Das formas de encontrar a cura

Josaldo se agarrou ao poste, coçando a perna, rodeando a ferida que sulcava a carne e coçava, coçava. Era quase a esquina da rua, dali já via um pedaço da casa encaixada malograda no declive, verruga que deus queria coçar na couraça da terra. Casa pintada de sujeira do vento, ondas nas paredes feito filtro de foto velha.

A vó sentava na varanda com os pés cruzados, olhando pelos óculos o mundo que já não reconhecia. Mas reconheceria a moldura do rosto do neto, moldada pelos seus carinhos de infância. Josaldo se surpreendeu que ainda estivesse viva depois de tanta amargura; ironia que a mais judiada sempre tivesse mais força pra encarar as desgraças e depois morresse por um troço qualquer, um coágulo, um tombo, uma tosse besta.

A rua vazia clamava os passos, ele não ia. Coçou de novo a ferida. O sangue manchou as unhas. A carne já não suportava o contato, queria se desfazer, queria expurgar o pus ou o caroço que se escondia ali dentro. Ele precisava andar. O vento ajudou. Um pé foi e o outro em seguida e logo estava diante da velha, que não esboçava reação. Baixou a cabeça.

Bênça, vó.

Nem um respiro, uma fungada, um desdenho. Josaldo pegou nas mãos dela, o remorso comendo tanto que não sentiu o frio, só entendeu a imobilidade como negação da sua presença.

Entrou na casa. Carolina via TV no sofá da sala. Se encolheu quando o vulto sentou na cadeira na ponta da mesa. Josaldo a encarou nos olhos, tentando ignorar a marca enorme na bochecha, da vez que afundou seu rosto com a panela. Ou a costura no pescoço quando abriu um talho com a faca, dali pro pronto-socorro, nunca levaria a cabo a ameaça. Ou o braço torto depois da queda na escadaria do porão, osso que não colou direito. Ou tantas outras memórias inscritas na carne mole, agora mais mole, a urina lavando a calça de moletom.

Desculpa, Carolina. Eu vim te pedir perdão, amor.

Ela se encolhia cada vez mais no sofá, procurando caber na reentrância entre as almofadas.

Me perdoa, amor. Olha a minha perna. Essa ferida que você que fez no dia que eu fui embora. Jogou óleo quente, lembra? Isso não sara. Acho que é porque você fez de zanga. Gorou minha perna. Assim vou ter que cortar ela fora, só que alastra. Me perdoa, Carolina. Não vim pra fazer nada, só pra pedir isso.

Carolina achou a reentrância. Se empurrou com os pés no assento até entrar de vez. Josaldo levantou, procurou a esposa enfiada no sofá. Nada.

Carolina, sai daí, meu bem. Sai daí.

Josaldo esperou, se distraindo com a TV. Os dias desenrolaram lentos. Lá fora, a vó seguia imóvel. A única coisa que se movia era a gente na tela da TV. Convencido de que Carolina não voltaria, andou pela casa. Entrou no quartinho, a cama de Júnia desarrumada.

Sentou no colchão, olhou os pôsteres de desenho nas paredes, o computador, a mochila aberta na cadeira. Coçou de novo a ferida. Preta. As veias pretas se espraiando do núcleo gosmento sob a pele. Latejava. Cruzou a perna ruim sobre a boa, analisou com cuidado. Tinha um rosto ali. O rostinho de Júnia. Não podia ser. Onde se enfiara a filha?

Foi até a varanda. A vó inútil, indiferente, não deu atenção. Não lhe notou a existência pela segunda vez. Josaldo foi embora, se segurando nos postes, se agarrando às cercas e aos muros, incerto de que conseguiria chegar ao hospital antes que a ferida se alastrasse pelo corpo todo, a certeza abalada de que serrar a perna garantiria a vida.

Júnia se jogou pra frente. O corpo caiu no gramado. Abriu as costuras nas costas da avó, saiu e sentou a carcaça de volta na cadeira. Procurou a mãe pela casa. Nada. Sentiu o cheiro de urina no sofá. Mas da mãe nada. Nem o choro constante. Nem os olhos remelentos de um lado pro outro. Nem os cabelos arrancados pelo corredor. Júnia rezou pra ferida piorar e pro pai morrer pelo caminho.