Baldo e os choros da noite [#62]

_1982. Outono. Dia de chuva.

Fustibaldo andava pela rua, mascando a pré-guimba do cigarro. Tragou uma última vez e jogou fora. Chegou no endereço. Bom dia, disse se sacudindo para tirar o excesso de água do casaco e dos cabelos. O dono da mansão era um velhinho simpático, cabelos brancos penteados para trás com gel, dentadura nova e reluzente de dentes alinhados. Bom dia, ele respondeu com uma ligeira mesura que deixou o detetive encabulado. Você é o Fustibaldo, o detetive? Eu mesmo, mas pode me chamar de Baldo. Tá bom então, Baldo, e nisso o velhinho subiu as escadarias que davam pro segundo andar. Eu tenho esse problema, começou faz alguns meses, e desde então não consigo dormir direito. A cardiologista disse que é bom eu resolver isso logo, minha pressão já é alta e sem sono desregula e não tô em idade pra ficar de brincadeira.

O que tá acontecendo, seu Souza? Ah, o velho resmungou, é no meu quarto. Aqui ó, disse, abrindo a porta de uma grande suíte. Havia uma cama de casal, armários, espelhos e um banheiro anexo. É aqui que eu durmo. Não quero sair de casa, amo esse lugar, mas toda noite quando deito começo a ouvir uns choros, e eles aumentam durante a madrugada e só acabam quando o sol nasce. Choros?, perguntou o detetive, se aproximando da cama, passando a mão pela colcha. Você os reconhece? O velhinho se virou, intrigado. Pior que conheço, Baldo. É o choro da minha mulher. Sua esposa? Isso, minha esposa. Só que ela faleceu treze anos atrás.

Hum, o detetive assentiu, olhando os espelhos carregados de memórias espalhados sobre as cômodas. Quando começaram os choros? O velhinho pensou, coçou a cabeça. Acho que há uns dois meses. E aconteceu alguma coisa há dois meses, algo que tenha coincidido com o início da choradeira? Algo nessa casa, com o senhor, com a família? Olha, Baldo, acho que não. Na verdade se não me engano uma das nossas empregadas faleceu na mesma semana. Mas o que isso tem a ver?

Baldo sentou na cama, segurou um dos travesseiros, fechou os olhos. Sinto uma angústia grande, seu Souza. Sua esposa tá chorando por algum motivo? Ela gostava dessa empregada em particular? É, olha, assim, o velhinho se confundiu, ela não gostava nem desgostava. Quem gostava era eu. Quando ela ainda tinha os seios empinados e o quadril fino eu cometi uns deslizes, sabe. Mas isso tem uns 30 anos. E a sua esposa sabia disso?, perguntou o detetive. Não, nunca soube. Eu nunca contei, acho que a mulher também não, ou teria perdido o emprego. Acho que é isso então, seu Souza. Se não sabia, quando a mulher morreu ela descobriu. Deve ter feito umas perguntas certas no além, espremido a coitada, e deu nisso. Agora tá te atormentando.

Meu Deus do céu, que mulher, esbravejou o velhinho. Depois de 30 anos ainda vem me azucrinar! Que que eu posso fazer? Olha, Baldo levantou da cama, se eu fosse o senhor tentava pedir desculpa. Com sinceridade. Faz isso hoje à noite que ela deve te deixar em paz. Dor de corno é um negócio que dói mesmo, mas parece que os fantasmas perdoam mais fácil. Tudo bem então, Baldo, quanto te devo? O mesmo que falei no telefone. Tá, vamos descer que assino o cheque. Aceita uma água, um café? É claro, seu Souza. Muito agradecido.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
-Baldo e o morto
-Baldo e a garoa
-Baldo e o chapéu
-Baldo e o alçapão
-Baldo e a luz do elevador
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom