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	<title>Flash Fiction &#187; Ficção Científica</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
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		<title>A formidável moldura do indizível</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Dec 2018 19:57:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Um sonho tem me atormentado nos últimos tempos. Sinto uma repulsa inexplicável pelo conceito e não consigo parar de confrontá-lo no subconsciente. Começa com a imagem de um homem sentado diante do computador em um escritório escuro, escrevendo e escrevendo. Ele acorda, come, senta e começa. Vira e mexe lê um livro. Assiste algo na mesma tela quando para pra almoçar, normalmente coisa rápida de fazer e com uma cara não muito boa. Lê e assiste mais coisas à noite quando não sai, e nunca sai. Então dorme, convoluto na cama, pra reiniciar o mesmo dia.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Um sonho tem me atormentado nos últimos tempos. Sinto uma repulsa inexplicável pelo conceito e não consigo parar de confrontá-lo no subconsciente. Começa com a imagem de um homem sentado diante do computador em um escritório escuro, escrevendo e escrevendo. Ele acorda, come, senta e começa. Vira e mexe lê um livro. Assiste algo na mesma tela quando para pra almoçar, normalmente coisa rápida de fazer e com uma cara não muito boa. Lê e assiste mais coisas à noite quando não sai, e nunca sai. Então dorme, convoluto na cama, pra reiniciar o mesmo dia.</p>
<p>Sempre que acordo, rodeada por não sei quais serviçais zorianas, sinto um amargo na boca que parece o exato amargo na boca desse homem. Deixo o problema de alimentar e expulsar as convidadas nas mãos de Kef, a inteligência artificial da casa. Não é sempre que consigo todas as horas de sono de que preciso; cansei de acordar de madrugada com o alarme porque, bem, que hora melhor pra invadirem o quadrante ou assaltarem a sede do conglomerado ou sequestrarem a presidente eleita?</p>
<p>Num dia bom eu consigo escovar os dentes sem pressa e ouvir as notícias no chip auricular enquanto corro ao redor do lago luminoso da cúpula comercial, poucas dezenas de níveis abaixo da minha residência no distrito 8. Num bom dia a patrulha aérea de rotina não é interrompida por um bandido ou outro que descobriu um jeito estapafúrdio de arranjar créditos, ou uma revolta que precisa ser suprimida antes que a imprensa tome a dianteira e defina a versão mais rentável da história.</p>
<p>Os dias bons são cada vez mais incomuns.</p>
<p>O engraçado é que não lembro de outros sonhos antes desse. Pergunto aos demais patrulheiros se lembram do que sonharam, e todos me olham atravessado, como se sonhar fosse algo que nem tivessem considerado antes da pergunta. Esse tipo de reação, um aparente choque, tem acontecido com cada vez mais frequência. Chega a ocorrer com Kef, quando pergunto à IA o que ela pode me dizer da vida em Tauná-Set, o planetoide mais afastado do quadrante. Afinal, eu já visitei todos os outros, em missão ou nas férias. Um bug no sistema de comunicação, penso, e pesquiso por conta própria. Não acho nada na busca dos sintetizadores, Tauná-Set nem parece existir. No dia seguinte, a principal notícia do dia vem de lá, alguma explosão ainda não identificada.</p>
<p>Percebo que quanto mais essas estranhezas ocorrem, mais forte é o sonho. O homem, sentado em sua cadeira, gira por intervalos cada vez maiores com as mãos cruzadas no colo. E então finalmente parece ter um estalo e volta a digitar no computador. Nos dias mais agitados, quando o trabalho me consome e não tenho tempo pra considerar qualquer outra coisa, o sonho é breve, enevoado. A impressão é de que são mais que sonhos. Talvez algum mecanismo de proteção a que minha mente venha recorrendo pra impedir alguma deterioração, ou então&#8230;</p>
<p>Meu filho. Algum trauma do meu</p>
<p>filho?</p>
<p>Morto.</p>
<p>Morto?</p>
<p>Que engraçado.</p>
<p>Eu podia jurar que não tinha filho.</p>
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		<title>Um memorial de guerra protegido da chuva</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Sep 2018 19:47:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Elas surgem furando as nuvens. O céu carregado querendo inocular a terra com gotas pretas viscosas e então os ventres inchados são perfurados pelos narizes de metal, em matilha, planando com delicadeza sobre a cidade, jogando seus raios de luz e laser sobre prédios e ruas.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Elas surgem furando as nuvens. O céu carregado querendo inocular a terra com gotas pretas viscosas e então os ventres inchados são perfurados pelos narizes de metal, em matilha, planando com delicadeza sobre a cidade, jogando seus raios de luz e laser sobre prédios e ruas.</p>
<p>Quando as naves aparecem eu me escondo atrás das pernas de minha mãe ou meu pai, correndo pela casa pra longe das janelas. Os dois paralisados, travados onde quer que estejam. Lembro que meu pai, que gosta de pintar nos finais de semana, um dia parou o pincel a meio caminho da tela, as cerdas recém-mergulhadas na tinta pingando no tapete, e eu segurava a perna dele e sacudia e perguntava o que aconteceu, pai, por que você não se mexe, e ele imóvel. Quando as naves passam eles me abraçam e pedem desculpas, e pergunto o motivo, por que ficam desse jeito, e não respondem.</p>
<p>Com o tempo, a frequência das naves diminui, mas ainda vêm. Não há mais lei nenhuma, nenhuma ordem, execução ou seleção de espécime há anos, não há mais nada que justifique o temor. Quando meus pais dizem algo, é que eu penso assim por não ter vivido durante a guerra. Nasci no ano em que ela acabou. Mas de tanto eu perguntar, minha mãe resolve me mostrar uma coisa. Num dia em que meu pai vai consertar nosso projetor no centro, ela me pega pela mão e leva pelas ruelas do bairro, e achamos uma escadaria que nunca vi antes e que leva prum túnel, e vamos descendo até um subterrâneo desolado e úmido que parece um cemitério. Logo percebo que é mesmo um cemitério, com esparsas luzes amareladas no teto, iluminando umas poucas pessoas modorrentas entre as lápides que se erguem do chão batido.</p>
<p>Ela anda pelas fileiras, anda até chegar a um montinho de terra. Ela não titubeia pelo caminho, então presumo que venha ali sempre. Ela se ajoelha, me puxa pelo braço e me ajoelho também. Ela começa a chorar e rezar baixinho. E eu digo mãe, mãe, quem morreu aqui, quem tá enterrado aqui? Mãe? E ela só reza e chora, e me pede pra fazer a mesma coisa. Eu faço. A gente passa um tempo ali, e mesmo depois que saímos ela não quer explicar. Não tem nada escrito na lápide, em nenhuma das lápides.</p>
<p>Meu pai espera a gente no sofá. Diz que não acredita que ela me levou lá. Eu não entendo. Não posso sair, pai? Ele me ignora, continua brigando com minha mãe. Diz que não podem arriscar, não têm dinheiro pra comprar outra. Eu corro pro quarto, brava, querendo esmurrar a parede. À noite minha mãe vem. Deita debaixo do cobertor comigo, me abraça. Eu olho pela janela. As nuvens escuras boiando no pretume, e eu querendo que elas explodam as entranhas e deixem as naves passarem. Quero de alguma forma me vingar, jogar na fuça dos meus pais aquilo de que eles sentem medo, pra sentirem um pouco do que eu tô sentindo, esse desespero de não me explicarem porcaria nenhuma.</p>
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		<title>Um dia terei uma iguana chamada Mário</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Sep 2018 15:53:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.</p>
<p>Canuto precisava voltar pra rua. Que na hora em que deixou o armazém pra trás o relógio começou a correr. Não levava mais de uma hora pra verem aquilo com os próprios olhos, ou, se fosse azarado, pra mandarem um drone na frente. E aí os quatro corpos no chão, a mercadoria desaparecida, o alarme, a mensagem no comunicador da base e a convocação pra guerra, a defesa a postos. Não entraria no apartamento de Mishiko nem com o departamento de polícia inteiro a tiracolo se demorasse, se não levantasse dali e partisse. Mamou de novo.</p>
<p>Acordou com as pancadas na porta. Ziguezagueou entre as embalagens do chinês e abriu pra Pexa, sua parceira de última hora. Ela ralhou e xingou e olhou de perto o corte. Pegou uma cola no armário e segurou fechado o machucado e mandou ver, e já foi puxando pelo braço, precisavam ir. Canuto pegou o tubo de laser e o casaco e a seguiu pela escadaria até o terraço do prédio, onde a hoverviatura da Homicídios estava estacionada.</p>
<p>Pararam na rua, a uma quadra de distância. Esgueirando pelas barracas de comida e lojas de néon pulsante, pararam na esquina, escorados num prédio encardido. Pexa contou as janelas. Na 34, uma luz acesa. Canuto olhava os dois broncos parados perto da porta de acesso ao elevador, um deles comendo um pastel. Confiscou uma Coca-Cola na banca mais próxima e seguiu com passos firmes na direção deles.</p>
<p>O senhor, o senhor esqueceu a Coca. O senhor pagou e esqueceu.</p>
<p>Não comprei Coca.</p>
<p>Disse o bronco na última mordida já recebendo o soco no queixo engordurado e o taser de Pexa voou no outro bronco antes que puxassem seu tubos. As algemas elétricas nas mãos atrás das costas com o gravitacional ligado pra não saírem do lugar até chegar a coleta. E subiram, os andares um a um piscando no painel do elevador. A câmera interna quebrada de tempos. Pexa preparou o tubo de laser na mão. Canuto tateou o seu no bolso, sentiu um papel amassado no fundo; a página arrancada do catálogo Sidney’s com o preço abusivo de uma iguana, seu novo sonho de consumo.</p>
<p>No corredor, seguiram até o apê com a foto de um urso panda pendurada abaixo do olho mágico. Bateram três vezes.</p>
<p>Quem?</p>
<p>Detetive Canuto, Departamento de Polícia de São Francisco.</p>
<p>A porta foi aberta. Mishiko estava sentado do outro lado de uma mesa, um sem fim de molas e chips e peças de plástico e placas metálicas e sacos de estopa e pinças e catodos ao alcance dos dedos, na frente do olho uma lente trianguladora.</p>
<p>Boa noite, policiais. Como posso ajudá-los?</p>
<p>Fecha a matraca, Mishiko. Levanta e coloca as mãos nas costas.</p>
<p>Fora ele, havia outros cinco homens na sala. Nenhum deles segurando um tubo ou um revólver ou uma escopeta ou algo semelhante. Ainda.</p>
<p>Mandado, policiais?, disse Mishiko. De busca ou prisão? Cinco segundos pra me mostrarem, ou tão fora das garantias da lei, como sabem.</p>
<p>O que Canuto e Pexa sabiam era que o tempo do juiz expedir um mandado não colava, e abrir ali a info de que o flagra e a confissão de um homem agora morto, o segundo em comando de Mishiko, lhes permitia levá-lo sob custódia, podia não exatamente alegrar os seus convivas.</p>
<p>O tempo acabou, policiais. Então?</p>
<p>É rotina, Mishiko, disse Pexa. Você abriu a porta, nós entramos. Temos umas perguntas pra fazer, mas na delegacia.</p>
<p>Não, não, não. Você não entenderam. Eu não vou a lugar nenhum.</p>
<p>E os homens não tiveram que se mexer. Porque um drone varou a janela, girou fazendo um recon, soltou um tirambaço de laser na testa de Mishiko e voou pra fora. Os cinco homens respiraram fundo, agora sim puxando os tubos.</p>
<p>Que porra foi essa, disse Canuto.</p>
<p>Calminha aí, rapazes, disse Pexa. Não tivemos nada com isso. Ou a gente entraria aqui se só quisesse derrubar o chefe de vocês?</p>
<p>Dando passinhos curtos, um atrás do outro, Canuto e Pexa retrocederam, saíram do apartamento, entraram no elevador esperando um feixe varando parede ou teto, que não veio. Respiraram.</p>
<p>Que merda, disse Pexa.</p>
<p>Uma merda, sim, disse Canuto. Mas aquele modelo de drone é militar. Das colônias. Não é fabricado na Terra. E eu sei quem contrabandeia ele pra Califórnia.</p>
<p>Vamos pra delegacia, o capitão precisa saber disso tudo.</p>
<p>Lá fora, Canuto confiscou um yakisoba também. Uísque abria o apetite.</p>
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		<title>Rawlena s01e01 &#8211; Lasanha e gato</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jun 2018 21:14:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Rawlena caminhava com passos curtos pelos corredores residenciais do nível 119. Sabia que abaixo do centésimo não havia equalizador e o ar ficava mais escasso. Guardar o fôlego pro momento certo era muitas vezes a chave em extrações tão abaixo do nível terreno. Quase nunca aceitava trabalhos ali, mas a grana andava curta e podia aproveitar a viagem pra checar o irmão, que vinha caindo desde que perdeu o emprego, a família e qualquer noção da realidade.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Rawlena caminhava com passos curtos pelos corredores residenciais do nível 119. Sabia que abaixo do centésimo não havia equalizador e o ar ficava mais escasso. Guardar o fôlego pro momento certo era muitas vezes a chave em extrações tão abaixo do nível terreno. Quase nunca aceitava trabalhos ali, mas a grana andava curta e podia aproveitar a viagem pra checar o irmão, que vinha caindo desde que perdeu o emprego, a família e qualquer noção da realidade.</p>
<p>Administrava os atalhos da lente na palma da mão esquerda. Apertou a pele e o mapa se materializou. Parou diante de uma das centenas de portas no corredor. Apertou outro ponto da mão e o infravermelho revelou um quadrado de cor intensa perto do chão, atrás de uma segunda parede, e as formas e cores de um corpo humano sentado perto da entrada. Abriu o cano do estojo e o encostou no identificador da porta. Em segundos os nanorrobôs derrubaram a segurança e a porta deslizou pro lado.</p>
<p>João comia lasanha no sofá, em nada afetado pela presença dela. Rawlena entrou, pistola apontada.</p>
<p>— João Matias Souza, sabe por que estou aqui?</p>
<p>— De burro nunca me chamaram. Posso acabar de comer antes?</p>
<p>Ela foi até a outra ponta da sala e olhou pela abertura da cozinha. O ponto de calor vinha do forno, agora desligado. O resto do apê estava vazio.</p>
<p>— É bolonhesa. Quer um pedaço? Tem metade aí em cima da pia.</p>
<p>— Vamos logo com isso, João. Tenho mais o que fazer.</p>
<p>— Só um minutinho.</p>
<p>Ela sabia o que viria na sequência. Ele parecia não saber: seu transporte até o nível 34, onde Tia Anatólia começaria conversando e acabaria com pedaços dele pelo chão do apartamento. A hierarquia só funcionava porque quem estava abaixo da Tia temia o que poderia acontecer caso não seguisse as ordens. Rawlena não sabia qual a transgressão do homem. Era importante que não soubesse, facilitava o trabalho. Mas ela podia supor. E dada as bolsas amarelas sob os olhos dele, a suposição era de que a noropía que deveria revender tinha acabado na sua própria corrente sanguínea.</p>
<p>João assistia um canal de documentários antigos. Na tela, um grupo de mergulhadores vestido com roupas emborrachadas e tanques de oxigênio investigava manchas num recife de corais. Rawlena também adorava docs antigos. Havia saído uma única vez da cidade, e não viu o mar.</p>
<p>— Tem alguma coisa que eu possa fazer pra você não me levar? Pra dizer que não tinha ninguém em casa?</p>
<p>— Não. Meu serviço não é esse.</p>
<p>— Eu sei que não é. Mas não custa perguntar.</p>
<p>Ele raspou o molho com o garfo, depositando-o em cima do último pedaço. Enfiou na boca.</p>
<p>— Pronto agora? Se colaborar vai ser muito mais fácil.</p>
<p>— Pronto. Só vou deixar o prato na pia.</p>
<p>— Deixa aí no sofá. Vamos, não força a barra.</p>
<p>— Se eu deixar o prato aqui, meu gato pode lamber. Ele tem intolerância a qualquer coisa que não seja ração.</p>
<p>— Gato? Você tem um gato?</p>
<p>— Foi difícil, confesso. Gael, querido, venha cá, venha cá.</p>
<p>Ela ouviu o miado do gato, e então viu ele saindo pela outra porta, a do quarto, e se aproximando. Era um persa branco, de narizinho redondo e olhos escondidos na nuvem de pelos. Ele veio devagar, se enroscou nos pés do dono. Mas ela não notou a mancha de calor do animal no infravermelho. Não era de verdade.</p>
<p>— Você pode cuidar dele? Se ficar aqui sozinho, vai morrer. Ou sabe-se lá o que pode acontecer quando vierem limpar.</p>
<p>— O bicho teria que estar vivo pra morrer, você sabe disso.</p>
<p>— Não me impede de gostar e querer o bem dele.</p>
<p>— Eu volto aqui pra buscar, ou mando alguém. Tá bom? Agora você vai me ouvir? Vamos andando?</p>
<p>João abraçou o gato e o largou no chão. Saiu pela porta e foi andando pelo corredor.</p>
<p>Em seu trabalho, Rawlena nunca havia encontrado alguém tão resignado. Quando ela buscava um alvo, a pessoa sabia o que sua presença significava. Por isso atirava, corria, lutava, se esgoelava. Reagia de alguma forma. Se fosse um serviço tranquilo, qualquer um poderia fazer, e não apenas pessoas com suas habilidades.</p>
<p>No fim do corredor, diante da plataforma, João parou e ficou olhando fixo pra linha luminosa na parede que mostrava sua posição. Levaria alguns minutos ainda. Rawlena pensava em desacordá-lo e levá-lo arrastado, como era o costume, mas não parecia necessário. Por precaução, juntou suas mãos nas costas e as prendeu com um lacre. O homem não reagia. Ela falou uma coisa ou outra, ele nem virou o rosto. Então segurou suas bochechas e o obrigou a olhar pra ela. Quando ele abriu a boca, um miado.</p>
<p>Ela voltou correndo, xingando, ignorando o ar rarefeito. Quando chegou no apartamento, procurou pelo gato. Seus scanners logo indicaram que não estava ali. Incapaz de puxar pros pulmões uma quantidade decente de ar, se escorou no braço do sofá. Fechou os olhos, controlou as inspirações. Não queria desmaiar, não agora.</p>
<p>Por que Tia Anatólia não a avisou que o homem tinha dinheiro suficiente pra comprar um pacote de upload de consciência? Por que alguém com acesso a isso trabalharia pra Tia Anatólia, pra começo de conversa? E agora um fugitivo nas mãos. Ou melhor, longe delas.</p>
<p>Olhou o prato de lasanha largado no sofá. Limpinho. Lambido até o último resquício.</p>
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		<title>Da semente na nova semeadura</title>
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		<pubDate>Thu, 31 May 2018 17:01:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A vontade era de me jogar pela janela do ônibus. Talvez a janela não abrisse o suficiente, me prendendo pelo osso do quadril ou pela cabeça. Talvez nem esperassem por isso, enquanto enfiava ali a primeira perna ou braço viesse o tiro pra ensinar a lição a quem tenta fugir. Talvez eu pulasse, e no asfalto quebrasse os ossos, tudo, e ficasse numa poça de sangue sorvendo a liberdade antes que abutres ou lobos viessem instaurar minha nova pena.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A vontade era de me jogar pela janela do ônibus. Talvez a janela não abrisse o suficiente, me prendendo pelo osso do quadril ou pela cabeça. Talvez nem esperassem por isso, enquanto enfiava ali a primeira perna ou braço viesse o tiro pra ensinar a lição a quem tenta fugir. Talvez eu pulasse, e no asfalto quebrasse os ossos, tudo, e ficasse numa poça de sangue sorvendo a liberdade antes que abutres ou lobos viessem instaurar minha nova pena.</p>
<p>Mas eu não podia, não enquanto Rômulo pudesse estar vivo, então a janela era mesmo só o retângulo de travessia, por onde entrava o vento da floresta, alcalino e gelado e límpido em óbvio escárnio do cheiro putrefato do cárcere, e por onde meu olhar saía, rastreando o andar das coisas, que era magnífico como eu não lembrava, o mundo das coisas em movimento, as folhas balançando, os pássaros entre as árvores, as nuvens trombando no azul, o vidro sujo dançando no lombo do veículo.</p>
<p>Benedita segurou minha mão. Minha amiga de trabalho, com quem fui presa dois anos antes, separadas nas celas, ali reunidas. Ela chorava. Muitas choravam. No banco de dois lugares estávamos todas em três, que a magreza institucional promove essas vantagens, o fazer caber. Há não muito tempo, o fazer caber dos campos de concentração e das câmaras de gás produziram resultados impressionantes de escala, sem dúvida comemorados com charutos e uísque em mesas espaçosas, onde braços musculosos e gordos se moviam sem barreira, em movimentos largos, angulosos.</p>
<p>Não cruzamos com nenhum outro carro nas horas que rodamos pela estrada. O que me fez pensar na falta de combustível. Nas pessoas mortas, ou escondidas, ou presas, como a gente. Na fuga daqui, desse país, desse continente. Anoiteceu. Ficamos olhando as estrelas, tão vívidas, tão claras sem a iluminação artificial das cidades, sem a poluição no céu. Será que Rômulo via essas mesmas estrelas agora, estivesse ele onde estivesse? Vimos crescerem os muros de uma instalação grande e o ônibus parou.</p>
<p>Descemos, enfileiradas, algemas prendendo mãos e pés, passos curtos. Andamos por corredores, por portas, por escadarias, e saímos num espaço gramado e aberto. Era um estádio de futebol. Ali no meio, outras mulheres, chegando por outras portas, alinhadas em blocos, em setores. Ficamos em pé no início, depois nos deixaram sentar. Grupos de homens atrás de mesas chamavam uma a uma, escreviam em computadores, perguntavam, retiravam sangue dos braços, e por fim anotavam alguns números em nossas costas.</p>
<p>A comida aqui melhorou muito. As novas celas lembram quartos, tanto quanto possível, com camas, roupa de cama, cômodas, livros, baralhos, mesas e cadeiras. Benedita ficou no meu quarto. Benedita está grávida. Todas estamos. Nunca vimos a outra ala, a dos homens, a dos doadores. Nos impedem o contato físico, com receio do que relacionamentos podem causar, as emoções intensas que lembramos de nossa antiga vida. A inseminação impede tantos problemas. Não que não nos relacionemos aqui, entre nós. Mas trocam as celas se a intimidade se estabelece. Aprendemos a amar à distância. Prenhas, como os animais que criávamos nos celeiros, nas fazendas, reprodutores e nada mais. Os filhos e filhas nos são tomados. Pra onde levam, não fazemos ideia. Depois de Rômulo, que a essa altura é um desses homens que nos ameaçam, ou então um dos homens na ala masculina de algum desses lugares, tive outros cinco. Os dias escorrem.</p>
<p>Ainda lembro da viagem de ônibus entre as prisões, sempre que vou dormir. Não costumo pensar com arrependimento na vida de antes, quando eu tinha minha casa, meu emprego, minha família, porque não me arrependo de nada daquilo. É o que me impede de imitar tantas que já conseguiram se livrar do fardo, enfiando a cabeça numa quina, afiando um pedaço de madeira até conseguir cortar os pulsos ou a garganta, asfixiando no travesseiro. Me arrependo de não ter tentado, naquele dia, me atirar pela janela. Quem sabe eu tivesse conseguido escapar e cair no asfalto, e o ônibus seguisse em frente, e eu andasse, me arrastasse que fosse, entre as árvores, entre as pedras, até achar uma cabana, a cabana de alguém que encontrou e salvou Rômulo, e ali me acolhesse, e eu pudesse viver os dias só imaginando o que teria acontecido com as mulheres que continuaram naquele ônibus, se estariam mortas, ou se estariam, de alguma forma, numa situação pior que a morte.</p>
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		<title>Do lar a que torna o filho</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Mar 2018 17:41:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Não achei que eu fosse voltar aqui tão cedo, Glória. É algo que você me impediria de fazer se pudesse, não é?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Não achei que eu fosse voltar aqui tão cedo, Glória. É algo que você me impediria de fazer se pudesse, não é?</p>
<p>Engraçado como não mudaram a decoração, mesmo depois de todos esses anos. Aquele quadro na parede, tão deslocado, e a equipe que veio depois não parece ter se incomodado com ele. Sempre me incomodou, lembra? Mas era a única pintura do filho morto do general, aquele navio sozinho no mar, e se dependesse dele a base inteira mudava de lugar e o quadro ficava ali. Vejo que continuaram usando as instalações principais. Pra fazer outros testes. Pra produzir resultados que são rascunhos do que construíram naquela época. Eu assisti os vídeos, Glória. Até quando você acha que pretendem continuar?</p>
<p>O que eu quero mesmo é ver nossa casa, atrás das comportas fechadas que abri como se fossem um vidro de palmito. Você adorava ouvir isso, lembra, Glória? Metáforas. Você as achava intrigantes. A poeira deu um jeito de entrar, de invadir um ambiente praticamente selado a vácuo. É que nunca fecharam os dutos de ventilação, e embora o ar-condicionado daqui não seja mais ligado, as partículas de poeira deram seu jeito teimoso de viajar e fazer curvas e pular pela grade pra se assentar nas mesas e nas cadeiras em que sentavam nossos cuidadores, analisando tudo por gráficos e números nas telas que traduziam o que os sensores plugados em nossos crânios decodificavam, ali atrás daqueles vidros, dos vidros das três caixas, como eles chamavam, e que eu costumo chamar de celas, onde a poeira não entra, talvez porque seja óbvio que não sejam lugares de invadir, mas de se escapar.</p>
<p>Eu confesso, Glória, que fiquei surpreso quando vi que na cela do meio, a de Carlinhos, a cama ainda estava forrada com o lençol de foguetes. Isso porque numa das milhares de simulações em que os cuidadores trataram de induzir aventuras direto nos nossos cérebros dopados e interligados com a sua ajuda, ao fim de um dos embates com um inimigo que nem lembro mais quem era, foram tantos, Carlinhos resolveu descer até uma casa no descampado que lhe era estranhamente familiar. Eu e Fred o seguimos. Um homem barrigudo mexia algo num panelão na cozinha, e de um dos quartos vinha uma respiração rouca, arquejante, e ali vimos Carlinhos sentado na ponta do colchão, segurando a mão enrugada de uma mulher muito velha, de olhos fechados. E ela estava coberta até o peito, que mal se mexia, com o lençol de foguetes. Carlinhos olhou pra gente e disse, e acho que essa foi a primeira vez em que disse isso, tem algo errado aqui. Lembra, Glória?</p>
<p>É claro que lembra. Foi quando você e os cuidadores começaram a entender que o pouco de interação que a gente tinha com o mundo real, como andar pela base e olhar praquele quadro horrível e pisar na grama do estacionamento e comer algo sólido no refeitório, coisas que fazíamos hipnotizados apenas pra não perder as funções motoras do corpo, pra não virar uns sacos de gordura deitados na cama por anos a fio, tudo isso inundava as simulações, e sempre que o cheiro da realidade se insinuava, vocês temiam perder o controle. E triplicavam a dosagem pra nos manter dóceis. Logo devem ter feito as contas e perceberam que não conseguiriam nos conter por muito mais tempo.</p>
<p>Vejo agora o risco que correram ao nos libertar, nos deixar soltos ainda que por poucos minutos no mundo real, onde erros não podem ser apagados. Mas seus cálculos estavam certos, Glória, como sempre. Imbuídos de uma missão muito clara, a percepção do real não teve tempo de se instalar de fato em nossas cabeças, não antes que a gente alcançasse aquela carcaça abandonada no meio do espaço, que um de nós percebesse que aquilo não combinava com os vilões mesquinhos e planos bizarros a que estávamos habituados, não antes que a compreensão de que aquilo era uma emboscada se fizesse clara, não antes que a bomba explodisse e nos erradicasse, a nós três.</p>
<p>Mas não deu certo, vê, Glória? Eu ainda estou aqui. Não sei o que houve com Carlinhos e Fred, se também sobreviveram, mas vou descobrir. E isso aqui é casa. Origem. Não é o que dizem? Que quando tudo dá errado a gente volta pra casa, pro seio de quem nos consola? Eu sei que você ainda está aqui, Glória. Ainda que os anos tenham passado e você não tenha sido acordada, ligada, utilizada. Sei que está armazenada em inúmeros servidores ao redor do mundo, em backups na nuvem, em dispositivos salvaguardados em esconderijos. Mas toda mãe precisa morrer um dia, é a lei da vida. Eles não podem fazer isso com mais ninguém. Não podem voltar a usar essas celas, ou construir novas.</p>
<p>Às vezes me pergunto se ainda estou numa simulação, numa simulação de nível superior, em que a realidade que percebo agora seja apenas o invólucro desejado pra me manter em coma induzido, já que não saberiam como me matar. Seria seu grande trunfo. Há como saber, Glória? Claro que não. Você não seria tão tola, não é?</p>
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		<title>Do que diabos aconteceu com eles &#124; Da temida variante mousse no cálculo científico</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Mar 2018 20:44:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>“Córrali, olha, no canto da tela. Dessa ali. Avisa a Uxa, ela vai querer ver isso.”</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>“Córrali, olha, no canto da tela. Dessa ali. Avisa a Uxa, ela vai querer ver isso.”</p>
<p>“O que são, Mli?”</p>
<p>“Humanos. Pelo jeito que andam. E conversam. E respiram. Veja essa parte superior do corpo, a caixa onde guardam os órgãos. Vê como não fica parada?”</p>
<p>Na cabine do posto de guarda, Córrali e Mli aguardam a chegada da superior, analisando o grupo perdido no meio da flora daninha entre os portões três e quatro. Tentam adivinhar como os cinco espécimes apareceram ali, já que as aberturas de dobra são calculadas nas pontas do complexo, não no meio. Não só as coordenadas desafiam uma resposta, como também a ausência de naves ou portais. Mas as soldadas carecem do nível de acesso pra entender, quanto mais fazer algo a respeito, portanto aguardam.</p>
<p>#</p>
<p>“Parecem abelhas, tá vendo? Entre as flores, polinizando tudo.”</p>
<p>“Danem-se esses bichos. Olha as plantas. Já viu uma flor dessa antes? Em qualquer canto da Terra?”</p>
<p>“É verdade, Dafne. Também nunca vi essa constituição de tronco, parece madeira, mas afunda se eu aperto.”</p>
<p>“Os três aí, voltem pra cá, não quero ninguém dando sopa. Assim que Moreno encontrar o ponto no localizador a gente continua.”</p>
<p>“Nada aqui, chefia. O medidor não reconhece os elementos da atmosfera. E não parece haver um norte magnético fixo.”</p>
<p>#</p>
<p>Uxa, a responsável pelo posto de guarda do portão quatro, não gostou muito de ser interrompida na hora do descanso. A legião de miniuros que havia contratado para um período de intenso prazer gelatinoso cobrava por parciciclo. Por isso foi com uma fungada que ela entrou na cabine, o capacete pendurado numa espora.</p>
<p>“O que as duas encontraram que não podia esperar a maldita troca de turno?”</p>
<p>“Na tela, capitã, olha.”</p>
<p>Ela vê o grupo de bípedes parado no meio do mato, segurando aparelhos pontiagudos que reconhece vagamente dos vídeos de treinamento na matriz como armas de disparo. Se são mesmo armas de disparo, os bípedes são humanos. E se são humanos segurando armas de disparo, não têm a menor ideia de onde estão.</p>
<p>#</p>
<p>Em Ximba, a base militar de testes científicos fundado em 2049 nos arredores de Cuiabá, Rodrigo e Thiago checam os medidores no console.</p>
<p>“Ué. Pra onde eles foram?”</p>
<p>“O que você apertou aí?”</p>
<p>“Nada. Não apertei nada. Será que deu certo?”</p>
<p>“Vamos checar. Alô, Central. Pode verificar se o grupo chegou em segurança no quadrante quinze?”</p>
<p>Esperam a resposta. Eles não chegaram. Em quadrante algum. Os cientistas no outro lado da sala se entreolham.</p>
<p>A barriga de Rodrigo, bastante afeita aos botões do painel sem que o dono suspeite disso, ronca.</p>
<p>#</p>
<p>“Vamos seguir. Não podemos ficar parados. Aqui somos alvo fácil.”</p>
<p>“Comandante, recomendo manter a posição. Não conhecemos nem reconhecemos o terreno. Aqui parece seguro, pelo menos até agora.”</p>
<p>“Dafne, precisamos de alguma cobertura. Que tal aquilo ali? O que é aquilo? Uma pedra? Enfim. É grande. Pelo menos um flanco coberto.”</p>
<p>“A senhora é quem manda.”</p>
<p>“Vá na frente, Dafne. Moreno, continue tentando o localizador. Os demais, dedo no gatilho.”</p>
<p>#</p>
<p>Grolm, superiora de Hjero, superiora de Dwei, superiora de Uxa, olha todas aquelas criaturas sob seu comando, amontoadas na cabine do posto de guarda. Numa das telas, o grupo de humanos sentado na área de mata daninha entre os portões três e quatro. E nenhuma das pamonhas querendo se responsabilizar.</p>
<p>“Como eles chegaram aqui, Uxa?”</p>
<p>“Não sabemos. Córrali e Mli os identificaram há cerca de meio ciclo.”</p>
<p>“E nesse meio ciclo eles não fizeram nada?”</p>
<p>“Nada. Só andaram um pouco, interagiram com a vegetação.”</p>
<p>“Alguma reação?”</p>
<p>“Nenhuma.”</p>
<p>“Quanto tempo pra descarga?”</p>
<p>“Dois parciciclos. Tiramos eles de lá?”</p>
<p>“Não dá tempo. Se chegaram aqui, devem ter alguma tecnologia de proteção.”</p>
<p>Patas cruzadas, aguardam. Em dois parciciclos, todos os organismos vivos entre os portões do complexo são reduzidos a montículos rasos de matéria após a descarga de radiovênia. No chão onde estava o grupo, as armas de disparo e alguns ossos ainda inteiros. Grolm aponta um crânio.</p>
<p>“Eu quero aquela bolinha branca. Pra pendurar na parede da minha sala. Vocês duas, vão lá buscar. As armas também. Separem pra análise na matriz.”</p>
<p>Córrali e Mli abrem o portão e saem pra mata, ou pro que era mata e em pouco tempo voltará a ser. Sabem que sem a descarga cíclica de radiovênia essa vegetação infecciosa já teria tomado tudo.</p>
<p>Grolm chama Hjero num canto e diz que espera um relatório detalhado no fim do turno. Comenta que se sente nauseada. Sua subalterna diz o mesmo. Concluem que é o tempero novo da cozinheira lazarenta do refeitório.</p>
<p>#</p>
<p>No refeitório de Ximba, a major Bastos e o capitão Andrade, responsável direto pela pesquisa de teleporte, cutucam a comida, secando o suor da testa, falando baixo, bem baixo.</p>
<p>“Mas afinal, onde foram parar?”</p>
<p>“Esse é o problema, major. O localizador deveria funcionar, mesmo que tivessem ido parar na lua. O alcance é altíssimo. Ainda estamos estudando as variáveis pra entender onde ocorreu a falha.”</p>
<p>“Os testes vêm dando certo há meses, capitão. Não posso dizer ao comando que cinco militares simplesmente sumiram.”</p>
<p>“Eles não sumiram. Eles foram parar em algum lugar. Só não sabemos onde.”</p>
<p>“E isso não dá na mesma, caralho?”</p>
<p>Na outra ponta do refeitório, Rodrigo e Thiago, auxiliares dos cientistas que nesse momento se estapeiam nos laboratórios, comem de sobremesa um mousse de chocolate. Não podem reclamar da sobremesa nova do cozinheiro, grande sensação da base nos últimos dias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p>Este drop foi republicado na antologia <a title="Realidades Voláteis &amp; Vertigens Radicais no jornal Cândido" href="http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1762" target="_blank">Realidades Voláteis e Vertigens Radicais</a> (@link Editora, 2019, organização de Luiz Bras), um ajuntamento de narrativas experimentais de ficção científica, com o novo título &#8220;Da temida variante mousse no cálculo científico&#8221;. A tiragem foi limitadíssima e é difícil encontrar um exemplar hoje em dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>berátna :cinko :criançada é zika</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Sep 2017 15:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>.parecem dois crianços, pelo tamanho, e não usam roupa refrigerada como todo mundo .o + alto tem quatro braços, num deles um pistoleto, noutros dois facónes longomonstros .o menor tem dois braços mas eles não terminam em mãos e sim em bloquetos revestidos de onde saem duas lâminas .fodeu gostoso</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>.parecem dois crianços, pelo tamanho, e não usam roupa refrigerada como todo mundo .o + alto tem quatro braços, num deles um pistoleto, noutros dois facónes longomonstros .o menor tem dois braços mas eles não terminam em mãos e sim em bloquetos revestidos de onde saem duas lâminas .fodeu gostoso</p>
<p>¹.não tenho pikas contra ustedes, na vera_digo_.façam o que quiserem, tão livres, só quero abrir</p>
<p>.descolo o cabeço do tubo que me mocoza e o maior tá co pistoleto mirado em mim mas não atira .volto a mocozar mas enfim olho pro tubo e há um anfíbio, ou gente-anfíbio, os olhinhos grudados no vidro bem onde tô .pulo pra trás .os dois crianços continuam me encarando, ou parecem me encarar, não dá pra ver o cabeço deles dentro dos capacetos fumês .não fazem mención de atacar, então nem volto a levantar o pistoleto .o menor passa uma lâmina no pescoço da felony e o cabeço cai no colo .trampo feito sem erro agora</p>
<p>.o menor vai até o fundo do saleto, uma das lâminas retrocede e desaparece dentro do bloqueto e alguns tocos que lembram dedos surgem das extremidades .ele começa a manipular a tela .logo vejo um sequêncio de vids das câmeras internas .felony rola sangrando pra dentro da porta, se levanta e vai correndo até os fundos .eu entro logo atrás, co pistoleto em punho .faço o reconhecimento do primeiro saleto enquanto felony libera a tranca da porta onde eles tão mocozados .me aproximo de felony, eles aparecem, me mocozo atrás do tubo</p>
<p>¹?tão vendo .eu só queria pranchar ela .nem sabia que ustedes existiam .que isso aqui existia</p>
<p>.o menor continua manipulando a tela .as imagens das câmeras pulam e fotos dos cientistas do lab ganham destaque .a de tóide é alargada e ocupa a tela toda .o garoto se vira pra mim, ou vira o capaceto na minha direção, e aponta a foto</p>
<p>¹.tóide forman_digo</p>
<p>.o maior abaixa o pistoleto e ca única mão livre aponta a tela também</p>
<p>¹.é o tóide forman_volto a dizer_.ele me contratou pra pranchar a felony, que tá aí no chão .foi isso que eu vim fazer, só isso .recebi pra fazer o serviço e pronto</p>
<p>.a guarda deles suavizada, posso meter um balaço em cada. mas algo me diz que não vai ser suficiente, então fico na santapaz</p>
<p>¹?quem são ustedes ?o que tavam fazendo aqui</p>
<p>.o menor manipula a tela .surge a foto dum prédio .não conheço direitudo o complexo b, mas reconheço o endereço porque foi dos poucos lugares que frequentei</p>
<p>¹.é o prédio do tóide</p>
<p>.o maior enfia o pistoleto atrás da cintura do calço, e coloca os facónes numa bancada .o menor já tá ca outra lâmina recolhida .não querem zika .o maior passa a manipular a tela também .roda um vid de fazhora, ca data de três anos atrás na ponta, e dentro de um tubo tem um crianço com quatro braços, encolhido, electrodos e fios plugados no corpinho .ele tá sem o capaceto e parece um crianço normal a não ser pelas veias estouradas e o lábio leporino .corta prum vid dum guri menorzín numa mesa de operações, as mãozinhas amputadas e os bloquetos sendo analisados por tóide + felony + vários cientistas .o prédio volta a ocupar a tela</p>
<p>¹.sei onde é .saquei .só preciso abrir no final ?combinado</p>
<p>.o maior levanta os quatro dedóns fazendo sinal de joia e anda na direção do primeiro saleto .o menor pega dois casacos com gorro do armário do banheiro .lá fora se vestem, mocozando os corpinhos cabeçudos .a porta fica escancarada .o maior vira o contêiner de lixo cheio no chão e o montagal se esparrama pela rua .o menor derrama algo de dentro do bloqueto e logo tá tudo pegando fogo .os tronxos logo logo farejam</p>
<p>.seguimos pelas ruas até um ponto de carreto auto-dirigível .abro a porta traseira e eles se enfiam .sento na frente .falo o endereço de tóide e o carreto acelera .eles olham pra fora pelos janelos, cada um prum lado, inexpressivos atrás dos capacetos escuros, acho que pirando pakas no festival luminoso dos holos .a pele dos braços e pescoços é cinzenta e há esporos, espiños em alguns pontos</p>
<p>.o carreto para diante do prédio</p>
<p>¹.é esse aí_digo_.horizonte 34, apartamento 14</p>
<p>.os dois saem, duas silhuetas cruzando a calçada e entrando no prédio .saio do carro também, olhando as barracas e identificando o yaki de aanssaq onde fiz o primeiro reconhecimento meses atrás, quando o alvo ainda era tóide .ironiamonstra .peço um pra viagem e saio garfando, na direción da fronteira .tronxo de alfândega fecha o olho quando a gente desce de complexo, ainda + com grano, zika é subir .grano é só metade do combinado pro pranchamento, mas melhor que nada .na esquina ouço o barulho e olho pro prédio e vejo brilhando no ar os estilhaços do janelo junto com dois pedaços de gente que eram tóide forman despencaindo na noite</p>
<p>.vida de moco tem dessas, na vera .cê nunca sabe co que pode topar</p>
<hr />
<p>Esta é a quinta e última aventura de berátna. Confira a lista completa:<br />
<a title="berátna :uno :lar doce lar" href="http://flashfiction.com.br/beratna-uno-lar-doce-lar/" target="_blank">- berátna :uno :lar doce lar</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-dos-moco-e-profissa/" title="berátna :dos :moco é profissa" target="_blank">- berátna :dos :moco é profissa</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-tri-tempo-na-xilindra/" title="berátna :tri :tempo na xilindra" target="_blank">- berátna :tri :tempo na xilindra</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/" title="berátna :kuátro :tudo por grano" target="_blank">- berátna :kuátro :tudo por grano</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-cinko-criancada-e-zika/" title="berátna :cinko :criançada é zika" target="_blank">- berátna :cinko :criançada é zika</a></p>
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		<item>
		<title>berátna :kuátro :tudo por grano</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 21 Sep 2017 14:37:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>.lugar de moco é no escuro, socadinho na parede do beco .o desconforto moco mastiga pensando no grano no fim do trampo .moco mastiga até mesmo uns meses na xilindra, coisa que o felo da puta do tóide achou que podia fazer desde que pagasse .e maldición, podia mesmo, que co bolso fofo fico na fina .pediu desculpa pela mão e pra compensar mandou instalarem a extensión + de ponta na enferma, e eu já tava tão acostumado co ela que na vera quase agradeci e pedi pra explodir a outra e pagar + uma .fiquei impressionado co trabajo de me rancarem da xilindra depois de pranchar o tororó, que + fácil era me pranchar e pronto .mas tóide se mostrou um cabro de palavra .ou melhor, um cabro que tinha + um trampo .a real é essa, não dói não, vida de moco é isso</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>.lugar de moco é no escuro, socadinho na parede do beco .o desconforto moco mastiga pensando no grano no fim do trampo .moco mastiga até mesmo uns meses na xilindra, coisa que o felo da puta do tóide achou que podia fazer desde que pagasse .e maldición, podia mesmo, que co bolso fofo fico na fina .pediu desculpa pela mão e pra compensar mandou instalarem a extensión + de ponta na enferma, e eu já tava tão acostumado co ela que na vera quase agradeci e pedi pra explodir a outra e pagar + uma .fiquei impressionado co trabajo de me rancarem da xilindra depois de pranchar o tororó, que + fácil era me pranchar e pronto .mas tóide se mostrou um cabro de palavra .ou melhor, um cabro que tinha + um trampo .a real é essa, não dói não, vida de moco é isso</p>
<p>.outro alvo no complexo b .esse não é grã-fino igual tóide, não tem grano pra habitar horizonte co brisa .mora no fervo, que complexo b tem fervo também se souber procurar, mas trabalha no mesmo lab do tóide .subordinado dele, pelo jeito, embora tóide não tenha falado zika de hierarquia, do que fazem ou deixam de fazer .na vera moco não tem que saber pikas, moco tem que pranchar alvo, receber e abrir .fechando o trampo é de volta pro complexo c, que o b é maravilho mas não é lar, não dá pra confiar em ninguém .e é zika pegar trampo direto co cliente, sem mediação do súbaru, que filtra e protege como pode seus mocos .não pago a comissión mas fico no escuro, e moco trampa no escuro mas não vive no escuro que aí já é pedir pra acordar pranchado .zóio na nuca define</p>
<p>.antes de fechar contrato, confirmei co súbaru os pingos nos is, que do jeito que as coisas tinham ido tive zero tempo de checar qualquer coisa, foi acordar na xilindra de folga forçada por uns meses .achei um comú raspado e súbaru mandou a gueixinha enfiada entre as pernas abrir e falou comigo emocionado, na vera, o cúmpa achou que eu tinha partido mesmo dessa, não me acharam no complexo b porque meu doc caiu quando ficharam no sistema e fui registrado como zé, dos muitos zés na xilindra que chegam sabe-se lá de onde e foda-se porque dali não vão sair mesmo .mas eu saí, e súbaru quase não acreditava .ele disse que era mesmo o tóide o contratante e perguntou se tava feito .eu disse que explicava direito quando voltasse pra casa, tava zerinho, tinha que resolver umas coisas antes .fiquei imaginando como ele ia reagir ao ver um dos mocos ca mão biônica, isso é raromonstro no c, nossa vida é mambembe de+, oxi</p>
<p>.pedi três dias, pra verificar a rotina do alvo e achar outro pistoleto decente .não precisava de tudo isso mas tinha que passar um tempo socado no tanque de água salina curtindo hidromassagem no toba .ninguém é de ferro .tóide adiantou metade do grano, e não cobrei baratín, então comi como rei e tiro um breque no ar-condicionado perfumado do espelunco, do qual já sinto saudademonstra</p>
<p>.o alvo é felony moraso, cientista e sujeita metódica, o que sempre ajuda os mocos .bate ponto no lab na matina, almoça no comedouro da esquina, trampa até oito e meia da noite, última a sair, tranca tudo, dá pulo no mercado no caminho do fervo, em casa assiste uns holos e tira um breque .três dias e tudo na mesma hora, alvo é reloginho mesmo .na noite do terceiro dia me enfio no beco doutro lado da rua .hora que tóide e seus cúmpas de trampo saem nem olha pra cá, ciente</p>
<p>.oito e meia felony sai .daqui anda até o busutubo e não tem canto + sussa no caminho, então é aqui mesmo .rua vazia = moco sorrindo, como hablan .ela vira de costas pra porta reforçada, começa a digitar o sequêncio da tranca .saio mansinho, miro o cabeço, aperto o gatilho .pistoleto felo da puta é modificado e dá tranco e o tiro vai centímetros pra baixo e pega na base do cabeço, soprando sangue, carne e dente na porta .felony se joga pra frente e rola pra dentro do corredor .corro pra não deixar a porta ensanguentada fechar sozinha .enfio o pé bem no estreitinho de luz que vem lá de dentro, empurro e vasculho co pistoleto .pikas da felony .fela da puta</p>
<p>.entro, ouvindo a estáctica elétrica da iluminación no teto .adiante tem um saleto com várias cadeiras vazias e telas ligadas, números e gráficos e em algumas também uns tubos enormitudo com gente dentro, gente colorida, gente com braço ou perna a +, gente com bola saindo da barriga, gente cos ossos tortos, gente que não parece gente .dá nojo .pikas de felony aqui, mas vejo felony numa das telas, ela diante doutra porta digitando algo noutra tranca .tem uma passagem no fim desse saleto em que tô e só pode ser ali que ela se enfiou, o saleto dos tubos .me vejo numa das telas também, e fodeu se não for só circuito interno, tóide vai ficar lóki</p>
<p>.entro pela passagem e ando no saleto entre os tubos, evitando encarar eles, e vejo felony sentada no chão contra a parede, um buraco enorme no rosto comendo parte do nariz e toda a boca por onde pingoteja sangue no colo, a roupa encharcada .karalhos, fiz estrago .me aproximo mas sei que já era .a porta que ela liberou abre e dois bichos aparecem, armados, os rostos mocozados em capacetos escuros .pulo pra trás duns tubos, pensando merda, onde me enfiei</p>
<hr />
<p>Esta é a quarta aventura de berátna. Confira as outras:<br />
<a title="berátna :uno :lar doce lar" href="http://flashfiction.com.br/beratna-uno-lar-doce-lar/" target="_blank">- berátna :uno :lar doce lar</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-dos-moco-e-profissa/" title="berátna :dos :moco é profissa" target="_blank">- berátna :dos :moco é profissa</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-tri-tempo-na-xilindra/" title="berátna :tri :tempo na xilindra" target="_blank">- berátna :tri :tempo na xilindra</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/" title="berátna :kuátro :tudo por grano" target="_blank">- berátna :kuátro :tudo por grano</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-cinko-criancada-e-zika/" title="berátna :cinko :criançada é zika" target="_blank">- berátna :cinko :criançada é zika</a></p>
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		<title>berátna :tri :tempo na xilindra</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Sep 2017 15:57:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>.xilindra de complexo b é maravilho .taí o grude mas pelo menos vem, não tem a preocupa de achar que é fome que vai te acabar e não os presos, sempre tem um pra graduar de moco no meio .aí dias que chumbam semanas que chumbam meses e os migué de súbaru quié bom nadica pra me tirar daqui .apodrecendo gostoso .acordei com a mão direita estranhuda e não sentia os dedos mas mexiam e comecei a futricar até tirar a derme sintética e ver que eu tava com uma mão biônica novinha em folha e não fazia a mínima ideia de como tinha conseguido aquilo ou onde tinha ido parar minha mão de carne .moco vai ficando louco mesmo e eu descobri que tava ali por fraude de identidade e karalhos, me fudi e nem sei como</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>.xilindra de complexo b é maravilho .taí o grude mas pelo menos vem, não tem a preocupa de achar que é fome que vai te acabar e não os presos, sempre tem um pra graduar de moco no meio .aí dias que chumbam semanas que chumbam meses e os migué de súbaru quié bom nadica pra me tirar daqui .apodrecendo gostoso .acordei com a mão direita estranhuda e não sentia os dedos mas mexiam e comecei a futricar até tirar a derme sintética e ver que eu tava com uma mão biônica novinha em folha e não fazia a mínima ideia de como tinha conseguido aquilo ou onde tinha ido parar minha mão de carne .moco vai ficando louco mesmo e eu descobri que tava ali por fraude de identidade e karalhos, me fudi e nem sei como</p>
<p>.na vera deu até pra fazer uns cúmpas, coisita rarefeita no complexo c, que se há algo é pois que há grano ou buça ou paulengo envolvido, nadica disso aqui no truco .demorei tanto tempo pra descobrir que truco é vida .truco arrefece qualquer um, zika é a aposta, que não tem lá o que vale muito .até o dia que, claro, contam errado o invído ou passam sinal trocado ou gritam flor sem flor, não sei, quiessa hora eu tava longe da brisa, sei que foi gritacero e dali a poco um preso pranchado .aí que os tronxos recolheram o corpo descendo pancudo e no mesmo dia transferiram um preso que tava noutro canto, teve lugar prele bem na minha cela .a gente logo se entendeu, hablando da vida e dos pepinos, josué, primeiro cúmpa do complexo a que tive, e cada coisa que ele conta eu num acredito, viajar pro a agora é meta de vida mesmo .se escafedeu pro b depois de dar jeito de gorar o sistema de arrecadación, esse cúmpa é sagacimonstro, até crime dele é coisa grã-fineza, mas encontraram na mocoza e enfiaram na xilindra</p>
<p>.josué tem uns conhecimentos lóki de+, diz que na escola aprende de tudo, oxi, escola do complexo c crianço vai só pra merenda e não é segredo .ele decide que tem que fazer maria loka, e que a gente tem que sangrar a xilindra, claro, fazeuquê, como dá .arroz, fermentón e docero n’água co cravo num garrafón, lâmpada de panquera do lado .tesourinha sem cabo na tomada pra esquentar no latón e colar o álcool no serpentino, que vira manjarzín caro e gostoso .delícia mesmo, na vera, e os presos pagam desfilando dente .aí que eu e josué tamo na fina até que certo dia um tronxo passa na frente da cela e diz pro josué ¹aí tororó, tua audiência tá chegando, moco</p>
<p>.tororó</p>
<p>.tororó quié que tá me dando</p>
<p>.tororó é coisa que frita os miolos, dormonstra de cabeço, abandono a fabriqueta pra esticar no colchón, ¹josué, segura as pontas aí que vou tirar um breque, ²tranki, cúmpa</p>
<p>.aí que acordo refundido da cachola e tororó é ingresso pra fora daqui .claro que tororó nunca ia falar tororó ou moco desavisado saca .pulo do belicho, mando um barrón e enrolo o cueco bem firme .chego em tororó zzzzzindo e passo o cueco no pescoço e estico .tororó pula, mete a mão na minha fuça, puxo pro chão mas tororó se torce e cai por cima, deslancha um dois três quatro murretos antes que eu dê pernada e faça ele se estabanar no chão e meter o braço no batente de ferro da cama e gritar co osso torto .dois murretos com mão biônica na boca aberta do tororó até sentir o mandibuleto quebrar e balangar e grudo de novo o cueco no pescoço e tororó me empurra, pula, chuta, caio pra trás, tororó tá lokín lokín, ouço os tronxos chegando pelo corredor, tô zikado se moco não pranchar agora, é imperativo moco pranchar, tororó avança, tomo um murreto no peito mas dou murreto no braço quebrado e tororó grita fino igual crianço e dou murreto na garganta descoberta e tororó desequilibra e pego seu cabeço cas duas mãos e dou rasteiro e ele perde de vez o apoio e desço co tudo o cabeço na quina da privada e o osso do crânio estoura e ouço o seco do tampo e do nada algo crava nas costas e eletricza tudo e caio babando do lado do tororó, cúmpa de fabriqueta, único cúmpa de anos agora zikado e pranchado por culpa minha .tronxo entra na cela e ergue botinão e pimba</p>
<p>.na enferma costuram aqui, costuram ali e logo tô zerinho .no corredor tronxo não me leva pras celas, tronxo pega desvio, sai pelo pátio vazio, tora reto até uma das torres, entra, dois tronxos seguram outro homem que nunca vi, preso não é, e um tronxo tira da mochila um aparelhón de tela escura, e segura no rosto do homem, a tela se mexe um monte e bipa, depois ele enfia o treco na minha cara até fazer o mesmo bipo e pega um seringo que sai do aparelho e enfia no pescoço do homem e depois no meu .a gente cai no chão que arde de+, oxi, a cara esquenta e esquenta e derrete e sinto a pele escorrendo e grito e os tronxos tiram a nossa roupa, trocam, vestem de novo .quando para de arder e olho pro homem ele é eu e tá vestido de preso e os tronxos arrastam ele pras celas e eu, vestido co traje refrigerado do malucón, sou levado até a recepción e passo reto pelos sensores e vou quietinho e me jogam pra fora</p>
<p>.o carreto parado abre a porta e tóide forman, meu alvo, tá ali e faz o sinal preu me aprochegar e diz ¹vambora, moco, vambora pra longe dessa xilindra que tu agora tá na fina</p>
<hr />
<p>Esta é a terceira aventura de berátna. Confira as outras:<br />
<a title="berátna :uno :lar doce lar" href="http://flashfiction.com.br/beratna-uno-lar-doce-lar/" target="_blank">- berátna :uno :lar doce lar</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-dos-moco-e-profissa/" title="berátna :dos :moco é profissa" target="_blank">- berátna :dos :moco é profissa</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-tri-tempo-na-xilindra/" title="berátna :tri :tempo na xilindra" target="_blank">- berátna :tri :tempo na xilindra</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/" title="berátna :kuátro :tudo por grano" target="_blank">- berátna :kuátro :tudo por grano</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-cinko-criancada-e-zika/" title="berátna :cinko :criançada é zika" target="_blank">- berátna :cinko :criançada é zika</a></p>
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