Travessia

A coceira na nuca me acorda, pontadas nas laterais do crânio. A vista se ajusta, o drokkar sentado no chão, na minha frente, escrevendo com o dedo numa tela etérea de plasma. A caligrafia é a de uma linha cheia de curvas suaves, ininterrupta. Ele percebe quando me levanto. Ignora.

O interior da bolha parece o de uma boca humana, camada esponjosa como gengiva, mas dura, devido a uma camada óssea interna ou algo que o valha. O drokkar continua escrevendo. Não vejo lâmina adaptável ou qualquer outra possível arma perto dele. Os drokkars, em geral um pouco mais baixos que os humanos, andam descobertos, com sua pele quebradiça e opaca à mostra. Sua cabeça não se parece com nada que conhecemos na Terra, e é de uma cor indistinta que com certeza não lembra o azul e tampouco o amarelo, mas sua feição é estranhamente humana, com olhos maiores que os nossos e bocas menores. Não possuímos estudos aprofundados da sua biologia, tecnologia ou linguagem. Os celestiais as conhecem a fundo e nos provêm com o necessário, desencorajando qualquer contato além do essencial.

Não tenho como saber se estamos parados ou em movimento, não é possível ver nada além do tecido. Me aproximo da parede no lado oposto ao drokkar. Quando a toco ela se retrai, correndo para os cantos e se aglomerando como pequenas ondas nascidas de uma pedra atirada na água. A iluminação solar ultrapassa a camada transparente que a realocação do tecido revela e percebo que não só estamos em movimento acelerado como estamos indo de encontro ao escudo energético. Qualquer embarcação que se choca com ele é despedaçada, e embora as bolhas, como essa, a ultrapassem, não consigo evitar um medo súbito latejar sob a unha do dedão do pé. O anseio me agarra pelos ombros e me prostra de modo reverente diante do drokkar concentrado na escrita.

Ele vira os olhos pra mim sem pausar o dedo, olha por sobre meu ombro, aponta com o queixo. Estamos no limiar do escudo, sua estrutura curvilínea e brilhante ocupando toda a pequena janela na parede da bolha. Há um tranco forte quando o atingimos e

pai, pai, quero ser soldado, quero ser soldado pra proteger você e a mamãe quando tiverem velhinhos e a Eduarda quando ela for mais velha e todo mundo na escola, até o Marinho, que é chato mas não merece morrer por causa que os drokarios vão atirar em todo mundo e enterrar todo mundo pra construir as casas em cima da gente, isso não pode, né, pai? por que você nunca quis ser soldado, pai, mas por que você não acredita na violência como resposta, pai, se eles só deixaram essa resposta pra gente, foi a professora, ela disse isso, mas todo mundo diz isso, pai, todo mundo, e mãe, por que o pai tá no hospital, mãe, me fala, mãe, o carro bateu nele mas não foi nada de mais, né, por que a gente não pode entrar no quarto, mãe, tô com sede, você quer água também? eu pego pra senhora, aqui, ó, por que você tá chorando tanto, mãe, o pai tá bem? brigado, mãe, eu mando mensagem assim que chegar lá, eles proíbem contato na academia, só nos finais de semana mas eu mando sim, se cuida Eduarda, não vai exagerar nas festinhas da universidade, se mexerem contigo fala que teu irmão tá estudando e logo vai tá galgando patente e sim senhora, sim senhora, não senhora, permissão pra falar, permissão pra

parece que há algo errado aqui do outro lado. Atravessamos mesmo o escudo, assim rápido? Onde está o cruzador drokkariano? As estações de combate com os canhões enfileirados, os cargueiros grávidos de explosivos, as minas seletivas de proximidade boiando no ar como lantejoulas da morte? Não há nada, nada exceto asteroides em sua melancólica órbita e planetas em sucessão desordenada. Seguimos pro mais próximo deles.

Quando me viro o drokkar está deitado, um líquido viscoso escorrendo dos olhos, a tela etérea ainda nos dedos. Pego o dispositivo com a luva da bio armadura, funcional desde que acordei. Percorro a linha com os dedos mas não a compreendo. Toco o drokkar e ele não se move. Sento no canto onde acordei, acoplo o capacete e espero, a cabeça latejando.

Sei que não fomos defletidos pelo escudo e lançados de volta pois eu saberia identificar a configuração fronteiriça de estrelas e asteroides do nosso lado com precisão. Estou do outro lado, mas um outro lado diferente do que estou habituado a ver nas imagens e nos vídeos.

A bolha aterrissa. O processo de deterioração acelera. Desde que alcançamos a atmosfera o tecido carnudo passou a escurecer, e agora está preto, emanando um cheiro forte. Depois desse estágio as bolhas enrugam e se contraem, esburacando e infestando sua própria carcaça com um pó que lembra ferrugem. Fico dentro do esqueleto, aguardando. Não demora mais de uma hora e eles aparecem, rifles sônicos em punho, e não lembram nem um pouco o cadáver ao meu lado.

Se parecem comigo.


Esta é a terceira parte da série Os Celestiais e os Drokkars, uma aventura espacial em 7 episódios. Confira as demais:
1 – Celestiais
2 – Recruta
3 – Travessia
4 – Bokartianos
5 – Estratagema
6 – Catapulta
7 – Drokkars