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	<title>Flash Fiction &#187; Destaques</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
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		<title>Do tempo que resta</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jan 2019 18:20:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Capitão, estamos a meia hora da terra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Capitão, estamos a meia hora da terra.</p>
<p>Ótimo, Rosvaldo. Diga aos homens pra manterem a velocidade. Avise Fena que é hora. Peça pra ela arrumar suas tralhas e me encontrar na cabine.</p>
<p>Sim, senhor, capitão.</p>
<p>Quando Rosvaldo desapareceu, o capitão se permitiu afrouxar o peito, desguarnecer os músculos da perna, arquear os ombros e olhar o borrão azul que se espraiava à frente. Moleque ou homem no alto de suas faculdades, se orgulhava de divisar no carrilar do horizonte os humores do vento, de adivinhar como Odin, seu deus esquecido, soprava lá de cima. Descortinava mensagens nas nuvens, nos peixes e baleias que vinham à superfície beber de perto o calor do sol, no esgar dos rostos da tripulação a boca crivada que precisava de um pouco mais de ouro ou álcool pra apaziguar o espírito — e, quando isso não bastava, a prancha. Mas agora era um borrão depois do outro, nada que prestasse, e dependia sobretudo dos ouvidos pra continuar atinado no posto, e da memória que tracejava os caminhos de sua embarcação — fora dela, nu.</p>
<p>Ficou encravado na proa até descobrir o marrom no meio dos azuis. Desceu as escadas, vestindo o manquitolar com gingadas do quadril largo, e entrou na cabine. Fena estava ali, podia dizer pelo cheiro de vinagre que vinha do cabelo dela. Amuada no canto, abraçada à sua trouxa.</p>
<p>Pegou tudo, menina? Chegamos na casa de sua mãe. Você vai descer e, se os deuses forem bons, nunca mais subir. O que aqui tiver seu cheiro será queimado.</p>
<p>Hm-hm, ela resmungou, como costumava resmungar, falando pela entonação.</p>
<p>O capitão sentou na mesa, destampou a garrafa de rum e o serviu no copo de madeira escavada. Aproximou do rosto os papéis que tinha ali em cima, perto da chama da vela. O mapa de seu castelo, o documento real que transferia a posse de todas as suas propriedades, incluindo escravos e navios, ao portador, suas cartas de crédito, a oração que a mãe tinha lhe ensinado no leito de morte. Tudo o que possuía de mais importante, montante pelo qual homens matariam, trairiam, roubariam, dobrado e amarrado num barbante. Voltou a olhar pra cama. Fena continuava do mesmo jeito. Bebeu o vinho.</p>
<p>Sua mãe nunca disse por que você foi parar naquela ilha, ou disse?</p>
<p>Fena quieta.</p>
<p>Ela sabia que alguém chegaria lá, cedo ou tarde. Os marinheiros são tarados por um pedaço desavisado de terra. Aponte algo marcado num mapa a um homem do mar e ele escarra. Diga que nunca foi desenhado numa folha e os olhos brilham. Os verdadeiros homens. Os que conquistam e pilham e sangram e bebem e fodem até o sangue ferver. Mas ela sabia disso. E você, sabia?</p>
<p>Hm-hm.</p>
<p>O capitão ouviu os gritos da proa. O gingado do navio cedeu, as velas recolhidas. As cordas correram, o bote atingiu a água, a âncora mergulhou buscando o solo.</p>
<p>Venha, é hora.</p>
<p>Subiram a escadaria, e com a ajuda da tripulação desceram ao bote onde estava Rosvaldo, já segurando os remos. Na praia, Rosvaldo puxou o bote pra areia e os acompanhou até o limiar das árvores. Ali ficou. Seguiram juntos, o capitão e Fena, até o casebre. Fena disparou, abrindo a porta. O capitão enxergou, depois do limiar, o que não enxergava lá fora. Viu a garota enroscada no pescoço da velha, na cadeira de balanço, as agulhas de tear largadas no chão.</p>
<p>Uma gentileza, é claro, disse a velha. Quero que veja pra quem está entregando tudo o que conquistou na vida.</p>
<p>O capitão tirou o punhado de papéis do bolso, jogou aos pés da cadeira. Fena apanhou e entregou à mãe.</p>
<p>Muito bem, minha filha. Fez bem. A semente?</p>
<p>A garota passou a mão na barriga.</p>
<p>Esplêndido. O animal lhe tratou bem quando revelou sua identidade?</p>
<p>Dessa vez ela demorou a responder, mas logo balançou a cabeça em sinal afirmativo.</p>
<p>Pois bem, disse a velha. Se aproxime, capitão. Se ajoelhe aqui ao meu lado.</p>
<p>O homem obedeceu, desabando sobre o joelho mole. A velha puxou um fio de seu cabelo, um fio de sua barba, e no tear trançou ambos com um fio preto de lã. Deu na boca da filha. A menina engoliu.</p>
<p>Vê, capitão? Levante. Ande. Pule. Respire. Meu jogo é minha honra.</p>
<p>O capitão levantou, mais rápido do que esperava. Fisgou um golfo de ar, os pulmões quase explodindo, e soltou um urro que findou numa gargalhada.</p>
<p>Quanto tempo?, ele perguntou.</p>
<p>Até o nascimento da criança, disse a velha. Sabe, é engraçado. Um velho encarquilhado como você. Não visse minha ilha, viveria menos tempo do que esses meses até o nascimento de minha neta. Pra você, minha filha foi uma bênção.</p>
<p>Não é o que dirão minha esposa, meus filhos, meus netos de verdade.</p>
<p>Eles aprenderão a se virar, capitão. Sem suas benesses. Sem sua herança. Esta fica pra sua última filha. Que é de verdade também, seu tolo.</p>
<p>Tolo? Quem procura seu destino é tolo? Tolo é quem o desconhece. Você, Fena. Acha que sobreviverá ao nascimento da criança? Já viu alguma das suas irmãs com a filha no colo? Desperdiço minhas horas aqui.</p>
<p>O capitão cuspiu, deu meia-volta e saiu. Na praia, disse a Rosvaldo que remasse de volta. Mergulhou e nadou feito um peixe, escalou o navio pela corda, a tripulação enfileirada na amurada, boquiaberta. Hasteou uma das velas sozinho, disse aos homens que hasteassem as outras. E partiu, que as horas no mar tinham o dom de escorregar feito azeite, e ele tinha as que lhe restavam em alta conta.</p>
<p>Pela primeira vez em muito tempo, o capitão viu a linha do mar se chocar com a do céu, as nuvens enrodilhadas num cobre ferruginoso. Poucos homens tinham os dias contados e se permitiam sorrir com convicção. Os dentes do capitão brilhavam.</p>
<hr />
<p><a href="http://flashfiction.com.br/wp-content/uploads/2019/01/Mafagafo-edição-2-número-3.jpg"><img class="alignnone size-large wp-image-2818" src="http://flashfiction.com.br/wp-content/uploads/2019/01/Mafagafo-edição-2-número-3-733x1024.jpg" alt="Mafagafo edição 2 número 3" width="610" height="852" /></a><br />
*Este drop foi originalmente publicado na <a title="Revista Mafagafo" href="https://mafagaforevista.com.br/" target="_blank">Revista Mafagafo</a> (número 2, parte 3) em novembro de 2018. A Mafagafo é uma revista digital (em formatos pdf e para e-readers) que publica noveletas e novelas de ficção científica e fantasia em formato seriado. São sempre ciclos de 4 números, com todas as histórias desmembradas em quatro partes. A partir do número 2, a revista passou a publicar também minicontos (chamados de ficção relâmpago), utilizando a mesma métrica que utilizamos aqui no Flash Fiction: de 300 a 1.000 palavras. A Mafa é gratuita para download nesse link, e só &#8220;cobra&#8221; um compartilhamento em alguma rede social: <a title="Mafagafo Edição 2" href="https://mafagaforevista.com.br/edicao-2" target="_blank">https://mafagaforevista.com.br/edicao-2</a></p>
<p>[Aliás, grato à Jana Bianchi por organizar esse projeto mirabolante e dar visibilidade a tantos autores e autoras do país. Vale a pena conhecer e divulgar essa revista bacanuda - e se você também escreve, em breve abrem as inscrições para o próximo número.]</p>
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		<title>Da necessidade de fluir como um rio</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jan 2019 14:25:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já haviam se passado mais de três dias, e as pequenas hyorougan que trazia na bolsa tinham acabado. Sem as bolinhas de nutrientes, Matanari não duraria outro dia. Sentia uma sede inabalável, a garganta em brasa. Ouvia o rio, ao longe, quando o vento nas folhas e os pios dos pássaros cessavam, e o cantil seco pendurado nas costas parecia coçar, querendo se erguer, por conta própria, para alcançar a fonte do barulho. Matanari não se mexia, equilibrado nos galhos da árvore. Talvez chovesse hoje. Ele rezava há muito pela chuva.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Já haviam se passado mais de três dias, e as pequenas hyorougan que trazia na bolsa tinham acabado. Sem as bolinhas de nutrientes, Matanari não duraria outro dia. Sentia uma sede inabalável, a garganta em brasa. Ouvia o rio, ao longe, quando o vento nas folhas e os pios dos pássaros cessavam, e o cantil seco pendurado nas costas parecia coçar, querendo se erguer, por conta própria, para alcançar a fonte do barulho. Matanari não se mexia, equilibrado nos galhos da árvore. Talvez chovesse hoje. Ele rezava há muito pela chuva.</p>
<p>Na cabana abaixo, a poucos metros, o homem que espionava seguia em seu ritual cotidiano, trancafiado todo esse tempo. Matanari sentia o cheiro da comida, pontualmente no almoço e no jantar, e não ouvia nada lá de dentro, o silêncio total de um homem que escrevia e costurava. Quanto tempo mais duraria sua água? Quanto tempo precisaria ficar ali, aguardando, até o homem levar o balde para encher no rio? Muito mais do que havia previsto, pelo jeito.</p>
<p>Foi só no início da tarde desse quarto dia, quando as nuvens pesadas já nem se viam, carregando pra longe a esperança de chuva, que o homem saiu com dois baldes equilibrados num tronco sobre o ombro, o kimono impecável pra alguém que morava há anos isolado na floresta. Matanari aguardou até que tivesse sumido atrás da colina antes de descer.</p>
<p>Em primeiro lugar, desarmou o pequeno disparador com a agulha envenenada acima da porta. Em seguida, foi até a mesa, pegou uma das folhas em branco e o pincel, mergulhou na tinta e desenhou rapidamente o símbolo de seu daimyō, um coelho equilibrado sobre duas pedras. Olhou pela abertura dos fundos. Ainda sem sinal do homem. Avançou para a panela, enfiando a mão e jogando o arroz frio dentro da boca. Foram cinco mãozadas que desceram ríspidas. Não havia água para ajudar. Rearmou a armadilha da porta e voltou a escalar a árvore.</p>
<p>Minutos mais tarde o homem retornou, andando devagar, equilibrando os baldes cheios até a boca. Entrou se esquivando da linha praticamente invisível que ativava a própria armadilha. E segundos mais tarde saiu, com a katana na mão. Olhou ao redor. Agachou e investigou o chão. Então jogou o braço pra trás. A kunai atravessou os galhos próximos de Matanari e continuou voando para se perder no campo.</p>
<p>Desça daí, suppa, o homem disse, encarando a árvore.</p>
<p>Matanari desceu, apenas os olhos à vista na roupa preta, e ficou parado sob a copa. O samurai se aproximou. Matanari finalmente viu suas feições em detalhes, as rugas crivadas na testa e sob os olhos, os cabelos e as barbas brancas em total desordem, os braços e as pernas firmes, seguros. Ele embainhou a katana.</p>
<p>Muito bem. Quem é você?</p>
<p>Matanari Omenhara, de Iga.</p>
<p>Por que o subterfúgio? Poderia me chamar aqui fora para conversar.</p>
<p>Meu senhor foi categórico ao exigir que eu o surpreendesse para ganhar sua simpatia.</p>
<p>Hm. O que quer de mim?</p>
<p>Venho a pedido do meu senhor fazer uma solicitação ao grande Kitte Hanzōmon-sama.</p>
<p>Aquela coruja velha não sabe que reneguei tudo, uma dádiva a mim concedida por seu pai, e agora vivo aqui feito um gafanhoto, apenas aguardando a morte, despido de qualquer obrigação?</p>
<p>Sabe, senhor. Ainda que um gafanhoto não escreva, costure e mantenha uma katana afiada. A urgência do momento fez meu senhor crer que o mais antigo e leal servo da família pudesse se sensibilizar.</p>
<p>Hm. Isso só pode querer dizer que se precipitou. Sem dúvida mandou assassinar Uramashi, achando que assim impediria qualquer ameaça. Não calculou que com o feudo de Uramashi desprotegido, Kōda se ergueria e amealharia os feudos vizinhos, saindo de seu aparente sono profundo.</p>
<p>Exatamente, senhor. Se me permite a curiosidade, como se mantém informado aqui nessa distância?</p>
<p>Não me mantenho informado. Esse conhecimento é antigo. Kōda se mantinha na defensiva ainda no meu tempo, e era previsível que apenas esperava uma oportunidade. Sem dúvida o estúpido achava que Kōda não passava de um velho gagá.</p>
<p>Hanzōmon-sama, não posso permitir essa ofensa ao meu senhor.</p>
<p>Acalme-se, Matanari-sama. Se há algo que conquistei nesses anos, é a possibilidade de chamar as pessoas pelo que elas são. O seu, o nosso senhor, é um estúpido, e não há ofensa nenhuma nisso. O seu pai era um grande líder, e estaríamos todos sem dúvida prosperando caso ainda fosse sua mão a guiar o feudo. O que o estúpido quer de mim?</p>
<p>Ele pergunta se há algo que pode ser feito para deter o avanço de Kōda. E se há algum conselho que pode lhe oferecer.</p>
<p>Sem expectativa de me tirar de minha aposentadoria?</p>
<p>Ele respeita a sua decisão.</p>
<p>Pois bem. Entre. Pela rispidez de sua voz, em pouco tempo morrerá de sede. Vou cozinhar. Vamos beber. Comer. E aí sim conversaremos.</p>
<p>Preciso retornar o mais rápido possível, com sua compreensão, Hanzōmon-sama.</p>
<p>Eu não recebo muitas visitas, Matanari. E você desarmou a agulha, mas comeu do veneno no arroz. Se eu não lhe der o antídoto, não retornará. Não tem escolha.</p>
<p>O grande Kitte Hanzōmon, o lendário estrategista do pai de seu senhor, principal responsável pelas conquistas e pela consequente paz em todas aquelas décadas. Matanari não achou que fosse conhecê-lo, retirado da vida pública há tantos anos. Mas certas bênçãos são ofertadas ao acaso, ele sabia. O velho samurai não havia perdido nada de sua argúcia. Sabia de sua presença ali desde o começo. E o testava.</p>
<p>Incrédulo e cansado, Matanari entrou na cabana.</p>
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		<title>Eles chegaram, senhora. Peço pra entrarem?</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/eles-chegaram-senhora-peco-pra-entrarem/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Jan 2019 22:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O trote é ritmado, a estrada lisa, e não fossem as cãibras nas pernas e as dores na bunda seria bem possível dormir aqui em cima. Nossos cavalos seguem devagar, as rodas da carroça guinchando vez ou outra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O trote é ritmado, a estrada lisa, e não fossem as cãibras nas pernas e as dores na bunda seria bem possível dormir aqui em cima. Nossos cavalos seguem devagar, as rodas da carroça guinchando vez ou outra.</p>
<p>— Depois dessa curva fica a cidade dos cachorros, Nelson. Aí são mais umas duas horas até a capital.</p>
<p>— Então só mais duas horas prum banho quente e uma cama macia.</p>
<p>— Se a audiência for concedida assim que a gente chegar, você quer dizer.</p>
<p>— A rainha vai nos atender rápido. Ela não vai querer esse fedor na porta do castelo.</p>
<p>Jodapê se referia aos corpos empilhados na carroça, cobertos com um pano velho manchado de sangue seco, bálsamo pros olhos, não pro nariz. Como andávamos sem trégua, os abutres não se atreviam a descer. Diferente das moscas, que rodeavam e se enfiavam pelos cantos do pano e faziam festa. Por isso as cabeças seguiam penduradas nos lombos das montarias, essas sim em sacos bem fechados pra serem erguidas, reconhecidas e depois enfiadas em estacas em alguma praça pública.</p>
<p>Os cavalos a princípio se assustavam com o cheiro de sangue que volta e meia soprava num vento contrário, mas logo se habituaram. Ao longo do caminho, os viajantes mantinham distância, e não arrumavam coragem pra perguntar do que se tratava a carga. Nossas caras também não ajudavam. Eu e Jodapê havíamos passado os últimos cinco meses caçando, alternando horas de sono entrecortadas em galhos enodoados e cavernas de chão pontiagudo, ou no conforto ocasional da terra. Não era questão de honra. Era trabalho, puro e simples. Um contrato. E tínhamos vindo de muito longe pra honrá-lo.</p>
<p>Os oito cadáveres haviam sido homens treinados pelo mesmo ancião que treinou nosso avô, um mestre reconhecido por suas habilidades incomuns, mágicas, diriam muitos. Mas há muito ele tinha desaparecido e esses últimos discípulos, abandonados no meio do treinamento, resolveram espoliar seu legado como bem entendessem. Que era mantendo um reino rico no fio da espada, a salvo em troca de fortuna. A rainha não deu importância quando primeiro recebeu a ameaça. E então perdeu boa parte de seus lordes e ao menos um parente nas mãos dos oito homens, espalhados pelo reino. De todas as mortes, uma única coincidência: sem testemunhas, sem pistas.</p>
<p>Quando o mensageiro chegou, atravessando o mar e as semanas que separavam nossas terras, prontamente decidimos agir, menos pela recompensa e mais para honrar a memória de nosso avô e seu mestre e por um fim àquela desonrosa demonstração de força, a técnica suprema a serviço do crime rasteiro. Descemos do navio e iniciamos o trabalho lentamente, nos acostumando ao território, sintonizando o respirar da terra. Ao cabo de meses de preparação, enfileiramos as serpentes e cortamos suas cabeças uma por uma, antes que soubessem do risco que corriam.</p>
<p>— O que vamos fazer agora, Nelson?</p>
<p>— Não tenho a menor ideia, primo. Acha que o ancião andou treinando outros por aí?</p>
<p>— É uma boa pergunta.</p>
<p>Nosso reino está pacificado. O terceiro de nosso grupo, outro primo mais jovem, ficou pra trás, como salvaguarda. Um é suficiente. Agora estamos eu e Jodapê há muito fora de casa, longe pela primeira vez, encerrando nossa missiva. Resta voltar? Do pouco que Jodapê diz, percebo também nele o fascínio pela outra opção.</p>
<p>Sem dúvida nos será oferecido o paraíso na terra em troca de nossos serviços, uma vez comprovada a eficácia. Sem dúvida recusaremos. Mastigo um gomo de tangerina quando viramos a última curva na estrada e depois de um monte se descortina o castelo, ainda atordoante pros nossos olhos, com suas cores vivas e os topos das torres arredondados feito chama de vela.</p>
<p>— É o castelo.</p>
<p>— Vejo o mesmo que você, primo.</p>
<p>— E o que vê depois dele?</p>
<p>— O mar. E as terras que ainda não conhecemos.</p>
<p>— Então está certo, Nelson. Vemos o mesmo.</p>
<p>Adentramos os portões do castelo, minha barba tosca escondendo o sorriso.</p>
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		<title>Baldo e a sola furada</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-sola-furada/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2019 20:07:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>
<p>É, tá quente, seu Ferreira. Não te falei? É essa terra amaldiçoada. Sabe, o senhor pode não tá tão longe da verdade. Cadê o seu filho?</p>
<p>O homem foi buscar o filho na casa. O garoto veio, apoiado em duas muletas, um dos pés enfaixado. Baldo observou sua palidez, usando um macacão sem camisa por baixo, todo suado. Me conta o que aconteceu, rapaz. O pai saiu logo atrás. Conta pra ele, filho. Ele entende dessas coisas. O garoto apontou o chão sob os pés do detetive.</p>
<p>Eu tava brincando com meus primos, senhor. Os menores com caminhões de madeira e os maiores de pega-pega. Eu tava correndo com o tênis novo que ganhei no natal, e aí de repente senti uma dor muito forte no pé e caí. Quando fui olhar, a sola tava com um buraco e meu pé também, minando sangue. Parecia que eu tinha pisado num prego. Comecei a gritar e a mãe veio lá de dentro pra acudir. Começaram a procurar o prego pela grama, a criançada toda enxotada pra dentro de casa, com medo de que pisassem também, mas a gente caçou e caçou e não encontrou nem prego, nem farpa de madeira nem nada parecido. No pronto-socorro, o médico disse que não tinha nada no buraco e costurou.</p>
<p>A mãe saiu da casa, secando as mãos num pano de louça. E isso tem três semanas, e o guri só piora. Teve febre e tudo.</p>
<p>Baldo acendeu um cigarro, cravando os dentes na bunda do filtro antes da primeira tragada. Teve febre todos os dias? A mãe franziu o cenho. Todas as noites, na verdade. Ah, sim. O detetive olhou em volta, analisando o chão. Lembra onde foi exatamente que aconteceu, rapaz? Não, senhor. Eu tava correndo, não lembro direito. Não tem problema. Vocês ainda têm o tênis que ele usou no dia? O furado? Tá no quarto dele. Já pego pro senhor.</p>
<p>Baldo sentou na ponta da varanda. Apontou com o rosto a cadeira mais próxima, olhando pro rapazote. Ele se deixou cair ali, apoiando as muletas no colo. O pai só observava, tentando evitar que o rosto se crispasse numa careta, sem sucesso. A mãe reapareceu com o tênis.</p>
<p>Baldo o pegou e virou. O solado tinha um buraco da grossura de uma caneta na altura do calcanhar. Puxou do bolso um saquinho, desamarrou e salpicou um pouco de pó. Nada. Resmungou. Então entregou o tênis ao garoto. Cospe aí, filho. Em cima do pó. Cuspir, o senhor disse? Isso, não precisa ter vergonha não. O guri cuspiu. E logo uma fumacinha cinzenta se ergueu de onde a saliva encostou.</p>
<p>Baldo encarou os pais. Ele não tem falado nada estranho esses dias, quando tem febre? Não, senhor, responderam o pai e a mãe juntos. Então ainda é tempo. Baldo pegou o saquinho, entregou pra mãe. A senhora tem açúcar em casa? Claro. Então bata um pouco de açúcar com água, qualquer semente de fruta e tudo que tiver dentro desse saquinho aqui. E traga pro garoto beber. O que tem aí dentro? Sálvia, sal, alecrim e algumas outras ervas. Tá bom. Semente de maçã, pode ser? Pode, sim.</p>
<p>Enquanto a mãe preparava a bebida, Baldo se aproximou do rapaz. Abriu seus olhos, checou as orelhas, tateou o cabelo suado, e por fim pediu pra ele abrir a boca o máximo que pudesse. Investigou. Ah, sim. O pai se aproximou pra ver o que o detetive via. O senhor descobriu algo? Sim, já vai ver.</p>
<p>A mãe veio com a batida esverdeada. Baldo a entregou ao moleque. Quero que você beba isso de uma vez só, entendeu? Não pode parar no meio. O garoto pegou, cheirou e olhou de perto a bebida antes de virá-la em três grandes goles. Então apagou, o copo rolando dos dedos. Os pais se agitaram. Se acalmem, é assim mesmo. Deitou o garoto no chão, puxou seu queixo, enfiou os dedos em pinça no céu da boca e puxou. Nada. Tentou de novo, com mais força. A mão saiu com um pedaço de algo amarelado na ponta.</p>
<p>Minha nossa senhora, o que é isso? A mãe apertava as mãos contra o peito. O pai chegou a centímetros do negócio. Um dente? Exatamente, seu Ferreira. Como que um dente velho desses foi parar na boca do meu filho? Ele subiu pelo pé, seu Ferreira. Não tem mais problema, tá resolvido. O seu garoto tá bem, ele vai ficar bom. A boca vai sangrar ainda, mas logo para. Me chamaram a tempo. Vou voltar daqui a dois dias pra ver como ele anda. E pra salgar a terra. Vou trancar o pedaço de onde veio esse dente pra evitar outros acidentes. Isso que aconteceu aqui só acontece uma vez, quando acontece. Tudo bem? Não se preocupem. Quando eu voltar, acertamos o serviço.</p>
<p>Baldo deixou a casa com o osso no bolso. Fazia tempo que não via disso. Tivesse o dente florescido inteiro na boca do garoto, não poderia mais fazer nada porque já não seria o garoto. A sorte que às vezes sorria, o adicional inesperado sobre o serviço cumprido. Carregava pra casa um dos ingredientes mais caros e raros em sua profissão: um dente enfeitiçado de bruxa.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a title="FF #270 - Baldo e a ponte" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/" target="_blank">-Baldo e a ponte</a><br />
<a title="FF #252 - Baldo e o asilo" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/">-Baldo e o asilo</a><br />
<a title="FF #234 - Baldo e a comida podre" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-comida-podre/">-Baldo e a comida podre</a><br />
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<a title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a title="FF #28 - Baldo e o Halls preto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a title="FF #14 - Moleque bom" href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/">-Moleque bom</a></em></p>
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		<title>Da manufatura de caixões geometricamente improváveis</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2019 19:17:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Depois que a cratera surgiu, não demorou pro povo começar a descer por umas escadarias escavadas na face das rochas e voltar com asas, escamas, duas cabeças.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Depois que a cratera surgiu, não demorou pro povo começar a descer por umas escadarias escavadas na face das rochas e voltar com asas, escamas, duas cabeças.</p>
<p>A coisa pegou.</p>
<p>Menos pra nós.</p>
<p>Minha família ficou conhecida por honrar a ordem natural da vida, e de nossos antepassados até hoje seguimos incólumes, a linhagem livre de metamorfoses. Nos tornamos os únicos, isolados no centro da cidade. Quem carrega nas veias nosso sangue só pode estabelecer relação com humanos puros, e portanto grupos familiares saem em peregrinação sempre que alguém atinge a maioridade, voltando da viagem com um par a tiracolo de lugares onde a sanidade ainda impera.</p>
<p>O preconceito que vigorava contra os metas se inverteu. Não nos dão empregos, não cumprimentam, evitam nossa rua. Nas lojas, nos vendem com visível desgosto. Nos restaurantes, nos isolam nas mesas do fundo ou dizem que não há lugar, por mais que mesas vazias se enfileirem diante dos olhos. A maioria dos médicos não nos atende. Por isso, aprendemos a nos virar. Fazemos caixões. Os mortos não reclamam e os vivos estão desolados demais pra se preocupar com picuinhas. E fazemos isso melhor e mais barato que qualquer meta.</p>
<p>Aos mais velhos e experientes fica a incumbência de buscar a madeira. Há muito nos privaram da facilidade de conseguir algo das madeireiras da cidade, pelo preço exorbitante que nos cobram. Então viajamos às cidades vizinhas, o que leva alguns dias, sempre em grupos armados pra manter distantes os salteadores e as gangues violentas de metas. Os adultos em boa idade cuidam do corte e da construção dos caixões, os mais jovens do atendimento na edícula na frente do terreno, e as crianças da limpeza, juntando o pó de serra, varrendo os galpões e as casas.</p>
<p>O pomar se transformou numa pequena vila com a multiplicação da família. Somos atualmente 113, distribuídos em nove casas mais o casarão original, reservado sempre aos mais velhos, que ocupam os quartos com janelões no segundo andar e aproveitam o pouco vento que às vezes sopra.</p>
<p>Nas reuniões familiares, não raro em volta da fogueira entre as casas, alguma matriarca lê passagens do diário de nosso antepassado que primeiro testemunhou tudo. Mondalião era seu nome do meio, nome pelo qual é lembrado. Pelas suas palavras, vislumbramos a derrocada daqueles antigos conterrâneos, que se rendiam à curiosidade sem olhar pra trás. Por muito tempo ele lutou contra a própria vontade de descer pela cratera e descobrir o que os deuses mesquinhos lhe reservavam, se um benefício supremo, como conferido aos que voltavam de lá imortais, ou as deformidades que muitos carregavam a contragosto. Mas foi forte. Perseverou.</p>
<p>Os sonhos de migração, de uma vida onde não há exclusão e preconceito, que acometem em especial nossos jovens, são desde cedo dissuadidos com a invocação constante de nossa missão sagrada, legada por Mondalião: deve haver ao menos um foco de resistência à depravação em nossa terra, ou ela se tornará completamente maculada, e os deuses da cratera a engolirão. Ficamos aqui para salvaguardar os que nos demonizam.</p>
<p>E sufocar nossos próprios pecados.</p>
<p>Há sete anos não tiro os sapatos perto da família, nem de meus filhos, e apenas meu marido, que nasceu em outra cidade e chegou adulto, me entende e não liga pros meus pés de pedra.</p>
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		<title>Dança espiralada das folhas em profusão</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/danca-espiralada-das-folhas-em-profusao/</link>
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		<pubDate>Sun, 23 Dec 2018 20:21:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Grama boa de pisar, ela intui, sentindo o gelado da terra sob as solas, as lâminas fofas passeando entre os dedos. Os cachos na nuca balançam, e os dedos se abrem e fecham no ar, querendo capturar o vento. Uma borboleta, um revoluto em ziguezague diante dos olhos e então sobre o ombro e pra trás, e os olhos seguem.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Grama boa de pisar, ela intui, sentindo o gelado da terra sob as solas, as lâminas fofas passeando entre os dedos. Os cachos na nuca balançam, e os dedos se abrem e fecham no ar, querendo capturar o vento. Uma borboleta, um revoluto em ziguezague diante dos olhos e então sobre o ombro e pra trás, e os olhos seguem.</p>
<p>Aqui, filha, aqui.</p>
<p>A voz a traz de volta num rodopio. O desequilíbrio, a queda, o desconforto. O choro é interrompido pela curiosidade: uma exceção no verde, um ponto cinza, arredondado, que ergue entre os dedos (duro) e investiga na ponta do nariz, a caminho da boca. Algo bate na sua mão. A pedrinha some. O choro é de novo interrompido pela voz, que fisga.</p>
<p>Vem cá com a mãe, filha, vem. Anda.</p>
<p>Ela se ergue, dá um passo, as pernas tremendo e os joelhos querendo dobrar, depois outro, e a boca se abre com os dois dentinhos de baixo querendo saltar.</p>
<p>Isso, filha, continua, continua, vem.</p>
<p>Outro passo, longo demais, e o corpo todo balança. Os pés querem se embaralhar, a cabeça pesa prum lado, mas algo a sustenta pelas costas. Uma bicicleta vermelha passa atrás da mãe. O vermelho gritante se distancia, a mão se estende pra pegar, pra investigar o que é que se move tão rápido, os círculos brilhantes que rodam. Ouve uma batida de palma.</p>
<p>Aqui, filha! Concentra, vem.</p>
<p>Um passo, outro, mais um, é peso demais pra frente, cai com o joelho esquerdo. Ignora o desconforto, agora quer continuar. As mãos no chão, empina a bunda pra cima e se ergue.</p>
<p>Focada naquilo, não vê a menina da bicicleta estacionando contra a árvore e pulando pra puxar a maçã de um dos galhos mais baixos. A estrutura inteira se move, o teto todo estremece, e as folhas folgadas até então salvas a meio caminho da queda despencam.</p>
<p>Chove verde, e são só mais quatro passos pra alcançar as mãos estendidas da mãe, de cócoras na grama, sem notar que o pai a segue logo atrás, as mãos também estendidas, e a menina só tem olhos pra cima, praquela chuva que arrebata tudo, transforma o chão, entrecorta o céu e a bicicleta e a mãe e todo o resto, acaricia sua cabeça e lambe seu rosto. Os dentinhos despontam novamente, porque não há nada mais maravilhoso que isso.</p>
