafo podre e a saliva grudenta é o meu.</p>
<p>Tiro o osso do bolso. Ele sai abanando o rabo e fica no cantinho da sombra da cerca, lambiscando. Resolvo começar a missão do dia, que é achar a bolita que se perdeu no jardim. Meu pai disse pra eu procurar há duas semanas, e agora a grama já tá bem alta. Ele corta todo final de mês, mas disse que não vai cortar enquanto eu não achar a bolita porque, quando ele era criança, conheceu um menino que pulou o muro da escola pra jogar futebol a com a turma num dia de feriado, e tavam cortando a grama do jardim nesse dia, e algo na lâmina do cortador quebrou e um pedaço de ferro se soltou e saiu voando e acertou a cabeça desse menino e ele caiu morto no chão. Meu pai não quer arriscar a lâmina do cortador bater na bolita e resvalar e acertar alguém, ele mesmo, em último caso. Então minha missão é: achar a bolita logo ou o jardim vai virar um pântano e eu não vou mais ter onde brincar e um dia posso até perder o Mamute no meio desse mato e talvez nem encontre mais o caminho de casa.</p>
<p>Mas ele tem faro bom, pai, cachorro sempre acha o caminho de casa.</p>
<p>Não importa, guri, vai achar a bolita.</p>
<p>Pelos meus cálculos, já consegui investigar quase metade do jardim, que é gigante. Uso lápis de cor com pedaços de papel colorido colados como bandeirolas pra demarcar o terreno limpo, enfiando de ponta no chão. O primeiro dia foi um desperdício porque o Mamute achou que aquilo tudo era pra ele, e quando fui dormir ele arrancou cada uma das bandeirolas e empilhou todas ao lado da casinha. Briguei, sentei e expliquei a história, que aquilo não era brincadeira, era coisa séria, eu precisava achar a bolita. Ele já tinha visto eu brincar com os meninos da rua dentro do cercado da varanda, onde o chão era cimentado e as bolitas corriam mais ou menos reto, então eu sabia que ele entenderia. Ele enfiava o focinhão num dos buracos entre as madeiras e ficava olhando. Aí um dia o Davi roubou, jogou duas bolitas de uma vez, e a gente começou a brigar e ele ficou tão nervoso que tacou longe a última bolita. O que explica o começo dessa novela toda, e o início infernal das minhas férias, que agora eu tenho que gastar procurando bolita em vez de jogando vídeo-game, vendo Netflix, essas coisas.</p>
<p>Pego mais lápis já preparados do quarto e continuo a caça. Fico um teeeeeempão procurando e nada. Enfio mais cinco lápis, as unhas já todas sujas de terra, umas duas minhocas e um besouro encontrados pelo caminho, e umas três encaradas de morte no Mamute quando ele chega perto das bandeirolas. Mamãe aparece na janela pra perguntar se eu quero bolinho de chuva, digo que vou terminar esse quadrante e já vou, os joelhos doloridos de tanto engatinhar.</p>
<p>Mamute late quando eu levanto, e digo que só vou comer e volto. Mas ele continua latindo, latindo e pulando, o que é uma coisa incrível, já que ele é um preguiçoso de carteirinha e só pula quando quer mesmo alguma coisa (caso dos churrascos de domingo, o jeito dele implorar um bife). Vou com ele até a casinha, passo pelo cemitério, pelo lote da ração (tudo certo por ali) e pelo cagódromo. Ele aponta todo orgulhoso com o focinho sua mais recente fabricação, ainda mole. Não entendo o motivo do orgulho, talvez queira só que eu comemore com ele o tamanho e a ousadia dessa última obra, que não me parece diferente das outras, mas nada disso. Rodeio a pilha fedegosa e vejo o motivo.</p>
<p>Demora pra minha mãe entender porque eu tô pulando pela cozinha com a mão lambrecada da bosta fedida do Mamute, ela até ameaça uns tabefes. Mas como o Mamute salvou o resto das minhas férias, eu não ligo pro cheiro e nem pros tabefes, se vierem.</p>
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		<title>A vida no Colégio Candeias é um inferno</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Sep 2018 17:24:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Cara Diretora,</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Diretora,</p>
<p>Eu, bem como meus colegas, estamos francamente horrorizados com a conduta da professora Ester, da disciplina de Feitiços. Já fizemos reclamações informais antes, mas resolvemos formalizar aqui nesta carta as nossas insatisfações e informar a senhora de alguns desdobramentos que julgamos interessantes e que precisam da sua ciência e aval.</p>
<p>Não bastassem os cutucões ao Ratão (Everardo Gomes), que todos a essa altura já sabem ser filho da sua vizinha e inimiga mortal (algo com relação a cachorros e plantas), as atitudes em sala de aula da professora têm se mostrado reprováveis e, o que é pior, ofensivas e até perigosas.</p>
<p>Talvez o exemplo mais flagrante tenha ocorrido no dia 11.04, quando aprendemos a fazer os rabos para curvas fechadas das nossas vassouras de voo. Aprendemos que é necessário alimentar uma iguana por cinco dias com favas embebidas no xarope de raízes de cicatrização acelerada, para só então cortar o seu rabo, ingrediente essencial do revestimento a ser aplicado na vassoura. Mas a professora Ester não só resolveu não ministrar à sua iguana o xarope como disse que a escola estava formando apenas jovens leite com pera (palavras dela), e que nos velhos dias a humanidade lidava com a natureza sem essa frescura toda. Então ela procedeu à cortar o rabo da iguana, que se debateu na mesa até que ela cortasse sua cabeça, abrisse a barriga, retirasse todas as entranhas e instasse os alunos a acender uma fogueira no pátio, onde ela assaria a iguana pra podermos provar o que é comida de verdade.</p>
<p>Sabemos que ela foi advertida e que a escola recebeu uma notificação do Ministério de Maus-Tratos aos Animais em Utilização Para Fins Mágicos, mas isso não parece ter mudado muito a sua postura. Detalhamos a seguir alguns acontecimentos pós-iguana:</p>
<p>No dia 27.04, durante uma demonstração das utilizações do fogo fátuo, ela queimou todos os pelinhos do braço e pediu que a gente desse um jeito de acabar com aquele cheiro insuportável. Ela não disse que a substância queimada por fogo fátuo se torna tóxica e metade da sala desmaiou antes que o inspetor aparecesse e conjurasse um feitiço extintor, que ainda não tínhamos aprendido.</p>
<p>No dia 28.04, o dia seguinte, quando dois alunos não vieram porque ao desmaiar se machucaram nas quinas das mesas, a professora Ester contextualizou a nossa história para um feitiço de linguagem, e frisou que durante a Grande Guerra da Fronteira os bolivianos foram traiçoeiros, e que não deveríamos nunca confiar neles, mesmo hoje. A mãe da Tinha (Renata Esperanza Tonus) é boliviana. Ela pediu à professora para retirar o que disse, explicando que sua mãe era inclusive funcionária do Ministério brasileiro. A professora não só reforçou a implicação como fez um feitiço de mudez e imobilidade na aluna pelo resto da aula.</p>
<p>No dia 01.05, tradicional feriado quando muitos estudantes voltam para suas casas, ela fez um feitiço de evocação e trouxe às suas cadeiras todos aqueles que estavam com suas famílias, passeando, comendo ou até dormindo depois do almoço, afirmando que apenas os feriados do mundo mágico é que deveriam ser respeitados no colégio. Vale destacar que o Cabeça (Bruno Gomide) estava tomando banho, e assistiu a aula enrolado numa toalha tirando o sabão dos olhos.</p>
<p>No dia 05.05, ela achou um piolho na sua cabeça e o comeu.</p>
<p>No dia 06.05 ela achou outro piolho e disse que quem não acertasse as respostas da prova oral teria que comer o piolho. Felizmente, todos acertaram.</p>
<p>No dia 10.05, anteontem, a professora Ester trouxe de sua casa uma lista de números. Ela os escreveu no quadro. Os números variavam de 50 a 70, com alguns chegando às casas decimais de 80 e 90. Apenas um destoava, menor que todos os outros, 19. Então ela disse que nos últimos meses tinha recolhido pertences e cabelos nossos e feito um proibido feitiço de clarividência para saber com que idade cada um de nós iria morrer. Ficamos horrorizados, sabendo que em poucos anos um de nós morreria, e mesmo insistentemente questionada, ela disse que não revelaria de quem era o número. Quando começaram as lágrimas, ela voltou atrás e disse que era apenas uma brincadeira, mas apontou o Ratão e disse para ele cuidar com o que comia. O Ratão entrou em desespero e passamos o resto da aula tentando acalmá-lo.</p>
<p>É por esses episódios, talvez nem todos do seu conhecimento, diretora, que pedimos o afastamento da professora Ester, e que alguma substituta seja encontrado para a disciplina. Já ficou claro, pensamos, que ela é incapaz de ministrar aulas de forma segura, e que nosso aprendizado está sendo prejudicado.</p>
<p>Também aproveitamos para informá-la que nossa sala está iniciando as atividades de um grêmio estudantil, e que pretendemos convidar os demais alunos dos diferentes anos do colégio para integrá-lo e discutir problemas que julgarmos dignos de atenção, criando assim uma ponte de comunicação com a direção que formalize e integre nossos interesses. Espero que possamos construir isso juntos, já que as leis do Ministério da Educação são claras no tocante à permissão da criação de grêmios caso os estudantes assim desejem.</p>
<p>Aviso de antemão que o assunto mais premente, após a resolução do caso com a professora Ester, é a reativação das Olimpíadas. Estamos abertos para o diálogo, e esperamos contar com o apoio incondicional da senhora nessa busca para melhorar a qualidade da nossa escola e nossa vida escolar.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p><em>Eduarda Tavares Souza e alunos do 2º ano B</em></p>
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		<title>Exploração intrassubstancial</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/exploracao-intrassubstancial/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Jun 2016 13:45:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu entrei na profissão há dois anos. De lá pra cá já desenterrei a caveira (metafórica) de muita gente, testemunhei infartos fulminantes, AVCs, calafrios, chororô do mais esclerosado ao mais econômico, de largar lagriminha na dobra do dedo e engolir pigarro. Dá pra entender, claro. Fiz isso com o relógio do meu pai quando morreu e vi que há quinze anos ele pagava pensão de um irmão que eu não sabia que tinha. Mas quem é esperto supera rápido. Esse meu irmão mesmo, Tonho, virou recepcionista da nossa empresa e pago ele muito menos do que deveria; família tem lá suas vantagens.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eu entrei na profissão há dois anos. De lá pra cá já desenterrei a caveira (metafórica) de muita gente, testemunhei infartos fulminantes, AVCs, calafrios, chororô do mais esclerosado ao mais econômico, de largar lagriminha na dobra do dedo e engolir pigarro. Dá pra entender, claro. Fiz isso com o relógio do meu pai quando morreu e vi que há quinze anos ele pagava pensão de um irmão que eu não sabia que tinha. Mas quem é esperto supera rápido. Esse meu irmão mesmo, Tonho, virou recepcionista da nossa empresa e pago ele muito menos do que deveria; família tem lá suas vantagens.</p>
<p>A Desencavadores® tem um calhambeque velho que lembra o dos Caça Fantasmas, o que é uma relação mais que cabível e bacana (curto pacas os filmes), e faz as crianças correrem atrás do monstrengo branco na rua. Só não temos o adesivo do Geleia na porta que aí poderia dar problema.</p>
<p>Depois da garapa e do quibe com ovo na Senador Metelo, saio pra primeira chamada do dia, uma casa pertinho da praça do Cidade Alta. Uma dona achou um envelope vazio metido entre as roupas do marido, falecido há um ano. A senhora não mexeu nas roupas dele por um ano, dona&#8230;? Emengarda, filha. Então, não mexi, né. Dava trem ruim só de chegar perto. Mas passou.</p>
<p>O envelope ainda liso, amarelado e com cheiro de mofo parece outro engano, caiu ali sem querer, não tem importância alguma. É o que mais acontece e aí resta cobrar a taxa de visita, cinquentinha, porque a pessoa não quer saber a história do objeto desde sua criação em alguma fábrica e seus dias #chatiado na prateleira de alguma loja. Fecho os olhos e seguro o envelope nas mãos, rastreando, rastreando.</p>
<p>Antônio Maricá tinha 67 anos quando comprou esse envelope. Colocou dentro uma carta, tirou, colocou outra, tirou. Na primeira pedia à esposa que assim que ele batesse as botas, ela desenterrasse do quintal uma caixinha com as pepitas de ouro que eram herança secreta do pai, e que havia deixado escondida porque nunca foi necessária. Temia que se a notícia vazasse os filhos e os irmãos buscassem se aproveitar do gracejo que era só seu. Essa carta ele pegou e rasgou. A segunda trazia as mesmas orientações escritas de um jeito mais carinhoso, pedindo à mulher que usasse o dinheiro pra visitar a Europa, que só conhecia pela tela empoeirada do Discovery. Rasgada também. A terceira tava na cabeça quando Antônio pulou do barco (metafórico).</p>
<p>Não era nada, dona Emengarda. Ele colocou um dia na pilha de roupa e alguém colocou outra roupa em cima e ficou ali esquecido. Cinquenta, que é a taxa da visita. Obrigada, filha.</p>
<p>De madrugada, a pá bate num troço duro. Colo a orelha na janela do quarto da velha. Alguns segundos e dou um joia pro Tonho. Ele tira o resto de terra com as mãos pra liberar a caixa.</p>
<p>No caminho de volta, Tonho pergunta o que é aquilo no meu colo que ele desenterrou e digo que são as cinzas de um antigo dono do terreno que tava atormentando a casa. O bom é que Tonho ainda é inocente, coitado. Na caixa as minhas férias, Caribe e talvez até a Europa que o velho Maricá queria pra esposa. Não é que ela não merecesse, mas as pepitas não eram herança não.</p>
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		<title>Da culpa num assassinato não premeditado</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/da-culpa-num-assassinato-nao-premeditado/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2016 10:00:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Josaldo matou um homem. Agora aguardava, no escritório do delegado, pelo próprio delegado, que via através das persianas abertas e do vidro das janelas, equilibrando nas mãos uma xícarazinha de café. Esquivou de uns tantos policiais, encolhendo a barriga o máximo que conseguia, que não era muito, para serpentar pela delegacia sem derrubar pilhas de papéis, telas de computador e ocasionais porta-retratos.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Josaldo matou um homem. Agora aguardava, no escritório do delegado, pelo próprio delegado, que via através das persianas abertas e do vidro das janelas, equilibrando nas mãos uma xícarazinha de café. Esquivou de uns tantos policiais, encolhendo a barriga o máximo que conseguia, que não era muito, para serpentar pela delegacia sem derrubar pilhas de papéis, telas de computador e ocasionais porta-retratos.</p>
<p>Josaldo, é isso?, ele disse, assentando a xícara na mesa e fechando a porta atrás de si. Vejo que você se adequou bem à cadeira, melhor que muitos outros que já sentaram nessa cadeira antes, e ouso dizer que seu conforto parece um bom indicativo da veracidade da sua culpa.</p>
<p>Josaldo não esboçou reação. O delegado bebericou o primeiro gole do café.</p>
<p>Que é exacerbada, logicamente, continuou. Veja, há muitos tipos de infortúnio no mundo, todos eles lamentáveis, e a morte de uma pessoa é talvez o mais lamentável deles. Mas é necessário alocar os devidos atenuantes para todo tipo de desgraça, talvez as reduzindo a desgracinhas toleráveis, talvez as cultivando até se tornarem marcos negros da história humana. Eu gostaria de saber, é claro, os motivos que o levaram a cometer tal atrocidade. Pelo relatório do legista e pelos relatos das testemunhas a vítima foi empurrada, magistralmente empurrada, ouso dizer, e acabou encontrando seu fim ao perder o equilíbrio e se chocar com o chão, duro como de costume, com a cabeça.</p>
<p>Estou correto nessas asseverações, presumo, o delegado disse, bebendo outro gole. Josaldo piscou.</p>
<p>O interessante neste caso, e o que mais me preocupa é, claro, a identidade da vítima. A foto no documento, que mostra a cabeça ainda em sua pré-condição, nos indica que de forma alguma o ferimento pode ser classificado como resultado de um simples empurrão, ainda mais um empurrão numa avenida que todos sabemos ser bem frequentada. É talvez uma culpa compartilhada, no máximo isso, note, o que temos aqui. É possível dizer que a real causadora da morte foi a gravidade. Na verdade, é óbvio afirmar este tanto. É impossível, até onde sei, interromper a queda de um objeto ou pessoa qualquer, uma vez submetido à atração inescapável pelo centro planetário. O que causa esta queda é importante sob o ponto de vista contextual de qualquer ação, sobretudo em análises críticas ou acadêmicas, mas aqui nos vemos diante de um imbróglio de ordem prática. Em todo caso, é talvez necessário, para o bem da ordem pública e da reputação da nossa instituição, que seja pelo menos declarada a intenção deste tal ato originador, para que não possa ser confundido com um movimento nascido de más intenções.</p>
<p>Eu diria, ao analisar rapidamente a sua pessoa e a sua apresentação, que o senhor percebeu uma moeda no chão, ou algo brilhante de notável valor, e empurrou o homem para que ele não identificasse o objeto, para que não pisasse em cima ou apenas para que a coleta fosse mais rápida, tendo ele como obstáculo, o que é perfeitamente tolerável nos dias de hoje. Imagino que eu esteja certo novamente, não?</p>
<p>Josaldo enfiou a mão no bolso para pegar a moeda, mas deixou a mão lá.</p>
<p>O relatório será completo, extenso, pomposo e redundante, como é a ordem natural das coisas. Fico feliz em dizer que o senhor é um homem culpado, sob todas as óticas, mas não é protagonista da culpa e é, portanto, escusável de qualquer prejuízo que essa fatalidade possa trazer à tona. Deixemos que a natureza, essa grande assassina, aceite a acusação que lhe cabe. É um prazer, ao menos para mim, saber que há um homem digno de volta às ruas, não deixando que as moedas percam seu valor soterradas pela sujeira, ignoradas por aqueles que poderiam usufruir delas em sua completa finalidade. Aguarde alguns minutos para assinar o relatório, que será redigido pelo senhor Flann, e considere-se livre.</p>
<p>O delegado tomou o último gole do café e saiu para esquivar seu barrigão de outros obstáculos.</p>
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		<title>Poltrona</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/poltrona/</link>
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		<pubDate>Thu, 18 Jun 2015 13:51:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Peidaram. Peidaram em mim hoje.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Peidaram. Peidaram em mim hoje.</p>
<p>O que me deixa indignada não é nem o peido. Pô, o negócio vem, não tem muito o que fazer. Sai assobiando, derrapando, respingando, não importa. O que me tira do sério é a pessoa não levantar a bunda. Porra. Peidou, ergue a busanfa pra circular o escorraço que saiu de dentro de você, não fica guardando que nem galinha guarda ovo, liberta pro mundo, remove os grilhões de jeans. Caso contrário o troço cozinha e entra no meu estofado e gruda na minha espuma e no meu esqueleto e custa a sair. Até porque não para de chegar traseiro pra esquentar a minha cara.</p>
<p>Você leu a cláusula contratual? Era um dos possíveis desdobramentos. Afinal, todo mundo senta com a bunda. E a bunda, bem. Eu sei, doutor. Não tô reclamando da sentada em si. Adoro. Vivo pra isso. Gorda ou magra, espinhenta, cabeluda, suada. Se senta macio ou com tudo, tanto faz. Tô lá, firme e forte, braços abertos. O que me irrita é o peido. Como não posso reclamar sou obrigada a aturar de bico calado.</p>
<p>Por que acha que as pessoas não levantam? Vergonha, doutor. Acham deselegante. Como se todas não fizessem a mesma coisa, não fossem máquinas biológicas criadas pra fazer exatamente isso. Mas é proibido, ainda mais num consultório médico que não aceita plano de saúde, não coloca máquina de cartão de crédito porque acha parcelamento o ó e tem secretárias que se contorcem quando ouvem a palavra SUS.</p>
<p>Acredita que caso realocada para outro ambiente se sentiria mais realizada? As pessoas peidam em todo lugar, você entende isso, certo? Claro que entendo, doutor. Não é o peido, como eu disse, é não levantar. Você tem a impressão de que num ambiente mais casual a reação seria diferente? Creio que sim. Sabe que há muitas vantagens no consultório médico, muitas matariam para estar no seu lugar. Ar condicionado, TV, pano úmido semanal. Não corre risco de se sujar com comida ou coisas piores, de ser furada&#8230;</p>
<p>Sei disso tudo, doutor. Mas, por favor, se puder me ajudar. Alegue o que for necessário. Depressão, incompatibilidade, stress. Acho que é a única solução. Não dá pra ser feliz desse jeito. Entendo. Vou registrar no laudo. Em casos assim é fácil conseguir a transferência. O problema é onde você pode parar, a realocação é aleatória.  Do jeito que eu tô, doutor, qualquer lugar é lucro.</p>
<p>Atrás da vitrine da loja, anos mais tarde, ela sonha com grãos venenosos entre as nádegas, amargando a dessentadura dos dias.</p>
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		<item>
		<title>Paolo, o urso</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/paolo-o-urso/</link>
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		<pubDate>Mon, 08 Jun 2015 15:45:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>- Ahhh!<br /><br />
- O que foi?<br /><br />
- Você fala?<br /><br />
- &#8220;Você fala?&#8221; Ah, claro. Vocês, humanos, são os únicos que podem falar. São os seres pensantes, que governam o mundo com máquinas e dedos opositores. Os bambambãs. Grande merda aqui na floresta, sozinho e ferrado, certo?<br /><br />
- Onde a gente tá? Que ilha é essa?<br /><br />
- É a ilha das fadinhas. Elas cantam musiquinhas bonitas, fazem cafuné, atendem seus pedidos, constroem camas king size pra você tirar um ronco depois do prato francês que elas preparam. Só que não. Qual o teu nome?<br /><br />
- Fábio.<br /><br />
- Então, Fábio. Faz tempo que nenhum de vocês dá as caras. O que aconteceu?<br /><br />
- Eu tava num teco-teco fazendo o trecho Cartagena &#8211; Cancún. Uma tempestade pegou a gente e&#8211;<br /><br />
- E você e o piloto caíram, o piloto morreu, você tá há semanas andando pra cima e pra baixo se virando pra sobreviver, a roupa foi pro brejo e achou que seria prático amarrar essas folhas de bananeira igual tanguinha de índio na frente e atrás.<br /><br />
- Como você sabe?<br /><br />
- É meio óbvio, pra ser sincero. A tanguinha foi boa ideia. Acho sexy.<br /><br />
- Sexy?<br /><br />
- É. Mas cê é peludo pra caramba. E tá com essa barba enorme. Fica parecendo urso, sabe? Eu curto um lance mais exótico. Humano com cara de humano de mesmo.<br /><br />
- &#8230;<br /><br />
- Não fica tímido, vai. Todo animal tem suas necessidades.<br /><br />
- Você é o único bicho falante da ilha?<br /><br />
- Claro. Imagina. Se tivesse outro teria quer ser uma democracia. E aí seria um saco.<br /><br />
- Outros humanos apareceram aqui antes?<br /><br />
- Alguns. Nenhum tão bocó quanto você. Mas dá nada. Vem comigo.<br /><br />
- Pra onde?<br /><br />
- Pra casa, pô. Pra onde mais? Esquece as fadinhas. Esquece tua antiga vida. Agora cê mora na ilha. Eu sou o Paolo.<br /><br />
- Prazer, Paolo.<br /><br />
- Senhor.<br /><br />
- Como?<br /><br />
- Prazer, senhor Paolo, pra você. Ou só senhor.<br /><br />
- Que porra é essa?<br /><br />
- Eu pedi pra você falar, Fábio?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>- Ahhh!<br />
- O que foi?<br />
- Você fala?<br />
- &#8220;Você fala?&#8221; Ah, claro. Vocês, humanos, são os únicos que podem falar. São os seres pensantes, que governam o mundo com máquinas e dedos opositores. Os bambambãs. Grande merda aqui na floresta, sozinho e ferrado, certo?<br />
- Onde a gente tá? Que ilha é essa?<br />
- É a ilha das fadinhas. Elas cantam musiquinhas bonitas, fazem cafuné, atendem seus pedidos, constroem camas king size pra você tirar um ronco depois do prato francês que elas preparam. Só que não. Qual o teu nome?<br />
- Fábio.<br />
- Então, Fábio. Faz tempo que nenhum de vocês dá as caras. O que aconteceu?<br />
- Eu tava num teco-teco fazendo o trecho Cartagena &#8211; Cancún. Uma tempestade pegou a gente e&#8211;<br />
- E você e o piloto caíram, o piloto morreu, você tá há semanas andando pra cima e pra baixo se virando pra sobreviver, a roupa foi pro brejo e achou que seria prático amarrar essas folhas de bananeira igual tanguinha de índio na frente e atrás.<br />
- Como você sabe?<br />
- É meio óbvio, pra ser sincero. A tanguinha foi boa ideia. Acho sexy.<br />
- Sexy?<br />
- É. Mas cê é peludo pra caramba. E tá com essa barba enorme. Fica parecendo urso, sabe? Eu curto um lance mais exótico. Humano com cara de humano de mesmo.<br />
- &#8230;<br />
- Não fica tímido, vai. Todo animal tem suas necessidades.<br />
- Você é o único bicho falante da ilha?<br />
- Claro. Imagina. Se tivesse outro teria quer ser uma democracia. E aí seria um saco.<br />
- Outros humanos apareceram aqui antes?<br />
- Alguns. Nenhum tão bocó quanto você. Mas dá nada. Vem comigo.<br />
- Pra onde?<br />
- Pra casa, pô. Pra onde mais? Esquece as fadinhas. Esquece tua antiga vida. Agora cê mora na ilha. Eu sou o Paolo.<br />
- Prazer, Paolo.<br />
- Senhor.<br />
- Como?<br />
- Prazer, senhor Paolo, pra você. Ou só senhor.<br />
- Que porra é essa?<br />
- Eu pedi pra você falar, Fábio?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Passatempo</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/passatempo/</link>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2015 19:14:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>- Paiê, só tem um pacote.<br /><br />
- Tem dois, a mãe comprou ontem.<br /><br />
- Só tem um de Passatempo. O outro é Negresco.<br /><br />
- Cada um pega um.<br /><br />
- Eu quero Passatempo.<br /><br />
- Eu também.<br /><br />
- Dá.<br /><br />
- Não.<br /><br />
- Dá.<br /><br />
- Não.<br /><br />
- Renner e Luiz, dividam o pacote, os dois. Nem mais um pio. Dá e sobra pra vocês. Lá em casa a gente vê se tem mais.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>- Paiê, só tem um pacote.<br />
- Tem dois, a mãe comprou ontem.<br />
- Só tem um de Passatempo. O outro é Negresco.<br />
- Cada um pega um.<br />
- Eu quero Passatempo.<br />
- Eu também.<br />
- Dá.<br />
- Não.<br />
- Dá.<br />
- Não.<br />
- Renner e Luiz, dividam o pacote, os dois. Nem mais um pio. Dá e sobra pra vocês. Lá em casa a gente vê se tem mais.</p>
<p>- Paiê, ele comeu a última bolacha.<br />
- Não comi, não, você que demorou pra comer a de cima.<br />
- Ele comeu.<br />
- Mas já não comeram que chega?<br />
- Ele comeu, ele comeu.<br />
- Não comi, não comi, não comi, não comi.<br />
- Chega! Se tiverem com fome abram a Negresco.<br />
- Não gosto.<br />
- Nem eu.<br />
- Tá bom. Vocês não gostam mas eu gosto. Renner, abre e dá uma pra mim. Brigado. Hummm, que delícia.<br />
- Paiê, o Renner não quer me dar uma.<br />
- Ele falou que não queria.<br />
- Você também, e tá comendo. Me dá.<br />
- Não dou.<br />
- Me dá.<br />
- Não dou.<br />
- Me dá.<br />
- Jesus Cristo! O que eu já falei? Renner, dá a bolacha pro seu irmão, ele também quer.</p>
<p>- Paiê, o Renner mordeu a bolacha e colocou de volta no pacote.<br />
- Não quero mais. Ele também não quer, cuspiu no banco.<br />
- Luiz! Que que eu já falei de cuspir comida fora?<br />
- Tava ruim. Muito ruim.<br />
- Cuspiu. Porco. Porco. Porco. Porco. Ai! O Luiz me bateu!<br />
- Ele tava me chamando de por&#8211; Ai!<br />
- Parem, os dois! Agora! Se não se comportarem vão chegar em casa e vão direto pra cama!</p>
<p>- Paiê. O Luiz arrotou.<br />
- Não arrotei, não.<br />
- Arrotou, sim. Cheiro de Passatempo.<br />
- Não é. Cheiro de Negresco. Você comeu a mais, não me deu a última. Não tem como eu arrotar esse cheiro, comi menos. Você que vai arrotar Passatempo.<br />
- Não vou.<br />
- Vai.<br />
- Não vou.<br />
- Vai.<br />
- Não vou.<br />
- O QUE! QUE! EU! FALEI!? SANTO PAI!</p>
<p>- Oi, Beto. Oi, crianças.<br />
- Oi, mãe.<br />
- Oi, mãe.<br />
- Uai, Beto, que cara amarrada é essa? Aconteceu alguma coisa?<br />
- Não, nada.<br />
- Tá bom. Mas por que tá dirigindo tão rápido?<br />
- Nada, amor.<br />
- Por que parou no mercado?<br />
- Cíntia, pelo amor de Deus, pega esse dinheiro. Vai lá e compra tudo de Passatempo. Tudo.<br />
- Você tá bem, Beto?<br />
- Vai. Vai.</p>
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		<title>Timing</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/timing/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Mar 2015 16:33:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Houve um dia em que por coincidência ou predestinação, um grupo de pessoas fez descobertas de repercussões incalculáveis em suas vidas no mesmo lugar, no mesmo instante. Buscando o relato mais imparcial possível, ilustro a seguir este grandioso momento de reviravolta e epifania.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Houve um dia em que por coincidência ou predestinação, um grupo de pessoas fez descobertas de repercussões incalculáveis em suas vidas no mesmo lugar, no mesmo instante. Buscando o relato mais imparcial possível, ilustro a seguir este grandioso momento de reviravolta e epifania.</p>
<p>Era uma manhã quente e seca, como são a maioria delas na praça Bispo Dom José, centro de Cuiabá. Os dois pontos de ônibus estavam apinhados de gente, compartilhando a tênue sombra do quebra-sol de plástico, que nada podia fazer para barrar o vento abafado de 44 graus. No meio da praça, repousando na grama, uma grande máquina barulhenta era rodeada por oito doutorandos do departamento de Física e de Ciências da Computação da Universidade Federal do Mato Grosso, tablets na mão. Num dos bancos, uma estudante de jornalismo frustrada com a futura carreira (embora já tivessem lhe apontado essa impossibilidade, visto que ainda não começara a atuar na área), batia a bunda da caneta num bloquinho em branco (um de muitos largados pela casa), pensando em alguma ideia para iniciar a carreira alternativa de romancista (embora já tivessem lhe advertido também contra essa loucura). Embaixo de outro banco, um mendigo acordava suado, a barba coçando, pouco ou nada recordando da noite anterior e como viera parar ali.</p>
<p>Paulo Coelho chegou a publicar uma nota em seu blog dizendo que naquele dia, às 10h27, a Terra foi atingida por uma incomum radiação solar permitida pelo alinhamento de Saturno e Júpiter, o primeiro em mais de três mil anos. Confessou que foi neste momento de suprema inspiração que decidiu lançar sua candidatura a presidente da República.</p>
<p>Às 10h27, na praça, os doutorandos arregalaram os olhos ao receber os resultados alcançados pela máquina, que calculou com exatidão o processo de transformação do mormaço em energia elétrica sem perda residual, utilizando transformadores baratos. Cuiabá reduziria, uma vez instalados, 90% do seu gasto com energia.</p>
<p>Às 10h27 a estudante, respondendo a um forte influxo, começou a delinear o romance que revolucionaria o mercado literário brasileiro, desbancando os best sellers internacionais e recolocando a literatura nacional em destaque, abrindo espaço para uma promissora safra de novos escritores.</p>
<p>Às 10h27 o mendigo acordou, sentou, e sem saber como conseguiu o casaco que vestia, tateou os bolsos, achando uma garrafa de Ypióca Gold lacrada. Sua felicidade foi tamanha que começou a sapatear pela praça. Trombou com a escritora, que derrubou o bloquinho. De maneira inesperada a máquina fungou e inalou com força. O bloquinho entrou pela greta de metal e fez a máquina explodir, decretos voando para todos os lados.</p>
<p>O mendigo foi o único a sair ileso, a garrafa nos dedos desviando o fragmento que vinha mirado no seu coração. Dois anos mais tarde, assistiu pela TV do ponto de táxi do memorial Bispo Dom José o presidente Paulo Coelho tomar posse.</p>
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		<title>Mancha</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/mancha/</link>
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		<pubDate>Mon, 02 Mar 2015 14:30:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>- Pois bem &#8211; disse Bruno, acendendo a luz. &#8211; Vocês estão bem? Posso oferecer algo, um Toddynho, uma Passatempo?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>- Pois bem &#8211; disse Bruno, acendendo a luz. &#8211; Vocês estão bem? Posso oferecer algo, um Toddynho, uma Passatempo?</p>
<p>Do outro lado do quarto, sentados na cama do filho, os pais se entreolharam. A mãe coçou a testa. &#8211; Acabamos de tomar café, Bruno, você sabe.</p>
<p>- Pois bem &#8211; o garoto arrumou a gravata do pai no pescoço e subiu no banquinho. Apontou o retrato de um homem com um baita bigodão, roupas antigas, um rosto sério. Era um recorte da Superinteressante do mês passado, algum almirante da época de Napoleão. &#8211; Este aqui foi o imperador Rubisteu III, da Bulgária. Ele imperou a Bulgária no fim dos anos 1.700, e foi muito amado por seu povo porque era gente fina e dava comida pra todos. Um dia ele acordou com uma mancha vermelha na perna. Ele mostrou à sua esposa mas ela disse que não era nada e foi passar maquiagem. Depois de poucas horas o imperador teve fortes dores de cabeça e soltou muitos puns.</p>
<p>- Onde você ouviu isso, Bruno? &#8211; a mãe levantou, olhando o relógio.</p>
<p>- O imperador chamou seus médicos e eles o analisaram com palitos de picolé e luvas de balão e descobriram uma doença gravíssima. A mancha na pele ficou preta e aumentou, e eles disseram que era muito tarde pra fazer qualquer coisa, e que se ele tivesse procurado por eles de manhã e ficado de repouso, teria sobrevivido. Mas morreu logo depois, com muita dor e sofrimento e choro e sangue e música chata e padre e café e pão de queijo.</p>
<p>O garoto ficou quieto, concentrado na mais grave expressão que conseguiu arquitetar.</p>
<p>- Acabou? &#8211; o pai levantou também.</p>
<p>- Ainda não &#8211; Bruno desceu do banco, parou na frente dos dois e levantou o short. Na coxa esquerda do menino viram uma mancha vermelha. Ele fez uma careta, como se levantar o short tivesse doído.</p>
<p>- Bruno &#8211; a mãe disse, mãos na cintura. &#8211; O uniforme. Agora. Você vai pra escola.</p>
<p>- Mas mãe&#8211;</p>
<p>- Sem &#8220;mas mãe&#8221;. O que é aquilo ali?</p>
<p>Bruno seguiu o dedo da mãe até o topo da escrivaninha, onde repousava a canetinha vermelha destampada.</p>
<p>- Droga.</p>
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		<item>
		<title>Bom de papo [#221]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/bom-de-papo-221/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/bom-de-papo-221/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2014 21:57:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>- E aí, Cardoso. É hoje que vai me contar?<br /><br />
- Contar o quê, homem?<br /><br />
- Por que tá morando na rua. Sei que tua filha tem casa, cê que não quer ir.<br /><br />
- A pergunta é: tem cerveja envolvida?<br /><br />
- Claro, puxa aí. Amizade, vê mais um copo pro Cardoso aqui.<br /><br />
- Brigado.<br /><br />
- Então. Conta, tô curioso.<br /><br />
- Calma. Deixa ele trazer. Tô com a boca seca, essa umidade baixa mata a gente. Aí. Brigado, filho. Tintin.<br /><br />
- A quê?<br /><br />
- Aos que se foram, né? É um bom brinde.<br /><br />
- Aos que se foram.<br /><br />
- Êta coisa boa, Tavares. Brigado, viu?<br /><br />
- Nada. Agora anda, conta.<br /><br />
- Tá bom. Não tem muito mistério não. Quando eu tava na faculdade tive um professor de filosofia que falava umas coisas bonitas, fazia a gente pensar. Um dia disse que queria morar na rua pra conhecer de perto como é que funciona a cidade. A alma dela tá na rua, entende? Se bem que ele não chegou a fazer isso, se aposentou e mudou pra Campo Verde, tinha família lá. Acho que tá vivo ainda.<br /><br />
- E aí?<br /><br />
- E aí que isso mostra uma coisa bem simples. Tem muita gente que diz que vai fazer as coisas. Pouca gente faz. Agora, cê vê, eu sempre disse que ia ouvir o médico. Me receitou uns remédios, pressão baixa. Não posso ficar muito tempo sem comer, passo mal. Tô até vendo escuro nos cantos, sabe? Igual cinema antigo?<br /><br />
- Pedi um frango a passarinho. Já deve tá chegando.<br /><br />
- Olha, que beleza. Vai ser uma mão na roda. Ah, cerveja boa. Aqui, deixa eu encher. Tive um sobrinho que trabalhou na Ambev. Ele dizia que as melhores cervejas eram as que vendiam menos. Tinham tempo de fermentar mais, ficar de molho. Essas da moda têm que produzir rápido, não dá de curtir, ficam meio aguadas. Qual é essa aqui mesmo?<br /><br />
- Brahma.<br /><br />
- Brahma. Ô coisa boa. Boa mesmo. É, cabou.<br /><br />
- Amizade, vê outra aqui. Brigado.<br /><br />
- Bom esse bar, né?<br /><br />
- Bom mesmo. E a tua história, Cardoso?<br /><br />
- Então. Depois desse professor eu tive um amigo que ficou dedéu quando perdeu o filho, morou embaixo da ponte. Buscamos, levamos pra casa, demos banho e tudo, mas ele queria voltar. Dizia que tinha descoberto a verdade. Que as coisas tavam ali, expostas, e ele se sentia mais vivo que nunca. Mas tava pirado, era fácil ver. A ideia era fazer o que ele fez, mas são, sabe?<br /><br />
- E aí cê resolveu?<br /><br />
- Não, passou um tempão, eu trabalhei na Sadia. Era um fedor danado, acho que isso meio que transmutou meu cérebro. Mas a gente se acostuma. Falando em animal morto, olha aí.<br /><br />
- Opa. Valeu, amizade. Tem um limão? Beleza. Pimenta também. Tranquilo.<br /><br />
- Hum. Que coisa boa. Crocante a pelinha, né?<br /><br />
- Mas então.<br /><br />
- Então, a gente estudava isso na Sadia. Pra fazer os pacotes de frango a passarinho. Tem que cortar certo. Pessoal faz essa propaganda apocalíptica do colesterol no couro, mas quem gosta dele frito não liga, tem que ser crocante mesmo.<br /><br />
- E a história, Cardoso?<br /><br />
- Já conto, deixa só o sal entrar no organismo. Hum, coisa boa.<br /><br />
- Boa mesmo.<br /><br />
- Pronto, esses cinco pedaços tão começando a aliviar. Dá uma sede, né?<br /><br />
- E?<br /><br />
- E aí que fui despedido da Sadia, acabou o dinheiro e fui morar na rua. A saideira?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>- E aí, Cardoso. É hoje que vai me contar?<br />
- Contar o quê, homem?<br />
- Por que tá morando na rua. Sei que tua filha tem casa, cê que não quer ir.<br />
- A pergunta é: tem cerveja envolvida?<br />
- Claro, puxa aí. Amizade, vê mais um copo pro Cardoso aqui.<br />
- Brigado.<br />
- Então. Conta, tô curioso.<br />
- Calma. Deixa ele trazer. Tô com a boca seca, essa umidade baixa mata a gente. Aí. Brigado, filho. Tintin.<br />
- A quê?<br />
- Aos que se foram, né? É um bom brinde.<br />
- Aos que se foram.<br />
- Êta coisa boa, Tavares. Brigado, viu?<br />
- Nada. Agora anda, conta.<br />
- Tá bom. Não tem muito mistério não. Quando eu tava na faculdade tive um professor de filosofia que falava umas coisas bonitas, fazia a gente pensar. Um dia disse que queria morar na rua pra conhecer de perto como é que funciona a cidade. A alma dela tá na rua, entende? Se bem que ele não chegou a fazer isso, se aposentou e mudou pra Campo Verde, tinha família lá. Acho que tá vivo ainda.<br />
- E aí?<br />
- E aí que isso mostra uma coisa bem simples. Tem muita gente que diz que vai fazer as coisas. Pouca gente faz. Agora, cê vê, eu sempre disse que ia ouvir o médico. Me receitou uns remédios, pressão baixa. Não posso ficar muito tempo sem comer, passo mal. Tô até vendo escuro nos cantos, sabe? Igual cinema antigo?<br />
- Pedi um frango a passarinho. Já deve tá chegando.<br />
- Olha, que beleza. Vai ser uma mão na roda. Ah, cerveja boa. Aqui, deixa eu encher. Tive um sobrinho que trabalhou na Ambev. Ele dizia que as melhores cervejas eram as que vendiam menos. Tinham tempo de fermentar mais, ficar de molho. Essas da moda têm que produzir rápido, não dá de curtir, ficam meio aguadas. Qual é essa aqui mesmo?<br />
- Brahma.<br />
- Brahma. Ô coisa boa. Boa mesmo. É, cabou.<br />
- Amizade, vê outra aqui. Brigado.<br />
- Bom esse bar, né?<br />
- Bom mesmo. E a tua história, Cardoso?<br />
- Então. Depois desse professor eu tive um amigo que ficou dedéu quando perdeu o filho, morou embaixo da ponte. Buscamos, levamos pra casa, demos banho e tudo, mas ele queria voltar. Dizia que tinha descoberto a verdade. Que as coisas tavam ali, expostas, e ele se sentia mais vivo que nunca. Mas tava pirado, era fácil ver. A ideia era fazer o que ele fez, mas são, sabe?<br />
- E aí cê resolveu?<br />
- Não, passou um tempão, eu trabalhei na Sadia. Era um fedor danado, acho que isso meio que transmutou meu cérebro. Mas a gente se acostuma. Falando em animal morto, olha aí.<br />
- Opa. Valeu, amizade. Tem um limão? Beleza. Pimenta também. Tranquilo.<br />
- Hum. Que coisa boa. Crocante a pelinha, né?<br />
- Mas então.<br />
- Então, a gente estudava isso na Sadia. Pra fazer os pacotes de frango a passarinho. Tem que cortar certo. Pessoal faz essa propaganda apocalíptica do colesterol no couro, mas quem gosta dele frito não liga, tem que ser crocante mesmo.<br />
- E a história, Cardoso?<br />
- Já conto, deixa só o sal entrar no organismo. Hum, coisa boa.<br />
- Boa mesmo.<br />
- Pronto, esses cinco pedaços tão começando a aliviar. Dá uma sede, né?<br />
- E?<br />
- E aí que fui despedido da Sadia, acabou o dinheiro e fui morar na rua. A saideira?</p>
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