Baldo e o Morto [#205]

Ei, você aí. Você mesmo. Vamos voltar, não tem nada pra fazer na cidade. O morto parou, apontou o próprio peito. O homem fumava um cigarro, sentado na ponta de uma lápide, vestido com um sobretudo que na escuridão o fazia parecer uma pedra, não fosse a fumaça. Ele só balançou a cabeça. Você mesmo, só tem a gente no cemitério. Faz favor aqui.

O morto foi na sua direção, as peles penduradas que os insetos ainda não haviam comido, costelas aparecendo, boca rasgada até o pescoço mostrando a carne preta e podre do interior. Trouxe consigo um cheiro azedo, que o homem disfarçou colocando o cigarro embaixo do nariz. Tá falando comigo? Sim, com você mesmo. Não tá com medo? Nada. A única coisa abominável em você é o cheiro. Mas a maioria das pessoas foge. É claro, já se olhou no espelho? Senta aqui, quero bater um papo. Não dá, tô com as pernas meio desencaixadas da bacia, se sentar soltam de vez. Tá bom, fica de pé, então.

Puxou outro cigarro do bolso do paletó e acendeu na bunda do anterior, macerando a bituca no gramado. Escuta, me chamaram pra trocar ideia contigo, tenho experiência nesses assuntos. Em falar com os mortos? É, nisso também. Conheci muita gente que morreu e não quis ficar morta. A cidade é pequena, todo mundo sabe das tuas andanças, e tem uns apavorados que nem querem mais sair de casa, o que é ruim pros negócios. Eles tão com medo? Pois que fiquem. Calma lá, amigo, quero entender o que tá acontecendo. Talvez possa me usar de intermediário pra conseguir o que precisa e deixar todo mundo em paz. Eu não quero deixar ninguém em paz. É isso que você não tá entendendo.

Olhou a cidade, levantou o braço descarnado, o dedo restante da mão apontando as luzes espalhadas ao pé do morro. Fui pescador ali. Muito tempo. Depois mendigo. Fui judiado. Me bateram, xingaram, tiraram aos chutes da praça. Me jogaram na lama. Mijaram em mim enquanto eu dormia. Nem o padre quis salvar minha alma. Então é por isso que você tá saindo à noite? Pra atazanar a vida de todo mundo? Claro, quero dar o troco. Colocar um pouquinho de terror no coração dessa gente maldosa. Olha, eu até entendo sua revolta, mas fui chamado pra acabar com o problema. Quero saber se a gente pode resolver isso de forma pacífica, civilizada. Civilizada? O que eles fizeram comigo foi civilizado? Foi por isso que eu voltei. Nada mesmo pra te convencer? Nada. Então desculpa.

O homem levantou e chutou a barriga do morto. O tronco se desgrudou de vez das pernas e voou, batendo na lápide. Se ajeitou com os braços na grama e encarou o estranho, indignado. As pernas continuavam em pé, paradas no ar. Pegou uma em cada braço e foi na direção do túmulo aberto. Ei! O morto o seguiu, se balançando com as mãos no chão. Ei! Minhas pernas! Preciso das minhas pernas! Não precisa mais. Jogou-as dentro do caixão. Você não tá entendendo! É meu direito fazer isso! Ganhei essa chance! Lamento, amigo, as pessoas tão incomodadas. O prefeito já pagou uma bolada pra resolver o pepino. Ah! O prefeito! Aquele salafrário! É um almofadinha que engana todo mundo! Pode até ser, mas é bom pagador. Vem cá. Não, me larga! Desculpa. Pisando no peito do morto, puxou um braço de cada vez. Eles se soltaram com facilidade. Por fim puxou a cabeça. Não! Por favor! Não me ente– A terra silenciou a cabeça falante. O homem terminou de encher o buraco com a pá, depois puxou um frasco do bolso, jogou o líquido nas mãos para tirar o cheiro e acendeu outro cigarro.

Descendo o morro, Baldo, detetive sobrenatural, pensou em parar num boteco para uns tragos. Mas não achou nenhum aberto. Ainda temiam o morto-vivo e fechavam antes da meia-noite. Teve que se contentar com o frigobar da pousada.



*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
-Baldo e a garoa
-Baldo e o chapéu
-Baldo e o alçapão
-Baldo e os choros da noite
-Baldo e a luz do elevador
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom

  • Mario Bilégo

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