<p>Vem, filha.</p>
<p>Outro passo.</p>
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		<title>O gatilho improvável de Tetsumi</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Dec 2018 18:43:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ela entrou no quarto, fechou o shoji atrás de si, caminhou até a vela e cobriu a chama. Sentou e aguardou, a fumaça espiralando.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ela entrou no quarto, fechou o shoji atrás de si, caminhou até a vela e cobriu a chama. Sentou e aguardou, a fumaça espiralando.</p>
<p>Hideyoshi entrou minutos mais tarde, abrindo o shoji com violência. Ela sentiu o cheiro forte de saquê. Concluiu que só teria o que queria depois, respirou fundo e desatou o obi. As mãos de Hideyoshi entraram rápidas e desajeitadas sob as camadas do kimono, e abriram caminho. Ela embicou o corpo para o futon, mas o homem não queria desvios, e o tatame sob ambos era suficiente. Ela mordeu o lábio com força e deixou o lampejo de dor percorrer o corpo. Devia lembrar, para todos os efeitos, de ser quem devia ser.</p>
<p>Depois, deitado com a cabeça apoiada em sua barriga, Hideyoshi respirava alto, recuperando o fôlego. Ela aguardou.</p>
<p>Hideyoshi-sama.</p>
<p>Sim, Tetsumi.</p>
<p>É verdade que Toyotomo-dono marcha amanhã?</p>
<p>Hideyoshi ergueu a cabeça na penumbra e encarou a mulher nos olhos.</p>
<p>Quem lhe disse isso?</p>
<p>Ninguém, senhor. Me perdoe. Estou conjecturando. Tenho uma prima, irmã de criação, trabalhando no templo de Chōsenji. Tenho vontade de mandar buscá-la antes que a marcha comece. Seu pai está muito doente, e receio que uma vez iniciada a guerra, os templos fechem as portas e os monges a trancafiem.</p>
<p>Hideyoshi deitou de lado e voltou a apoiar a cabeça na barriga da mulher. Ergueu a mão e apertou suavemente seu seio.</p>
<p>Tetsumi, gostaria que me acompanhasse. Preparasse e esquentasse minha cama na estrada. Mas isso não será possível.</p>
<p>Compreendo, senhor.</p>
<p>Mas voltarei. E você estará me esperando.</p>
<p>É claro. Volta em breve?</p>
<p>Não antes do inverno. Até lá, não quero que divida a cama com outro homem. Vou lhe pagar por todos os dias de trabalho perdido, em antecipação. Quero você apenas para mim.</p>
<p>Muito me honra com esse gesto, Hideyoshi-sama.</p>
<p>Sentirei sua falta, doninha.</p>
<p>E eu a sua.</p>
<p>O homem soltou o seio da mulher e fechou os olhos. Demorou alguns segundos para voltar a falar.</p>
<p>Chōsenji, você disse?</p>
<p>Sim, senhor.</p>
<p>Não se preocupe. A marcha não passará por Chōsenji. Sua prima ficará a salvo e em liberdade.</p>
<p>Que alegria ouvir isso.</p>
<p>Tetsumi ergueu a mão e enfiou o polegar entre o indicador e o médio. A kunai veio de algum canto do quarto, silenciosa como um mosquito, e se enterrou na garganta de Hideyoshi, dilacerando suas cordas vocais e impedindo qualquer alarme. Tetsumi segurou seus braços enquanto morria.</p>
<p>Matanari, coberto de preto com exceção dos olhos, aguardou a mulher limpar o sangue e vestir o kimono. Combinaram de se encontrar nos fundos do mercado da vila, onde Matanari aguardaria com um cavalo, roupas e suprimentos. A noite seria longa pelas estradas do feudo inimigo. Mas logo estariam em casa, diante de seu daimyō, com o júbilo contido na ponta da língua.</p>
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		<title>A formidável moldura do indizível</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-formidavel-moldura-do-indizivel/</link>
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		<pubDate>Thu, 20 Dec 2018 19:57:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Um sonho tem me atormentado nos últimos tempos. Sinto uma repulsa inexplicável pelo conceito e não consigo parar de confrontá-lo no subconsciente. Começa com a imagem de um homem sentado diante do computador em um escritório escuro, escrevendo e escrevendo. Ele acorda, come, senta e começa. Vira e mexe lê um livro. Assiste algo na mesma tela quando para pra almoçar, normalmente coisa rápida de fazer e com uma cara não muito boa. Lê e assiste mais coisas à noite quando não sai, e nunca sai. Então dorme, convoluto na cama, pra reiniciar o mesmo dia.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Um sonho tem me atormentado nos últimos tempos. Sinto uma repulsa inexplicável pelo conceito e não consigo parar de confrontá-lo no subconsciente. Começa com a imagem de um homem sentado diante do computador em um escritório escuro, escrevendo e escrevendo. Ele acorda, come, senta e começa. Vira e mexe lê um livro. Assiste algo na mesma tela quando para pra almoçar, normalmente coisa rápida de fazer e com uma cara não muito boa. Lê e assiste mais coisas à noite quando não sai, e nunca sai. Então dorme, convoluto na cama, pra reiniciar o mesmo dia.</p>
<p>Sempre que acordo, rodeada por não sei quais serviçais zorianas, sinto um amargo na boca que parece o exato amargo na boca desse homem. Deixo o problema de alimentar e expulsar as convidadas nas mãos de Kef, a inteligência artificial da casa. Não é sempre que consigo todas as horas de sono de que preciso; cansei de acordar de madrugada com o alarme porque, bem, que hora melhor pra invadirem o quadrante ou assaltarem a sede do conglomerado ou sequestrarem a presidente eleita?</p>
<p>Num dia bom eu consigo escovar os dentes sem pressa e ouvir as notícias no chip auricular enquanto corro ao redor do lago luminoso da cúpula comercial, poucas dezenas de níveis abaixo da minha residência no distrito 8. Num bom dia a patrulha aérea de rotina não é interrompida por um bandido ou outro que descobriu um jeito estapafúrdio de arranjar créditos, ou uma revolta que precisa ser suprimida antes que a imprensa tome a dianteira e defina a versão mais rentável da história.</p>
<p>Os dias bons são cada vez mais incomuns.</p>
<p>O engraçado é que não lembro de outros sonhos antes desse. Pergunto aos demais patrulheiros se lembram do que sonharam, e todos me olham atravessado, como se sonhar fosse algo que nem tivessem considerado antes da pergunta. Esse tipo de reação, um aparente choque, tem acontecido com cada vez mais frequência. Chega a ocorrer com Kef, quando pergunto à IA o que ela pode me dizer da vida em Tauná-Set, o planetoide mais afastado do quadrante. Afinal, eu já visitei todos os outros, em missão ou nas férias. Um bug no sistema de comunicação, penso, e pesquiso por conta própria. Não acho nada na busca dos sintetizadores, Tauná-Set nem parece existir. No dia seguinte, a principal notícia do dia vem de lá, alguma explosão ainda não identificada.</p>
<p>Percebo que quanto mais essas estranhezas ocorrem, mais forte é o sonho. O homem, sentado em sua cadeira, gira por intervalos cada vez maiores com as mãos cruzadas no colo. E então finalmente parece ter um estalo e volta a digitar no computador. Nos dias mais agitados, quando o trabalho me consome e não tenho tempo pra considerar qualquer outra coisa, o sonho é breve, enevoado. A impressão é de que são mais que sonhos. Talvez algum mecanismo de proteção a que minha mente venha recorrendo pra impedir alguma deterioração, ou então&#8230;</p>
<p>Meu filho. Algum trauma do meu</p>
<p>filho?</p>
<p>Morto.</p>
<p>Morto?</p>
<p>Que engraçado.</p>
<p>Eu podia jurar que não tinha filho.</p>
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		<title>O mastigar da terra esfomeada</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/o-mastigar-da-terra-esfomeada/</link>
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		<pubDate>Wed, 19 Dec 2018 23:04:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Marvin, o Caolho, chegou à cidade escondido em um navio mercante. Na sua primeira noite em terra firme, depois de umas cervejas, falou a João e Moacir do seu baú e de como pagou um dos estrangeiros do porto pra ajudar a escondê-lo e de como enfiou uma faca em suas costas e torceu até o homem parar de gritar. O resto da noite passou considerando o que compraria primeiro com o que conquistou em décadas de aventuras, e recebeu com paciência as sugestões dos desconhecidos que se amontoavam ao seu redor, os rostos cada vez mais iluminados pela chance de se verem repentinamente ricos por proximidade.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Marvin, o Caolho, chegou à cidade escondido em um navio mercante. Na sua primeira noite em terra firme, depois de umas cervejas, falou a João e Moacir do seu baú e de como pagou um dos estrangeiros do porto pra ajudar a escondê-lo e de como enfiou uma faca em suas costas e torceu até o homem parar de gritar. O resto da noite passou considerando o que compraria primeiro com o que conquistou em décadas de aventuras, e recebeu com paciência as sugestões dos desconhecidos que se amontoavam ao seu redor, os rostos cada vez mais iluminados pela chance de se verem repentinamente ricos por proximidade.</p>
<p>Na madrugada, João e Moacir seguiram o velho cambaleante e descobriram seu abrigo numa das várias cavernas na saída da cidade, em um monte tão esburacado que era chamado de Monte do Tatu. Conversaram o dia todo sobre como atacar o velho e o que fazer com o ouro e a prata. Quando o sol desceu, voltaram ao monte, um com a faca enfiada na bota, outro com a pistola enferrujada no cinto, mas justo a caverna de Marvin, o Caolho, havia desabado. Do pirata, nunca mais se ouviu.</p>
<p>João passou os próximos 40 anos seguindo os passos do pai na ferraria, e os gastou sobretudo calçando os cavalos que iam e vinham. Moacir trabalhou como garçom no bar até o patrão falecer, quando a filha assumiu e o mandou embora sem a rescisão que esperava depois de uma meia vida de dedicação. Resmungando ao velho amigo no concorrente, o único outro bar da cidade, relembrou a história de Marvin, o Caolho. Nos anos seguintes àquele episódio conheceu todo tipo de trapaceiro do mar que ali atracou, mas o velho pirata foi o único a arrotar vitória; os demais simulavam a mendicância mesmo que tivessem os bolsos recheados.</p>
<p>E então ambos, beirando os 60, bêbados e tristonhos, decidiram revirar o intento adormecido, arrependidos por não terem pensado na alternativa que agora soava óbvia naquela noite diante da caverna. João preparou as picaretas, Moacir roubou algumas lamparinas de um fundo falso que o falecido dono do bar mantinha no depósito.</p>
<p>Calcularam, de olho, o ponto da curva na caverna vizinha à caverna do pirata. E começaram. Se revezaram na escavação durante dias. Trabalhavam esperançosos de que a qualquer momento a picareta encontrasse o ar rançoso do jazigo sonhado. O teto úmido acima de suas cabeças não era bom prenúncio, mas como estavam tão perto, não podiam parar. O túnel havia atingido a marca de quinze metros escavados na parede, vigas de apoio alocadas a cada dois passos, as lamparinas pelo chão, quando se abateu a desgraça. </p>
<p>Moacir fumava um palheiro na entrada da caverna. Um rumorejo no solo, um tremular, e então o barulho inconfundível dos dentes da terra mastigando, pedra com pedra.</p>
<p>João, tá me ouvindo? João?</p>
<p>..qui, tô aqui.</p>
<p>Puta que pariu, João! Desabou tudo!</p>
<p>&#8230;brou a viga e eu&#8230;</p>
<p>A voz ia e vinha. Sumiu quando outra coisa ruiu em algum canto, um pedregulho se deslocando e assentando toda uma multidão de pedras. Moacir caiu de joelhos e rezou pelo amigo, sem dúvida esmagado lá no fundo. Correu pra cidade e avisou o xerife, que voltou com dois homens da mina e algum dinamite.</p>
<p>Xerife, esse monte é delicado, todo esburacado. Podemos tentar explodir o chão de uma das cavernas no nível acima e quem sabe abrir um buraco pro túnel de baixo. Mas a estrutura inteira pode descer junto.</p>
<p>Dane-se a estrutura. Pode ser que tenha um homem vivo lá dentro, diacho.</p>
<p>Os dois mineiros alocaram os explosivos, ajeitaram o fio da caixa de pólvora e, escondidos atrás de uma rocha, apertaram a alavanca. O Monte dos Tatus tremeu todo por alguns segundos. Moacir ouviu de novo o barulho do mastigar terroso. Avançaram com cuidado. Viram a abertura, mas não entraram. Se Moacir é quem queria tanto salvar o amigo, ele que descesse.</p>
<p>Moacir foi se equilibrando nas pedras, segurando a lamparina à frente. Mas ou o cálculo tinha dado muito errado, ou muito certo. O túnel que adentrou era o próprio túnel do Caolho. Viu uma abertura na parede e algumas pedras amontoadas diante dela. Então João chegou a terminar o serviço, completou o túnel, e o Monte deu o troco. Teria o amigo pulado e sobrevivido? Ou estaria amassado ali, tão próximo da salvação? Continuou pela caverna pra descobrir.</p>
<p>Não deu nem dez passos e chegou ao fundo. No chão um esqueleto, ao lado um baú. Marvin, o Caolho, e seu tesouro. Nada de João. Moacir nem se deu o trabalho de abrir o baú pra confirmar a suspeita, no íntimo, de que o velho pirata havia contado uma grande mentira, uma piada pra afiar seus velhos nervos, à qual os dois se agarravam como se tentassem agarrar a própria juventude, evaporada.</p>
<p>Se tinha algo que Moacir podia fazer pelo amigo, era não deixar que morresse em erro. Que morresse em dúvida, pelo menos. Saiu e não olhou pra trás.</p>
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		<title>Uma montanha que se ergue do vale em dia de chuva</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/uma-montanha-que-se-ergue-do-vale-em-dia-de-chuva/</link>
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		<pubDate>Tue, 18 Dec 2018 18:58:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Histórica]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quando ele se ajoelhou diante de seu senhor, levou a cabeça ao chão e só a ergueu quando ouviu</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ele se ajoelhou diante de seu senhor, levou a cabeça ao chão e só a ergueu quando ouviu</p>
<p>Matanari.</p>
<p>Ergueu o torso, pousou as mãos nas pernas e começou a falar de sua viagem ao feudo vizinho. Um suppa, ou shinobi, era capaz de se mover pelas sombras e se fundir ao ambiente, respirar como a brisa e pisar como o lobo, passando despercebido. No castelo, se esgueirou até o salão principal, onde se aninhou entre as vigas do teto, acima do forro. O daimyō que espionava, Uramashi, não possuía os laços de sangue que o precediam em títulos e terras e favores, e portanto não possuía um suppa a seu serviço. Fosse o caso, Matanari não chegaria ali, ao menos não com aquela facilidade, e não poderia escutar as conversas que ouviu durante todo o dia.</p>
<p>Ainda que um senhor desprestigiado pelos demais, cercado em seu feudo diminuto por feudos robustos e preparados para a guerra, Uramashi foi capaz de reunir aqueles poucos que ainda lhe deviam a honradez atravessada de uma sucessão às pressas. O antigo senhor do feudo foi arrancado da vida durante o sono por algo que só podiam supor ser o coração fraco, algumas primaveras atrás; sendo Uramashi seu prisioneiro desde criança, filho de um inimigo tornado aliado, cuja família acabou arruinada pelas guerras entre os clãs, e sendo a única criança próxima do daimyō pelos doze anos que ali viveu, se tornou, para todos os efeitos, um filho postiço. Naquele momento, era o único capaz de manter a linhagem sucessória de um senhor que não produziu herdeiros.</p>
<p>Depois de suprimir as revoltas internas, lidar com a debandada dos vassalos que não legitimaram a decisão e comprometer a maior parte de suas riquezas em prestações aos senhores que o cercavam e que poderiam amassá-lo como um mosquito, Uramashi começava a triunfar, administrando um feudo em harmonia com uma divisão militar cada vez mais afiada.</p>
<p>Era por isso, pelas suspeitas que o senhor de Matanari nutria de que aquele homem pudesse se tornar um incômodo ou um declarado inimigo naquele intricado jogo de afiliações políticas, que ele foi enviado ali. Para avaliar. Pesar. Calcular. Matanari observou Uramashi tratar com seus súditos das pequenas desavenças do feudo com uma clareza e uma segurança que muito o impressionaram.</p>
<p>Um caso específico lhe chamou a atenção. Um garoto, de não mais de 10 anos, com a boca cortada e o corpo todo lanhado, falou de sua bem-sucedida feita de vingança. Explicou, em detalhes, a desonra da irmã por um dos patrulheiros, e de como, por dias a fio, seguiu a ronda esperando o momento em que o homem se separasse do grupo. E assim o fez, cortando sua garganta e deixando-o para ser encontrado pelos companheiros em sua própria merda. O garoto foi caçado e capturado.</p>
<p>Uramashi ficou impressionado. Perguntou se ele mesmo tinha feito o serviço, e que arma havia usado. Por fim disse ao chefe dos patrulheiros que reforçasse a orientação aos homens de que as mulheres do feudo não eram mercadoria, e que se não se comportassem ele mesmo teria que castrá-los feito cachorros. E ofereceu ao garoto a posição de encarregado de sua montaria. Preparado para morrer, incapaz de compreender aquele repentino gesto de compaixão, o garoto se desfez em lágrimas. Uramashi então disse a ele algo que ainda ressoava claramente na cabeça de Matanari: “O caule da flor é um caule forte, mas a flor mesmo assim despenca. Resta ao caule a força.”</p>
<p>Ao cabo do dia, enquanto regressava da missão, Matanari considerava como aquele daimyō ilegítimo havia se tornado um senhor mais justo e respeitável que seu próprio senhor, herdeiro dos laços de sangue, títulos, terras e favores que lhe eram costumeiros, mas mesquinho, covarde e assustadiço como um potro.</p>
<p>Matanari contou aquilo que viu sem reservas, como Uramashi crescia na posição que não lhe pertencia, e viu nos olhos do seu senhor a faísca antes mesmo que desse qualquer ordem. Em poucos dias, ele seria convocado a assassinar Uramashi em seu sono, como havia assassinado seu antecessor, e o faria com a excelência com que cumpriria qualquer de suas ordens. Mas não podia deixar de imaginar como seria servir a um senhor que realmente admirasse, que lhe causasse a impressão que Uramashi havia lhe causado em apenas algumas horas, a de uma montanha que se ergue do vale em dia de chuva.</p>
<p>Não importava. Havia dois tipos de homens, ele aprendeu, nas terras da província de Iga, ouvindo as palavras de seu pai, um suppa experiente que encaminhou os treze filhos em sua profissão das sombras: os que governavam e os que obedeciam. Nem sempre os homens corretos exerciam a função que lhes reservava o destino, mas nem por isso deixariam de exercê-la. Os suppas obedeciam, e isso bastava.</p>
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