Baldo e o alçapão [#105]

Parece um alçapão normal, Vladimir. Você disse que sua vó veio pra cá? Foi sim, seu Baldo. Ela veio. Ela e meu vô. Uma semana um, depois o outro. Daí meu pai, ontem. Viu alguém entrar nele? Não, mas olha ao redor, pra onde mais eles iriam? Baldo olhou. Não havia nada no porão da casa, absolutamente nada. O que era estranho por si só. Um cômodo daquele tamanho e nem um móvel, uma agulha, um resquício de sujeira. E ali o alçapão. Uma porta de madeira no chão e o buraco de um metro quadrado. Baldo entrou e tateou procurando reentrâncias na terra socada. Nada.

Vladimir, pode me dar licença? Quero ficar sozinho aqui. O senhor acha mesmo uma boa ideia, considerando que três pessoas já– Pode ficar tranquilo, daqui a dois minutos saio pra gente conversar mais. Tudo bem. Vladimir fechou a porta. O silêncio era completo. Anormal. Baldo fechou os olhos, concentrado em identificar os resquícios energéticos que resultavam da maioria dos eventos sobrenaturais. Notou algo sob os pés na terra negra, enfraquecido mas persistente. Era o que temia.

Abriu a porta. Olha, Vladimir. Puxou um pequeno calendário do bolso. Me fala os dias que eles sumiram, você lembra? O garoto olhou o calendário. A vó dia 15. O vô acho que dia 20. E o pai ontem, 30. O que isso quer dizer? Quer dizer que posso tentar resolver o problema, mas vai ter que ser hoje à noite. E você tem que ficar longe e voltar de manhã. Passou a noite aqui ontem? Passei. Não sentiu nada estranho? Não. Tá usando alguma coisa, pulseira, colar, pingente? Esse colar aqui. Que símbolo é esse? É a concha de Santo Mojido, um santo local. É feita de bronze? Acho que sim. Ótimo, não deixa de usar ela. Então tá, seu Baldo, vou pra casa do meu primo. O senhor vai precisar de alguma coisa? Não. E minha família? Dá pra fazer alguma coisa por eles? Infelizmente não, Vladimir. Agora já é tarde. O menino lançou um olhar angustiado, entregou a chave, deu meia volta e foi andando pela estradinha. Baldo sentiu pena. A família inteira. Mas não a cidade, pelo menos. Chegou a tempo.

Esperou a noite avançar. Comeu umas bolachas na cozinha. Perto da meia-noite, sentindo o silêncio ganhar corpo, puxou da mochila uma ferradura de cavalo. Colocou-a no bolso do sobretudo e aguardou, atento. Começou como um formigamento na sola dos pés, depois um ruído fino no fundo do ouvido e quando abriu os olhos estava no porão, as pernas andando por conta própria. O alçapão aberto emitia uma luz verde opaca. Viu um pequeno ser translúcido sentado ao lado do buraco, as perninhas cruzadas, os olhos de peixe piscando sem parar. A criatura não reconheceu o homem, não o via, perdido num transe. Baldo tentou travar as pernas e nada. Pegou a fechadura e a dois passos do alçapão jogou-a lá dentro. A luz morreu, engolida pela ferradura na terra. A criatura ganhou contornos palpáveis e Baldo, novamente dono do próprio corpo, agarrou-a pelo pescoço. Olá, Vromisk. Não aprendem, não é? Já não atormentaram que chega esse povo sofrido? Piscou uma última vez antes de ter o pescoço mole torcido. Foi jogada sobre a ferradura, que queimou sua pele no contato. Um cheiro podre de carne esturricada infestou o porão.

Passou o resto da noite lá fora, aguardando Vladimir. O menino estranhou o cheiro. O que era? Uma maldição antiga. Recomendo demolir a casa e vender o terreno, para afastar as memórias. Mas se quiser continuar com ela, aterre o sótão. Não mexa mais no alçapão. E pronto? Pronto. Foi simples dessa vez, pra nossa sorte. Tudo bem, seu Baldo. Assim que o dinheiro da herança do meu pai for liberado eu deposito na sua conta. Sem problemas, garoto. Pode me dizer se há um bar aqui perto? Seguindo por essa rua, três quadras. Ok, se cuide, Vladimir. Qualquer coisa entre em contato. Obrigado. Baldo fechou o sobretudo, tirando o gorro do bolso. Tentou se esquivar do gelado vento matinal russo, mas era impossível. Se esquentou com uma vodka. Duas. Três.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
-Baldo e o morto
-Baldo e a garoa
-Baldo e o chapéu
-Baldo e os choros da noite
-Baldo e a luz do elevador
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom