Lei seca

  • 10 de novembro de 2015
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Eu tinha dentes.

Eles não eram tão brancos ou alinhados como eu gostaria mas eram duros, e com eles mastiguei camarão na moranga, escondidinho de frango, arroz e feijão e bife e batata frita antes de se esmigalharem contra um para-choque de caminhão e metade deles ser forçada com sangue e língua pela minha garganta e a outra metade voar num conglomerado confuso pelo para-brisa quebrado e quicar no capô e se espalhar como pólen no botão seco e quente do asfalto que nunca desabrochou nem com todo osso e sangue bebido na estrada entre minha cidade e qualquer outra.

Eu tinha um marido sentado no banco do motorista que não deve ter visto, e dou graças a deus por isso, o que aconteceu comigo e o que aconteceu com ele porque convenhamos que não seria nada agradável se ver num estado irreconhecível e achar que você olhou a vida inteira pruma imagem no espelho que não mudava e que se você a virasse do avesso ainda seria você e lembro que acordei em algum momento e consegui me desvencilhar um pouco das ferragens pra chegar perto da mão dele, que ficou debaixo dum pedaço de retrovisor, mas que tava longe demais no fim das contas.

Eu tinha um cachorro e talvez pelo tamanho, pela agilidade ou pela proteção do anjo canino que era forte ele só bateu a cabeça e ficou tonto e saiu dos destroços e cambaleou por cima dos vidros e dos plásticos e dos pedaços rasgados de airbag e enquanto recuperava o equilíbrio mas não o senso de direção mancou de lado até uma poça de água na outra pista e acabou debaixo da roda de alguém que tava com pressa de chegar em casa e não fez o que todo mundo faz quando tem um acidente, que é andar devagar pra poder absorver toda aquela carnificina e depois contar como a vida é brutal quando menos se espera.

Eu tenho um filho, mas ainda é muito pequeno e esperneia e chora quando a vó dele coloca ele na minha frente porque não reconhece a mãe, não reconhece a pessoa condenada a uma cadeira de rodas que não vai mais colocar ele pra dormir no berço e muito menos comer pipoca no cinema quando ele entender os filmes e vai com certeza assustar a namorada ou namorado dele quando for mais velho e talvez eu não possa nem mesmo falar nem que seja pra dizer que amo ele mais que tudo e que é o meu único motivo pra continuar vivendo, por mais piegas que isso soe mas a pieguice faz tanto sentido, ainda que vá ser difícil prepará-lo pra vida com a cirurgia corretiva na perna quebrada e um manquejar provável e um trauma incurável do barulho das buzinas.

  • Andiara Santiago Santos

    Dramático, mas muito interessante. Bem diferente essa maneira de escrever sem vírgulas. Gostei!

  • Loreci Demeneghi

    Uau! Esse texto tinha me escapado, sei lá por qual motivo. Mas, acabo de recuperá-lo. Fantástico!