Memórias póstumas

Do pouco que me afetou a ponto de despertar lembranças naquele átimo de tempo que os filósofos chamam de vida, há um sentimento que parece se alastrar pela pilha desordenada e corroer-lhe a essência: a inveja.

Quando ainda me preenchia sobretudo o orgulho desmerecido, lembro de apanhar o jornal e me deparar com uma crítica da minha primeira publicação, um apanhado de rabiscos sobre a verdadeira alma da cidade inscrita nas feições de seus personagens cotidianos, e de um sorriso que se alastrou de uma parede à outra da casa. Sua releitura foi tudo a que me dediquei no dia de sua descoberta, repetidas vezes. Do alto de minha pequenez uma estrada fulgurosa se pavimentava da porta de casa aos céus. No entanto a felicidade durou exatos quatro dias, quando foi publicada a crítica sobre o primeiro livro de Joberstein, meu fiel inimigo, meu adversário, meu duplo. Calhava de ter ele publicado também um apanhado de rabiscos sobre os tipos citadinos que nos rodeavam, e os louros que o crítico lhe dedicava ultrapassaram no primeiro parágrafo os meus e no último os que o cristão mais fervoroso dedicaria à Bíblia. Era o prenúncio de dias negros.

O que sucedeu é nublado nos detalhes, como todo o resto. Mas a providência arranjou coincidências para que Joberstein sempre me acompanhasse nas obras, mesmo nas mais autênticas e arriscadas, e sempre colhesse impressões melhores e recebesse ao menos uma palma a mais no fim de qualquer discurso. A única vez em que cheguei próximo de superá-lo, e para os entendidos, que infelizmente costumam ser a extrema minoria, eu de fato superei, foi quando reuni todo o rancor que sentia e delineei o personagem mais venenoso de minha carreira literária: o velho Niets Reboj. Mas o romance foi ignorado, pois na época a divulgação literária se ocupava com a polêmica da reedição da obra de Joberstein em tomos comentados por especialistas e rebatidos pelo próprio autor.

Com os dentes desgastados de mastigar pedras, confuso e confundido com minha própria criação, o odioso Reboj, me vi miserável num quarto pequeno, abandonado à própria sorte pelos filhos e amargurado pela morte de duas esposas. Nos últimos dias fui alimentado pelas migalhas que me jogou meu próprio nêmesis, e sua cara de pena, que a meus olhos não passava de desprezo diante do ser encarquilhado na cadeira, a espinha torcida pelo tempo e a boca pelo ultraje, é talvez a única imagem que me ocorre com a clareza mínima que exigiria um pintor para adentrar os restos esfarelados de minha etérea cabeça e lavrar minha única herança.

Obviamente o pior golpe veio no fim, ou depois do fim. Joberstein, agraciado com duas décadas a mais que eu no mundo dos vivos, embora tivéssemos a mesma idade, foi enterrado por cima do meu cadáver, num gesto aplaudido e oficializado como uma comunhão artística de graça perpétua, na esperança de que nossos talentos se juntassem para traduzir o paraíso em verso. Bobagens à parte, o que importa de fato é que os ossos de Joberstein ficariam para sempre sobre os meus, e mesmo depois que nada restasse que não o pó, o pó de Joberstein encobriria o meu. Uma ironia latente e silenciosa a me perseguir até mesmo na inexistência. Em algum ponto do passado fui sumariamente enganado, relegado a coadjuvante de minha própria história quando o pressuposto era de que seríamos os protagonistas de nossas vidas.

De braços cruzados com o espírito de Joberstein em alguma taverna elísia, me parece desnecessário dizer que Deus coça a barba e ri.