Baldo e a garoa [#187]

Essa garoa fina, o homem falou. Caindo há dois meses, sem folga.

Baldo balançou a cabeça, ergueu a mão em concha, deixou os pingos raquíticos enlagoarem a palma. Sorveu um gole, concentrou no gosto ácido, de onde vinha, para onde ia, o inusitado. Nada. Água. Chuva. Não mais que isso. O pessoal já não guenta mais esse aguaceiro, doutor, a plantação tá afogada, o gado derrapa, as ruas são lama até as canelas, os cascos respingam terra em tudo que é parede. Lembra o dia exato em que a garoa começou a cair, seu Osvaldo? Ah, doutor, se não me engano foi no dia de São Garanhucha, ia ter a fogueira na festa, a chuva não deixou e continuou caindo.

Baldo entrou na casa do prefeito, sentou na mesa, tomou outro gole do café preto. Quem é São Garanhucha? Desculpa, seu Baldo, é claro que o senhor não sabe quem é São Garanhucha. Acho que ninguém aqui fora de Conceição sabe quem ele é. Foi um padre nosso, de faz tempo, ajudou a fundar a vila que virou cidade, morreu defendendo o povo dum bando de bandido pra lá da fronteira que queria atear fogo em tudo. Hum, resmungou Baldo. Faz quanto tempo que ele morreu? Cem anos, foi por isso que a gente fez a festa pra celebrar. Data importante, o povo gosta de desculpa pruma farra. Se bem que a chuva melou tudo. Então vocês nunca fizeram festa assim pra São Garanhucha antes? Não, doutor, só missa. Festa era pra ser a primeira.

Seu Osvaldo, o senhor me disse que o homem morreu impedindo que queimassem a cidade. Por que decidiu comemorar a data fazendo uma fogueira? Uai, doutor, toda festa tem fogueira. Seguinte, seu Osvaldo, marca outra festa, comemora como fosse o dia e não inventa de mexer com fogo. Isso vai resolver o problema da chuva? Só tentando pra saber.

Na noite seguinte, a cidade se reuniu espremida sob as tendas encharcadas na praça. Depois da oração serviram torta fria de frango, cerveja e vinho. Nem fogueira, nem vela, nem forno, nem fogão. Nada de fogo. A chuva parou à meia-noite, com o brinde a São Garanhucha. Baldo recebeu o cheque de seu Osvaldo, entrou no carro e pegou a estrada. Um profissional responsável, deixou para acender o isqueiro apenas quando chegou à cidade vizinha. Tragou o cigarro e soprou a fumaça pela janela fria, o vento rodopiando na orelha e seguindo em trás.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
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-Baldo e o chapéu
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-Baldo e os choros da noite
-Baldo e a luz do elevador
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-Moleque bom