Baldo e a luz do elevador [#35]

_1980. Uma tarde quente de outono.

Uma nesga de luz nasceu do vão da porta do elevador.

Baldo foi chamado porque o caso desafiava a lógica. O policial o recebeu e explicou o fenômeno. Baldo entrou e apertou o botão do 14º andar. Pouco depois do 13º o elevador travou com um solavanco. A porta se abriu, alguns poucos centímetros, e a luz invadiu o cubículo. Não havia nada atrás da fresta, nada que justificasse a luminosidade, apenas uma parede de concreto suja.

Observou com atenção o facho de luz. Era amarelado como o de uma lâmpada velha de bulbo com uma densidade que lembrava fumaça. Cortou-o com a mão e pequenas nuvens se desenroscaram da linha centrada e revolveram no ar, voltando a se agregar em seguida. Percebeu também que a luz entrava pelo buraco estreito e não se ampliava em cone, como seria usual, mas continuava fina até atingir o espelho no lado oposto. Baldo desceu os olhos pelo espelho até chegar à linha da cintura, onde o vidro se encaixava na moldura de madeira e depois– Parou, reparando na reentrância da moldura. Pegou a lanterna de bolso e notou uma mancha escura no fundo, onde o dedo não alcançava.

Continuou pelo rodapé de plástico até o piso. Notou uma gastura estranha, um ponto esfregado repetidas vezes. Já entendi, ele disse. A porta se fechou e o elevador voltou a funcionar.

De volta ao saguão, perguntou ao policial se algo estranho acontecera por ali recentemente. Uma das famílias do prédio declarara a filha de 13 anos desaparecida. Há duas semanas saíra para comprar picolé na padaria da esquina e não voltara. Baldo perguntou em qual andar ela morava e o policial disse 14º. Xingou-o por não ter dito nada antes e procurou nos registros quem trabalhou no dia do desaparecimento. Um faxineiro e um porteiro. Os dois continuavam empregados. Baldo suspeitou do faxineiro, que cuidava da área comum, mas já havia ido embora.

Voltou com o policial na manhã seguinte e surpreendeu-o na despensa. Ele logo confessou o crime. A faca era só para assustá-la, mas ela reagiu. Não era a intenção. Escondeu o corpo no carrinho de lixo e enterrou num terreno baldio atrás do prédio. Limpou a sujeira. Não largou o emprego para não levantar suspeita.

O homem foi preso. E condenado. E a luz estranha do elevador não voltou a aparecer.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
-Baldo e o morto
-Baldo e a garoa
-Baldo e o chapéu
-Baldo e o alçapão
-Baldo e os choros da noite
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom