Baldo e o chapéu [#116]

No chão as marcas de giz dos corpos, uma em cada canto do escritório. Nas paredes as manchas de sangue e os buracos das balas. Na mesa pilhas de papéis, um relógio de bolso e o chapéu de palha. Nas estantes livros e mais livros. Na poltrona a mãe, inconsolável, chorando há dois dias seguidos. Não sei mais o que fazer, Baldo. A polícia já revirou tudo aqui e no resto da casa. Por que eles fariam isso? Eram tão dóceis. Meu marido nunca incomodou ninguém. Meu filho tinha 10 anos! Não é possível que uma desgraça como essa fique sem explicação.

Baldo não tinha palavras para consolá-la. Era mesmo uma situação opressiva. Lembrou dos cadáveres no necrotério. Bocas rasgadas, arranhões no peito, dedos da mão esquerda quebrados, tiro na cabeça. Suicídio, ambos. A mesma arma. O pai primeiro. Minutos depois o filho. E horas mais tarde a mãe horrorizada diante da cena.

Acredito que a resposta esteja aqui dentro, dona Zuleide. Tenho um palpite. Quero que segure isso aqui. Que é isso? É um pó, está sentindo? Dentro desse saquinho tem marfim moído, mas não é um marfim qualquer. Se a senhora notar alguma coisa estranha, se perceber que estou diferente, jogue-o em mim. É frágil, vai se desfazer com o impacto. Entendido? Entendido. Limpou as lágrimas e ficou de pé atrás da poltrona. O que você espera encontrar, Baldo? Acho que alguma coisa possuiu seu marido e filho. Olhou os livros. Não duvidava que pudesse ser um deles. Mas aquele chapéu de palha na mesa era estranho demais, deslocado. Esse chapéu era do seu marido? Não sei, nunca vi. Mas deve ter sido, ele recebia muitos presentes dos pacientes e amigos.

Baldo segurou o chapéu. Nada. Virou, analisou por dentro da copa, palha entrelaçada. Colocou na cabeça. Dona Zuleide percebeu a sala escurecer. Baldo suspirou, os olhos completamente pretos. Levou a mão ao rosto, arranhou com força as bochechas, unhas vincando a carne, sangue escorrendo. Ela jogou o saquinho em seu peito. Se esborrachou numa nuvem de pó, sugada pelas narinas do detetive. Em cinco segundos o branco dos olhos retornou. Ele largou o chapéu na mesa e acendeu o isqueiro na aba. Pegou fogo num instante, como se encharcado de álcool. Tirou o sobretudo e jogou por cima. Dona Zuleide viu o chapéu se mexer embaixo do tecido, um guincho horrível e agonizante ecoando na madeira da mesa. Segundos depois Baldo retirou o sobretudo. Um punhado de cinzas.

Alguém entregou isso ao seu marido e não foi por engano. Chame a polícia de volta, tente descobrir quem foi. Já catalogaram o chapéu como evidência, não podem alegar que não existiu. Contrate um segurança por alguns dias, para ter certeza de que não incomodarão a senhora. Mas acho difícil o responsável voltar a dar as caras. Em todo caso guarde esse outro saquinho. Tem mais daquele pó aqui. Quem poderia querer a morte do meu marido? E ainda mais desse jeito nefasto? Não faço ideia, dona Zuleide, mas presumo que a de seu filho não foi calculada. Pode ser algum conhecido que foi longe demais mandando um aviso ou revidando um desaforo. Se for esse o caso, não deve se preocupar. O intermediário do chapéu cobrou um alto preço por ele, sem dúvida. Alto demais. Meu Deus, que loucura. Quanto lhe devo, seu Baldo? O que combinamos pelo telefone.

Baldo saiu da casa sentindo os arranhões pulsarem no rosto. Precisava cortar as unhas com mais frequência.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
-Baldo e o morto
-Baldo e a garoa
-Baldo e o alçapão
-Baldo e os choros da noite
-Baldo e a luz do elevador
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom