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	<title>Flash Fiction &#187; Mainstream</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
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		<title>Dança espiralada das folhas em profusão</title>
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		<pubDate>Sun, 23 Dec 2018 20:21:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Grama boa de pisar, ela intui, sentindo o gelado da terra sob as solas, as lâminas fofas passeando entre os dedos. Os cachos na nuca balançam, e os dedos se abrem e fecham no ar, querendo capturar o vento. Uma borboleta, um revoluto em ziguezague diante dos olhos e então sobre o ombro e pra trás, e os olhos seguem.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Grama boa de pisar, ela intui, sentindo o gelado da terra sob as solas, as lâminas fofas passeando entre os dedos. Os cachos na nuca balançam, e os dedos se abrem e fecham no ar, querendo capturar o vento. Uma borboleta, um revoluto em ziguezague diante dos olhos e então sobre o ombro e pra trás, e os olhos seguem.</p>
<p>Aqui, filha, aqui.</p>
<p>A voz a traz de volta num rodopio. O desequilíbrio, a queda, o desconforto. O choro é interrompido pela curiosidade: uma exceção no verde, um ponto cinza, arredondado, que ergue entre os dedos (duro) e investiga na ponta do nariz, a caminho da boca. Algo bate na sua mão. A pedrinha some. O choro é de novo interrompido pela voz, que fisga.</p>
<p>Vem cá com a mãe, filha, vem. Anda.</p>
<p>Ela se ergue, dá um passo, as pernas tremendo e os joelhos querendo dobrar, depois outro, e a boca se abre com os dois dentinhos de baixo querendo saltar.</p>
<p>Isso, filha, continua, continua, vem.</p>
<p>Outro passo, longo demais, e o corpo todo balança. Os pés querem se embaralhar, a cabeça pesa prum lado, mas algo a sustenta pelas costas. Uma bicicleta vermelha passa atrás da mãe. O vermelho gritante se distancia, a mão se estende pra pegar, pra investigar o que é que se move tão rápido, os círculos brilhantes que rodam. Ouve uma batida de palma.</p>
<p>Aqui, filha! Concentra, vem.</p>
<p>Um passo, outro, mais um, é peso demais pra frente, cai com o joelho esquerdo. Ignora o desconforto, agora quer continuar. As mãos no chão, empina a bunda pra cima e se ergue.</p>
<p>Focada naquilo, não vê a menina da bicicleta estacionando contra a árvore e pulando pra puxar a maçã de um dos galhos mais baixos. A estrutura inteira se move, o teto todo estremece, e as folhas folgadas até então salvas a meio caminho da queda despencam.</p>
<p>Chove verde, e são só mais quatro passos pra alcançar as mãos estendidas da mãe, de cócoras na grama, sem notar que o pai a segue logo atrás, as mãos também estendidas, e a menina só tem olhos pra cima, praquela chuva que arrebata tudo, transforma o chão, entrecorta o céu e a bicicleta e a mãe e todo o resto, acaricia sua cabeça e lambe seu rosto. Os dentinhos despontam novamente, porque não há nada mais maravilhoso que isso.</p>
<p>Vem, filha.</p>
<p>Outro passo.</p>
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		<title>O mastigar da terra esfomeada</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Dec 2018 23:04:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Marvin, o Caolho, chegou à cidade escondido em um navio mercante. Na sua primeira noite em terra firme, depois de umas cervejas, falou a João e Moacir do seu baú e de como pagou um dos estrangeiros do porto pra ajudar a escondê-lo e de como enfiou uma faca em suas costas e torceu até o homem parar de gritar. O resto da noite passou considerando o que compraria primeiro com o que conquistou em décadas de aventuras, e recebeu com paciência as sugestões dos desconhecidos que se amontoavam ao seu redor, os rostos cada vez mais iluminados pela chance de se verem repentinamente ricos por proximidade.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Marvin, o Caolho, chegou à cidade escondido em um navio mercante. Na sua primeira noite em terra firme, depois de umas cervejas, falou a João e Moacir do seu baú e de como pagou um dos estrangeiros do porto pra ajudar a escondê-lo e de como enfiou uma faca em suas costas e torceu até o homem parar de gritar. O resto da noite passou considerando o que compraria primeiro com o que conquistou em décadas de aventuras, e recebeu com paciência as sugestões dos desconhecidos que se amontoavam ao seu redor, os rostos cada vez mais iluminados pela chance de se verem repentinamente ricos por proximidade.</p>
<p>Na madrugada, João e Moacir seguiram o velho cambaleante e descobriram seu abrigo numa das várias cavernas na saída da cidade, em um monte tão esburacado que era chamado de Monte do Tatu. Conversaram o dia todo sobre como atacar o velho e o que fazer com o ouro e a prata. Quando o sol desceu, voltaram ao monte, um com a faca enfiada na bota, outro com a pistola enferrujada no cinto, mas justo a caverna de Marvin, o Caolho, havia desabado. Do pirata, nunca mais se ouviu.</p>
<p>João passou os próximos 40 anos seguindo os passos do pai na ferraria, e os gastou sobretudo calçando os cavalos que iam e vinham. Moacir trabalhou como garçom no bar até o patrão falecer, quando a filha assumiu e o mandou embora sem a rescisão que esperava depois de uma meia vida de dedicação. Resmungando ao velho amigo no concorrente, o único outro bar da cidade, relembrou a história de Marvin, o Caolho. Nos anos seguintes àquele episódio conheceu todo tipo de trapaceiro do mar que ali atracou, mas o velho pirata foi o único a arrotar vitória; os demais simulavam a mendicância mesmo que tivessem os bolsos recheados.</p>
<p>E então ambos, beirando os 60, bêbados e tristonhos, decidiram revirar o intento adormecido, arrependidos por não terem pensado na alternativa que agora soava óbvia naquela noite diante da caverna. João preparou as picaretas, Moacir roubou algumas lamparinas de um fundo falso que o falecido dono do bar mantinha no depósito.</p>
<p>Calcularam, de olho, o ponto da curva na caverna vizinha à caverna do pirata. E começaram. Se revezaram na escavação durante dias. Trabalhavam esperançosos de que a qualquer momento a picareta encontrasse o ar rançoso do jazigo sonhado. O teto úmido acima de suas cabeças não era bom prenúncio, mas como estavam tão perto, não podiam parar. O túnel havia atingido a marca de quinze metros escavados na parede, vigas de apoio alocadas a cada dois passos, as lamparinas pelo chão, quando se abateu a desgraça. </p>
<p>Moacir fumava um palheiro na entrada da caverna. Um rumorejo no solo, um tremular, e então o barulho inconfundível dos dentes da terra mastigando, pedra com pedra.</p>
<p>João, tá me ouvindo? João?</p>
<p>..qui, tô aqui.</p>
<p>Puta que pariu, João! Desabou tudo!</p>
<p>&#8230;brou a viga e eu&#8230;</p>
<p>A voz ia e vinha. Sumiu quando outra coisa ruiu em algum canto, um pedregulho se deslocando e assentando toda uma multidão de pedras. Moacir caiu de joelhos e rezou pelo amigo, sem dúvida esmagado lá no fundo. Correu pra cidade e avisou o xerife, que voltou com dois homens da mina e algum dinamite.</p>
<p>Xerife, esse monte é delicado, todo esburacado. Podemos tentar explodir o chão de uma das cavernas no nível acima e quem sabe abrir um buraco pro túnel de baixo. Mas a estrutura inteira pode descer junto.</p>
<p>Dane-se a estrutura. Pode ser que tenha um homem vivo lá dentro, diacho.</p>
<p>Os dois mineiros alocaram os explosivos, ajeitaram o fio da caixa de pólvora e, escondidos atrás de uma rocha, apertaram a alavanca. O Monte dos Tatus tremeu todo por alguns segundos. Moacir ouviu de novo o barulho do mastigar terroso. Avançaram com cuidado. Viram a abertura, mas não entraram. Se Moacir é quem queria tanto salvar o amigo, ele que descesse.</p>
<p>Moacir foi se equilibrando nas pedras, segurando a lamparina à frente. Mas ou o cálculo tinha dado muito errado, ou muito certo. O túnel que adentrou era o próprio túnel do Caolho. Viu uma abertura na parede e algumas pedras amontoadas diante dela. Então João chegou a terminar o serviço, completou o túnel, e o Monte deu o troco. Teria o amigo pulado e sobrevivido? Ou estaria amassado ali, tão próximo da salvação? Continuou pela caverna pra descobrir.</p>
<p>Não deu nem dez passos e chegou ao fundo. No chão um esqueleto, ao lado um baú. Marvin, o Caolho, e seu tesouro. Nada de João. Moacir nem se deu o trabalho de abrir o baú pra confirmar a suspeita, no íntimo, de que o velho pirata havia contado uma grande mentira, uma piada pra afiar seus velhos nervos, à qual os dois se agarravam como se tentassem agarrar a própria juventude, evaporada.</p>
<p>Se tinha algo que Moacir podia fazer pelo amigo, era não deixar que morresse em erro. Que morresse em dúvida, pelo menos. Saiu e não olhou pra trás.</p>
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		<title>Mamute é um bom companheiro</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Dec 2018 22:51:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Mamute abre a bocarra. Ele abre nessa boa vontade porque sabe que depois da escovação vem o osso, e tá pra nascer cachorro que gosta mais de osso que o Mamute. Coloco um pouquinho de pasta na ponta das cerdas, ele deita a cabeça na minha coxa, e começo pelos de trás. Ele se irrita de vez em quando, porque por mais cuidado que eu tenha, a gengiva é sensível. O sol tá forte, dá pra ver quase tudo. Mas pra enxergar atrás dos últimos, só com a luz do farol da bicicleta. É a parte que ele mais odeia, porque encosto no céu da boca e acho que ele sente ânsia, pelo menos é o que eu sentiria.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mamute abre a bocarra. Ele abre nessa boa vontade porque sabe que depois da escovação vem o osso, e tá pra nascer cachorro que gosta mais de osso que o Mamute. Coloco um pouquinho de pasta na ponta das cerdas, ele deita a cabeça na minha coxa, e começo pelos de trás. Ele se irrita de vez em quando, porque por mais cuidado que eu tenha, a gengiva é sensível. O sol tá forte, dá pra ver quase tudo. Mas pra enxergar atrás dos últimos, só com a luz do farol da bicicleta. É a parte que ele mais odeia, porque encosto no céu da boca e acho que ele sente ânsia, pelo menos é o que eu sentiria.</p>
<p>Já teve dia que meu pai me pegou escovando os dentes dele e disse que eu não devia brincar com um cachorro de 50 quilos desse jeito, que não dá pra prever reação de animal, ainda mais socando a mão na goela dele. Mas eu faço, nem que seja escondido, porque sei que o Mamute gosta da refrescância que fica, quem não gosta, e se tem um cachorro que não tem aquele bafo podre e a saliva grudenta é o meu.</p>
<p>Tiro o osso do bolso. Ele sai abanando o rabo e fica no cantinho da sombra da cerca, lambiscando. Resolvo começar a missão do dia, que é achar a bolita que se perdeu no jardim. Meu pai disse pra eu procurar há duas semanas, e agora a grama já tá bem alta. Ele corta todo final de mês, mas disse que não vai cortar enquanto eu não achar a bolita porque, quando ele era criança, conheceu um menino que pulou o muro da escola pra jogar futebol a com a turma num dia de feriado, e tavam cortando a grama do jardim nesse dia, e algo na lâmina do cortador quebrou e um pedaço de ferro se soltou e saiu voando e acertou a cabeça desse menino e ele caiu morto no chão. Meu pai não quer arriscar a lâmina do cortador bater na bolita e resvalar e acertar alguém, ele mesmo, em último caso. Então minha missão é: achar a bolita logo ou o jardim vai virar um pântano e eu não vou mais ter onde brincar e um dia posso até perder o Mamute no meio desse mato e talvez nem encontre mais o caminho de casa.</p>
<p>Mas ele tem faro bom, pai, cachorro sempre acha o caminho de casa.</p>
<p>Não importa, guri, vai achar a bolita.</p>
<p>Pelos meus cálculos, já consegui investigar quase metade do jardim, que é gigante. Uso lápis de cor com pedaços de papel colorido colados como bandeirolas pra demarcar o terreno limpo, enfiando de ponta no chão. O primeiro dia foi um desperdício porque o Mamute achou que aquilo tudo era pra ele, e quando fui dormir ele arrancou cada uma das bandeirolas e empilhou todas ao lado da casinha. Briguei, sentei e expliquei a história, que aquilo não era brincadeira, era coisa séria, eu precisava achar a bolita. Ele já tinha visto eu brincar com os meninos da rua dentro do cercado da varanda, onde o chão era cimentado e as bolitas corriam mais ou menos reto, então eu sabia que ele entenderia. Ele enfiava o focinhão num dos buracos entre as madeiras e ficava olhando. Aí um dia o Davi roubou, jogou duas bolitas de uma vez, e a gente começou a brigar e ele ficou tão nervoso que tacou longe a última bolita. O que explica o começo dessa novela toda, e o início infernal das minhas férias, que agora eu tenho que gastar procurando bolita em vez de jogando vídeo-game, vendo Netflix, essas coisas.</p>
<p>Pego mais lápis já preparados do quarto e continuo a caça. Fico um teeeeeempão procurando e nada. Enfio mais cinco lápis, as unhas já todas sujas de terra, umas duas minhocas e um besouro encontrados pelo caminho, e umas três encaradas de morte no Mamute quando ele chega perto das bandeirolas. Mamãe aparece na janela pra perguntar se eu quero bolinho de chuva, digo que vou terminar esse quadrante e já vou, os joelhos doloridos de tanto engatinhar.</p>
<p>Mamute late quando eu levanto, e digo que só vou comer e volto. Mas ele continua latindo, latindo e pulando, o que é uma coisa incrível, já que ele é um preguiçoso de carteirinha e só pula quando quer mesmo alguma coisa (caso dos churrascos de domingo, o jeito dele implorar um bife). Vou com ele até a casinha, passo pelo cemitério, pelo lote da ração (tudo certo por ali) e pelo cagódromo. Ele aponta todo orgulhoso com o focinho sua mais recente fabricação, ainda mole. Não entendo o motivo do orgulho, talvez queira só que eu comemore com ele o tamanho e a ousadia dessa última obra, que não me parece diferente das outras, mas nada disso. Rodeio a pilha fedegosa e vejo o motivo.</p>
<p>Demora pra minha mãe entender porque eu tô pulando pela cozinha com a mão lambrecada da bosta fedida do Mamute, ela até ameaça uns tabefes. Mas como o Mamute salvou o resto das minhas férias, eu não ligo pro cheiro e nem pros tabefes, se vierem.</p>
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		<title>Um álbum com seis sobrenomes</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Nov 2018 18:06:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Olha, Mariana. É Mariana, né?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Olha, Mariana. É Mariana, né?</p>
<p>Marina, dona Inês.</p>
<p>Marina, isso. Então. Acho que foi o contrário. Na verdade eu amei foi demais. Só que vem a vida, sabe, fazendo aquelas curvas fechadas. Também ajuda que nos antigamentes, casar era regra. Era o normal a se fazer se você se enrabichava com homem. Não era essa facilidade que é hoje não.</p>
<p>Será que a senhora pode me contar como foi com cada um? Não precisa entrar em detalhes se a senhora não quiser. Mas um pouco de cada.</p>
<p>Posso. A memória é de ferro, minha filha. Eu não esqueço, ainda mais essas coisas. Alzheimer aqui nem com reza braba. Agora Parkinson. Tá vendo, essa mão&#8230; Desculpa ter derrubado café na sua saia.</p>
<p>Não foi nada, dona Inês. Um sabão em casa e já já sai.</p>
<p>Tá bem. Então deixa eu começar. Sebastião foi o primeiro. Ele morava na minha rua, na Limeira. Todo dia quando o sol baixava ele ia pra esquina me esperar chegar da escola. Me dava o braço, falava que eu tava linda e me deixava em casa. E antes mesmo da gente dar o primeiro beijo, antes de conhecer o homem direito, ele pediu minha mão. Papai só exigiu que eu terminasse a escola antes. Eu tinha 16 anos. Fomos morar nas beiradas de Intudaial, a ideia de Tião era ganhar aos poucos na farmácia em que era gerente e depois a gente se mudava mais pro centro, onde as ruas eram largas e as casas maiores. Ele morreu baleado num assalto na farmácia, e eu acabei grávida da Rafa, com 7 meses.</p>
<p>A Rafa nem falava ainda quando casei com Osvaldo. Ele era o pediatra que cuidava dela desde o nascimento. A gente viveu na casa que Tião comprou até a Rafa completar três anos. Aí apareceu a primeira esposa do Osvaldo, de Minas Gerais, e ela ficou esperando dentro do carro com três crianças amontoadas na janela. Ele não se despediu de mim direito, com vergonha, mas a Rafa ele abraçou e beijou tanto que eu achei que fosse carregar junto. Humberto foi o terceiro. Conheci ele quando reformava o telhado da minha casa. Era o irmão do empreiteiro, e vinha numa caminhonetinha trazer os materiais sempre que precisavam. Eu passava um café, ele gostava de conversar, e aí depois que o telhado ficou pronto ele continuou vindo. O que aconteceu com o Humberto eu não soube por alguns dias. Mas a família dele, que não gostava de mim, veio finalmente me falar que a polícia tinha achado ele no carro na beira da estrada. Gelado que só. Os médicos disseram que foi o coração.</p>
<p>Carlos era motorista do ônibus que eu pegava todo dia pro centro, pra trabalhar como recepcionista num consultório de dentista. Ele se engraçava todo, falava de como o primeiro casamento não tinha dado certo, eu dava trela. O horário não batia e a gente namorou só nos finais de semana até o casório. Ele veio morar comigo e trouxe o Leandrinho, filho dele, uma peste. Não durou um ano. Eu trabalhava dobrado na casa e Carlos, quando assentou, mergulhou na bebida. Eu não tinha papa na língua depois de tudo pelo que passei e mandei ele com Leandrinho embora depois de uma noite em que ameaçou um tapa. Só ameaçou, filha, que eu nunca apanhei na vida.</p>
<p>Aí veio o Josias. O Josias estudou comigo no colégio e a gente se reencontrou um dia no clube militar. A Rafa queria tanto nadar naquela piscina que levei ela e fiquei numa mesa de guarda-sol na beirada, bebendo uma caipirinha. Ele me reconheceu, sentou e começou a conversar. Tinha virado representante comercial e passava a maior parte do tempo na estrada. Se sentia solitário demais e quando voltava pra casa não achava repouso. Foram dezessete anos de casamento, e com ele eu tive dois filhos homens, o Gael e o Toni. A Rafa me ajudou a criar, ela já tava mocinha. O Josias perdeu a vida numa batida na serra, voltando pra casa. Eu passei um dia inteiro andando pela mata perto do acidente, achava que ouvia a voz dele, isso mesmo a polícia dizendo que já tinha levado o corpo. Eu achava que tava ficando louca, louca de pedra.</p>
<p>O que ele dizia pra senhora?</p>
<p>Ah, filha. Eu não sei. Eu devo ter imaginado tudo. Só sei que era a voz dele. Depois fiquei cinco anos sozinha, me acostumei. Quem apareceu, e foi insistente pra vencer essa contrariedade, foi o Wendel. Wendel fabricava leite numa fazenda na beira do lago em Tuvestal, lá pra perto da estrada, sabe?, e vinha com a carreta cheia das garrafas de leite fresco. Ele sempre alegre, dando um bom dia caprichado enquanto eu cuidava do jardim, e bateu martelo até o dia em que o chamei pra tomar um café da manhã com a gente. Foi ficando. Aquela presença alegre, que nunca incomodava, sabe. Nos mudamos pra fazenda dele, os guris ajudavam no trabalho, Rafa já na faculdade.</p>
<p>Foi assim que a senhora veio morar aqui?</p>
<p>Isso. A morte de Wendel só não foi pior que a de Josias. Dessa eu já sabia, rezando na porta quando Toni apareceu correndo, esbaforido. Tavam na rota do leite e Wendel soltou a carroça do cavalo pra arrumar a madeira do guidão. O céu limpo, limpo, e contrariando tudo um relâmpago cruzou seco e ribombou e o cavalo no instinto ergueu o casco e deu-lhe na têmpora. Caiu morto já, a cabeça afundada. E aqui fiquei, filha, decidida a não levar mais ninguém pra tumba.</p>
<p>Nossa, que história, dona Inês.</p>
<p>Não é? Agora que Toni e Gael tão casados e visitam pouco, eu lembro bastante dos meus homens, tenho tempo pra lembrar. Você disse que vai publicar isso onde?</p>
<p>No jornal da escola. É pra gente entrevistar as pessoas da cidade.</p>
<p>Ah, é mesmo. Depois me traz uma cópia. Quer mais um pedaço de bolo?</p>
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		<title>Certas histórias se resolvem assim, do nada</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/certas-historias-se-resolvem-assim-do-nada/</link>
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		<pubDate>Wed, 03 Oct 2018 22:38:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Pego o Oleg, fumando um cigarro na escadaria da varanda de casa. Ele traz duas latas de refri.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Pego o Oleg, fumando um cigarro na escadaria da varanda de casa. Ele traz duas latas de refri.</p>
<p>— Salve, Oleg — digo. — Valeu.</p>
<p>— Tranquilo. Fui no mercado hoje cedo. Tô fofo.</p>
<p>— Cara, cê vai ter que me descolar um trampo massa desse. Tô sempre duro.</p>
<p>— Ninguém mandou virar escritor.</p>
<p>Ele liga naquela rádio comunitária que ainda resiste, do CPA. Tá rolando um The Doors.</p>
<p>Quando chegamos no prédio do Tomate, ele ainda não desceu. Paro na calçada do boteco, outro lado da rua, a luz do apê dele acesa, o Darth, seu gato, deitado tranquilão no batente.</p>
<p>— Tomate! — Oleg chama com as duas mãos na boca. Ele aparece com a cara cheia de espuma de barbear. — Porra, cara! Agiliza aí essa caralha!</p>
<p>Ele dá um joia, puxa o Darth pra dentro e fecha a janela. Sento na mureta do boteco demolido, o fantasma resistente do palco de muitas bebedeiras nossas. Oleg acende um cigarro, me passa, acende outro pra ele.</p>
<p>— Mas e aí, man, como tão as coisas? — ele diz.</p>
<p>— Na mesma. O romance tá caminhando, mas escrevo muito pouco. Não sei. Parece que não consigo entrar de cabeça no bicho, sabe? Te contei que já fiz umas 60 mil palavras? Tô numa parte chata lá porque preciso ligar uma coisa na outra que vai rolar no final. Mas ainda não achei a conexão certa. Então fico revisando, retalhando, retrabalhando uns diálogos.</p>
<p>— Bom, se quiser ajuda, abre a história aí.</p>
<p>— Putz, eu levaria uma hora pra te explicar cada pormenor e cada coisa e desenhar todo o cenário pro problema fazer sentido.</p>
<p>— Tempo eu tenho. Ou cê acha que o Tomate vai ser rápido?</p>
<p>— Se o fdp não for, a gente perde o filme.</p>
<p>— E cê tá só no romance?</p>
<p>— Tô com um artigo pendurado na Trip, tenho que mandar até domingo. Tô com uma tradução encomendada pra Piauí também, livro duma indiana finalista do Man Booker. Disseram que vão escolher o trecho ainda e me mandar amanhã. Fora isso tô com alguns contos pra finalizar prumas antologias. Mas nada que envolva grana, os contos.</p>
<p>— Cara, se você tivesse um trampo que te permitisse escrever, ein. Seria perfeito. Já pensou em ser porteiro? Noturno? Deve ser uma paz foda ali na madruga.</p>
<p>— Se eu conseguisse não dormir, e tivesse mesmo tempo. Ser interrompido é foda. Escrever com sono também. Acho que eu não produziria assim não. No meu mocó faço melhor.</p>
<p>— Faz. Pobre.</p>
<p>— Fato. Tô pra ligar pro pessoal da agência. Acho que vou voltar a pegar uns frilas de publicidade. Pra deixar a geladeira cheia, uma coisa ou outra.</p>
<p>— É o djeito.</p>
<p>— Qual é esse filme que a gente vai ver mesmo?</p>
<p>— O novo do Paul Thomas Anderson, pô. Parece que o último do Daniel Day-Lewis.</p>
<p>— Ah, ele já falou que ia se aposentar antes.</p>
<p>— Poisé. Seria uma pena, bicho. Que cara monstruoso.</p>
<p>— Os dois, né. Trilha do maluco do Radiohead?</p>
<p>— Greenwood. Mas claro. Time que tá ganhando&#8230; Esses dias tava revendo aquele com o Adam Sandler, lembra?</p>
<p>— Que ele tem uns piripaques nervosos? Que ele liga prum daqueles fones de sexo virtual e a mulher começa a extorquir ele?</p>
<p>— Esse. Embriagado de Amor. Filmaço da porra. Puta merda. Antes de entrar nessa lista infinita de filme pastelão o Sandler fez esse filmaço.</p>
<p>— O cara é bom ator, meu.</p>
<p>— Ah, para. Primeiro que bom ator não faz sempre o mesmo personagem.</p>
<p>— Peraí. Ele não é o Keanu Reeves.</p>
<p>— Verdade, mas tá perto.</p>
<p>— Bicho, o Seymour Hoffman aparece nesse, não aparece?</p>
<p>— Aparece, o cara era chapa do Anderson. Tem aquela cena do Hoffman e do Sandler se xingando no telefone, ele fica gritando pro cara calar a boca, lembra?</p>
<p>— Foda. Lembro dele no O Mestre também, outra obra-prima do Anderson.</p>
<p>— Ah, cara. Nem vamos começar a falar do Hoffman, vai. E teve o Capote também, o Sinédoque&#8230; Não dá, tristeza demais que esse cara se matou. Puta que pariu. Fiquei ruinzão.</p>
<p>— Tristeza mesmo.</p>
<p>Tomate finalmente passa pela portaria e abre o portão do prédio.</p>
<p>— A noiva! — digo, entrando no carro.</p>
<p>— Foi mal aí, gente. Perdi a hora.</p>
<p>— Vai tomar no meio do seu cu, cuzão — diz o Oleg. — Senta aí e fica de buenas. Pipoca é por tua conta hoje.</p>
<p>— Beleza — ele diz, sentando no banco traseiro. — E aí, que mandam? Terminou a porra do livro, Jonas?</p>
<p>— Tá caminhando. E o maluco do teu vizinho? Resolveu?</p>
<p>— Que rolou? — pergunta Oleg.</p>
<p>— Não te falei, mano? — diz Tomate. — O cara ficava tacando bituca no meu canteiro da sacada. Todo dia eu acordava e tinha um monte lá, no meio da minha salsinha. Aí fiquei de butuca. Era o cara de baixo, que jogava lá da janela do quarto dele, acredita? O condomínio tascou multa. Agora o cara tá aterrorizando. Mete som alto. Fica batucando o teto com cabo de vassoura. Essas paradas.</p>
<p>— Puta que pariu.</p>
<p>— Poisé. Liga o som aí, pô.</p>
<p>Oleg liga. Led Zeppelin.</p>
<p>— Aí sim, digo.</p>
<p><em>Hey, hey mama said the way you move, gon&#8217; make you sweat, gon&#8217; make you groove.</em></p>
<p>A gente canta. E vai falando groselha, pós-filme, baguncinha, breja na distribuidora do Boa Esperança noite adentro. É lá pelas 2 da matina que a conexão vem. Nem é nada demais. É uma bituca no pé da cadeira do Oleg, ainda fumaçando, e tudo se encaixa. Anoto rápido no celular. Salvo e mando cópia no e-mail. Amanhã, quando sentar pra escrever, o romance finalmente volta a passar a segunda marcha. No fim das contas, uma noite frutífera.</p>
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		<title>As muitas vidas do açougue do caolho</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Sep 2018 17:54:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Se você passa na Rua Tolentino de Almeida à tarde, num dia ensolarado e com pouco movimento no açougue, você vê através do vidro da fachada o Ronaldo, um homem de cabelos curtos e uma barriga nos estágios iniciais do avantajamento sentado em seu banco, atrás do refrigerador de embutidos, olhando fixo pro outro lado da loja. Pelo ângulo talvez não seja possível identificar o que ele olha. Mas não é Lucinda, a professora e filha do dono, que cuida do caixa depois que chega da escola, e tampouco o relógio de ponteiro barulhento acima da cabeça dela. O que ele observa é um prego na parede, hoje pintado de branco numa das repinturas, mas ainda ali, protuberante.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Se você passa na Rua Tolentino de Almeida à tarde, num dia ensolarado e com pouco movimento no açougue, você vê através do vidro da fachada o Ronaldo, um homem de cabelos curtos e uma barriga nos estágios iniciais do avantajamento sentado em seu banco, atrás do refrigerador de embutidos, olhando fixo pro outro lado da loja. Pelo ângulo talvez não seja possível identificar o que ele olha. Mas não é Lucinda, a professora e filha do dono, que cuida do caixa depois que chega da escola, e tampouco o relógio de ponteiro barulhento acima da cabeça dela. O que ele observa é um prego na parede, hoje pintado de branco numa das repinturas, mas ainda ali, protuberante.</p>
<p>Naquele prego, e isso é possível que a sua mãe, o seu pai ou algum dos seus tios, ao passar por ali décadas atrás tenha visto, e digo eles e não seus avós porque depois de uma certa idade a gente aprende a não encarar as coisas e as pessoas por muito tempo, mas naquele prego ficava pendurado o chapéu do dono do açougue, seu Edvaldo. Seu Edvaldo continua o dono, mas ele abandonou o chapéu. Coincidem os últimos dias úteis do chapéu com a entrada do Ronaldo no açougue, na época um rapazote que não tinha dinheiro pra se mudar pruma cidade maior e estudar na universidade. Por pouco tempo Ronaldo conviveu com Suélen, a esposa de Edvaldo, uma mulher muito solar, um adjetivo incomum mas que parecia colar nela com perfeição. Ela vinha na loja sempre, conversava com os clientes. Foi ela quem ensinou a Ronaldo os macetes do moedor de carne, que seu Edvaldo usava como se fosse um trator e não a peça delicada que era. Mas morreu subitamente. E no dia do funeral, seu Edvaldo aposentou o chapéu, que era um presente dela.</p>
<p>Antes do chapéu, no mesmo prego, havia uma plaquinha de “não aceitamos fiado”. Quem a pendurou foi o pai do seu Edvaldo, que abriu o açougue muito tempo atrás, quando voltou da guerra só com um olho. Talvez algum de seus avós lembre que por muito tempo as pessoas diziam que iam comprar carne no caolho. Nunca na frente dele, é claro. Ronaldo não chegou a ver a placa, mas sabe dela porque seu Edvaldo vira e mexe comenta como as pessoas respeitavam seu pai e a placa, e como ele tem vontade de pendurar ela de novo. Balela, sabe Ronaldo, já que o fiado é a licença poética de qualquer cidade do interior, e depois que ele assumiu e passou a jogar o jogo a clientela só aumentou.</p>
<p>O que não é possível dizer, de ângulo nenhum, mas eu posso te contar, cá entre nós, é o motivo pelo qual Ronaldo olha pro prego na parede. Isso só vai ficar claro pro seu filho ou filha, daqui a alguns anos, quando passar por lá e ver Ronaldo olhando pro seu próprio chapéu pendurado. Ele vem guardando dinheiro há um bom tempo. Pretende comprar o açougue do patrão, já que a filha, Lucinda, não tem o menor interesse em continuar com o negócio quando o pai aposentar. Ronaldo ainda não sabe que Lucinda se tornará sua esposa depois do divórcio com o vendedor de seguros do outro lado da rua. O que Ronaldo sabe é que uma vez dono, adotará o chapéu. Não porque seu Edvaldo usava, mas porque a avó de Ronaldo, que o criou sozinha e de quem sente uma saudade imensa, sempre dizia que com chapéu ele parecia um daqueles astros de cinema, e Ronaldo gosta de parecer um astro de cinema. Ele só não acha que astro combina com funcionário de açougue, e sim com dono.</p>
<p>São coisas que passam batidas, não é? Mas eu gosto de pensar que um simples prego seja o marcador das divisas do tempo de um açougue e das gerações que o tocaram. Você não se importaria de saber se eu não contasse, mas o Ronaldo também vai aposentar o chapéu um dia. Há um bom motivo, mas esse motivo só o seu neto ou sua neta vai saber e poder te contar, e eu não quero estragar a surpresa. O que você sabe, e isso sem a menor sombra de dúvida, é que as melhores costelinhas de porco da cidade eram, são e continuarão sendo vendidas ali. E você adora uma costelinha.</p>
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		<title>A chegada do cachimbo encerado</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jun 2018 01:05:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Estranhei que não tinha nada na mesa. Nem café, nem pão, nem o pote de manteiga. A mãe costumava acordar cedo, comer sozinha e deixar tudo ali pronto. Quando eu acordava pra escola, Piozinho continuava dormindo, ele só ia pra escola no outro ano. Então eu passava no quarto deles, onde papai ficava deitado, há meses assim, e beijava ele no rosto antes de sentar pra comer. Minha mãe embrulhava um sanduíche pro recreio e ficava da janela da cozinha me olhando sair pelo portão, pela rua.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Estranhei que não tinha nada na mesa. Nem café, nem pão, nem o pote de manteiga. A mãe costumava acordar cedo, comer sozinha e deixar tudo ali pronto. Quando eu acordava pra escola, Piozinho continuava dormindo, ele só ia pra escola no outro ano. Então eu passava no quarto deles, onde papai ficava deitado, há meses assim, e beijava ele no rosto antes de sentar pra comer. Minha mãe embrulhava um sanduíche pro recreio e ficava da janela da cozinha me olhando sair pelo portão, pela rua.</p>
<p>O quarto deles tava vazio. O berço de Piozinho no canto da sala também. Se ouvia um barulho na casa, um nhéc nhéc que só podia ser da cadeira de balanço na varanda. Fui lá, tirando as remelas dos olhos. Da porta já dava pra ver a luz grudando no mato e nas árvores, começando a secar o sereno que deixava as madeiras da cerca da varanda lambidas.</p>
<p>Na cadeira um homem. Ele era mais velho que meu pai e em nada lembrava ele, com costeletas grisalhas que vinham até bem perto da boca, e dela se estendia um cachimbo curvado, brilhante de cera, e a fumaça era bem fraquinha, quase não se via. Eu só tinha visto cachimbo uma vez antes, na sala do diretor do colégio quando minha mãe foi lá conversar sobre os meus horários. E agora ali, na boca daquele homem, que balançava a cadeira como se fosse sua, a barriga assentada como se dali não fosse se erguer nunca mais.</p>
<p>Bom dia, João. Sua mãe pediu pra eu cuidar de você enquanto ela não volta.</p>
<p>Bom dia, senhor.</p>
<p>Eu quis me virar pra voltar pra dentro, mas a curiosidade não deixava.</p>
<p>Quem é o senhor?</p>
<p>Sou seu tio Matias, rapaz. Irmão da sua mãe. Você ainda não me conhece, mas eu te segurei no colo e dei banho, sim, senhor, quando ainda era do tamanho dessa mão aqui.</p>
<p>A mão dele era enorme, mas mesmo assim pequena pra um bebê. Eu já tinha ouvido falar dos irmãos da minha mãe. Eram quatro, Matias o mais novo. E eles moravam bem longe. Trabalhavam muito. Tinham suas famílias, suas vidas. Nunca visitavam.</p>
<p>Onde tá a minha mãe? O meu pai?</p>
<p>Eles foram pra cidade. Levaram o Piozinho, ainda é muito pequeno, não dá de deixar muito tempo longe da mãe. João, venha cá.</p>
<p>O homem apontava com a bunda do cachimbo o espaço à sua frente na varanda, entre as pernas e a cerca. Fui até lá e olhei ele de frente, nos olhos amarelentos dele. Ele tragou do cachimbo, sugando as bochechas e dando quatro chupadas consecutivas de bico, soltando a fumaça enquanto falava.</p>
<p>O teu pai, João. Ele ficou muito ruim ontem à noite. Sua mãe esperou eu chegar e levou ele no meu carro pro hospital. Ele não vai voltar. Entendeu? Ele chegou num ponto em que não tem mais por que lutar. É muita dor, é só a dor. Tem uma hora que um homem perde a sanidade, a sensibilidade, não diz coisa com coisa, vira um bicho, e ninguém queria ver teu pai assim, muito menos ele. Antes de ir, pediu pra eu te dizer que te ama muito e quer que você cresça forte e obediente pra sua mãe. Entendeu? Me responde.</p>
<p>Sim, tio Matias.</p>
<p>Ele ergueu a mão direita caída no colo e jogou meu cabelo pra trás, olhando minha boca, meu nariz, meus olhos.</p>
<p>Você tem o rosto dos Figueiredo, rapaz. Os Figueiredo são trabalhadores. Você vai ser também. Eu vou ficar aqui algum tempo. Você sabe trabalhar com madeira? Não? Vai aprender. Sou marceneiro. Um dos meus filhos é meu ajudante. Até ele chegar, você vai me ajudar, combinado?</p>
<p>Sim, senhor. Eu preciso me arrumar pra escola?</p>
<p>Hoje, não. Se quiser, pode ficar em casa. Sabe fazer café? Então coa um pra gente. Deixei um bolo de milho no forno. Coloca na mesa e me chama quando tiver tudo pronto.</p>
<p>Sim, senhor.</p>
<p>Dentro de casa, entrei no quarto dos meus pais. O cheiro de suor do lençol tava forte. Na cômoda o relógio dele, aberto. Coloquei no pulso. Ficou bem largo. Não abri as gavetas. Alguns papéis higiênicos amassados ao pé da cama. Fui até a janela, abri as cortinas, as madeiras. A luz entrou ali pela primeira vez em muito tempo.</p>
<p>Na cozinha, esquentei a água pro café. Abri o forno. O bolo de milho era pronto, de padaria, tio Matias trouxe junto na viagem. Minha mãe tinha falado que era meu preferido? Servi a mesa. Antes de chamar ele, sentei no lugar de papai, na ponta, há tanto tempo vazio, fechei os olhos e pensei nele ali, brincando de enfiar três broas na boca ao mesmo tempo e minha mãe brigando. Minha mãe tava grávida. Ela levantava sem jeito pra dar umas bordoadas de brincadeira na cabeça dele. O farelo escorria pelo queixo, pelas bochechas. Eu ria um monte. Eu ria agora. Meu pai me abraçou. Eu continuei de olhos fechados, ainda rindo, porque não queria abrir os olhos e ver que era meu tio, que eu não conhecia, ali, com os braços em volta de mim, e mesmo o cheiro de cachimbo não incomodava, porque ninguém fumava cachimbo na nossa casa, e eu ria, ria que me acabava.</p>
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		<title>O tio fãzaço da melhor fase dos mutantes</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/o-tio-fazaco-da-melhor-fase-dos-mutantes/</link>
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		<pubDate>Fri, 15 Jun 2018 23:16:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>A bike tremulava no asfalto ferrado da rua de casa, passando nos fundos da locadora, em frente a uma ótica e a uma loja na baixada dum terreno, um caixote de cimento com uma janelinha no meio que abria as lâminas estreitas bem pouco. Atrás dela ficava um senhor japonês, que quando já não tava plantado ali respondia às palmas ou a um Epa! Lembro de comprar coisas como tesoura, cola, papel, cartolina — trecos de escola, porque não tinha nenhuma papelaria mais perto que aquela e ali tinha de tudo. Ele se perdia pelos corredores escuros lá dentro e voltava com a coisa na mão.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A bike tremulava no asfalto ferrado da rua de casa, passando nos fundos da locadora, em frente a uma ótica e a uma loja na baixada dum terreno, um caixote de cimento com uma janelinha no meio que abria as lâminas estreitas bem pouco. Atrás dela ficava um senhor japonês, que quando já não tava plantado ali respondia às palmas ou a um Epa! Lembro de comprar coisas como tesoura, cola, papel, cartolina — trecos de escola, porque não tinha nenhuma papelaria mais perto que aquela e ali tinha de tudo. Ele se perdia pelos corredores escuros lá dentro e voltava com a coisa na mão.</p>
<p>Essa rua desembocava numa avenida, uma enorme loja de móveis bem na esquina, que tinha trocado todo o cimento da calçada por um piso preto e branco, uma curva macia no pneu, e depois da rampa vinha uma sede governamental, uma borracharia (arrumei muito os pneus da bike ali), uma garagem de carros, uma agência de viagens e um descampadinho que na cabeça dum prefeito antigo devia ter sido uma praça arborizada com bancos e parquinho pras crianças, mas que tinha acabado um pedaço desolado coberto de tudo que é tipo de folha em decomposição atravessado por um córrego de esgoto.</p>
<p>Na calçada diante dessa proto-praça, de frente pra avenida, ficava a banca, as paredes de ferro todas pintadas de vermelho e cheias de pôsteres de divulgação de revistas e álbuns de figurinha e séries de colecionismo e jornais e tabelas de sorvete e picolé (um freezer da Kibon lá dentro). Eu descia de casa com um punhado de reais no bolso, o que eu conseguia pegar com o pai ou a mãe ou os avós em visitas esporádicas, e aí era festa.</p>
<p>Os gibis ficavam em duas prateleiras perto do chão, embaixo das semanais de notícias, e eu agachava ali e passava freneticamente os dedos uma por uma, puxava e admirava a capa e os anúncios da contracapa, folheava, de canto a canto de cada prateleira. No auge dos meus 9 anos, as melhores coisas da vida eram o Mega-Drive e isso. Era muito fã do Homem-Aranha e dos X-Men, marvete mesmo, se bem que li muito Batman e Super-Homem. Me impressionava com o Spawn nos primórdios da Image, que na época era mais caro e num formato maior (depois é que saquei que esse formato americano é que era o padrão; no Brasil reinava o formatinho com mix de quatro mensais, uma centena de páginas no papel jornal fedido do mais puro suco de porrada e músculos e histórias que eram, em média, mais rasas que colher de xarope, mas eu curtia). Fui no cofre certo: peguei a última dos mutantes com a Jubileu e uns sentinelas na capa, e pedalei de volta balançando a sacolinha no punho.</p>
<p>Passei na loja do tio japa. Com os cinquenta centavos de troco ia comprar uns envelopes pra deixar em casa e trocar carta com meu primo, no interior de SP. Ele tava aprendendo a grafitar e mandava uns desenhos muito daora nas cartas, e contava as novidades, e eu o mesmo, sem os desenhos. Fiquei folheando o gibi e quando o tio voltou com os envelopes, perguntou se eu já tinha lido a saga da Fênix Negra. Me toquei de que ele tava falando da Jean Grey, mas não tinha lido isso, nunca tinha ouvido falar da fênix numa fase negra. Ele começou a soltar uns nomes de arcos que leu mais jovem, a longa fase do Chris Claremont no título, em especial a época com o John Byrne, e contou das primeiras histórias do Wolverine. Pirei. Na época não conhecia ainda o único sebo da cidade e eu não tinha internet pra caçar, ler, baixar; dependia unicamente da banca perto de casa pra alimentar o vício.</p>
<p>Alguns anos mais tarde a Editora Abril fez uns encadernados em preto e branco de parte dessa fase. Comprei na hora. Quis falar pro tio japa (por que eu nunca perguntei o nome dele?) que eu tinha lido e adorado, que mais de 15 anos depois continuava animal aquela fase. Mas a lojinha dele não tava mais naquela baixada. Algum dia aquilo amanheceu trancado e nunca mais abriu. Eu não sabia se ele morava ali por perto, se morava na própria lojinha, se tinha vendido ou só ido embora ou morrido ou se mandado pra cuidar dos pais ou de um filho de quem tinha se distanciado. Bem mais tarde demoliram o caixote de cimento e construíram outra ótica, vizinha da que já existia. Acabei tendo que pedalar bem mais longe, subir a avenida em dez de descer, pra achar os trecos da escola. Mas na banca ainda continuei indo, por muito tempo.</p>
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		<title>Instâncias de chegada e partida</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/instancias-de-chegada-e-partida/</link>
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		<pubDate>Thu, 24 May 2018 08:46:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>1. Carmem</strong></p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>1. Carmem</strong></p>
<p>A mão dele não era tão peluda assim. Sem dúvida foi o tamanho, os dedos enormes fechados na mulher inteira, erguendo-a, olhando de perto, fungando, investigando a reação. É claro que a tela do cinema não dá o cheiro, o mais aterrorizante agora, o leite de rosas que ele passava na nuca depois do banho, depois do trabalho, antes da janta, antes de minha mãe dormir, antes da porta do meu quarto se abrir lentamente, a luz do corredor apagada, uma sombra que se move. Colares: não uso nada no pescoço, nada se fechando ao redor dele. Um homem enorme, não um gorila em preto e branco. Peço licença pra Sara, preciso ir ao banheiro. No corredor, antes das cortinas, desmorono, ao fundo os gritos aterrorizados dos figurantes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><strong>2. Lázaro</strong></p>
<p>Os outros preferem comer lá em cima, balançando os pés na amurada, o vento na cara, lufadas mortíferas que pescam uma alface ou um naco de carne dos sanduíches. Mas não é por isso que sento aqui. É pela rua. Pelas pessoas, em especial as que vão ou voltam da avenida, dos prediões chiques. Carmem tá aqui hoje de novo, na lanchonete, tomando café atrás do vidro. Sei que ela trabalha na imobiliária, prédio da esquina, 11º andar. Quem me falou tudo isso e mais o nome foi a garçonete. Hoje não sou só eu que assisto Carmem, uma Carmem tristonha, tão diferente, dá vontade de abraçar, pegar no colo, perguntar o que foi. O engomadinho da mesa vizinha parece ter a mesma ideia. Coitado. Nem imagina o tipo dela. Ainda mais abalada desse jeito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><strong>3. Sara</strong></p>
<p>Mais um café, senhora?</p>
<p>Não, obrigada.</p>
<p>A senhora tá com fome? Acabou de sair uma fornada de croissants, quentinhos.</p>
<p>Só o café mesmo.</p>
<p>Tem certeza?</p>
<p>Tem algum problema? Em só querer o café?</p>
<p>Desculpa, dona. Mas entrei depois do almoço e a senhora tá só tomando café a tarde toda, me disseram que desde de manhã. Já aconteceu, não com umas pessoas assim bem apessoadas como a senhora, mas já aconteceu de virem aqui achando que iam passar o dia enchendo a barriga de café e desmaiarem de tanta cafeína e acabarem carregados pro hospital às pressas. Por isso é que eu pergunto.</p>
<p>Tá, me vê um croissant então.</p>
<p>Claro. Já volto.</p>
<p>#</p>
<p>Aqui, senhora, trouxe um pouco de manteiga também.</p>
<p>Obrigada.</p>
<p>Já vi a senhora por aqui antes. Mas sempre com uma amiga loira.</p>
<p>Sim. Fomos ao cinema ver King Kong ontem de manhã, depois ela sumiu. Achei que a encontraria aqui hoje.</p>
<p>Ela veio ontem à noite, acompanhada.</p>
<p>Sério?</p>
<p>Sim, senhora, eu que atendi.</p>
<p>Acompanhada de quem?</p>
<p>Um homem bem novo, magro, alto, de terno. Ela ria bastante.</p>
<p>Isso é sério mesmo?</p>
<p>Por que eu mentiria pra senhora? O homem tinha uma cara de bebezão.</p>
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		<item>
		<title>Do preço inesperado das cópias</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/do-preco-inesperado-das-copias/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 May 2018 20:47:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Admirando uma árvore no quintal, a esposa ao lado com o barrigão escondido no vestido, Juveno decidiu fazer o experimento que lhe custaria, nos próximos sete anos, todas as horas do dia, o casamento, e, por fim, a felicidade.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Admirando uma árvore no quintal, a esposa ao lado com o barrigão escondido no vestido, Juveno decidiu fazer o experimento que lhe custaria, nos próximos sete anos, todas as horas do dia, o casamento, e, por fim, a felicidade.</p>
<p>Os gêmeos nasceram saudáveis, parto normal, e Maria se recuperou rápido. Dário 3 minutos mais velho que Jonathan. No quarto, os berços iguais, dispostos na mesma parede, onde a luz do sol incidia com igual proporção, onde o ventilador era igualmente distribuído. As roupas, as mesmas. Na hora do leite, o cronômetro. Na papinha, a balança. As brincadeiras sempre com ambos, ou não eram permitidas, os convidados e parentes cientes quando pisavam na trilha de cimento que cortava a grama até a casa. Achavam curioso, riam, mas ficavam pouco tempo. Maria não se preocupava muito no início, não via maldade, só a chatice típica do marido.</p>
<p>Os garotos falaram as primeiras palavras no mesmo dia. Dário, o mais velho, antes. Jonas repetiu pouco depois. Mãmã. Juveno pensou em como remediar aquilo, porque Jonathan tinha a vantagem de ter ouvido pra depois repetir, ao contrário de Dário. Mas a própria diferença de 3 minutos no nascimento constituía, se as coisas fossem levadas assim tão a sério, uma desigualdade que desmontava toda a maquinação científica do experimento de Juveno. Um mínimo de tolerância era necessário.</p>
<p>Naturalmente, certas coisas se resolviam sozinhas. Quando um deles pegava gripe, o outro logo pegava. Tinham, feitos os testes de praxe, saúde regular e nenhuma doença congênita ou malformação ou diferença notável nas aptidões físicas. Mas em outras instâncias, Juveno era obrigado a intervir. Numa visita à fazenda da sogra, Jonathan, ainda pequeno, foi picado por uma abelha. Logo Juveno carregava Dário pela mata até achar uma cachopa de marimbondo, aguardando, depois da pedrada, o ataque. Levou várias ferroadas nos braços mas conseguiu a picada no filho, que não era igual, não era a mesma, mas compensava, ele supôs.</p>
<p>O casamento acabou quando, aos sete anos dos garotos, na aula de futsal que faziam duas vezes por semana, Dário quebrou a perna. Juveno esperou os filhos dormirem para, com a chave de roda, igualar o ferimento no mais novo. No hospital, Maria não olhou na cara do marido. O filho foi examinado, diagnosticado, engessado e liberado. Ela colocou os pequenos no carro e foi embora.</p>
<p>Juveno, claro, não conseguiu a guarda na justiça. Passava as noites sentado no quintal, depois que chegava do trabalho, observando a árvore que lhe deu a ideia. Na época, ela tinha um tronco com as mesmas deformidades nos dois lados, e galhos que cresciam na mesma proporção até se enroscarem na copa. Agora, não era mais simétrica.</p>
<p>Quando os filhos vinham visitar, bem mais velhos, depois do laudo psiquiátrico que desenhava a recuperação de Juveno e as benesses possíveis que a reaproximação com os filhos traria, ele já tinha cortado a árvore, concretado o quintal e feito um puxadinho da casa com churrasqueira e uma grande mesa aproveitada da madeira da árvore. Eles jogavam canastra com um vizinho, um senhor solitário que a essa altura era o único amigo de Juveno, e conversavam, tomavam cerveja, se divertiam. Quando os filhos iam embora, os dois amigos ficavam por ali, bebendo um pouco mais, jogando mais algumas partidas, chorando as lembranças da vida que tinham perdido em algum ponto do passado.</p>
<p>O senhor solitário se chamava Mourão, e gostava, quando ainda era casado, de passear de mãos dadas pelo bairro com a esposa, levando na coleira seu cãozinho Shih Tzu. Nunca tiveram filhos, porque ele era infértil, e a mulher nunca aceitou a ideia de adoção, o que ele achava uma grande besteira. Ela faleceu pouco antes de mudar de ideia. A depressão profunda que o acometeu foi agravada pelo atropelamento do cachorro, que perdeu uma perna e agora mancava pelos cantos da casa, com um temor absurdo de encarar a rua ou sequer a porta de entrada.</p>
<p>Às vezes, Juveno o visitava, e olhava com dó aquele cachorrinho que o fazia lembrar do filho com a perna quebrada. Por isso preferia que o velho viesse até sua casa, não o contrário. Num dos dias de visita dos garotos, Mourão apareceu pra canastra com o cachorrinho apavorado no colo. Disse que queria fazê-lo vencer os medos, nem que fosse na marra. O cachorrinho ficou amuado, grudado numa parede, onde não se mexeu nem mesmo pra mijar ou cagar em cima do jornal que Juveno colocou ali. Os garotos se compadeceram do bicho e ficaram fazendo carinho nele, mas nada funcionou.</p>
<p>Quando herdaram a casa, Dário e Jonathan lembraram daquele dia do cachorrinho, do vizinho amigo do pai, e do próprio pai, que nunca mais foi o mesmo depois do divórcio, até a velhice, até a morte. Eles dividiram a mobília toda, como dividiriam os custos da demolição e o dinheiro da venda do terreno, mas a mesa, a mesa da canastra, eles resolveram colocar na casa de veraneio que compartilhavam, em Chapada dos Guimarães, pra onde iam com as esposas e os filhos, e onde jogavam canastra, porque a mesa, eles tinham que admitir, a mesa era boa demais pra não ter esse destino. Pensavam igual, a maior parte do tempo, os dois irmãos.</p>
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