<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Flash Fiction &#187; Paródia / Pastiche</title>
	<atom:link href="http://flashfiction.com.br/category/parodia-pastiche/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://flashfiction.com.br</link>
	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
		<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
		<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.9.2</generator>
	<item>
		<title>Um dia terei uma iguana chamada Mário</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/um-dia-terei-uma-iguana-chamada-mario/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/um-dia-terei-uma-iguana-chamada-mario/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 21 Sep 2018 15:53:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=2721</guid>
		<description><![CDATA[<p>Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.</p>
<p>Canuto precisava voltar pra rua. Que na hora em que deixou o armazém pra trás o relógio começou a correr. Não levava mais de uma hora pra verem aquilo com os próprios olhos, ou, se fosse azarado, pra mandarem um drone na frente. E aí os quatro corpos no chão, a mercadoria desaparecida, o alarme, a mensagem no comunicador da base e a convocação pra guerra, a defesa a postos. Não entraria no apartamento de Mishiko nem com o departamento de polícia inteiro a tiracolo se demorasse, se não levantasse dali e partisse. Mamou de novo.</p>
<p>Acordou com as pancadas na porta. Ziguezagueou entre as embalagens do chinês e abriu pra Pexa, sua parceira de última hora. Ela ralhou e xingou e olhou de perto o corte. Pegou uma cola no armário e segurou fechado o machucado e mandou ver, e já foi puxando pelo braço, precisavam ir. Canuto pegou o tubo de laser e o casaco e a seguiu pela escadaria até o terraço do prédio, onde a hoverviatura da Homicídios estava estacionada.</p>
<p>Pararam na rua, a uma quadra de distância. Esgueirando pelas barracas de comida e lojas de néon pulsante, pararam na esquina, escorados num prédio encardido. Pexa contou as janelas. Na 34, uma luz acesa. Canuto olhava os dois broncos parados perto da porta de acesso ao elevador, um deles comendo um pastel. Confiscou uma Coca-Cola na banca mais próxima e seguiu com passos firmes na direção deles.</p>
<p>O senhor, o senhor esqueceu a Coca. O senhor pagou e esqueceu.</p>
<p>Não comprei Coca.</p>
<p>Disse o bronco na última mordida já recebendo o soco no queixo engordurado e o taser de Pexa voou no outro bronco antes que puxassem seu tubos. As algemas elétricas nas mãos atrás das costas com o gravitacional ligado pra não saírem do lugar até chegar a coleta. E subiram, os andares um a um piscando no painel do elevador. A câmera interna quebrada de tempos. Pexa preparou o tubo de laser na mão. Canuto tateou o seu no bolso, sentiu um papel amassado no fundo; a página arrancada do catálogo Sidney’s com o preço abusivo de uma iguana, seu novo sonho de consumo.</p>
<p>No corredor, seguiram até o apê com a foto de um urso panda pendurada abaixo do olho mágico. Bateram três vezes.</p>
<p>Quem?</p>
<p>Detetive Canuto, Departamento de Polícia de São Francisco.</p>
<p>A porta foi aberta. Mishiko estava sentado do outro lado de uma mesa, um sem fim de molas e chips e peças de plástico e placas metálicas e sacos de estopa e pinças e catodos ao alcance dos dedos, na frente do olho uma lente trianguladora.</p>
<p>Boa noite, policiais. Como posso ajudá-los?</p>
<p>Fecha a matraca, Mishiko. Levanta e coloca as mãos nas costas.</p>
<p>Fora ele, havia outros cinco homens na sala. Nenhum deles segurando um tubo ou um revólver ou uma escopeta ou algo semelhante. Ainda.</p>
<p>Mandado, policiais?, disse Mishiko. De busca ou prisão? Cinco segundos pra me mostrarem, ou tão fora das garantias da lei, como sabem.</p>
<p>O que Canuto e Pexa sabiam era que o tempo do juiz expedir um mandado não colava, e abrir ali a info de que o flagra e a confissão de um homem agora morto, o segundo em comando de Mishiko, lhes permitia levá-lo sob custódia, podia não exatamente alegrar os seus convivas.</p>
<p>O tempo acabou, policiais. Então?</p>
<p>É rotina, Mishiko, disse Pexa. Você abriu a porta, nós entramos. Temos umas perguntas pra fazer, mas na delegacia.</p>
<p>Não, não, não. Você não entenderam. Eu não vou a lugar nenhum.</p>
<p>E os homens não tiveram que se mexer. Porque um drone varou a janela, girou fazendo um recon, soltou um tirambaço de laser na testa de Mishiko e voou pra fora. Os cinco homens respiraram fundo, agora sim puxando os tubos.</p>
<p>Que porra foi essa, disse Canuto.</p>
<p>Calminha aí, rapazes, disse Pexa. Não tivemos nada com isso. Ou a gente entraria aqui se só quisesse derrubar o chefe de vocês?</p>
<p>Dando passinhos curtos, um atrás do outro, Canuto e Pexa retrocederam, saíram do apartamento, entraram no elevador esperando um feixe varando parede ou teto, que não veio. Respiraram.</p>
<p>Que merda, disse Pexa.</p>
<p>Uma merda, sim, disse Canuto. Mas aquele modelo de drone é militar. Das colônias. Não é fabricado na Terra. E eu sei quem contrabandeia ele pra Califórnia.</p>
<p>Vamos pra delegacia, o capitão precisa saber disso tudo.</p>
<p>Lá fora, Canuto confiscou um yakisoba também. Uísque abria o apetite.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/um-dia-terei-uma-iguana-chamada-mario/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A busca onírica de Alberto Carter</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-busca-onirica-de-alberto-carter/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/a-busca-onirica-de-alberto-carter/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 Aug 2017 15:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=2331</guid>
		<description><![CDATA[<p>A primeira e única vez em que conversou com os sacerdotes Nasht e Kaman-Thah na caverna da flama, Alberto sentia uma coceira incansável nos dedos da mão direita. Contrariando suas recomendações, desceu os setecentos degraus até o Portão do Sono Profundo e adentrou as Terras do Sonhar.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A primeira e única vez em que conversou com os sacerdotes Nasht e Kaman-Thah na caverna da flama, Alberto sentia uma coceira incansável nos dedos da mão direita. Contrariando suas recomendações, desceu os setecentos degraus até o Portão do Sono Profundo e adentrou as Terras do Sonhar.</p>
<p>Quando pisou entre os ramos retorcidos das árvores da Floresta Encantada, a mão latejava em carne viva. Os zoogs, seres pequenos e peludos com grandes olhos brilhantes, que não recusam um pedaço de carne humana quando ela se apresenta assim sem esforço, respeitaram a sua presença e deixaram que percorresse incólume suas trilhas iluminadas por fungos fosforescentes, dali até a grande rocha musguenta de tempos imemoriais que evitavam a todo custo e além. Em um dos círculos de pedra onde os zoogs costumavam celebrar e fazer sacrifícios, prestou respeito aos seus anciões, e afirmaram que ele só continuava vivo porque tinha o mesmo cheiro do seu antepassado, o cheiro do único humano respeitado na trégua entre os zoogs e os gatos de Ulthar depois da guerra. Ele aceitou um pouco do vinho de árvore da lua que ofereceram a contragosto e seguiu viagem.</p>
<p>Depois da floresta e da ponte de pedra que cruzava o rio Skai, Ulthar se erguia com suas ruas de paralelepípedos nas guinadas e curvas das montanhas, escondidas por casas de teto pontiagudo e chaminés entre edificações robustas de estuque depois dos pomares dispersos e das fazendas cercadas. Alberto viu as silhuetas dos prédios das universidades, encrustados como coroas numa sequência de picos à sua direita. Seguiu para o centro, num baixio onde o cheiro de temperos era cada vez mais forte e as ruas cada vez mais cheias de gente e de gatos, de todas as cores e tamanhos. Seu tataravô havia frisado muitas vezes que matar um felino em Ulthar era punível com a morte, e tratá-los bem era mais que uma cortesia; era formar alianças. Alberto sentiu a vontade que qualquer sonhador sente em sua primeira visita, a de partir dali para alcançar as cidades reluzentes escondidas depois dos oceanos, as terras de Lomar, Mnar, Leng e os jardins de Yin, de ver com os próprios olhos as ruínas amaldiçoadas de Sarnath ou de conhecer o rei Kuranes na majestosa Celephaïs. Mas sabia que sua incursão deveria ser breve.</p>
<p>Sentiu o toque direto nos ossos quando foi coçar a mão, o sangue pingando do cotovelo ao erguê-la para observar o estrago. Conversando com os feirantes e lojistas das praças, conseguiu o endereço de sua tataravó. Ela agora morava aos pés da Universidade Feminina de Ulthar, como o tataravô supunha, criando um pequeno rebanho de vacas e suprindo a instituição com leite fresco e queijo. Quando atravessou a porteira bamba e se dirigiu para o casebre, de onde saía um fio de fumaça pela chaminé, já havia perdido os ossos da mão. A mulher reconheceu o tataraneto assim que abriu a porta, mesmo sem nunca tê-lo visto. A aparência dela era a mesma das fotos, percebeu Alberto, os cabelos castanhos ainda intocados pelo branco. Ela o abraçou e perguntou o que havia acontecido com sua mão. Ele ignorou a pergunta e disse o que tinha vindo ali para dizer.</p>
