Mamute é um bom companheiro

Mamute abre a bocarra. Ele abre nessa boa vontade porque sabe que depois da escovação vem o osso, e tá pra nascer cachorro que gosta mais de osso que o Mamute. Coloco um pouquinho de pasta na ponta das cerdas, ele deita a cabeça na minha coxa, e começo pelos de trás. Ele se irrita de vez em quando, porque por mais cuidado que eu tenha, a gengiva é sensível. O sol tá forte, dá pra ver quase tudo. Mas pra enxergar atrás dos últimos, só com a luz do farol da bicicleta. É a parte que ele mais odeia, porque encosto no céu da boca e acho que ele sente ânsia, pelo menos é o que eu sentiria.

Já teve dia que meu pai me pegou escovando os dentes dele e disse que eu não devia brincar com um cachorro de 50 quilos desse jeito, que não dá pra prever reação de animal, ainda mais socando a mão na goela dele. Mas eu faço, nem que seja escondido, porque sei que o Mamute gosta da refrescância que fica, quem não gosta, e se tem um cachorro que não tem aquele bafo podre e a saliva grudenta é o meu.

Tiro o osso do bolso. Ele sai abanando o rabo e fica no cantinho da sombra da cerca, lambiscando. Resolvo começar a missão do dia, que é achar a bolita que se perdeu no jardim. Meu pai disse pra eu procurar há duas semanas, e agora a grama já tá bem alta. Ele corta todo final de mês, mas disse que não vai cortar enquanto eu não achar a bolita porque, quando ele era criança, conheceu um menino que pulou o muro da escola pra jogar futebol a com a turma num dia de feriado, e tavam cortando a grama do jardim nesse dia, e algo na lâmina do cortador quebrou e um pedaço de ferro se soltou e saiu voando e acertou a cabeça desse menino e ele caiu morto no chão. Meu pai não quer arriscar a lâmina do cortador bater na bolita e resvalar e acertar alguém, ele mesmo, em último caso. Então minha missão é: achar a bolita logo ou o jardim vai virar um pântano e eu não vou mais ter onde brincar e um dia posso até perder o Mamute no meio desse mato e talvez nem encontre mais o caminho de casa.

Mas ele tem faro bom, pai, cachorro sempre acha o caminho de casa.

Não importa, guri, vai achar a bolita.

Pelos meus cálculos, já consegui investigar quase metade do jardim, que é gigante. Uso lápis de cor com pedaços de papel colorido colados como bandeirolas pra demarcar o terreno limpo, enfiando de ponta no chão. O primeiro dia foi um desperdício porque o Mamute achou que aquilo tudo era pra ele, e quando fui dormir ele arrancou cada uma das bandeirolas e empilhou todas ao lado da casinha. Briguei, sentei e expliquei a história, que aquilo não era brincadeira, era coisa séria, eu precisava achar a bolita. Ele já tinha visto eu brincar com os meninos da rua dentro do cercado da varanda, onde o chão era cimentado e as bolitas corriam mais ou menos reto, então eu sabia que ele entenderia. Ele enfiava o focinhão num dos buracos entre as madeiras e ficava olhando. Aí um dia o Davi roubou, jogou duas bolitas de uma vez, e a gente começou a brigar e ele ficou tão nervoso que tacou longe a última bolita. O que explica o começo dessa novela toda, e o início infernal das minhas férias, que agora eu tenho que gastar procurando bolita em vez de jogando vídeo-game, vendo Netflix, essas coisas.

Pego mais lápis já preparados do quarto e continuo a caça. Fico um teeeeeempão procurando e nada. Enfio mais cinco lápis, as unhas já todas sujas de terra, umas duas minhocas e um besouro encontrados pelo caminho, e umas três encaradas de morte no Mamute quando ele chega perto das bandeirolas. Mamãe aparece na janela pra perguntar se eu quero bolinho de chuva, digo que vou terminar esse quadrante e já vou, os joelhos doloridos de tanto engatinhar.

Mamute late quando eu levanto, e digo que só vou comer e volto. Mas ele continua latindo, latindo e pulando, o que é uma coisa incrível, já que ele é um preguiçoso de carteirinha e só pula quando quer mesmo alguma coisa (caso dos churrascos de domingo, o jeito dele implorar um bife). Vou com ele até a casinha, passo pelo cemitério, pelo lote da ração (tudo certo por ali) e pelo cagódromo. Ele aponta todo orgulhoso com o focinho sua mais recente fabricação, ainda mole. Não entendo o motivo do orgulho, talvez queira só que eu comemore com ele o tamanho e a ousadia dessa última obra, que não me parece diferente das outras, mas nada disso. Rodeio a pilha fedegosa e vejo o motivo.

Demora pra minha mãe entender porque eu tô pulando pela cozinha com a mão lambrecada da bosta fedida do Mamute, ela até ameaça uns tabefes. Mas como o Mamute salvou o resto das minhas férias, eu não ligo pro cheiro e nem pros tabefes, se vierem.