Dos nomes que damos aos filhos

Doriana odiava seu nome porque era nome de manteiga. Ficava pensando se na época que nasceu já existia a manteiga e se a mãe tirou dali, ou de um filme, ou de um livro, ou de uma amiga ou tia distante, mas nunca perguntou, que fazia parte do mistério de como ela tinha surgido e de como tinha surgido aquilo, o nome, que definia quem você seria e como reagiria a certas coisas. Todo mundo na escola dizia que era margarina, Dona Margarina uns meninos diziam, e ela fingia que não se importava mas se importava, e nisso, no fingir não se importar, residia um aspecto fundamental de quem ela era e tinha certeza que a mãe não fazia ideia de que ao decidir seu nome, decidiu também o fingir não se importar que vinha junto.

Muito provavelmente por esse desconhecimento, a mãe não foi capaz de esconder o choque com a reação da filha quando ligou, naquele domingo de manhã. Era um domingo de correr no parque, todo domingo de Doriana era isso, de preferência antes do marido acordar, mesmo quando os filhos vinham passar o final de semana ou os amigos da Espanha uma temporada no casarão do Ibirapuera, domingo era dia de dar uma corrida, de dar uma esticada, que nada no domingo que vinha depois funcionava se não tivesse a corrida antes, ela ficava se sentindo culpada, imagina, o único dia da semana que considerava sagrado fazer exercício pra não ter o mesmo destino do pai, um infarto fulminante. Justo naquele domingo ela não tinha ido correr ainda, embora já estivesse com a calça de lycra e o boné e os tênis, porque o marido deu na telha de acordar cedo e com fogo, e ela não era besta de desperdiçar as vontades, a essa altura, cada vez mais espaçadas dele, e então o levantar, o café, o chuveiro, tudo veio atrasado, e ainda teve o pulinho na padaria pra deixar a mesa pronta pro caso da nora do filho mais novo, que acabava de conhecer, pra eles poderem comer à vontade caso levantassem antes dela chegar, e foi lá comprar pão, presunto, queijo, manteiga, que margarina não entrava em sua casa, e bebia um copo de água, um copão, pra não sentir sede no parque, quando o telefone tocou.

Ficou besta, falando sozinha depois que a mãe desligou, achando que era algum defeito os bipes consecutivos que ouvia do outro lado. E tudo que ela fez foi perguntar, à sentença da mãe, se ia precisar de ajuda. Se ia precisar de ajuda pra ir no médico iniciar o tratamento, fazer mais exames, se ia precisar de ajuda pra fazer compras, ou ir na farmácia ou na aula de bordado, que talvez ela não pudesse mais dirigir, talvez ficasse sem forças, talvez precisasse contratar uma enfermeira ou, pior, se mudar pro casarão, pra fazer o inferno do marido, que não suportava a implicância da sogra, algo do tipo, mudanças drásticas, pesarosas, complicadas, eram essas as coisas que a mãe achou que passavam pela cabeça de Doriana quando ela respondeu com uma pergunta, uma pergunta automática, um “só isso?” que a caixa de supermercado faz quando acabou de somar todas as suas compras mas você está olhando demoradamente prum chocolate no guichê, e ela na verdade quer perguntar “a senhora vai levar esse chocolate aí ou não?” mas sai o “só isso?” automático, foi assim, Doriana pensou, que a mãe entendeu, e pela voz a mãe não estava normal, ela devia ter chorado a manhã inteira antes de ligar, só pra ouvir a pergunta da filha, que na analogia da caixa do mercado soou como “se a senhora vai morrer podia não dar trabalho, né?”.

Doriana ainda pensou em ir no parque, chegou a parar na porta e olhar na direção dele, dava pra ver, miúda, a ponta da copa de uma árvore que nascia colada na grade da calçada, dali a três quadras. Mas voltou, que não era culpa da mãe que ela tivesse crescido assim, fingindo não se importar com as coisas, já que ela se importava sim, e era injusto culpar os pais por quem a gente se torna, ficou pensando em como seria se ela tivesse que ligar pro filho e ele reagisse friamente a uma notícia dessas e ela reclamasse e ele virasse e justificasse com qualquer coisa do tipo “fiquei assim por causa da senhora”. Pegou o telefone e retornou pra mãe, fazendo um esforço genuíno de esquecer aquele seu jeito cristalizado, e soar sensível, amorosa. Mas a mãe não atendeu. Ela teria que ir pessoalmente, teria que pegar o carro e dirigir até Higienópolis. Agora, ou não valeria de nada. Que a urgência diz muito também, e esse é o tipo de coisa que não dá pra fingir.