<p>A tataravó ouviu o pedido, mas balançou a cabeça. Já não possuía mais a chave, e não a daria mesmo que ainda a tivesse. Disse que o seu tataravô, ainda que amado por muitos nas Terras do Sonhar, seguia odiado por aqueles que importavam: os deuses, desgostosos no castelo sobre Kadath, e ela não podia arriscar a fúria divina e a vida de tantos pelo capricho de um, que ansiava por pisar naquelas terras uma vez mais antes que a morte o levasse. Alberto disse que o velho estava desesperado. Tirou as botas e mostrou os pés chamuscados. Afinal ela entendeu e disse que viajaria pessoalmente para confrontá-lo. Selaram dois cavalos e partiram. Os zoogs lhes concederam passagem em troca dos animais, quando alcançassem o Portão. Subiram os setecentos degraus, atravessaram a caverna da flama e por fim venceram os últimos setenta degraus até o mundo acordado.</p>
<p>Ela abriu os olhos na poltrona de um quarto, onde o tataraneto dormia profundamente na maca enquanto o velho manipulava um fogareiro sob seus pés, a pele torrada, o cheiro insuportável. Todo o antebraço direito de Alberto tinha sumido, restando o cotoco enegrecido. Sentiu asco vendo a figura decrépita do antigo marido se virar, um olho fosco e sem vida, e a chamar pelo nome. Ele disse que sabia ser aquele o único método de trazê-la ali, e tinha urgência. Ela tentou se erguer e levantar as mãos mas estava paralisada. Ele a beijou, tirou o colar que adornava o seu pescoço, de onde pendia o rubi que havia escavado do monte Ngranek em seu caminho para Kadath tantas eras atrás, e enfiou a adaga entre suas costelas, até o cabo.</p>
<p>A dor pulsava e se alastrava quando ela viu, de pé no canto do quarto, os olhos como duas galáxias reluzentes, a silhueta do caos rastejante em sua forma humana, que havia visto uma única vez na juventude e que povoava seus pesadelos desde então. Seu antigo amor entregou o colar a Nyarlathotep e então pegou em suas mãos e juntos andaram alguns passos até sumirem. O banido Randolph Carter voltava às Terras do Sonhar, o que implicaria na destruição de Ulthar e de tudo que ela amava, e não havia nada que pudesse fazer exceto aguardar o gelo da morte e observar o legado moribundo da sua paixão estendido na maca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p>Este drop é uma homenagem ao mestre do terror cósmico, H. P. Lovecraft, com foco no ciclo de histórias ambientadas nas Terras do Sonhar, e à reimaginação desse universo pela lente inventiva de Kij Johnson (<a title="The Dream-Quest of Unknown Kadath" href="http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/dq.aspx" target="_blank">The Dream-Quest of Unknown Kadath</a> e <a title="The Dream-Quest of Vellitt Boe" href="https://www.amazon.com.br/Dream-Quest-Vellitt-Boe-Kij-Johnson-ebook/dp/B01DJ0NARW" target="_blank">The Dream-Quest of Vellitt Boe</a>, mais especificamente).</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/a-busca-onirica-de-alberto-carter/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A cidade e os símbolos</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-os-simbolos/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-os-simbolos/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2015 21:03:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=1721</guid>
		<description><![CDATA[<p>Aberá se esconde do mundo na simplicidade de suas linhas. Quando o viajante adentra a floresta e segue por qualquer trilha, corta a cidade como um facão afiado decepa um pescoço.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Aberá se esconde do mundo na simplicidade de suas linhas. Quando o viajante adentra a floresta e segue por qualquer trilha, corta a cidade como um facão afiado decepa um pescoço.</p>
<p>Atravessa as ruas, segue pelas casas e vendas e igrejas, pisa nos jardins, chuta os piões e as bolas das crianças, cheira as panelas de galinhada e feijão preto, sente a brisa da esquina em que há muito um moribundo soprou e sai do outro lado.</p>
<p>No entanto o viajante pode tropeçar ou notar a mudança nas nuvens, que de Aberá são sempre mais brancas, e se ver numa cidade ambígua. Sempre que um estranho aporta nas percepções citadinas, os habitantes, tão confundidos com a floresta que adquiriram tons amadeirados, o abordam com presteza.</p>
<p>Dentro das habitações sem paredes é possível ver as pessoas sentadas escrevendo em lousas com gizes que guincham. Elas escrevem o que são. Nunca chegam ao fim pois percebem que aquilo que escrevem é o que foram. Cansadas, se entregam a rotinas entorpecidas, buscando algo que não encontram.</p>
<p>O viajante se sente tentado a entrar em sua habitação, que sempre esteve ali, e pegar o giz e riscar algo, e logo descobrir que décadas não são suficientes para traduzir aquilo que pretende traduzir em palavras. Diante da revelação ele pode se dedicar à manufatura de placas e pendurá-las nas teias de caranguejeiras e erguer suas próprias paredes. Mas aprende, como os habitantes aprenderam, que o vento apaga as inscrições e o tempo as derruba e o solo as come e tudo aquilo que ele foi não importa e talvez nunca tenha importado.</p>
<p>O que sucede é, inevitavelmente, o anseio por novas viagens. No entanto o retorno à trilha para deixar a floresta que abriga Aberá é difícil, pois o viajante não vê mais trilhas, vê apenas as ruas, as casas e vendas e igrejas, os jardins, os piões e as bolas das crianças, não sente mais o cheiro do mar e das especiarias que há muito apodreceram em seus alforjes, apenas o das panelas de galinhada e feijão preto, e não sente mais a brisa refrescante, apenas o sopro que ele mesmo, definhando, sopra.</p>
<p>É possível que em algum momento desta procura pela saída o viajante tropece ou olhe para cima e repare nas nuvens, tão brancas que lembram enormes rabiscos de giz moldados pelo vento. Talvez não seja coincidência que em Aberá só bebam água da chuva.</p>
<hr />
<p>Este miniconto é o terceiro de uma série do Flash Fiction que presta homenagem ao belíssimo livro As Cidades Invisíveis (1972), de Italo Calvino. Conheça os outros:<br />
<a title="A cidade e a memória" href="http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-a-memoria/">1 &#8211; A cidade e a memória</a><br />
<a title="A cidade e o desejo" href="http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-o-desejo/">2 &#8211; A cidade e o desejo</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-os-simbolos/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Syuasuarána</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/syuasuarana/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/syuasuarana/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 02 Jul 2015 21:19:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=1590</guid>
		<description><![CDATA[<p>Do fundo da mata o rugido. Deu em nada. Milhó. Que pra lidar com trem assim só homem com corage e falta demais dessa aqui nesse moço.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Do fundo da mata o rugido. Deu em nada. Milhó. Que pra lidar com trem assim só homem com corage e falta demais dessa aqui nesse moço.</p>
<p>Moço é bão de dizer que vive só cos trem que Macu deu, que hora que Macu quiser tirar é sopro na oreia e pé na cova e algum sortudo fica cos óios e o resto bicharada divide com presteza. Mas não é só bicharada encarando com língua molhada não, moço é apetitoso e as cunhatã tudinho oriçada quando passa na frente da maloca e vê espinha de peixe envergada, plantada em terra boa, e calha de quase sempre acordar pra brincar com uma ou outra até cansar as espora e abrir bocejo-fome que manda pro fruto fácil já no jeito de despencar do galho.</p>
<p>Carne é bom que moço nem liga de esfiapar num dente e incomodar até quando Vei, a Sol, tá descansando, mas caçar nada de fazer não, quer é filar dos bonito que gostam de aventura, que gostam de mostrar que é capais, ele não é nem preocupa de não ser desde que sobre lasca pra saciar orgulho que finge ferido e lava no riacho quando ninguém tá olhando com os dente bobo de fora, sabe que ninguém pode com esperteza tamanha.</p>
<p>Moço ouve o rugido de novo, os bicho tudo se encoie de medo e ele acorda e pequeninho se procura no chão, no meio da grama do mato da terra dos pedregulho e quase não se acha, mas se acha e sai com o coração em festa, e ouve outro rugido mais alto e mais alto e mais alto que até vê os carrapicho e formiga e carrapato enfileirando nas borda do mato pra escapulir de fininho pra proteção do longe, mal pisca a onça já tá de olho nele, que hora traiçoeira pra ser apetitoso, e a linguarada nos beiço que é de fome ou de safadeza ele não sabe, ela avança mostrando os dente e cravando as unha lixada na terra e no ar, moço se fecha todo e pensa no tanto de gostoso que falta de viver ainda pra frente e pra</p>
<p>Moço acorda agarrado no esposo, sentindo o suor entre as pernas. Lembra de algo borrado e com gosto de fumaça e cheiro vermelho. Cobre o outro até os ombros pra não acordar com o frio do ar-condicionado. Toma uma ducha quente, xinga o nó da gravata que dá o baile duas vezes antes de encaixar e pendurar no pescoço. Bate as pontas do paletó, enfia o maço de Lucky Strike no bolso, desce na cozinha e vira um gole do Jack pra lavar o amargo da boca.</p>
<p>Na estação do nível 89, aguarda o bonde que serpenteia pela intrincada teia de cabos entre os edifícios. Observa duas meninas com uniforme escolar rindo do holoprojetor mostrando um índio com lança na mão e bochechas pintadas correndo pelo mato. Sente algo no fundo do estômago. Entra no bonde e senta próximo à janela, observando a metrópole que se esparrama acima e abaixo, ignora as propagandas projetadas nas paredes e o pequeno androide que serve amendoim e churros na estação 27, e segue aturdido até a entrada hexagonal do prédio. Passa pelos companheiros com olhos cravados nas telas e abre sua sala, senta na mesa, abre a gaveta, enfia o crachá na lapela, agarra os braços da cadeira e aperta forte.</p>
