Homem-asfalto [#08]

Tudo começou com uma porcaria de aposta.

E o Zé nunca pagou os 100 reais que ficou me devendo, aquele desgraçado.

Foi o seguinte: a avenida perto de casa desemboca na BR. Então passa moto, carro, ônibus, caminhão, passa tudo. No meio tem aquela marca preta de sujeira, incrustada no asfalto, parece uma camada de óleo preto. A gente tava bêbado. E de madrugada tava vazio. O Zé falou: “se tu der uma boa lambida nesse chão aí, bem no meio da rua, te dou 100 reais”. Lambi. Vomitei. Mandei ele à merda. Fui pra casa dormir.

De manhã minha língua tava cinza. Depois a boca inteira escureceu. Depois o rosto. O corpo todo. Fiquei com febre, passei mal, comecei a vomitar cascalho. É, aquelas pedrinhas de estacionamento que ficam gemendo quando passa carro. Não tinha mais fome. A pele foi ficando dura, consistente. Caíram as unhas, os cabelos. Os dentes viraram pedrinhas. Daí comecei a vomitar bolas de cimento. Uns tijolos pretos. Quando parecia ter acabado ainda tive uma surpresa. Apareceu uma linha pontilhada amarela bem no meio do meu corpo. Começava no saco, subia a barriga, contornava a cabeça, descia as costas e acabava lá onde cê tá pensando.

Eu morava no terceiro andar. Um dia tropecei e caí no térreo. Sorte que não matei ninguém. Me toquei de uma coisa. Eu não fiquei forte, só fiquei pesado. E mal-encarado.

Virei o Homem-Asfalto. As crianças corriam de mim. Meus amigos me abandonaram.

Achei que não podia piorar.

Piorou.

Me deram uma sunga preta e me chamaram pro Quarteto Podrástico.


*Conheça os outros integrantes do Quarteto Podrástico:
FOGUIN
INVISINHA