Celestiais [#152]

Por muito tempo achamos que estávamos sozinhos no universo.

Isso nunca foi verdade. Descobrimos quando os celestiais vieram.

Uma convergência de fatores biológicos e geográficos e a vida se manifestou num dos muitos planetas sob sua supervisão. A humanidade, sujeira inofensiva no canto de um único sistema solar, foi estudada como tal por cientistas no que, do nosso ponto de vista, seriam teses de doutorado sobre a formiga de Mumbai. Um organismo catalogado pela obsessão ordeira de algum estudioso, ignorado, irrelevante. Até os drokkars aparecerem.

Chamamos nossos guardiões de celestiais pela disparidade evolutiva, o que os torna deuses aos nossos olhos. Mas mesmo no alto de sua divindade eles foram ameaçados pelos drokkars, expulsos de seu quadrante galáctico por uma abominação cósmica e lançados num êxodo incerto para encontrar novos planetas viáveis e acomodar sua civilização. Na prática isso significava exterminar os celestiais, e nós com eles, e tomar seu espaço estabelecido.

Aquartelados além do escudo energético, nas fronteiras do território, os drokkars furam o bloqueio com pequenas embarcações, trazendo guerra aos planetas fronteiriços. Os celestiais não conseguem enfrentá-los pois sofrem uma desvantagem biológica: os drokkars possuem organismos físicos adaptáveis, se moldando às expectativas dos inimigos. Como a capacidade mental dos celestiais é muito avançada, seus próprios feitos os impedem de combater os drokkars, que para eles são translúcidos e bestiais quando não passam de seres bípedes semelhantes aos humanos em forma. Suas embarcações, um misto de tecido vivo com nanoengenharia avançada, possuem atributos mutáveis e camufláveis semelhantes.

Diante das vantagens incomuns do inimigo, os celestiais recorreram aos seus próprios estudos periféricos em busca de uma defesa. Voltaram os olhos para os humanos, que possuíam capacidade mental adequada para reduzir os drokkars a ameaças palpáveis. A Terra tornou-se um campo de treinamento, e o é há 274 anos, preparando combatentes especializados em neutralizar a ameaça. Não há previsão para o fim do conflito, já que os drokkars parecem decididos a fincar aqui a nova bandeira da sua civilização. Não sabemos por que motivo não seguem para outro quadrante menos protegido ou desabitado, possuidores da tecnologia que os trouxe aqui, e tememos o que podem estar tramando nesses séculos de cerco.

Nessa configuração, nós, humanos, somos massa de manobra. Mas somos também heróis respeitados e militares condecorados. Não mais os micro-organismos irrelevantes de outrora, e sim os únicos anticorpos efetivos contra um vírus esfomeado.

Quando me graduei na academia e fui despachado para a frente de batalha, lotado em uma das bases avançadas em Carcará-2, um dos mais aguerridos planetas fronteiriços, achava que estava preparado para qualquer coisa. Duas semanas mais tarde, soube que uma vida não seria preparação suficiente.


Esta é a primeira parte da série Os Celestiais e os Drokkars, uma aventura espacial em 7 episódios. Confira as demais:
1 – Celestiais
2 – Recruta
3 – Travessia
4 – Bokartianos
5 – Estratagema
6 – Catapulta
7 – Drokkars