<p>Na jaula ao lado, o tigre sedado dorme. Moço apanha o chicote pendurado na barra. São três chicotadas bem dadas pra mostrar o sangue e saciar o mal-estar no estômago. No fim outra injeção na pelagem macia e um café pra abrir os trabalhos.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/syuasuarana/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A cidade e o desejo</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-o-desejo/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-o-desejo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 14 May 2015 15:59:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=1523</guid>
		<description><![CDATA[<p>É sabido que aquele que deseja chegar a Eloá já chegou. Há algo de evocativo nas pilastras que ladeiam a entrada, marcadas com símbolos de giz branco pelos monges, mas admirá-las com a devida atenção é impossível devido à arrebatadora visão da cidade que toma forma centenas de metros abaixo.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>É sabido que aquele que deseja chegar a Eloá já chegou. Há algo de evocativo nas pilastras que ladeiam a entrada, marcadas com símbolos de giz branco pelos monges, mas admirá-las com a devida atenção é impossível devido à arrebatadora visão da cidade que toma forma centenas de metros abaixo.</p>
<p>Os habitantes de Eloá são muito solícitos com qualquer viajante, e é possível conhecer cada quina e curva ouvindo as mais variadas explicações das mais variadas bocas, andar por suas ruas estreitas e descobrir a época de assentamento de cada tijolo, telha e paralelepípedo, a trajetória dos pedregulhos chutados por pés ingênuos ou pés bêbados no rastejar incerto da madrugada, ouvir a crônica da destruição das balsas por um louco e sua posterior proibição pela prefeitura às margens dos rios que cercam a cidade, saborear a melodia de séculos esquecidos assoviada pelos velhos que se amontoam no limite de um banco de areia para pescar, imaginar os extintos temperos lembrados pelas matronas enquanto cozinham ao pôr do sol nos casarões inclinados do morro.</p>
<p>Nada supera o período de estadia em Eloá, pois basta pedir para ser atendido, exceto quando chega a hora de partir. Depois de muito insistir na ideia da partida o viajante é abordado por cada habitante num longo questionário a respeito dos seus motivos, e se percebe que todos aqueles que inquirem foram os que vacilaram ao apresentar as mesmas respostas, e vencida esta etapa o viajante corre o risco de titubear ao cruzar novamente com as pilastras que ladeiam a saída. É só neste momento que se percebe que os símbolos de giz são pedidos de socorro que os cidadãos enviam em segredo aos monges nos raros períodos em que o badalar mecânico de suas ocupações é rapidamente interrompido pela chegada de um novo viajante. As pilastras engolfam aquele que quer partir em um sentimento arrebatador de pena por todos que tão bem o receberam, de forma que padecer do mesmo destino parece a única resolução aceitável. Seu retorno nunca é comemorado.</p>
<p>Os monges com gizes de cera na mão rezam para que o próximo viajante decida deixar a cidade debaixo da chuva que lava os seus escritos. Mas a chuva só cai em Eloá depois que as pilastras cantam.</p>
<hr />
Este miniconto é o segundo de uma série do Flash Fiction que presta homenagem ao belíssimo livro As Cidades Invisíveis (1972), de Italo Calvino. Conheça os outros:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-a-memoria/" title="A cidade e a memória">1 &#8211; A cidade e a memória</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-os-simbolos/" title="A cidade e os símbolos">3 &#8211; A cidade e os símbolos</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-o-desejo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A cidade e a memória</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-a-memoria/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-a-memoria/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2014 16:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=1254</guid>
		<description><![CDATA[<p>Depois de atravessar bosques, trilhas e uma série incansável de morros, pode-se ver Balaia afundada no vale feito uma bola de chumbo jogada sobre a cama. O lençol engruvinhado, jorrando do centro em raias numerosas, representa os milharais que se alongam até o sopé das montanhas distantes. Atravessando-os, o viajante sente a vontade irresistível de colher as socas mais gordas e encher a bolsa.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de atravessar bosques, trilhas e uma série incansável de morros, pode-se ver Balaia afundada no vale feito uma bola de chumbo jogada sobre a cama. O lençol engruvinhado, jorrando do centro em raias numerosas, representa os milharais que se alongam até o sopé das montanhas distantes. Atravessando-os, o viajante sente a vontade irresistível de colher as socas mais gordas e encher a bolsa.</p>
