Baldo e a comida podre

É verdade, tá podre. Dá aqui, deixa eu ver. Baldo pegou a bandeja de carne moída crua, tocou, cheirou, lambeu. Era fresca, recente, nada daquele lixo que provou da panela. O que era estranho. Ele viu Martha cozinhar e servir na travessa, bonita e cheirosa. E então preta, fedida e podre.

João levantou da cadeira. Sabe dizer o que é, seu Baldo? Ainda não, seu João, mas com certeza o problema não é a Martha, ela é uma excelente cozinheira. Brigada. Agora, se me dão licença, quero conhecer o resto da casa. É melhor eu fazer isso sozinho. E em silêncio.

Deixou o cheiro enjoativo da cozinha para trás. Foi até o quarto do casal. Nada. Nada no banheiro nem na despensa, na sala ou na varanda. Saiu pra rua. Observou a residência à distância. Era uma modesta construção socada entre duas casas sem reboco. Portão enferrujado. Pintura manchada. Piso de cimento quebrado. Pensou em João e Martha, no desespero da fome. Toda comida ali apodrecia antes que colocassem na boca. Por enquanto se viravam nos vizinhos, mesas tão magras quanto as suas. E mesmo cientes do preço o chamaram. Entrou e dessa vez notou rastros apagados na face interna do muro. Como se uma criança esfregasse a mão suja de terra.

Ladeou a casa. O fundo era dominado pelas roupas no varal, quatro fios pregados nas paredes. Também um tanque e um barril com sacos de lixo até a boca. Puxou o barril e viu esquecida no canto uma vasilha com velhas marcas de água dentro. Voltou para a cozinha.

Pedi pra me falarem se morava outra pessoa ou animal na casa. Vocês disseram que não. Mas tinha um cachorro aqui, certo? Ô, seu Baldo, não mentimos não. Era o Rex, mas já morreu tem mais de ano, por isso nem falamos. Sem problema. Me contem do Rex. Era um vira-lata que achamos, carinhoso. Enquanto tava aqui cuidava da casa. Depois que se foi já assaltaram duas vezes. Como é que ele morreu? Morreu doente. Bem magro. A gente tratava ele na medida do possível. Dava comida, água, tirava carrapato. Davam comida? Bastante comida? Bastante não, nunca teve muita. Fomos uma vez ficar com minha sogra no hospital. Voltamos depois de cinco dias. Na pressa esquecemos de deixar comida. Água ele tomou da chuva. Emagreceu, ficou fraco. Não se recuperou mais. Morreu pouco depois. Dinheiro não tinha pra levar no veterinário, deu que acabou.

Tá bom. Já volto. Baldo saiu e retornou com um pacote de ração e duas vasilhas. Encheu uma de comida e outra de água, colocou no canto da cozinha. Pronto, dona Martha. Agora faz a carne de novo. Fez, do mesmo jeito, serviu na travessa. Comeram. Boa. Que aconteceu, seu Baldo? Não tô acreditando. O Rex tava com fome. Essas coisas acontecem. Troquem a comida e a água todo dia, joguem a velha fora. Vocês não vão ver nem sentir nada, mas não faz diferença. Esse pacote aqui é suficiente, vai durar algumas semanas. Mas não pode ser, seu Baldo. Tá me dizendo que é o fantasma do Rex? Ele morreu tem mais de ano! Dona Martha, o tempo do lado de lá passa diferente do de cá. Não tem hora certa pra essas coisas. É isso. Olha, seu Baldo, quanto é mesmo? Não é nada. Pode ficar tranquilo. Foi cortesia. Pelo Rex.

Baldo saiu de lá faminto. O espírito do cachorro era forte.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e o morto
-Baldo e a garoa
-Baldo e o chapéu
-Baldo e o alçapão
-Baldo e os choros da noite
-Baldo e a luz do elevador
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom