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	<title>Flash Fiction &#187; Realismo Fantástico</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
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		<title>Do caroço dissolvido no fundo do estômago</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2018 18:22:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Nos intervalos do soluço das noites frescas, que se instaurava com os dentes pretos na janela furadinha do quarto tocando dança no trilho, eu ouvia. A voz saindo da boca dela. No chão de piso retangular, ao pé da cama, Frida. Ela se enroscava, já tinha um buraco perfeito no ponto em que a coxa conectava com o quadril. Enrodilhada em sua coluna privada, o plástico prateado do coliseu da dona, de onde aspirava o ar empesteado de esmalte e de madeira da mesa sem verniz.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Nos intervalos do soluço das noites frescas, que se instaurava com os dentes pretos na janela furadinha do quarto tocando dança no trilho, eu ouvia. A voz saindo da boca dela. No chão de piso retangular, ao pé da cama, Frida. Ela se enroscava, já tinha um buraco perfeito no ponto em que a coxa conectava com o quadril. Enrodilhada em sua coluna privada, o plástico prateado do coliseu da dona, de onde aspirava o ar empesteado de esmalte e de madeira da mesa sem verniz.</p>
<p>Da minha cabeça, era. A voz. Cadela não falava, latia. E latia no seu característico rufo rouco, quase pestilento depois duma espécie de gripe que a fazia espirrar de hora em hora. Não na voz da minha vó, bença, que se soltou das bordas do túmulo depois de segurar ali por muito tempo, os dedos enodoados crivando a testa e a paciência da morte. Seria típico, tão típico, da minha vó bruxa, bença, tirar da bainha que a gente nem sabia que ela tinha uma adaga, só pra futricar a ponta duma espinha na testa, dar olhar recruzado, guardar e sair pitando pela casa.</p>
<p>A vó, bença, foi quem me deu Frida. Eu ainda era novinha. Frida era cachorra de rua que vó pegou, bença, e se dava com os gatos dela numa boa, que era o motivo de ter ficado. Me deu no meu aniversário de dez, o que a deixava agora com o quê, uns 20 anos, no mínimo. Uma anciã, Frida. Me dava sossego por caroço de ameixa. Tratado de paz. Preu estudar, trabalhar nos frilas, comer quieta, assistir meu Westworld sem aporrinhação: um caroço. Ela roía até o fim aquilo.</p>
<p>Lembro que eu não queria Frida. Vó, bença, insistiu. Meus pais também não queriam na casa deles, sempre organizada e sem espaço pra bagunça depois que cresci. Mas lá iam recusar presente dela? Nunca. Aliviaram quando o armário de lá esvaziou e encheu aqui em Cuiabá, pra onde vim estudar e fiquei. Quando visitava, um único pedido: deixa Frida aí, com um vizinho, um amigo.</p>
<p>No meu apê, não saberia me acostumar sem Frida. Mas era tempo, eu sabia, só tempo, que cachorro não vive muito mais que isso. E a morte era esperada, prevista, não a voz. A voz tinha começado matreira, noite dessas. E agora queria se insinuar noutros momentos, como quando cheguei em casa com as compras semana passada e Mariana ouviu, ela melhor que eu, a cadela falar. Não sabia dizer o quê, mas ouviu. Com caroço de ameixa, sossegava. Dei um.</p>
<p>As coisas de vó, bença, ficaram pros outros repartirem. Meu pai, filho mais novo dela, era quem menos queria revirar aquele monte de tralha. Doído ele, que a mãe tinha criado todos os outros oito filhos com carinho, fruto do mesmo pai, marido, e ele tinha saído às avessas depois da morte do homem, com alguém que ninguém conhecia. Amor atravessado, o que ela sentia, e ele cresceu assim, largado de colo. Ela benzia todo mundo, menos ele. E eu sentia que carregava essa herança de desgosto porque vó, bença, nunca tinha demonstrado nada por mim também, e só tinha me dado uma coisa. Frida.</p>
<p>Antes deu sair pra aula, Frida parou na porta. Abriu a boquinha. Me leva pro teu pai, ela disse. Assim, mexendo boca e tudo, como nunca tinha acontecido antes. A voz de vó, bença. Eu matei a aula, peguei o carro e toquei pra Campo Verde. Pai tava no trabalho, na prefeitura, mas saiu pra gente tomar um café quando mandei um whats. Frida deitada no banco traseiro. Ele não gostou quando falei que tinha trazido ela. Fui pegar no colo. Morta. Meu pai olhou meio aliviado. Disse que resolvia, enterrava no quintal. Fomos pra casa dele, cavou a terra com uma pazinha de jardinagem. Colocou Frida lá. Tampou, apalpou.</p>
<p>Só chorei quando cheguei em Cuiabá, tarde da noite, e olhei pro pé da cama onde ela dormia.</p>
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		<title>Da estrutura insistente da chama</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Feb 2018 15:07:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Esturricando. Mais que isso. Cheiro de algo carbonizado que continua queimando, plástico que cozinha na panela de seu sangue artificial, cinza prensada sobre cinza ardendo no coração de um carvão infindável. Cheiro que faz arder a gengiva, seca os olhos, escala as narinas e ferra as cartilagens como faca enfiada e torcida por mão treinada.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Esturricando. Mais que isso. Cheiro de algo carbonizado que continua queimando, plástico que cozinha na panela de seu sangue artificial, cinza prensada sobre cinza ardendo no coração de um carvão infindável. Cheiro que faz arder a gengiva, seca os olhos, escala as narinas e ferra as cartilagens como faca enfiada e torcida por mão treinada.</p>
<p>Há semanas que acordo com esse cheiro impregnado no corpo, na cama, no quarto, mas ele evapora com as remelas, numa esfregada. Lavo o rosto no banheiro, baldes e baldes de água no cavuco da mão. A memória do cheiro some no correr do dia, como sonho que evapora no andar das horas, e parece mesmo isso, um sonho desperto que tateia as fibras da realidade mas nunca pode meter a cara e arrebentar as divisas que separam uma coisa da outra.</p>
<p>— Tudo bem, amor? — vem do quarto a voz de Mona. Ela sempre acorda quando me levanto e fica esparramada na cama, mexendo no celular.</p>
<p>— Tudo. Só aquele cheiro de novo — falo alto pra ela me ouvir atrás da porta fechada.</p>
<p>Entro no box, ligando a ducha no máximo, a água morna furando o embaraço do cabelo pra massagear o couro. Minha mãe, dizendo que se deixasse eu passava horas embaixo da água. Lembro dela nos finais de semana, perguntando trocentas vezes por dia se a gente tava com fome, querendo enfiar goela abaixo a comida que não tinha tempo de fazer durante a semana, e eu minha irmã preocupados com os desenhos, brigando pelo controle da TV. Ela vestia um roupão no sábado de manhã e só tirava na noite de domingo, quando dizia que tinha recuperado as forças pra voltar pro hospital. Recepcionista do meu pai, cardiologista, mesmo depois do divórcio, conectando as ligações no consultório das namoradas que apareciam, uma depois da outra. Ainda hoje me pergunto porque ela se torturava desse jeito.</p>
<p>— Vamos, Miguel, sai desse chuveiro, preciso me arrumar — Mona diz, entrando.</p>
<p>Pego o xampu e esfrego, olhando através do vidro do box os contornos dela escovando os dentes, depois espremendo uma espinha no queixo. Minha esposa é linda. Apesar das manchas fuliginosas cada vez mais espalhadas pelo corpo, ameaçando cobri-la toda.</p>
<p>Visto o uniforme da fábrica e deixo a água esquentando na cozinha. Começo a passar manteiga num pão de forma quando Mona vem lá de dentro pelada, abre o zíper da minha calça e enfia meu pau na boca. Me empurra na poltrona e continua até sentir ele duro. Então encaixa os joelhos nas almofadas e senta. Aperto sua bunda e seguro mas é ela quem dita o ritmo. Não digo que não posso me atrasar nem que é melhor tirar o uniforme porque sei que Mona é assim, intempestiva. Ela mexe até cansar os joelhos e pede pra ficar por baixo. Ergo ela e a coloco na poltrona, segurando suas pernas abertas na altura do peito.</p>
<p>Então sinto de novo. O cheiro do fogo, estalando sob a chaleira, um estopim, mas mais que isso. Esturricando, ardendo. Um lampejo de dor que quase abre a cabeça no meio. Me afasto de Mona, tropeçando até a parede, as mãos nas têmporas, querendo manter as metades juntas.</p>
<p>— Amor, o que foi? Você tá bem? — ela me pega pelos ombros, tentando ler meu rosto. Me leva até a cadeira, me dá um copo de água. Bebo. Tem gosto de cinzas. — Vamos no hospital, Miguel. Liga no trabalho, eu levo você.</p>
<p>— Não precisa, eu tô bem. Tô bem. Já passou.</p>
<p>Ela fica mais um tempo tentando me convencer. A chaleira apita. Água no filtro. O cheiro do café encobre tudo.</p>
<p>— Tô pensando em visitar minha mãe depois do serviço, Mona. Quer ir junto?</p>
<p>— Querido, sua mãe não tá mais por aqui, lembra? Já falamos sobre isso antes.</p>
<p>Tomo o café e saio. Aperto o botão do elevador, mas vejo a fumaça saindo por debaixo da porta. Não vai subir. Pelas escadas, então. Os vizinhos continuam ali, caídos de um jeito e de outro, encolhidos, espremidos contra os degraus. As paredes pintadas de espirais negras. Na frente do edifício, venço a montanha de detritos, obstáculos empretecidos que me separam da cidade.</p>
<p>Na esquina, no ponto de ônibus, sento e fico olhando o prédio, as janelas ainda soprando filetes espiralados. Olho pra entrada, vazia de gente, soterrada de todos os lados, o portão derrubado, a calçada tomada. Já não sinto vontade de voltar. Sinto vontade de tomar aquela ducha de horas. Da comida de minha mãe durante os desenhos.</p>
<p>O ônibus chega. O motorista nem me cumprimenta mais, escandalizado com o rastro de fuligem que deixo por onde passo, na rua, no corredor do veículo. Sou o único que senta sozinho nos bancos duplos, aproveitando o vento gelado da rua, que leva o cheiro de queimado pra trás, pro fundo, pra longe.</p>
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		<title>Vontade é coisa mambembe</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Nov 2017 17:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Sempre que passava um circo pela cidade lá tava o seu Valdivo pendurado na grade, a silhueta da roupa dele recortada pelas luzes coloridas, as costas bem retas, a cabeça de um lado pro outro, seu fiel hipopótamo parado do lado, olhando pra dentro também. Os dois largavam a carroça empinada no chão e respiravam aquilo, mergulhavam os olhos naquela atividade barulhenta e viva do circo, de longe. A gente sempre cumprimentava eles, o seu Valdivo falava opa e o hipopótamo, que a gente chamava de Chico embora o dono insistisse que ele preferia Francisco, o Chico não cumprimentava de volta não, ficava ali pasmado com aquele olhar bovino, bovino é a palavra errada, melhor olhar hipopotámico, que combina mais, aquele olhar perdido de quem morreu dentro do corpo, que parece que vem de dentro da cabeça e atravessa as coisas e cola no alvo mais por costume que por vontade, sabe. Ficavam ali a noite toda e às vezes a gente dava resto de alguma coisa pro seu Valdivo comer, e muito de vez em quando dava pra pegar de relance ele fazendo um carinho nas bochechonas do Chico, o bicho estacionado, arriado.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre que passava um circo pela cidade lá tava o seu Valdivo pendurado na grade, a silhueta da roupa dele recortada pelas luzes coloridas, as costas bem retas, a cabeça de um lado pro outro, seu fiel hipopótamo parado do lado, olhando pra dentro também. Os dois largavam a carroça empinada no chão e respiravam aquilo, mergulhavam os olhos naquela atividade barulhenta e viva do circo, de longe. A gente sempre cumprimentava eles, o seu Valdivo falava opa e o hipopótamo, que a gente chamava de Chico embora o dono insistisse que ele preferia Francisco, o Chico não cumprimentava de volta não, ficava ali pasmado com aquele olhar bovino, bovino é a palavra errada, melhor olhar hipopotámico, que combina mais, aquele olhar perdido de quem morreu dentro do corpo, que parece que vem de dentro da cabeça e atravessa as coisas e cola no alvo mais por costume que por vontade, sabe. Ficavam ali a noite toda e às vezes a gente dava resto de alguma coisa pro seu Valdivo comer, e muito de vez em quando dava pra pegar de relance ele fazendo um carinho nas bochechonas do Chico, o bicho estacionado, arriado.</p>
<p>Nossa teoria é de que o Chico fazia isso pra lembrar do passado dele, já que tinha vindo do circo, uma trupe antiga que o abandonou aqui com uma micose feia nas patas traseiras que ia avançando pro resto do corpo e minava as forças, e seu Valdivo ficou cuidando dele no sítio até o veterinário chegar da cidade, cuidou do bicho como quem cuida do filho, e mesmo contra as palavras do médico o Chico melhorou e passou a viver com os bois e os cavalos tudo junto e irmanado. Todo circo que passava perguntavam quanto o seu Valdivo queria no bicho, porque é demais de atração no Brasil um desses, ninguém entendia como ele veio de navio sozinho e viveu sozinho aqui tanto tempo e teve força pra se curar da micose feia sem remédio nem nada, e o dono dizia que o bicho nasceu forte mesmo, feito gente destemida. Os outros futricavam mas eu não dava bola não, que o que teve ali no sítio do seu Valdivo foi bruxaria, já que ele matou todos os porcos quando o Chico chegou e não vendeu, e só ele sozinho não ia conseguir comer, e todo mundo sabe que o Chico detesta carne e o que fizeram com os porcos então, só podia ser, diziam, que ele deu a vida daqueles todos pela vida daquele um.</p>
<p>Fato é que depois desse circo que trouxe o Chico eles continuaram vindo, de todos os tipos e tamanhos e atrações, e a gente achava engraçado os dois olhando pra dentro, lá de fora da grade, olhando pras coisas e pras pessoas animadas, e faz tanto tempo que eles têm vindo que eu me pergunto mesmo se algum dia pararam de vir, parece que um colou no outro e no outro e no outro e a gente foi se deixando ficar e quando viu tava equilibrando faca na cabeça e fazendo malabares e correndo atrás de maquiagem pros palhaços e vendo se os trapézios e os caixotes de serra tavam arrumadinhos e ficou parecendo, depois de um tempo, que na verdade não é bem que o Francisco tinha o olhar perdido, o olhar dele não parece nem um pouco perdido quando a gente quer fazer uma pausa pra dar uma descansada, parece queimar no lombo já que o circo não pode parar, e mesmo aquele velho carinho que o seu Valdivo faz nas bochechas dele, que a gente sabe que nasceu do amor incondicional de quem foi deixando de cuidar do sítio pra se mudar pro trailer ali perto da grade, não parece mais carregado de amor, como não parece qualquer tipo de coisa hipopotámica que o seu Valdivo faz nesses dias, vira e mexe é nos olhos do seu Valdivo que agora a gente vê aquele olhar perdido antes dele entrar pela portinha do trailer de gerente onde foi morar.</p>
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		<title>A balada do óleo de soja</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Oct 2017 09:52:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já tá saindo aí, Márcia?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Já tá saindo aí, Márcia?</p>
<p>Já, já, seu Robson. Um minutinho.</p>
<p>Na gordura as minúsculas coxinhas e bolinhas de queijo e quibes e pastéis vão ganhando cor, consistência. O cheiro é sufocante, dane-se a touca e o avental. É coisa que sempre penetra nas grutas da pele.</p>
<p>Todo dia compro um cigarro, um só, na distribuidora perto de casa, e deixo pra fumar entre o encerramento dos pedidos do dia, pertinho das 6, e a limpeza da cozinha. Seu Robson não gosta, mas não pode fazer nada, guardo a pausa da tarde pra isso. Ele diz que a patroa não gosta que a gente fume ou fique de bobeira na rua de uniforme, então espero dar essa hora pra tirar e saio pro calçadão. O Júnio, da loja de brinquedos vizinha, me empresta o isqueiro.</p>
<p>E aí, Júnio, tranquilo?</p>
<p>Opa, Márcia, hoje passou voando, ein.</p>
<p>Só se for procê, fio. Tava contando os minutos.</p>
<p>Nessa hora o sol já tá escalando os ombros das lojas, barrado pelos prédinhos do outro lado, no caso do nosso lado, então junto com a quentura do fogo vem a quentura da parede dos fundos assando. Seu Robson reclama que a gente reclama demais, que daqui a pouco vamos querer ar-condicionado pra trabalhar, e puta que pariu, seria o mínimo. Mas a patroa não vai gastar, já disse inclusive que se as vendas ficarem assim ela não renova o contrato pro próximo ano, que o povo do calçadão não quer saber de salgadinho, só de açaí, que devia ter aberto a loja na Joaquim Murtinho ou na Barão de Melgaço, que dão pra rua onde passa carro, não aqui nesse esconderijo.</p>
<p>O Marcelinho e o Gustavo, que trabalham comigo na cozinha, e já trabalharam em tudo que é lanchonete aqui do centro antes, falam que nunca ouviram patrão falar que o negócio tá bom. Tá sempre ruim, sempre perigando fechar, sempre tendo que mandar funcionário embora, mas sempre rola carro novo na garagem e viagem no final do ano. Mania de brasileiro de falar que a vida tá sempre uma bosta.</p>
<p>Quando volto pro serviço os dois já tão terminando de varrer, então encho o balde com água e produto, pego pano e rodo. Eles partem pra louça. Hoje não é dia de trocar a gordura, então vai rápido. Seu Robson termina de fechar as contas do caixa e coloca tudo num envelope com a data em cima e enfia no cofre, pra patroa pegar na manhã seguinte. Quando terminamos, ele chama o Gustavo. Diz que a patroa pediu pra agradecer o serviço mas infelizmente vai ter que dispensar ele. Eu e Marcelinho ficamos ouvindo lá da cozinha o Gustavo dar um jeito de responder sem armar choro ou birra, que a gente sabe que tá com filho pequeno e vai ser dureza se não achar outra coisa.</p>
<p>Depois que o Gustavo sai, Marcelinho pergunta pro seu Robson se tá procurando outro funcionário, ele tem um primo caçando emprego. Seu Robson diz que nós dois vamos ter que dar conta do serviço, não vai ter como contratar mais um por agora. Tamos fudidos, se com três já tava difícil. Marcelinho dá tchau, sai apressado pro ponto com a mochila nas costas.</p>
<p>Vou no banheiro pra lavar as partes e depois me debruço em cima da mesa empoeirada do depósito e seu Robson vem atrás e cola as coxas peludas dele nas minhas. Quando enfim termina de estrebuchar e apertar minha bunda, diz que vamos ter que parar com isso, que a esposa andou reclamando que ele não tá mais dando no couro em casa. Coloca os cinquentinha na minha mão.</p>
<p>Você que sabe, seu Robson.</p>
<p>E você anda com essa coisa de fumar, fica impregnado no cabelo o cheiro, odeio isso.</p>
<p>Quando chego em casa, Ronaldo tá largado no sofá, vendo a novela, só de bermuda. Os brinquedos da Soninha tão espalhados pela sala.</p>
<p>Trouxe dinheiro hoje, Márcia?</p>
<p>Trouxe mas é do mercado. Tá vazia a geladeira.</p>
<p>Que que tu quer? Eu compro ali na venda.</p>
<p>Na venda não, Ronaldo, é o triplo do preço. E vai comprar cerveja que eu sei.</p>
<p>Cala a boca, mulher. Qualquer coisa tu pega outro vale amanhã.</p>
<p>Depois que o desgraçado sai, vou no quarto da Soninha. Ela tá brincando com as bonecas.</p>
<p>Oi, filha. Vem aqui dar um abraço na mãe.</p>
<p>Oi, mãe!</p>
<p>Ela me abraça e conta do dia na escola. Tento controlar o choro, que vem involuntário assim, de vez em quando. Ela percebe. Diz que quer me mostrar uma coisa.</p>
<p>Vai até a parede, pega um giz de cera, desenha uma porta com a maçaneta. Abre, entra. Vou atrás. É uma praia cheia de cadeiras na areia e gente com prancha debaixo do braço, um moleque andando com um braseirinho lotado de queijo coalho, carrinhos de sorvete, tendas de milho cozido e água de coco.</p>
<p>Tá vendo, mãe? É praqui que eu venho quando tô triste. Você pode vir pra cá quando quiser também.</p>
<p>É lindo mesmo, filha. Vai brincar, vai, a mãe fica aqui te esperando.</p>
<p>Sento na areia. Soninha fica no raso, brincando de pular os restinhos das ondas. Fico imaginando se dá pra chegar a nado naquelas ilhas do horizonte. É minha primeira vez, nunca vi o mar. Nunca nadei na água salgada. Nunca fiquei com o biquíni cheio de areia, como dizem na novela. Mas tenho certeza que a praia tem um cheiro gostoso, salino, refrescante. Não esse cheiro de fritura.</p>
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		<title>Da permanência da terra</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/da-permanencia-da-terra/</link>
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		<pubDate>Thu, 05 Oct 2017 13:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O primeiro serviço de Rúbio para a construtora Mariny foi avaliar o terreno aos pés de um antigo edifício de nove andares no centro de São Paulo, na região da Sé. Vários incidentes confluíram para jogar seu preço lá embaixo, nos estertores da tabela imobiliária, incluindo arranca-rabos entre moradores que tornaram rotineira a visita da polícia, desabamentos no último andar, locatários que caíram das sacadas, uma colisão fatal nas pilastras do estacionamento, vazamentos que encanador algum conseguia consertar; mas sem dúvida a joia da coroa foi a pane elétrica que incendiou o prédio e torrou doze moradores, resultando em processos contra uma empresa à beira da falência que a essa altura já se consideraria feliz em pagar para retirar seu nome da escritura.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O primeiro serviço de Rúbio para a construtora Mariny foi avaliar o terreno aos pés de um antigo edifício de nove andares no centro de São Paulo, na região da Sé. Vários incidentes confluíram para jogar seu preço lá embaixo, nos estertores da tabela imobiliária, incluindo arranca-rabos entre moradores que tornaram rotineira a visita da polícia, desabamentos no último andar, locatários que caíram das sacadas, uma colisão fatal nas pilastras do estacionamento, vazamentos que encanador algum conseguia consertar; mas sem dúvida a joia da coroa foi a pane elétrica que incendiou o prédio e torrou doze moradores, resultando em processos contra uma empresa à beira da falência que a essa altura já se consideraria feliz em pagar para retirar seu nome da escritura.</p>
<p>Rúbio nem bem adentrou o prédio e sentenciou ao responsável pela reforma: derruba.</p>
<p>Não havia como quantificar com precisão as necessidades de dado terreno; que, por exemplo, para apaziguar um assassinato são necessárias tantas sessões de meditação ou tantas crianças brincando e gargalhando durante tantos meses ou anos. Mas é possível avaliar e estimar e reavaliar até o processo ser concluído. Não se tratava de Feng Shui, mediunidade, um sentido extra aflorado; mas se tratava também disso. Rúbio possuía uma única certeza: a gravidade abarca mais que o mundo físico. Ela achata contra o solo o que quer que transcorra sobre a superfície. Tudo é abocanhado pela terra.</p>
<p>A maior parte das cidades foram erigidas em torno de antigas vilas e comunidades rurais. Foram nesses locais que se debruçaram por períodos esquecidos as mais diversas encenações de amor ou guerra, cristalizadas em heranças cobertas por asfalto e cimento e estuque, por tijolos e armações de metal e vidros. É sobretudo no centro velho das cidades que mais se encontram terrenos rancorosos como o do prédio da Sé.</p>
<p>Na avaliação inicial de Rúbio, ele custaria à empresa três anos de atividade intensa. Acharam melhor garantir cinco; a margem de erro era larga. O <em>modus operandi</em> da Mariny conquistou a administração pública. A empresa demolia as estruturas sobre o terreno adquirido e construía um parque, oferecendo várias atividades gratuitas para a comunidade. Pelo tempo que ficasse aberto, a prefeitura isentava a cobrança de impostos e mantinha a isenção por um número igual de anos depois que o parque fosse fechado e a construção idealizada levada a cabo. Isso não atrapalhava a imagem de uma iniciativa privada responsável, preocupada com o bem-estar público, e o ganho era duplo: ao fim do período, o terreno estaria purificado.</p>
<p>O novo parque na Sé oferecia uma área de equipamentos para as crianças, bancos de madeira sob as árvores transplantadas, centro de exercícios, aulas diárias de ioga, meditação e Tai Chi Chuan, oficinas de literatura e desenho nos finais de semana, apresentações eventuais da orquestra estadual e bandas escolares na concha acústica. A empresa provia segurança 24 horas, iluminação dedicada e bebedouros. Não poupavam dinheiro. Talvez por isso os braços e pernas quebrados no centro de exercícios, os desmaios súbitos e um ou outro indício de possessão infantil confundido com ingestão exagerada de açúcar fossem relegados pelo público à esfera dos acidentes inevitáveis da vida.</p>
<p>Em quatro anos a nova frequência energética sufocou a antiga. No fim do quinto ano, a Mariny transferiu o que podia dos equipamentos para um novo terreno na Consolação e iniciou a construção de um prédio de 17 andares. A intenção inicial era um edifício de salas comerciais para locação, mas a avaliação final de Rúbio foi tão boa que o conselho resolveu instalar ali sua nova sede administrativa. A essa altura ele já havia prestado consultoria no mundo todo, sendo procurado por outras empresas e governos. Mas detinha uma relação especial com a construtora Mariny, que o havia descoberto. Na cobertura do prédio da Sé ficava um escritório exclusivamente seu, que visitava muito pouco, ainda que o considerasse uma espécie de casa.</p>
<p>Não parece exagero dizer que quando faleceu ali aos 85 anos, sentado em sua poltrona de frente para a grande vidraça que dava vista para as dezenas de prédios da Mariny que haviam crescido no entorno daquele primeiro, Rúbio tenha sentido com certa satisfação a pressão da gravidade roubar-lhe as dimensões do corpo e arrastá-lo até o cerne terroso.</p>
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		<title>De muros que sonham destinos</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jun 2017 00:15:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Diante do muro da ponta norte do jardim há um formigueiro, o único no terreno. Por isso sei que é dali que saem as formigonas que andam pela casa. E foi o muro que atrasou elas.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Diante do muro da ponta norte do jardim há um formigueiro, o único no terreno. Por isso sei que é dali que saem as formigonas que andam pela casa. E foi o muro que atrasou elas.</p>
<p>Dona Maria tem o hábito de fazer bolo de fubá depois do almoço, quando meus pais se deitam, e eu e minha irmã brincamos no quarto ou na sombra da mangueira nos fundos. Dona Maria usa melado no lugar do açúcar, e sempre que pinga em algum lugar, como o tampo da mesa ou da pia, é questão de minutos até que as cocôzentas apareçam. Ontem ela deixou pingar na tampa da panela de pressão e não percebeu.</p>
<p>Minha mãe desceu a escadaria e pegou duas latas de leite condensado pra fazer doce de leite. Apanhou a panela de pressão e a tampa em cima da mesa, notou o pingo do melado e esfregou com a esponja. Fez rocambole e comemos no café da tarde. Bem diferente do que aconteceu no meu sonho de semanas atrás.</p>
<p>Nele, minha mãe desceu, pegou as latas de leite condensado e enfiou na panela. Quando apanhou a tampa, despreocupada em uma conversa com Dona Maria, não percebeu as formigas. Só percebeu ao sentir duas delas escalando sua mão e soltou o que segurava; a panela despencou no pé descalço; ela pulou com o outro pé e se desequilibrou e caiu de lado; bateu a cabeça na ponta da mesa; convulsionou no chão, a poça de sangue ao redor da cabeça cada vez maior.</p>
<p>O muro das formigas não foi o primeiro. Seu Joca, que é o faz-tudo da casa, me ajuda. É ele quem mistura o cimento e a areia e a água, é ele quem carrega o balde, é ele quem junta as pedras grandes no seu tempo livre pra criar a estrutura. Mas o muro eu construo sozinho. Que só eu sei as medidas. Ele observa, dá um pitaco ou outro, diz que nunca viu criança brincar de construir muro de verdade.</p>
<p>Até agora já consegui desviar um vendaval que derrubava e entrevava Dona Maria no varal de roupas, a vista da casa aberta de um lobo fugido da matilha, minha irmã da trilha que acabaria com seu pé enroscado em uma cobra, meu cachorro de ver um pombo morto caído na grama e de futricar e lambiscar um pedaço podre e morrer com febre no estômago, as formigas de derrubarem minha mãe. Um pra cada sonho, e não paro de sonhar. Meus pais dizem que nosso quintal tá virando um cemitério, os muros feito lápides erguidas do solo. Mas por enquanto me deixam em paz.</p>
<p>Precisam me deixar em paz pelo menos até o dia em que meu pai, grilado depois de alguma discussão, vai andar pelo jardim à noite e sentar em cima do muro mais alto que ainda vou construir e ficar encarrapitado ali em cima, fumando um cigarro. Só por causa da vista privilegiada, vai notar algo se mexendo no rio lá embaixo. Vai encontrar um nenêzinho numa cesta, vindo sabe-se lá de onde. Vai trazer pra casa e criar até o neném virar Astolfo, meu irmão, que ainda vai me passar a perna e quebrar meus brinquedos e roubar a atenção que eu ganho da minha irmã. Família é assim mesmo, tem a parte boa e a ruim. A boa é que eles vão ficar tão felizes que vão me deixar construir muros por muito tempo ainda, pelo menos até onde os sonhos chegam.</p>
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		<title>Das formas de encontrar a cura</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Jun 2017 14:38:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Josaldo se agarrou ao poste, coçando a perna, rodeando a ferida que sulcava a carne e coçava, coçava. Era quase a esquina da rua, dali já via um pedaço da casa encaixada malograda no declive, verruga que deus queria coçar na couraça da terra. Casa pintada de sujeira do vento, ondas nas paredes feito filtro de foto velha.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Josaldo se agarrou ao poste, coçando a perna, rodeando a ferida que sulcava a carne e coçava, coçava. Era quase a esquina da rua, dali já via um pedaço da casa encaixada malograda no declive, verruga que deus queria coçar na couraça da terra. Casa pintada de sujeira do vento, ondas nas paredes feito filtro de foto velha.</p>
<p>A vó sentava na varanda com os pés cruzados, olhando pelos óculos o mundo que já não reconhecia. Mas reconheceria a moldura do rosto do neto, moldada pelos seus carinhos de infância. Josaldo se surpreendeu que ainda estivesse viva depois de tanta amargura; ironia que a mais judiada sempre tivesse mais força pra encarar as desgraças e depois morresse por um troço qualquer, um coágulo, um tombo, uma tosse besta.</p>
<p>A rua vazia clamava os passos, ele não ia. Coçou de novo a ferida. O sangue manchou as unhas. A carne já não suportava o contato, queria se desfazer, queria expurgar o pus ou o caroço que se escondia ali dentro. Ele precisava andar. O vento ajudou. Um pé foi e o outro em seguida e logo estava diante da velha, que não esboçava reação. Baixou a cabeça.</p>
<p>Bênça, vó.</p>
<p>Nem um respiro, uma fungada, um desdenho. Josaldo pegou nas mãos dela, o remorso comendo tanto que não sentiu o frio, só entendeu a imobilidade como negação da sua presença.</p>
<p>Entrou na casa. Carolina via TV no sofá da sala. Se encolheu quando o vulto sentou na cadeira na ponta da mesa. Josaldo a encarou nos olhos, tentando ignorar a marca enorme na bochecha, da vez que afundou seu rosto com a panela. Ou a costura no pescoço quando abriu um talho com a faca, dali pro pronto-socorro, nunca levaria a cabo a ameaça. Ou o braço torto depois da queda na escadaria do porão, osso que não colou direito. Ou tantas outras memórias inscritas na carne mole, agora mais mole, a urina lavando a calça de moletom.</p>
<p>Desculpa, Carolina. Eu vim te pedir perdão, amor.</p>
<p>Ela se encolhia cada vez mais no sofá, procurando caber na reentrância entre as almofadas.</p>
<p>Me perdoa, amor. Olha a minha perna. Essa ferida que você que fez no dia que eu fui embora. Jogou óleo quente, lembra? Isso não sara. Acho que é porque você fez de zanga. Gorou minha perna. Assim vou ter que cortar ela fora, só que alastra. Me perdoa, Carolina. Não vim pra fazer nada, só pra pedir isso.</p>
<p>Carolina achou a reentrância. Se empurrou com os pés no assento até entrar de vez. Josaldo levantou, procurou a esposa enfiada no sofá. Nada.</p>
<p>Carolina, sai daí, meu bem. Sai daí.</p>
<p>Josaldo esperou, se distraindo com a TV. Os dias desenrolaram lentos. Lá fora, a vó seguia imóvel. A única coisa que se movia era a gente na tela da TV. Convencido de que Carolina não voltaria, andou pela casa. Entrou no quartinho, a cama de Júnia desarrumada.</p>
<p>Sentou no colchão, olhou os pôsteres de desenho nas paredes, o computador, a mochila aberta na cadeira. Coçou de novo a ferida. Preta. As veias pretas se espraiando do núcleo gosmento sob a pele. Latejava. Cruzou a perna ruim sobre a boa, analisou com cuidado. Tinha um rosto ali. O rostinho de Júnia. Não podia ser. Onde se enfiara a filha?</p>
<p>Foi até a varanda. A vó inútil, indiferente, não deu atenção. Não lhe notou a existência pela segunda vez. Josaldo foi embora, se segurando nos postes, se agarrando às cercas e aos muros, incerto de que conseguiria chegar ao hospital antes que a ferida se alastrasse pelo corpo todo, a certeza abalada de que serrar a perna garantiria a vida.</p>
<p>Júnia se jogou pra frente. O corpo caiu no gramado. Abriu as costuras nas costas da avó, saiu e sentou a carcaça de volta na cadeira. Procurou a mãe pela casa. Nada. Sentiu o cheiro de urina no sofá. Mas da mãe nada. Nem o choro constante. Nem os olhos remelentos de um lado pro outro. Nem os cabelos arrancados pelo corredor. Júnia rezou pra ferida piorar e pro pai morrer pelo caminho.</p>
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		<title>Do Que Esquecem No Carro</title>
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		<pubDate>Wed, 03 May 2017 21:31:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Mariana tava no sofá cochilando, o filme ligado. Catei os sacos de salgadinho e as latas de refrigerante, joguei no lixo e saí pra fumar na escadaria do condomínio. Um carro chegou, casal de idosos que eu conhecia de vista. Acenei, acenaram de volta. Acendi um cigarro e sacudi o maço. Mais três. O exato pingado do dia seguinte; um antes do trabalho, um no almoço, um entre a janta e a viagem pro curso. Depois o tempo necessário sem fumar pro cheiro diluir a ponto de Mariana não reclamar quando eu chegasse.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mariana tava no sofá cochilando, o filme ligado. Catei os sacos de salgadinho e as latas de refrigerante, joguei no lixo e saí pra fumar na escadaria do condomínio. Um carro chegou, casal de idosos que eu conhecia de vista. Acenei, acenaram de volta. Acendi um cigarro e sacudi o maço. Mais três. O exato pingado do dia seguinte; um antes do trabalho, um no almoço, um entre a janta e a viagem pro curso. Depois o tempo necessário sem fumar pro cheiro diluir a ponto de Mariana não reclamar quando eu chegasse.</p>
<p>Ainda sem sono, fui andar pela garagem. Gostava de ver o que deixavam nos carros. Pastas, embalagens de comida, compras esquecidas, brinquedos dos filhos. Num banco traseiro vi algo peludo e preto. Encostei o rosto no vidro pra enxergar melhor. A coisa se mexeu, ergueu a cabecinha encaixada entre as patas e me olhou. Parecia um gato. Testei a trava. Aberta. Recolhi com cuidado nos braços e fechei a porta. Minha mão ficou encardida de sujeira, o dono não lavava há anos.</p>
<p>Coloquei-o no bercinho vazio de Fernanda. Peguei um pouco de leite na geladeira e cortei uma almôndega em pedaços. Comeu devagar. Quando Mariana acordou ele já tinha terminado e tava deitado de bruços, eu acariciando sua barriguinha. Ela perguntou o que era aquilo no berço e eu disse que era um gato que encontrei na garagem. Ela disse que aquilo não era gato coisa nenhuma. Se equilibrou na parede. Disse pra eu jogar fora. Falei pra ela parar de ser boba.</p>
<p>Adormeci mexendo nele. Mas não tava sob meus dedos quando acordei. Fui pra cama. No escuro, fiz carinho no cabelo de Mariana mas senti ele fofo demais. Quando acendi a luz vi meu gato ocupando todo o lado da cama dela. Me olhou com aqueles olhinhos queridos. Dormimos.</p>
<p>Segui a rotina de sempre no outro dia. Quando cheguei em casa, vi um maço de cigarro lacrado na mesa. Gritei por Mariana, perguntando se aquilo era um presente. Ela saiu do quarto, desfilando o novo couro macio, peludo e preto, e me disse que sim. Depois do cigarro na escadaria, percebi outros três gatinhos nos bancos de outros carros.</p>
<p>Na semana seguinte, na confraternização do condomínio, eu era o único morador que não tinha aquela pelagem macia e não falava na língua estranha deles e não gostava dos bolos de carne crua que estavam na mesa. Até o casal de velhinhos fazia parte da roda. Comi rápido um sanduíche que Mariana tinha preparado e voltei pra portaria.</p>
<p>Agora cuido da entrada e mando embora os visitantes que aparecem perguntando sobre um ou outro inquilino. Digo que já se mudaram tem algum tempo, não vi mais, não tive notícia. Os carros na garagem estão quase todos cheios de gatos. Mariana disse que logo logo poderei levá-los pra passear pela cidade.</p>
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		<title>Velhas Garotas Também Têm Que Dar Seus Pulos</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Apr 2017 20:49:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Entra, ela diz, entra rápido.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Entra, ela diz, entra rápido.</p>
<p>Ele entra. Ela fecha a porta, tranca os cinco trincos. Vira, abre um sorriso e lhe dá um beijo no rosto. Sou a Rosângela, diz. Eu sou o, ela corta: por favor, não quero saber seu nome, é mais fácil assim. Caminham na direção da escadaria. Atraído pelo barulho da TV, ele para na abertura e olha a sala de estar, cheia de bebês em manjedouras de plástico e crianças nos sofás ou deitadas no carpete. Quem são esses? Do bairro, ela diz, aqui também é uma creche, cuido enquanto os pais trabalham. E não tem que ficar cuidando?, ele continua. Ela balança a cabeça. Não dão trabalho.</p>
<p>Rosângela pega a chupeta caída de um dos nenéns, os olhinhos vidrados na TV, e a enfia de volta na boca. Nossa, o homem diz, eles nem perceberam que estamos aqui. São viciados nesses desenhos, ela diz, e o puxa pra escadaria. No andar de cima o quarto, espelhos no teto e nas paredes. Ela começa a tirar a roupa.</p>
<p>Escuta, ele diz, e se alguma das crianças começar a chorar? Você vai ter que parar, certo? Acho que isso é bem corta tesão, na real. Acho bom avisar os clientes desse porém antes. Alguns nem topariam. Por isso eu não aviso, querido, diz Rosângela. As crianças não dão trabalho. E você perdeu o tesão, por acaso? Ela tira a calcinha.</p>
<p>Vale cade centavo, ele pensa, vendo o corpo tensionado sobre o seu de todos os ângulos. Ela segura seu braço a meio caminho dum tapa na bunda. Isso não, ela diz. Ele a vira de quatro e a pega pelo cabelo. Nota algo que passou batido antes, uma e outra mecha grisalha. Ela goza quatro vezes, ou finge, antes que ele termine. Ela o faz gozar na sua boca, vai pro banheiro e tranca a porta. Ele fica deitado, se observando no espelho do teto, recuperando o fôlego, o peito e os braços reluzindo. Ela demora pra voltar. Tudo bem por aí?, ele diz. Pega o dinheiro da carteira e coloca no travesseiro. Não se veste. Se ela topar repetir a dose, ainda tem dinheiro que chega.</p>
<p>Volta a deitar e vê no espelho que sua barba desapareceu. Toca o rosto. Não parece ele no reflexo. Aliás, parece, só que mais novo. Vê os pelos púbicos sumirem. Olha pra baixo. Realmente sumiram. Os do peito, dos sovacos. Quando volta a olhar o espelho, está menor. Pula da cama, começa a bater na porta do banheiro. Rosângela!, Rosângela!, e sente a voz afinando, as porradas cada vez mais baixas até que falta a força e o equilíbrio das pernas e o raciocínio.</p>
<p>Rosângela abre a porta, cabelos completamente brancos, o esperma cuspido dentro dum pote de palmito, acrescido de pequenas pedras e ramos e folhas. Ela apanha o neném chorando no chão e o deita na cama. Pega um macacãozinho azul do armário. Quando vai vestir o bebê, vê que ele cagou no lençol. Lava sua bunda na pia, coloca o macacão e se veste também. Desce a escadaria e o assenta numa manjedoura. Sua atenção é imediatamente capturada pelo desenho.</p>
<p>Rosângela faz um misto quente e sai pra comer na varanda. Cumprimenta os vizinhos que passam, embora não reconheçam a velha sentada ali.</p>
<p>Entra na casa, observa os 12 nenéns e crianças na sala. Desliga a TV. Quando se volta, vê apenas as manjedouras e o sofá. No espelho do corredor: viçosa, cabelos negros retintos. Abre a porta. A vizinhança tem árvores diferentes, residências menores, um som alto vindo de um rádio na esquina, onde jovens conversam sentados em cadeiras de praia, compartilhando uma cuia de chimarrão. Dois homens passam na frente da casa, incapazes de esconder a fascinação pela vizinha nova. Ela sorri.</p>
<hr />
<p><em>*a primeira versão deste drop foi publicada originalmente em novembro de 2016 na antologia on-line <a title="Esfinge Inaudita" href="http://beatnikscuiaba.blogspot.com.br/2016/11/esfinge-inaudita-mil-pequenas-coisas.html" target="_blank">Esfinge Inaudita &#8211; Mil pequenas coisas que sei sobre ela</a>.</em></p>
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		<title>Matias é um bom companheiro</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/matias-e-um-bom-companheiro/</link>
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		<pubDate>Wed, 01 Mar 2017 23:07:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><span style="text-decoration: underline;">Roberto Cardoso, 49</span><br /><br />
Quando o Matias apareceu no rio, o seu Dorival quase morreu de susto. Ele tava preparando o bote pra pescar e o cachorro dele, Piquito, tava brincando no rasinho. De repente um tubarão avançou do fundo, tentou abocanhar o Piquito e o cachorro de muito abençoado que só é que fugiu da dentada do bicho, que encalhou. Seu Dorival ficou doido, pensa, tubarão no rio. Inda pulando pra fora da água. Foi dar uma remada na cabeça dele mas nessa hora, sabe-se lá por quê, o seu Dorival achou que tinha que alimentar o bicho, não matar, então deu todos os mussuns que ia usar de isca e empurrou o Matias de volta.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><span style="text-decoration: underline;">Roberto Cardoso, 49</span><br />
Quando o Matias apareceu no rio, o seu Dorival quase morreu de susto. Ele tava preparando o bote pra pescar e o cachorro dele, Piquito, tava brincando no rasinho. De repente um tubarão avançou do fundo, tentou abocanhar o Piquito e o cachorro de muito abençoado que só é que fugiu da dentada do bicho, que encalhou. Seu Dorival ficou doido, pensa, tubarão no rio. Inda pulando pra fora da água. Foi dar uma remada na cabeça dele mas nessa hora, sabe-se lá por quê, o seu Dorival achou que tinha que alimentar o bicho, não matar, então deu todos os mussuns que ia usar de isca e empurrou o Matias de volta.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Jandira Souza, 37</span><br />
O Matias começou a aparecer sempre na mesma hora. É. Ele vinha, pulava, o povo do Aranha dava algo de comer e empurrava de volta. Um dos meus meninos, o Josa, teve ideia de passear com ele. É. Deixou o rolimã no jeito. Quando o Matias veio, rolaram ele com o remo pra cima do rolimã e levaram pra conhecer a pracinha, puxando com uma corda. É, sim. Todo mundo do Aranha lembra do Matias naquela primeira visita. Ele olhava tudo com uns olhos brilhosos, meio que de cego, sabe, mas a gente sabia que ele tava vendo tudo. É. Josa deu uma volta e correu com ele de volta pra água. Depois disso o Matias ficou uns dias sem aparecer. Seu Dorival, que era meio que o pai do Matias, disse que é porque ele não conseguia respirar fora da água. É. Ficou doente. Poisé. Mas depois melhorou.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Antônio Castro, 25</span><br />
Eu e meu irmão fomos na cidade comprar um aquário. Depois que seu Dorival falou aquilo que falou, a gente sabia que tinha que dar um jeito de deixar o Matias na água. Compramos um bem grandão. O seu Robson fez pra gente um rolimã enorme, onde dava pra encaixar o aquário no encaixe. Voltamos pro Aranha, enchemos de água e esperamos o Matias aparecer. Quando ele pulou, a gente colocou uma rede por debaixo dele enredando todo, levamos até o barranco e descemos ele pra dentro do aquário. Não dava pra se mexer muito, mas ele conseguia se virar prum lado e pro outro e parecia bem de virar assim. Juro que vi ele sorrindo. Meu irmão diz que é coisa da minha cabeça.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Rosana Rodoaldo Bezerra, 31</span><br />
Descobrimos a existência do Matias pelas fotos na internet. Eu sou da biologia, tem outro biólogo no grupo e um oceanógrafo. Estudamos na Universidade Federal do Maranhão e resolvemos verificar se a história procedia mesmo, seria um ótimo tema pra pesquisa. Pegamos o carro, viemos pra cá e comprovamos a veracidade das fotos das pessoas andando com um tubarão no aquário. O Matias é um <em>Carcharhinus leucas</em>, mais conhecido como cabeça-chata ou tubarão touro. Essa espécie desenvolveu adaptações no sistema de equilíbrio osmótico e portanto não se desidrata no rio. Essa plasticidade fisiológica permite a ele navegar por todas as águas, e é por isso que é encontrado em tantos lugares do planeta. Matias tem 1 metro e 35, 39 quilos. Não é o primeiro a aparecer nessa região, mas é o primeiro a se deixar domesticar, digamos assim.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Carlinhos Capó, 64</span><br />
A gente gosta demais quando ele vem. Tem dia que tá animado mesmo, e aí a criançada brinca, corre ao redor, joga pedaço de frango por cima do aquário e assiste ele comer com gosto. Imagina, um tubarão de estimação. Mas o Vadinho, vou te contar. Pivete atentado. Um dia ele jogou lá dentro o Piquito, o mesmo cachorro que o Matias tentou comer da primeira vez. Sabe o que aconteceu? Nada. Deixou o Piquito ali, boiando, o cachorro latindo com horror da morte, e nada. É o que o Matias sabia que o cachorro era do Dorival. Imagina. Ele não ia mexer com o sentimento do Dorival.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Maria do Rosário, 43</span><br />
Semana passada foi a última vez. Seu Dorival teve um acidente na noite de antes. Tava arrumando as telhas podres do teto na chuva, escorregou e caiu de mau jeito. Filho dele foi correndo na cidade buscar o doutor, mas não resolveu não. Foi-se embora no meio da noite, gritando. O doutor disse que ele sangrou por dentro. Morte horrível. De manhã, antes do enterro, Matias apareceu. Antônio e Josa e o resto do pessoal que coloca ele no aquário fez o de sempre. O Matias não viu seu Dorival e ficou doido, começou a se debater lá dentro. A gente ficamos com medo dele quebrar o vidro e cair na terra e morrer. Ninguém ia chegar perto dele alvoroçado do jeito que tava. Ele ficava dando bicada na direção da casa do Dorival. E quando Piquito apareceu, aí que ele desvairou. A gente sabíamos. Todo mundo sabia. Ele queria ver seu Dorival. Alguém se apiedou do bicho e foi buscar o corpo. Quando tiraram ele da casa, já todo duro, Matias tentou pular por cima do aquário. Jogava água pra fora. Assentaram seu Dorival do lado dele. Matias ficou com os dentes grudados no fundo do aquário, queria era mastigar tudo no caminho pra chegar no homem. Dona Carminha, esposa do seu Dorival, viu aquilo e disse que ninguém ia enterrar o marido dela não. Que ia colocar ele na água, junto com o Matias. Seu Dorival era pescador desde sempre, e parecia mesmo bom destino. Devolveram Matias pra água. Ele ficou boiando, observando tudo. Colocaram o corpo no bote e amarraram uma corda. Matias abocanhou a corda e foi-se embora. Não voltou mais não. A gente gostamos de pensar que ele levou o bote pro mar, por causa do que o pessoal da universidade falou, que o Matias era do mar e do rio também. O Piquito ainda fica ali na beira, onde ele quase foi comido, toda manhã, esperando. Tadinho. Eu fico com uma dózinha dele.</p>
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