Tio Edvaldo

Uma época o tio Edvaldo alugou uma casa no fim da rua. Eu visitava toda tarde. Ele fazia chá mate com canela e deixava na geladeira pra quando eu chegasse, mas não me deixava ficar muito tempo porque sempre tinha trabalho pra fazer. Escrevia cartas mas isso eu não via, só ele folheando um livrão dos correios pra pegar endereços. Minha mãe dizia que não era emprego coisa nenhuma, era só um jeito de justificar ficar em casa à toa. Descobri bem mais velho que ele ganhava dinheiro como funcionário fantasma da universidade. Nunca ia lá, mas o salário pingava todo mês na conta.

Eu gostava de perguntar as coisas pra ele porque as respostas eram sempre diferentes das que eu recebia dos outros. A nuvem não era vapor de água condensado, era uma sociedade de seres que moravam nas montanhas e saíam em passeios com a família pra conhecer as coisas, e quando cansavam eles choviam e caíam no chão e voltavam por baixo da terra pra casa. Carro não era um maquinário com motor hidráulico e várias pecinhas em funcionamento, era um parente distante do boi que usava armadura. Árvore era velho que cansava de viver e ficava mais de um ano sem abrir a boca. Televisão era um caixote que recebia pelo fio da tomada um monte de pessoas do tamanho de bactérias que pintavam na tela as imagens. Catarro era coisa ruim que a gente tinha pra dizer e não dizia e acumulava e saía pelo nariz e deixava a gente limpo por dentro.

Tio Edvaldo insistiu nisso até o fim. Quando tava no hospital e eu já tinha mais de trinta anos e sabia diferenciar uma coisa da outra ele disse que o que tinha não era câncer, era só um pedaço de frango que ficou plantado no estômago e foi adubado com muito mate e cresceu e agora tava bicando ele por dentro. Em todos os anos de convivência, nunca o vi admitir qualquer coisa que fizesse sentido, que fosse lógica, racional, cientificamente comprovada. Ele achava uma graça danada de tudo e ria que se acabava, igual criança. Talvez por isso fizesse sucesso com elas. E fosse evitado pelos adultos.

Um dia o Rodolfo, que comprou a casa em que meu tio morou, disse que encontrou uma carta escondida embaixo de um azulejo na reforma. Presumi que fosse do meu tio e pedi ela. Era um trecho copiado à mão de enciclopédia ou livro escolar, uma descrição da chuva, os pormenores do fenômeno da precipitação. Todas as palavras estavam riscadas, uma a uma, com dedicação funda e retilínea. Imaginei meu tio, sentado na mesa, transcrevendo todas as explicações chatas e óbvias pras coisas do mundo e as aniquilando brutalmente com a ponta da caneta, rindo de si, encontrando um alívio ligeiro pro desespero classificativo do pensamento humano. Era a cachaça dele.