Paradisíaca

De toda sorte de sorte me cobri.

Me cobri de resto de alga e concha. De areia na garrafa, do vidro em todas as fases. De espuma, de sal, de folha de coqueiro, de remo, de canoa, de rede, anzol e vara. Não sabia pescar e ainda não sei e não preciso que fisgo sem isca.

Fiquei pronta, expectante, tórrida, frutífera pra você. Que veio esbaforido, bracejando na água sem força e se prostrou inconsciente no chão da orla, sentindo o carinho das ondas nas têmporas até acordar com a boca inchada de sal e matar a sede num coco caído na areia.

Tive esperança de te abraçar cedo mas falhou que a chuva parece revigorar os da tua espécie e foi o que aconteceu e do fogo no mato do bucho do bicho do leito do lago da sombra do pé você renasceu. Fiquei ansiosa pra saber o que agora, nessa tua velocidade tresloucada, sobrava de vontade pra me germinar, pra fazer de mim tua qualquer coisa, mas nada me surpreendeu.

Da tua teimosia tirei a graça desse tempo curto, desse tempo de cabelo pelo caminho e de esbranquiçar até sobrar só os tocos brancos na areia e a chuva afundar mais e mais até entrarem e engrossarem esse caldo de outros que vieram antes.

Ouve isso? É o barulho do casco quebrando do remo partindo do deque ruindo dos barris tchibumando das velas rasgando da gente caindo do engasgo e grito e pé batendo e maré puxando e um par de braços fortes vindo latejando adoçando minha boca aberta e braçada atrás de braçada atrás de braçada pra longe da chuva dos raios do rebuliço pra perto do meu peito cheio de vida.

Ouve isso? É você de novo.

Ouve só. É poesia.