Da poesia do óbito

Estou obcecado pela minha morte.

É como gripe mal curada, que volta e meia aparece numa tosse seca, numa coriza teimosa, num latejo na garganta. Não sei como começou. Nem quando. Entro na cozinha, olho o relógio, abro a porta do carro, apago a luz, enfio um pedaço de pão na boca, ouço o telefone tocando ou uma buzina ou alguém falando alto na rua e me vejo na cama, no leito do hospital, eu e o teto branco.

Eu, meus filhos e o teto branco. Eles não tão velhos, nem tão realizados, apaixonados ou felizes. Passam a mão nos meus cabelos, lembram os rolimãs que fazíamos na garagem e as casinhas de madeira no quintal e as bicicletas com rodinhas. Lembram da mãe, que não deixava ninguém sair de casa sem um lenço no bolso. Apertam minha mão e olho fundo nos olhos deles com a certeza de que não passei tempo suficiente com nenhum.

Eu, os netos que ainda não tive e o teto branco. Eles se atracando ao meu redor enquanto meus filhos me consolam aqui dentro e discutem ali fora quem fica com a casa e quem fica com o carro e quem fica com a mobília. Os pequenos brincam de pega-pega, vigorosos nas peles esticadas, e agonizo ouvindo o borbulhar do respirador, quieto e parado pra evitar escapar das pontas da coberta da vida.

Eu, os bisnetos que não sei se terei e o teto branco. Eles dançando, entoando os mantras caudalosos que suavizam meus últimos momentos, me desentubando de todos os aparelhos, mãos unidas pra me ver cruzar o largo rio sem empecilhos, agarrado ao cão negro que me guia pelos barrancos de terra.

Eu, um garoto nascido do outro lado do mundo daqui mais de um século e o teto branco. Posso me ver nos seus olhos mas ele não sabe. Não sabe quem foi, quem será. Os olhos são iguais aos meus, exatamente iguais. Todo o resto difere. A cor, o cabelo, as maçãs do rosto, a altura, os joelhos saltados. De onde vem a vontade ou a força ou a convicção não faço ideia, mas ele sobe na cama, deita e me abraça, os bracinhos ainda muito mirrados pra alcançarem o outro lado. Passo a mão nos seus cabelos, largo o respirador sobre o peito, canto baixinho oh happy day, que na minha época era música de margarina, e ele fica sorrindo com aqueles dentinhos amarelados e cheios de açúcar.

Vejo o teto branco branco branco e pulo da cama e enfio um punhado de bala na boca e saio pra chutar bola na grama e abraço todo mundo e como sorvete e beijo ela na boca mais uma vez, menina que ainda não sabia de nada, e subo em toda árvore e como goiaba lá em cima e volto pra casa de mansinho e abraço meu pai e beijo minha mãe na barriga porque sei que minha irmã tá vindo e vou brigar muito ainda e enterro dinheiro no chão da casa da esquina que ainda não tá à venda pra não ter que vender a bicicleta da Glorinha e anoto o número da placa do carro e lembro que era um Chevette prata aquele sábado à noite quando a gente foi comprar pão e a seleção tinha ganho e ninguém imaginava que justo naquele cruzamento e aí eu tomo todas as cervejinhas que ficaram de tomar com cada primo e cada amigo, dou um beijo no retrato do meu avô, aquele com o cachimbo no canto da boca, fico batendo pé na lagoa e gritando uououou no túnel no dia que eu fui embora só com a mochila nas costas eu nunca percebi mas nunca fui mais feliz e mais livre e mais cheio de vida e o céu tá branco branco branco e eu fico sorrindo abestalhado sentindo centenas de mãos segurando a minha no leito do hospital.