<p>Balaia é formada por casas e estabelecimentos simplórios, uma vila homogênea e empoeirada. Assim, de qualquer lugar é possível se deparar com o céu e sua miríade de nuvens amontoadas por crianças, ou com o sopro do vento que se lança das telhas rachadas da igreja e imita o silvo das chaleiras quando mães fazem gelatinas, ou com os sabiás enfileirados nas cornijas cujos cantos remetem à época em que a linguagem se resumia a um conjunto de gestos. Há algo de peculiar na arquitetura local, formas retas que são um convite à secura, aos números inteiros e a uma retidão moral arcaica. Questionados sobre o motivo da pobreza de curvas, os moradores evitam respostas diretas. Acossados, se limitam a dizer que elas podem nos fazer voltar ao princípio sem ter consciência disso.</p>
<p>No meio da tarde se reúnem ao redor de fogueiras, anciões mexendo barrigas de barro com enormes colheres de pau, e cada um deposita a quantidade de socas de milho que julga adequada. O recém-chegado é encorajado a dispor de tudo o que colheu na vinda. Quando prontas, despem as palhas, debulham em profundo silêncio, jogam no chão e aguardam o tapete maduro ser consumido pelos pássaros.</p>
<p>Dizem que o milho de Balaia é único. Para compreender esta máxima, é necessário participar da comunhão. Ao arrancar as palhas a mente do viajante é transportada para algum acontecimento prévio da sua vida, e os dedos debulhando os grãos se assemelham ao passar de páginas de um livro revisitado com a contemplação que o indivíduo não se permite no cotidiano. Até mesmo as crianças da cidade são sábias, pois vivem rodeadas pelo milho que nunca é plantado, nunca acaba, está ali desde sempre, vicejando, engordando os pássaros e envelhecendo o povo.</p>
<hr />
Este miniconto é o primeiro de uma série do Flash Fiction que presta homenagem ao belíssimo livro As Cidades Invisíveis (1972), de Italo Calvino. Conheça os outros:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-o-desejo/" title="A cidade e o desejo">2 &#8211; A cidade e o desejo</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-os-simbolos/" title="A cidade e os símbolos">3 &#8211; A cidade e os símbolos</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/a-cidade-e-a-memoria/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Invisinha [#129]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/invisinha-129/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/invisinha-129/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 17:22:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=630</guid>
		<description><![CDATA[<p>Tudo começou com uma porcaria de aposta.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo começou com uma porcaria de aposta.</p>
<p>O Zé me deu uma bala, parecia bolinha de gude. Lambi, gosto de amora. Falou que se eu comesse me dava 200 contos. Mastiguei, azedinha, engoli. E ele nunca me pagou. Sumiu.</p>
<p>No outro dia acordei e tomei um susto. Nada pra baixo da camisola. Nem pé nem perna. Mas o volume das coxas continuava ali. Tateei e senti a pele, os ossos, as unhas, tudo em ordem. Mas não via nada. Nem os braços. Tirei a camisola e fiquei na frente do espelho. Nada. Cuspi. O cuspe surgiu assim que saiu da minha boca e escorreu pela parede, vivo, visível. O problema era só comigo.</p>
<p>Saí pelada. Se um negócio desse acontece você tem que aproveitar a oportunidade. Entrei no prédio, me esgueirei pela escadaria até o quarto andar, aguardei quando abriam as portas pra passar no vácuo e no fim acabei no escritório do Paulo. Sentei num canto. Ele conversou com os clientes no telefone, bebeu uísque da gaveta, preencheu formulários. Aí perto do almoço a secretária entrou, tirando a blusa. Fizeram ali mesmo, na minha frente. Sete anos de casamento pelo ralo. Ele nunca soube de onde veio o tapa, chegou a arrancar sangue. Saí correndo, só as lágrimas no caminho testemunhando minha visita.</p>
<p>Comecei a me vestir com sobretudo, calça, meia e luva, a cara toda enfaixada e óculos escuros pra atender os entregadores. Deviam me achar uma louca. Tudo eu pedia, de comida a sabonete. E sempre que precisava saía pelada, entrava nas lojas, pegava dinheiro enquanto os caixas entregavam o troco. Consegui uns contatos, comecei a roubar joias, uma grana estável. Mas daí o Lebowitz veio, o cara da CIA. Fez todo um discurso que eu precisava usar minhas habilidades pra algo decente. Me levou pra Langley, me treinou, fiz umas missões de suporte à la James Bond, levantei uma verba. Mas acabei pedindo pra sair, não era bem o que eu queria pra minha vida.</p>
<p>Me larguei no sofá da mansão em Beverly Hills, angustiada. Pensei em suicídio. O que me motivou a não seguir em frente foi saber que se eu fizesse mesmo isso ninguém ia saber.</p>
<p>Achei que não podia piorar. Piorou.</p>
<p>Me deram um colar localizador e me chamaram pro Quarteto Podrástico.</p>
<hr />
<p><em>*Conheça os outros integrantes do Quarteto Podrástico:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/homem-asfalto-08/" title="FF #08 - Homem-asfalto">HOMEM-ASFALTO</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/foguin-79/" title="FF #79 - Foguin">FOGUIN</a></em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/invisinha-129/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Heisenberg [#120]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/heisenberg-120/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/heisenberg-120/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 16:56:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=601</guid>
		<description><![CDATA[<p>Muita porcaria na mesa. Salgadinho, cigarro, chiclete, bala, isqueiro. Chapéu preto, redondo, copa reta. Coisa dos anos 20, gângsters que saíam bem na foto.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Muita porcaria na mesa. Salgadinho, cigarro, chiclete, bala, isqueiro. Chapéu preto, redondo, copa reta. Coisa dos anos 20, gângsters que saíam bem na foto.</p>
<p>No espelho a testa vincada. As papadas. As sobrancelhas teimosas. As manchas na pele. Os olhos fundos de quem já viu demais, a carapaça quitinosa cobrindo as íris e translucidando o mundo além do para-brisa do motorista encaixado atrás do topo do nariz, o cérebro o pufe gostoso de um velho que já passou muita marcha.</p>
<p>Coloca o chapéu. O motorista se endireita e estala os dedos. No reflexo um desconhecido, mais nítido e lúcido e real que o manequim de momentos atrás, um boneco de vodu trespassado pelas agulhas enfiadas por todos.</p>
<p>Abre a boca, deixa a fala mansa bater e voltar, um discurso tão sensato que convence a si mesmo das mentiras inventadas para levar o teatro em frente. Sempre em frente, diz o motorista, fumando e soltando baforadas pelos ouvidos. Vai, meu velho, tu é foda, tu consegue, tu é o maioral.</p>
<p>Ajeita o casaco, limpa os óculos na toalha, penteia o cavanhaque com o dedo. Sai pra rua e encara o mundo com um ódio transfigurado, tudo que está errado, tudo o que não conseguiu, tudo o que merece ter e não tem, e morde os dentes como quem desafia as linhas encaixadas num gráfico, uma apresentação de power point da vida, um rabisco de laser numa tela branca e esterilizada, um desenho redondinho, fofo, cuti-cuti.</p>
<p>Não. A vida feia sob o chapéu é linda. É viva. É mais que essa palhaçada toda.</p>
<p>Desliga o corpo. O pequeno grande motorista toma conta, apertando a embreagem com tanta força que um puf cinético desce pela narina esquerda. Tu é foda. A vida é tua. Engata a primeira. Não olha pra trás. Sempre em frente.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/heisenberg-120/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O cavaleiro das trevas [#84]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/o-cavaleiro-das-trevas-84/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/o-cavaleiro-das-trevas-84/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 15:31:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=484</guid>
		<description><![CDATA[<p>	Bruto Wade tinha tudo para ser playboy. Mas seus pais morreram antes que pudessem bajulá-lo a infância inteira.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	Bruto Wade tinha tudo para ser playboy. Mas seus pais morreram antes que pudessem bajulá-lo a infância inteira.</p>
<p>	Saíam do cinema, um filme de aventureiro mascarado, e a caminho do carro foram abordados por um ladrão de quinta categoria. O pai de Bruto tentou acalmá-lo, mas o movimento de sacar a carteira do bolso do paletó foi confundido com um saque de arma, e o revólver disparou. A mãe virou-se para proteger o filho e recebeu outra bala. Bruto observou chocado o homem arrancar o colar de pérolas do pescoço dela antes de se virar e sair correndo, ignorando-o completamente.</p>
<p>	Bruto foi criado pelo mordomo da família, Freddo, dispondo da riqueza invejável que os Wade acumularam. Seu pai fora um empresário bilionário e um filantropo admirado, e Bruto herdaria seu dinheiro e fama quando chegasse à maioridade. Mas antes disso devia lidar com o choque daquela perda desastrosa. Sessões intensivas com psicólogos ocuparam boa parte dos anos seguintes. Desenvolveu fobia a armas e um gosto peculiar de se fantasiar como morcego no Halloween. Viajou à maior parte dos países do mundo atrás de diversão em seus anos de juventude, entrando em contato com a emergente indústria de vídeo-games. Criou um herói que protagonizou jogos premiados, um homem astuto e sem poderes, que protegia a cidade com força bruta, inteligência e tecnologia, fantasiado de morcego como ele, derrubando ladrões e assassinos antes que pudessem perpetrar seus malefícios contra civis inocentes.</p>
<p>	Mais tarde, vendo sua riqueza multiplicada, Bruto criou institutos para resguardar jovens que perderam os pais para a violência urbana. Desenvolveu programas para auxiliar órfãos nos estudos e iniciar suas carreiras. Criou o Asilo Akram para doentes mentais perigosos, para retirá-los das ruas e mantê-los afastados da população. Por fim comprou todos os cinemas da Cidade Potham, demoliu-os e reconstruiu-os com estações de polícia anexas, estacionamentos e passarelas de acesso às estações de trem e pontos de táxi, se certificando de que nenhum outro garoto passasse pela experiência traumática pela qual passara.</p>
<p>	No fim da vida se dedicou a erradicar o crime de Potham. Mesmo com o dinheiro que possuía não foi fácil. Não teve receio de mergulhar na corrupção e comprar ou dobrar os políticos e poderosos da cidade para aprovar leis que beneficiassem a ordem e não afundassem na burocracia sem sentido do jogo político. Bruto não se importava de ver quem não devia engordar os bolsos se as ruas da cidade estivessem limpas. A polícia criou planos de carreira invejados e era reverenciada. O comissário Gondor se tornou seu braço direito nessa luta. Bruto se tornou prefeito, foi reeleito, depois governador, reeleito novamente, e de volta à prefeitura por mais dois mandatos viu seus esforços gerarem frutos longevos.</p>
<p>	Passou seu último Halloween com a fantasia de sempre ao lado do retrato dos pais e de Freddo. Pela janela observou um ponto brilhante no céu, um morcego com as asas abertas estampado nas nuvens. Seu personagem, o Morcegomem, se tornara mais popular que o criador. Ele não se importava.</p>
<hr/>
<p><em>*O Superman também já foi vítima no universo Flash Fiction. Confira <a href="http://flashfiction.com.br/para-o-alto-e-avante-38/" title="FF #38 - Para o alto e avante!">AQUI</a>.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/o-cavaleiro-das-trevas-84/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Foguin [#79]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/foguin-79/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/foguin-79/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 15:21:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=467</guid>
		<description><![CDATA[<p>Tudo começou com uma porcaria de aposta.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo começou com uma porcaria de aposta.</p>
<p>O Zé um dia chegou em casa com uma garrafa de álcool estrangeira. Tinha uns adesivos vermelhos e um desenho estranho, uma bolinha amarela com três pás ao redor. Ele falou: te dou 100 reais se você tomar um gole. Eu tomei. Não era ruim. Aí ele disse: te dou milão se tomar tudo. É um álcool 0,2%, nem vai te dar nada. Tomei. O desgraçado até hoje não me pagou.</p>
<p>No dia seguinte quando acordei não tinha mais casa. Ela queimou e só sobrou eu caído na terra chamuscada, pelado. Descobri que conseguia pegar fogo. Era só pensar nisso e meu corpo entrava em combustão. Não podia mais passar perto de posto de gasolina. As pessoas se interessaram pela minha história, o pessoal da TV veio fazer matéria e atraiu a atenção de um circo búlgaro. Viajei pra lá. Ganhava horrores pegando fogo ao vivo, fazendo malabarismo e tudo. Mas o espetáculo era só pra maior de idade, porque a roupa durava cinco segundos. Um dia a contorcionista se engraçou pro meu lado. Na hora H eu não consegui me controlar, explodi de prazer, se isso faz algum sentido, acabei com o circo, com todo mundo. Foi um desastre, fiquei um caco. Fugi no caos, entrei num navio clandestino e voltei pro Brasil.</p>
<p>Me virei na rua. Os mendigos gostavam de ficar perto de mim nas noites frias, diziam que eu era quente. Às vezes eu fazia a alegria geral esquentando as colherzinhas de heroína com a ponta do dedo. Aprendi a controlar melhor o poder com o tempo. Mas era uma vida de merda. Comecei a beber. Passava fome e o pessoal brincava, dizia que eu podia viver sem a &#8220;quentinha&#8221;. Pensei em me matar várias vezes. Ninguém queria dormir perto de mim, e se eu tivesse um pesadelo?, diziam. Eu seguia, sozinho, amaldiçoado.</p>
<p>Achei que não podia piorar. Piorou.</p>
<p>Me deram uma roupa anti-inflamável e me chamaram pro Quarteto Podrástico.</p>
<hr />
<p><em>*Conheça os outros integrantes do Quarteto Podrástico:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/homem-asfalto-08/" title="FF #08 - Homem-asfalto">HOMEM-ASFALTO</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/invisinha-129/" title="FF #129 - Invisinha">INVISINHA</a></em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://flashfiction.com.br/foguin-79/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
