Dos Rios Que Correm Negros

Toninha da Folha ergueu a mão. Jogou o facão na terra, a madeira suada do cabo apontando o céu, correu pro rio e se agachou pras necessidades. Jão Chicote, que gostava de ver a mulher agachada, seguiu. Quando bateu os olhos na água não viu Toninha. Olhou ao redor, gritou o nome uma, duas vezes, andou no meio dos escravos, os olhos querendo saltar na garganta de quem lhes cruzasse, dizendo pra acharem Toninha ou iam amargar chicotada que era dela. Atravessou o rio, beirou o matagal, procurou rastros na terra, nas folhas, nas raízes. Alguém gritou do canavial. Nada.

Jão andou ligeiro até a casa grande. Limpou os pés nos fundos, encarando com azedume os peitos suados de Dindinha, cachoeira nos miúdos de bode. Ela sabia que daquela esfregada de bota no tapete vinha sangue esfregado com sal nas costas dum preto, daí pra pior, e agradeceu Ossaim pelo pé torto e o dedo no peso da panela. Jão subiu pro escritório, ajeitando a cinta, o chapéu, bateu duas vezes. Entrou e deu relato.

Seu Bastião perguntou por que Jão ainda não tava no meio do mato com os cachorros. Jão disse que era porque ela não tinha ido pro mato. Sumiu na água. Só podia ter descido o rio com a correnteza. E ele precisava da autorização de seu Bastião pra pegar o barco. O barco quebrado, estrupício? Corre no seu Mariol e empresta o barco dele e acha essa cadela ou tu ficas sem o salário deste mês e do próximo.

Jão desceu, ignorou os assovios de Dindinha, subiu no cavalo e apeou na porta do seu Mariol, dando a rédea na mão do negro da casa. Foi até os fundos, onde Mariol massageava com óleo a barriga dum porco que virava o focinho escuro dum lado pro outro. Fale, homem, disse o chefe. Jão falou rápido, agradeceu, desceu a trilha até o barco, empurrou, encharcou as botas no rio e pulou dentro, remando dum lado, de outro. O rio descia por muitos quilômetros até desembocar no Prata, onde era impossível rastrear qualquer coisa. Seguiu atento às margens. Viu um barco parado nos barrancos, os homens caçando animais ou escravos no mato. Outros três iam lentamente, pescadores das redondezas que perguntaram o motivo da pressa. Toninha da Folha, ele disse, fugida do seu Bastião. Disseram que não viram nada.

Quando chegou no rio Prata, acelerou as remadas. Em três dias de viagem chegaria à costa uruguaia e aos documentos novos. À noite, quando seria difícil enxergar uma negra na lua minguante, Jão palavreou. Toninha tirou a lona de cima do corpo, abraçou-o e ficou sentada aos seus pés, fazendo carinho naqueles braços cansados enquanto o barco corria.