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	<title>Flash Fiction &#187; Ficção Histórica</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
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		<title>Da necessidade de fluir como um rio</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jan 2019 14:25:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já haviam se passado mais de três dias, e as pequenas hyorougan que trazia na bolsa tinham acabado. Sem as bolinhas de nutrientes, Matanari não duraria outro dia. Sentia uma sede inabalável, a garganta em brasa. Ouvia o rio, ao longe, quando o vento nas folhas e os pios dos pássaros cessavam, e o cantil seco pendurado nas costas parecia coçar, querendo se erguer, por conta própria, para alcançar a fonte do barulho. Matanari não se mexia, equilibrado nos galhos da árvore. Talvez chovesse hoje. Ele rezava há muito pela chuva.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Já haviam se passado mais de três dias, e as pequenas hyorougan que trazia na bolsa tinham acabado. Sem as bolinhas de nutrientes, Matanari não duraria outro dia. Sentia uma sede inabalável, a garganta em brasa. Ouvia o rio, ao longe, quando o vento nas folhas e os pios dos pássaros cessavam, e o cantil seco pendurado nas costas parecia coçar, querendo se erguer, por conta própria, para alcançar a fonte do barulho. Matanari não se mexia, equilibrado nos galhos da árvore. Talvez chovesse hoje. Ele rezava há muito pela chuva.</p>
<p>Na cabana abaixo, a poucos metros, o homem que espionava seguia em seu ritual cotidiano, trancafiado todo esse tempo. Matanari sentia o cheiro da comida, pontualmente no almoço e no jantar, e não ouvia nada lá de dentro, o silêncio total de um homem que escrevia e costurava. Quanto tempo mais duraria sua água? Quanto tempo precisaria ficar ali, aguardando, até o homem levar o balde para encher no rio? Muito mais do que havia previsto, pelo jeito.</p>
<p>Foi só no início da tarde desse quarto dia, quando as nuvens pesadas já nem se viam, carregando pra longe a esperança de chuva, que o homem saiu com dois baldes equilibrados num tronco sobre o ombro, o kimono impecável pra alguém que morava há anos isolado na floresta. Matanari aguardou até que tivesse sumido atrás da colina antes de descer.</p>
<p>Em primeiro lugar, desarmou o pequeno disparador com a agulha envenenada acima da porta. Em seguida, foi até a mesa, pegou uma das folhas em branco e o pincel, mergulhou na tinta e desenhou rapidamente o símbolo de seu daimyō, um coelho equilibrado sobre duas pedras. Olhou pela abertura dos fundos. Ainda sem sinal do homem. Avançou para a panela, enfiando a mão e jogando o arroz frio dentro da boca. Foram cinco mãozadas que desceram ríspidas. Não havia água para ajudar. Rearmou a armadilha da porta e voltou a escalar a árvore.</p>
<p>Minutos mais tarde o homem retornou, andando devagar, equilibrando os baldes cheios até a boca. Entrou se esquivando da linha praticamente invisível que ativava a própria armadilha. E segundos mais tarde saiu, com a katana na mão. Olhou ao redor. Agachou e investigou o chão. Então jogou o braço pra trás. A kunai atravessou os galhos próximos de Matanari e continuou voando para se perder no campo.</p>
<p>Desça daí, suppa, o homem disse, encarando a árvore.</p>
<p>Matanari desceu, apenas os olhos à vista na roupa preta, e ficou parado sob a copa. O samurai se aproximou. Matanari finalmente viu suas feições em detalhes, as rugas crivadas na testa e sob os olhos, os cabelos e as barbas brancas em total desordem, os braços e as pernas firmes, seguros. Ele embainhou a katana.</p>
<p>Muito bem. Quem é você?</p>
<p>Matanari Omenhara, de Iga.</p>
<p>Por que o subterfúgio? Poderia me chamar aqui fora para conversar.</p>
<p>Meu senhor foi categórico ao exigir que eu o surpreendesse para ganhar sua simpatia.</p>
<p>Hm. O que quer de mim?</p>
<p>Venho a pedido do meu senhor fazer uma solicitação ao grande Kitte Hanzōmon-sama.</p>
<p>Aquela coruja velha não sabe que reneguei tudo, uma dádiva a mim concedida por seu pai, e agora vivo aqui feito um gafanhoto, apenas aguardando a morte, despido de qualquer obrigação?</p>
<p>Sabe, senhor. Ainda que um gafanhoto não escreva, costure e mantenha uma katana afiada. A urgência do momento fez meu senhor crer que o mais antigo e leal servo da família pudesse se sensibilizar.</p>
<p>Hm. Isso só pode querer dizer que se precipitou. Sem dúvida mandou assassinar Uramashi, achando que assim impediria qualquer ameaça. Não calculou que com o feudo de Uramashi desprotegido, Kōda se ergueria e amealharia os feudos vizinhos, saindo de seu aparente sono profundo.</p>
<p>Exatamente, senhor. Se me permite a curiosidade, como se mantém informado aqui nessa distância?</p>
<p>Não me mantenho informado. Esse conhecimento é antigo. Kōda se mantinha na defensiva ainda no meu tempo, e era previsível que apenas esperava uma oportunidade. Sem dúvida o estúpido achava que Kōda não passava de um velho gagá.</p>
<p>Hanzōmon-sama, não posso permitir essa ofensa ao meu senhor.</p>
<p>Acalme-se, Matanari-sama. Se há algo que conquistei nesses anos, é a possibilidade de chamar as pessoas pelo que elas são. O seu, o nosso senhor, é um estúpido, e não há ofensa nenhuma nisso. O seu pai era um grande líder, e estaríamos todos sem dúvida prosperando caso ainda fosse sua mão a guiar o feudo. O que o estúpido quer de mim?</p>
<p>Ele pergunta se há algo que pode ser feito para deter o avanço de Kōda. E se há algum conselho que pode lhe oferecer.</p>
<p>Sem expectativa de me tirar de minha aposentadoria?</p>
<p>Ele respeita a sua decisão.</p>
<p>Pois bem. Entre. Pela rispidez de sua voz, em pouco tempo morrerá de sede. Vou cozinhar. Vamos beber. Comer. E aí sim conversaremos.</p>
<p>Preciso retornar o mais rápido possível, com sua compreensão, Hanzōmon-sama.</p>
<p>Eu não recebo muitas visitas, Matanari. E você desarmou a agulha, mas comeu do veneno no arroz. Se eu não lhe der o antídoto, não retornará. Não tem escolha.</p>
<p>O grande Kitte Hanzōmon, o lendário estrategista do pai de seu senhor, principal responsável pelas conquistas e pela consequente paz em todas aquelas décadas. Matanari não achou que fosse conhecê-lo, retirado da vida pública há tantos anos. Mas certas bênçãos são ofertadas ao acaso, ele sabia. O velho samurai não havia perdido nada de sua argúcia. Sabia de sua presença ali desde o começo. E o testava.</p>
<p>Incrédulo e cansado, Matanari entrou na cabana.</p>
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		<title>O gatilho improvável de Tetsumi</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Dec 2018 18:43:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ela entrou no quarto, fechou o shoji atrás de si, caminhou até a vela e cobriu a chama. Sentou e aguardou, a fumaça espiralando.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ela entrou no quarto, fechou o shoji atrás de si, caminhou até a vela e cobriu a chama. Sentou e aguardou, a fumaça espiralando.</p>
<p>Hideyoshi entrou minutos mais tarde, abrindo o shoji com violência. Ela sentiu o cheiro forte de saquê. Concluiu que só teria o que queria depois, respirou fundo e desatou o obi. As mãos de Hideyoshi entraram rápidas e desajeitadas sob as camadas do kimono, e abriram caminho. Ela embicou o corpo para o futon, mas o homem não queria desvios, e o tatame sob ambos era suficiente. Ela mordeu o lábio com força e deixou o lampejo de dor percorrer o corpo. Devia lembrar, para todos os efeitos, de ser quem devia ser.</p>
<p>Depois, deitado com a cabeça apoiada em sua barriga, Hideyoshi respirava alto, recuperando o fôlego. Ela aguardou.</p>
<p>Hideyoshi-sama.</p>
<p>Sim, Tetsumi.</p>
<p>É verdade que Toyotomo-dono marcha amanhã?</p>
<p>Hideyoshi ergueu a cabeça na penumbra e encarou a mulher nos olhos.</p>
<p>Quem lhe disse isso?</p>
<p>Ninguém, senhor. Me perdoe. Estou conjecturando. Tenho uma prima, irmã de criação, trabalhando no templo de Chōsenji. Tenho vontade de mandar buscá-la antes que a marcha comece. Seu pai está muito doente, e receio que uma vez iniciada a guerra, os templos fechem as portas e os monges a trancafiem.</p>
<p>Hideyoshi deitou de lado e voltou a apoiar a cabeça na barriga da mulher. Ergueu a mão e apertou suavemente seu seio.</p>
<p>Tetsumi, gostaria que me acompanhasse. Preparasse e esquentasse minha cama na estrada. Mas isso não será possível.</p>
<p>Compreendo, senhor.</p>
<p>Mas voltarei. E você estará me esperando.</p>
<p>É claro. Volta em breve?</p>
<p>Não antes do inverno. Até lá, não quero que divida a cama com outro homem. Vou lhe pagar por todos os dias de trabalho perdido, em antecipação. Quero você apenas para mim.</p>
<p>Muito me honra com esse gesto, Hideyoshi-sama.</p>
<p>Sentirei sua falta, doninha.</p>
<p>E eu a sua.</p>
<p>O homem soltou o seio da mulher e fechou os olhos. Demorou alguns segundos para voltar a falar.</p>
<p>Chōsenji, você disse?</p>
<p>Sim, senhor.</p>
<p>Não se preocupe. A marcha não passará por Chōsenji. Sua prima ficará a salvo e em liberdade.</p>
<p>Que alegria ouvir isso.</p>
<p>Tetsumi ergueu a mão e enfiou o polegar entre o indicador e o médio. A kunai veio de algum canto do quarto, silenciosa como um mosquito, e se enterrou na garganta de Hideyoshi, dilacerando suas cordas vocais e impedindo qualquer alarme. Tetsumi segurou seus braços enquanto morria.</p>
<p>Matanari, coberto de preto com exceção dos olhos, aguardou a mulher limpar o sangue e vestir o kimono. Combinaram de se encontrar nos fundos do mercado da vila, onde Matanari aguardaria com um cavalo, roupas e suprimentos. A noite seria longa pelas estradas do feudo inimigo. Mas logo estariam em casa, diante de seu daimyō, com o júbilo contido na ponta da língua.</p>
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		<title>Uma montanha que se ergue do vale em dia de chuva</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Dec 2018 18:58:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quando ele se ajoelhou diante de seu senhor, levou a cabeça ao chão e só a ergueu quando ouviu</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ele se ajoelhou diante de seu senhor, levou a cabeça ao chão e só a ergueu quando ouviu</p>
<p>Matanari.</p>
<p>Ergueu o torso, pousou as mãos nas pernas e começou a falar de sua viagem ao feudo vizinho. Um suppa, ou shinobi, era capaz de se mover pelas sombras e se fundir ao ambiente, respirar como a brisa e pisar como o lobo, passando despercebido. No castelo, se esgueirou até o salão principal, onde se aninhou entre as vigas do teto, acima do forro. O daimyō que espionava, Uramashi, não possuía os laços de sangue que o precediam em títulos e terras e favores, e portanto não possuía um suppa a seu serviço. Fosse o caso, Matanari não chegaria ali, ao menos não com aquela facilidade, e não poderia escutar as conversas que ouviu durante todo o dia.</p>
<p>Ainda que um senhor desprestigiado pelos demais, cercado em seu feudo diminuto por feudos robustos e preparados para a guerra, Uramashi foi capaz de reunir aqueles poucos que ainda lhe deviam a honradez atravessada de uma sucessão às pressas. O antigo senhor do feudo foi arrancado da vida durante o sono por algo que só podiam supor ser o coração fraco, algumas primaveras atrás; sendo Uramashi seu prisioneiro desde criança, filho de um inimigo tornado aliado, cuja família acabou arruinada pelas guerras entre os clãs, e sendo a única criança próxima do daimyō pelos doze anos que ali viveu, se tornou, para todos os efeitos, um filho postiço. Naquele momento, era o único capaz de manter a linhagem sucessória de um senhor que não produziu herdeiros.</p>
<p>Depois de suprimir as revoltas internas, lidar com a debandada dos vassalos que não legitimaram a decisão e comprometer a maior parte de suas riquezas em prestações aos senhores que o cercavam e que poderiam amassá-lo como um mosquito, Uramashi começava a triunfar, administrando um feudo em harmonia com uma divisão militar cada vez mais afiada.</p>
<p>Era por isso, pelas suspeitas que o senhor de Matanari nutria de que aquele homem pudesse se tornar um incômodo ou um declarado inimigo naquele intricado jogo de afiliações políticas, que ele foi enviado ali. Para avaliar. Pesar. Calcular. Matanari observou Uramashi tratar com seus súditos das pequenas desavenças do feudo com uma clareza e uma segurança que muito o impressionaram.</p>
<p>Um caso específico lhe chamou a atenção. Um garoto, de não mais de 10 anos, com a boca cortada e o corpo todo lanhado, falou de sua bem-sucedida feita de vingança. Explicou, em detalhes, a desonra da irmã por um dos patrulheiros, e de como, por dias a fio, seguiu a ronda esperando o momento em que o homem se separasse do grupo. E assim o fez, cortando sua garganta e deixando-o para ser encontrado pelos companheiros em sua própria merda. O garoto foi caçado e capturado.</p>
<p>Uramashi ficou impressionado. Perguntou se ele mesmo tinha feito o serviço, e que arma havia usado. Por fim disse ao chefe dos patrulheiros que reforçasse a orientação aos homens de que as mulheres do feudo não eram mercadoria, e que se não se comportassem ele mesmo teria que castrá-los feito cachorros. E ofereceu ao garoto a posição de encarregado de sua montaria. Preparado para morrer, incapaz de compreender aquele repentino gesto de compaixão, o garoto se desfez em lágrimas. Uramashi então disse a ele algo que ainda ressoava claramente na cabeça de Matanari: “O caule da flor é um caule forte, mas a flor mesmo assim despenca. Resta ao caule a força.”</p>
<p>Ao cabo do dia, enquanto regressava da missão, Matanari considerava como aquele daimyō ilegítimo havia se tornado um senhor mais justo e respeitável que seu próprio senhor, herdeiro dos laços de sangue, títulos, terras e favores que lhe eram costumeiros, mas mesquinho, covarde e assustadiço como um potro.</p>
<p>Matanari contou aquilo que viu sem reservas, como Uramashi crescia na posição que não lhe pertencia, e viu nos olhos do seu senhor a faísca antes mesmo que desse qualquer ordem. Em poucos dias, ele seria convocado a assassinar Uramashi em seu sono, como havia assassinado seu antecessor, e o faria com a excelência com que cumpriria qualquer de suas ordens. Mas não podia deixar de imaginar como seria servir a um senhor que realmente admirasse, que lhe causasse a impressão que Uramashi havia lhe causado em apenas algumas horas, a de uma montanha que se ergue do vale em dia de chuva.</p>
<p>Não importava. Havia dois tipos de homens, ele aprendeu, nas terras da província de Iga, ouvindo as palavras de seu pai, um suppa experiente que encaminhou os treze filhos em sua profissão das sombras: os que governavam e os que obedeciam. Nem sempre os homens corretos exerciam a função que lhes reservava o destino, mas nem por isso deixariam de exercê-la. Os suppas obedeciam, e isso bastava.</p>
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		<title>Dos Rios Que Correm Negros</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Mar 2017 22:08:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Toninha da Folha ergueu a mão. Jogou o facão na terra, a madeira suada do cabo apontando o céu, correu pro rio e se agachou pras necessidades. Jão Chicote, que gostava de ver a mulher agachada, seguiu. Quando bateu os olhos na água não viu Toninha. Olhou ao redor, gritou o nome uma, duas vezes, andou no meio dos escravos, os olhos querendo saltar na garganta de quem lhes cruzasse, dizendo pra acharem Toninha ou iam amargar chicotada que era dela. Atravessou o rio, beirou o matagal, procurou rastros na terra, nas folhas, nas raízes. Alguém gritou do canavial. Nada.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Toninha da Folha ergueu a mão. Jogou o facão na terra, a madeira suada do cabo apontando o céu, correu pro rio e se agachou pras necessidades. Jão Chicote, que gostava de ver a mulher agachada, seguiu. Quando bateu os olhos na água não viu Toninha. Olhou ao redor, gritou o nome uma, duas vezes, andou no meio dos escravos, os olhos querendo saltar na garganta de quem lhes cruzasse, dizendo pra acharem Toninha ou iam amargar chicotada que era dela. Atravessou o rio, beirou o matagal, procurou rastros na terra, nas folhas, nas raízes. Alguém gritou do canavial. Nada.</p>
<p>Jão andou ligeiro até a casa grande. Limpou os pés nos fundos, encarando com azedume os peitos suados de Dindinha, cachoeira nos miúdos de bode. Ela sabia que daquela esfregada de bota no tapete vinha sangue esfregado com sal nas costas dum preto, daí pra pior, e agradeceu Ossaim pelo pé torto e o dedo no peso da panela. Jão subiu pro escritório, ajeitando a cinta, o chapéu, bateu duas vezes. Entrou e deu relato.</p>
<p>Seu Bastião perguntou por que Jão ainda não tava no meio do mato com os cachorros. Jão disse que era porque ela não tinha ido pro mato. Sumiu na água. Só podia ter descido o rio com a correnteza. E ele precisava da autorização de seu Bastião pra pegar o barco. O barco quebrado, estrupício? Corre no seu Mariol e empresta o barco dele e acha essa cadela ou tu ficas sem o salário deste mês e do próximo.</p>
<p>Jão desceu, ignorou os assovios de Dindinha, subiu no cavalo e apeou na porta do seu Mariol, dando a rédea na mão do negro da casa. Foi até os fundos, onde Mariol massageava com óleo a barriga dum porco que virava o focinho escuro dum lado pro outro. Fale, homem, disse o chefe. Jão falou rápido, agradeceu, desceu a trilha até o barco, empurrou, encharcou as botas no rio e pulou dentro, remando dum lado, de outro. O rio descia por muitos quilômetros até desembocar no Prata, onde era impossível rastrear qualquer coisa. Seguiu atento às margens. Viu um barco parado nos barrancos, os homens caçando animais ou escravos no mato. Outros três iam lentamente, pescadores das redondezas que perguntaram o motivo da pressa. Toninha da Folha, ele disse, fugida do seu Bastião. Disseram que não viram nada.</p>
<p>Quando chegou no rio Prata, acelerou as remadas. Em três dias de viagem chegaria à costa uruguaia e aos documentos novos. À noite, quando seria difícil enxergar uma negra na lua minguante, Jão palavreou. Toninha tirou a lona de cima do corpo, abraçou-o e ficou sentada aos seus pés, fazendo carinho naqueles braços cansados enquanto o barco corria.</p>
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		<title>Castelo</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Oct 2015 22:12:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ele sai da cabana, olha as árvores, parece olhar pra mim mas sei que não me enxerga no meio dos arbustos e das folhas, espreguiça os braços, coça a barba, mija no fosso e volta pra dentro. Logo a fumaça sai pelo buraco no teto e se o vento bate na minha direção, como agora, carne assada escala meu nariz e coça meus dentes. Sou obrigada a me contentar com caju, única coisa que encontro aqui perto.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ele sai da cabana, olha as árvores, parece olhar pra mim mas sei que não me enxerga no meio dos arbustos e das folhas, espreguiça os braços, coça a barba, mija no fosso e volta pra dentro. Logo a fumaça sai pelo buraco no teto e se o vento bate na minha direção, como agora, carne assada escala meu nariz e coça meus dentes. Sou obrigada a me contentar com caju, única coisa que encontro aqui perto.</p>
<p>Se ele só tiver os dois coelhos, deve tá perto de acabar. Não sei quanto tempo vou aguentar plantada aqui. Penso em Caíto e Caíria, só os dois, e eu sei que ele é um garoto responsável mas 6 anos não é nada. Se a nenê se afogar, se um estranho passar e quiser tirar proveito, se qualquer outro imprevisto acontecer. Rezo. Mas temo. Que se rezar fosse garantia de alguma coisa eu não tava aqui.</p>
<p>Outro dia quente. Se fizesse um ensopado com os mosquitos que matei até agora alimentava uma vila. Não guento mais me estapear, vermelha de canseira. A garganta reclama da acidez dos cajus, mas e se justo quando saio pra achar um riacho ele resolve sair.</p>
<p>É só no fim do outro dia, quando o escuro começa a escalar o céu, que ele aparece cheio das peles e com duas lanças cruzadas nas costas. Puxa as cordas que seguram o portão na cerca, ergue, rasteja por baixo e começa a soltar do outro lado. Chego com uma pedra em cada mão. Ele vira, atiro uma, pega de raspão na cabeça, ele perde o equilíbrio, cai no fosso, mergulho atrás, uma das lanças finca no chão e a ponta vara minha barriga. Engulo a dor, ele nem sabe o que tá acontecendo, desço a outra pedra, plosh.</p>
<p>O ar entra doído, quebro a madeira, puxo a lança por trás. Argh como o diabo. Escalo o fosso sentindo pontadas no corpo todo. Rastejo por baixo da cerca, manchando o chão. Sigo até a cabana, a luz do dia pouca ali dentro. Recupero o fôlego com os olhos no breu. Vejo os restos da fogueira, pilhas de peles, brinquedos de ossos, potes cheios de líquidos lodosos. Ali no canto. Menina toda suja, emporcalhada, amarrada com as mãos pra trás, sangue nas pernas. Shh, shh, vou te soltar. Calma, filha, não corre. Não quero teu mal. Aqui, me ajuda a acender a fogueira de novo. Ele não vai voltar, calma. Shh. Isso, assopra, assopra.</p>
<p>Presta atenção. Consegue andar? Tá doendo, mas vai ter que fazer isso. Descendo a trilha daqui, vai reto até a árvore ressequida com um galho apontando pra baixo. Vai pelo mato, se esconde se aparecer alguém. Você vai saber quando chegar. Pega a outra trilha que começa na raiz e vai até a gruta perto do riacho. Atravessa. Do lado de lá tem uma cabana bem menor que essa, um neném e um garoto dentro. Fala que Tora mandou você. Pega o que der pra carregar, traz eles. Vai, por favor. Eu me viro aqui. Não vou morrer. Pode ir, filha, vou esperar, você fica com a gente. Não se preocupa. Vai.</p>
<p>Ela manca pra fora. Coitada. Rezo pra ela achar o caminho. Acho outra lança, esquento a ponta no fogo. Já tô fraca. Caíto vai ter que cuidar de mim. Enfio a ponta pelando no buraco da barriga. Grito. Esquento de novo. Nas costas ou o sangue vai todo embora. A madeira empretecendo. Quase lá. Meus filhos, finalmente, do lado de dentro de uma cerca.</p>
<p>Quando chegam me abraçam, mas não abraço de volta. Ainda rezo sob suas pisadas. Rezo pra chover mosquito, pra azedar caju, pra ninguém tocaiar o refúgio que é a única herança deles.</p>
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		<title>Judeuzinho</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/judeuzinho/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2015 21:58:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Levanta, ele diz. Eu me esforço mas pareço feito de, e até enfio os dedos na terra pra ajudar e não. Ele percebe, me apanha pelo sovaco e me ergue de, e dói mas eu sinto que reclamar é à toa e me sinto muito. Quando fico de pé percebo que ele olha meu ombro desconcer, a mão ainda aberta, o osso que cabe com folga na palma e é tudo o que sobrou embaixo da. Vira, as botas rasgando os pedre que foram meu consolo nos últimos meses, e. Eu sigo como.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Levanta, ele diz. Eu me esforço mas pareço feito de, e até enfio os dedos na terra pra ajudar e não. Ele percebe, me apanha pelo sovaco e me ergue de, e dói mas eu sinto que reclamar é à toa e me sinto muito. Quando fico de pé percebo que ele olha meu ombro desconcer, a mão ainda aberta, o osso que cabe com folga na palma e é tudo o que sobrou embaixo da. Vira, as botas rasgando os pedre que foram meu consolo nos últimos meses, e. Eu sigo como.</p>
<p>Passamos por vários barracões e vários outros homens fardados que me. Ele continua impassível, segurando o cruzado contra o. Passamos pela grade, pela outra grade e um soldado de cabeça pequena afundado no enfia a mão no meu. Nem é preciso muito pra eu cair, soprasse e dava no. A bunda vai com tudo no chão e eu fico estatelado enquanto ele grita com o, me apontando, apontando além da, apontando o próprio peito, e no fim o homem repreendido faz uma continência e se empertiga mas não parece nem um pouco arrepen. De novo ele me ergue pelo mesmo e dói o mesmo tanto e de novo eu não.</p>
<p>Rodeamos o refeitório e o cheiro de sopa me revira o e seguimos, e depois de um cercado pequeno cheio de porcos se refestelando numa poça de entramos no galpão. O cheiro de me faz vomitar mas a única coisa que sai é um fio de. Passamos por alguns porcos pendurados em e chegamos numa onde um homem enfia pedaços de carne e gordura num moedor e mistura tudo numa cheia de e uma mulher enfia nas tripas e torce. Fora, depois da porta, outra mulher alimenta o e vira as linguiças na gre, que salpicam o ar com um cheiro tão forte que vomito de.</p>
<p>Ele pega uma das linguiças, me arrasta pra trás de uma, morde um, mastiga, cospe na mão e enfia na minha. Engole, ele diz, e faz isso até a linguiça acabar. Pega o cantil e me passa. Bebo o tanto que cabe.</p>
<p>Pronto. Agora você vai comer todo dia. Em troca vai limpar minhas botas, lavar meu uniforme, limpar a casa. Ela não dá conta do trabalho sozinha. Entendido? Eu olho pra cara dele pensando naquele dia, que parece ter sido há tanto tempo que foi em outra vida, quando a gente morava na mesma rua, em que meu pai e ele bebiam cerveja e dançavam ao redor da banda na festa de alguém e eu brincava com as outras crianças e comia um pedaço de torta tão doce que ardia a língua e minha mãe abraçava meu pai e ele abraçava a esposa dele e riam como loucos de alguma coisa engraçada e parecia que a vida ia ser feliz pra sempre.</p>
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		<title>Diário</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Nov 2014 16:00:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por favor, não pare de ler. Esta página é a única coisa que me resta nesta cela quente e se Deus for mesmo justo o toco de lápis será suficiente.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Por favor, não pare de ler. Esta página é a única coisa que me resta nesta cela quente e se Deus for mesmo justo o toco de lápis será suficiente.</p>
<p>Meu nome é Armand Houecqueville, nascido em Le Havre, França, professor de filosofia na faculdade da Argélia. Escrevo isto em 16 ou 17 de fevereiro de 1957, da capital, Argel. Mas minhas contas podem estar erradas. Sou mantido prisioneiro no apartamento de um dos comandantes da Frente de Libertação Nacional, o muçulmano Aidel Hodain, desde novembro do ano passado. Fui capturado durante a madrugada por homens encapuzados, trazido aqui e torturado onze dias seguidos até dizer tudo o que sabia e não sabia sobre as operações francesas. Me tomaram por alguém com conhecimento das manobras governamentais. Não sou nada, apenas um patriota francês defensor da Argélia Francesa.</p>
<p>Estou cortado do mundo externo. Meu único contato é com o próprio Hodain em visitas frequentes, quando me consulta a respeito de conhecidos simpatizantes com a causa. Denunciei muitos inocentes para continuar vivo. Não me orgulho disso. Ele justifica minha prisão e seus atos terroristas como pagamento na mesma moeda pelo que o general Jacques Massu tem feito com os muçulmanos argelinos. Repito: não passo de um cidadão, um intelectual afeito à nação e contrário à independência deste país erguido do pó. Ele afirma que só serei liberto quando prisioneiros mantidos pelo governo forem libertos. E persisto, pele e ossos.</p>
<p>Ouço explosões. Ouço gritos, conversas ininteligíveis na rua. Estou num prédio, pouco acima do nível do chão. A FLN continua firme na campanha de reivindicação por força bruta e o exército continua falhando em impedir os auto-proclamados guerreiros da liberdade. Ontem um tiroteio próximo alimentou a expectativa de resgate, mas não foi o caso. Penso em Juliette brincando no jardim, em Albertine cozinhando com o avental bege. Não deveria ter aceitado a transferência. Agradeço todos os dias a ironia da saúde frágil de minha pequena, que atrasou sua vinda tempo suficiente para evitar outra tragédia. Nem quero imaginar como seria se estivessem comigo. A capacidade humana para o mal em prol de qualquer bandeira me impressiona.</p>
<p>Espero que este diário sobreviva. Ao menos esta folha. E insisto, amigo leitor, minha única alternativa restante, se apiede de um compatriota humano e me auxilie num último desejo: avisar minha família. Estou bem. A saudade das duas e a esperança me mantiveram vivo. Eu imploro, entregue esta mensagem. Nosso endereço em Paris é 782 Rue Gabriel Peri, St Denis. Minha esposa é Albertine Houecqueville, seus pais são Jean e Monali Bel. Minha filha querida, Juliette, tem quatro anos, olhos azuis e cabelos louros como o da mãe. Diga que eu as amo. Tudo o que mais queria era abraçá-las uma última vez.</p>
<p>Por favor, por favor, por favor. Me ajude. Não me abandone.</p>
<p>Armand Houecqueville, Argel, 16/17 fev 1957</p>
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		<title>Comemoração [#98]</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 16:15:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>	Ouço suas lamúrias com nojo crescente. Na sacada, esperneia sob um céu anil de fim de tarde, as mãos na cintura, verificando desiludido a arma de combate. Os pelos fedidos e emaranhados nas costas me dão repulsa.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	Ouço suas lamúrias com nojo crescente. Na sacada, esperneia sob um céu anil de fim de tarde, as mãos na cintura, verificando desiludido a arma de combate. Os pelos fedidos e emaranhados nas costas me dão repulsa.</p>
<p>	Eu e Adala, na cama, resumimos a perfeição conceitual de beleza e promiscuidade da época. É difícil até para mim resistir à tentação do beijo na boca de lábios carnudos e macios da minha comparsa. Seios redondos e avantajados, cintura fina, pés e mãos pequenos e delicados, bunda redonda e tenra. Meu Deus, seu sexo descoberto me faz suar na nuca, pensando quantas maravilhas minha língua poderia fazer ali. Sei que ela sente o mesmo por mim. E sei que ele sente.</p>
<p>	Agora se vira, o membro flácido num ângulo estranho. Vejo a ruína em sua face embora a tentação brilhe nos olhos. Vejo desgaste, o vigor esgotado na tentação do ato corriqueiro e agora inalcançável. Eu e Adala não disfarçamos a impaciência. Tento transmitir desejo, mesmo segurando o vômito, e lendo minha intenção volta seu olhar outra vez para fora, pra cidade que começa a se iluminar lá embaixo.</p>
<p>	O grito ecoa, o rugido de um homem morto por dentro, incapaz de provar seu direito de ser homem. A idade alcançada rouba a luxúria da auto-estima. Enquanto se joga por cima da grade, penso se realmente vale a pena perder a vida por esse tipo de vergonha, inerente a todos eles com o decorrer do tempo. Quando ouvimos seu corpo se estatelar na calçada, já tenho os dedos entrelaçados sobre a constelação de prazeres de Adala. Ela aperta forte o bico do meu seio e finca as unhas nas minhas coxas. Sobre a mesa as peças de ouro do homem que sonhou ser pássaro fulguram, lindas.</p>
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		<title>Paz [#95]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/paz-95/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 16:09:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>	Aqui, montado no cavalo, vejo os homens correndo sobre a grama molhada, gritando enrouquecidos. Sinto o sangue pulsando nas veias engrossadas pelo trabalho duro com o qual sustentaram suas famílias por toda a vida. Os inimigos vêm em carga, em visível superioridade numérica. São como dois enxames que se batem de frente, zunindo.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	Aqui, montado no cavalo, vejo os homens correndo sobre a grama molhada, gritando enrouquecidos. Sinto o sangue pulsando nas veias engrossadas pelo trabalho duro com o qual sustentaram suas famílias por toda a vida. Os inimigos vêm em carga, em visível superioridade numérica. São como dois enxames que se batem de frente, zunindo.</p>
<p>	Quando os vejo caindo sinto um amargo no fundo da boca. Tento me manter indiferente, o vinho que engoli há pouco queimando na garganta e escondendo a sensibilidade e a covardia. Um deles, um senhor franzino, me veio ainda ontem confidenciar que os homens não morreriam arrependidos; não que nossa propaganda patriótica fosse tão efetiva, mas estavam convencidos que o sacrifício serviria para dar lugar a seus filhos no mundo.</p>
<p>	O meu filho está em casa, acolhido de todas as injustiças que acometem o universo fora dela, onde esses mesmos soldados lutam para obter pão e água. E seu pai aqui, observando os que o admiraram e seguiram cair aos montes na grama ensanguentada. O suor que escorre por baixo da armadura me envergonha, um boneco dentro de um enfeite melhor aproveitado por qualquer um lá embaixo neste momento fatídico.</p>
<p>	Quando todos tombam e o inimigo continua avançando, os capitães ao meu lado imploram para que os siga até o refúgio, onde podemos nos lavar das faltas desonrosas. Mas agora, com a coragem do álcool ardendo nas mãos, chicoteio as rédeas e arranco, eu e meu garanhão contra o enxame mortífero. Luto, corto, mato e caio, as lâminas chovendo no corpo, e aterrisso na grama compartilhando o mesmo destino daqueles que se afirmaram meus, em paz.</p>
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		<title>O grande dia de Krentz [#94]</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 16:03:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>	A barba branca tremeu enquanto abria e fechava a boca para proferir as maldições. Pude sentir a raiva, o desejo de vingança exalado no bafo azedo de hidromel. Prenunciou as mortes com tamanha alegria que não parecia um homem que em outros tempos se dedicara inteiramente a Deus. Se por um lado não conseguiu conter a excitação, o álcool ajudando a digerir as emoções, eu tremi de medo, pois me vi diante da inevitável provação. O dia em que todos saberiam se eu era digno de ostentar o título conquistado anos atrás, quando a ameaça foi destruída pela lâmina da minha espada.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	A barba branca tremeu enquanto abria e fechava a boca para proferir as maldições. Pude sentir a raiva, o desejo de vingança exalado no bafo azedo de hidromel. Prenunciou as mortes com tamanha alegria que não parecia um homem que em outros tempos se dedicara inteiramente a Deus. Se por um lado não conseguiu conter a excitação, o álcool ajudando a digerir as emoções, eu tremi de medo, pois me vi diante da inevitável provação. O dia em que todos saberiam se eu era digno de ostentar o título conquistado anos atrás, quando a ameaça foi destruída pela lâmina da minha espada.</p>
<p>	A primeira coisa que fiz quando o dia nasceu foi tomar o leite fresco que Imelda tirou de nossa vaca, tão magra e desnutrida que pude sentir o leite desencorpado descendo a garganta feito água. Depois fui ao pequeno santuário rezar aos deuses para que nos dessem forças no desafio. E agora sigo para o campo de batalha, longe dos outros guerreiros, sem coragem de abrir a boca para dizer uma palavra sequer de incentivo aos mais jovens, que me olham curiosos e admirados, certos de que minha presença é garantia de vitória certa. Tantas vidas por terra.</p>
<p>	O suor escorre dos cabelos trançados. Torço para que não atinja meus olhos e me cegue enquanto giro a espada entre os inimigos, dilacerando seus corpos, banhando o campo de sangue. Os machucados são irrelevantes. Tenho que continuar. Uma dúzia deles me encurrala enquanto manejo a lâmina em círculos. Os corpos tombam, eu continuo. Sinto o peso dos olhares. Grito e os inimigos temerosos se afastam, como se minha voz pudesse arrebatá-los. Meus braços de veias saltadas cansam mas não param.</p>
<p>	Sento no chão, ao lado de tantos corpos sem vida, e vejo o que me fizeram. Um corte enorme na perna, a barriga com linhas de sangue se esvaindo de buracos de estocadas rápidas e grotescas.</p>
<p>	Não tenho muito tempo. Os garotos me olham com cara de espanto. Imelda vem correndo de longe, minha vista embaça, parece que nunca vai chegar. Fecho os olhos por um instante, pensando no alívio de ter feito o necessário. Abro os olhos. Imelda chega, me abraça chorando, deita minha cabeça no seu colo. No mar de sangue que nos rodeia. É aqui mesmo que me vou. Sobre os meus troféus, sobre os espólios de guerra. Sobre a grama vermelha. Sobre os campos dos deuses. Sob os deuses. Me recebam.</p>
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