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	<title>Flash Fiction &#187; Fantasia</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
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		<title>Do tempo que resta</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jan 2019 18:20:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Capitão, estamos a meia hora da terra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Capitão, estamos a meia hora da terra.</p>
<p>Ótimo, Rosvaldo. Diga aos homens pra manterem a velocidade. Avise Fena que é hora. Peça pra ela arrumar suas tralhas e me encontrar na cabine.</p>
<p>Sim, senhor, capitão.</p>
<p>Quando Rosvaldo desapareceu, o capitão se permitiu afrouxar o peito, desguarnecer os músculos da perna, arquear os ombros e olhar o borrão azul que se espraiava à frente. Moleque ou homem no alto de suas faculdades, se orgulhava de divisar no carrilar do horizonte os humores do vento, de adivinhar como Odin, seu deus esquecido, soprava lá de cima. Descortinava mensagens nas nuvens, nos peixes e baleias que vinham à superfície beber de perto o calor do sol, no esgar dos rostos da tripulação a boca crivada que precisava de um pouco mais de ouro ou álcool pra apaziguar o espírito — e, quando isso não bastava, a prancha. Mas agora era um borrão depois do outro, nada que prestasse, e dependia sobretudo dos ouvidos pra continuar atinado no posto, e da memória que tracejava os caminhos de sua embarcação — fora dela, nu.</p>
<p>Ficou encravado na proa até descobrir o marrom no meio dos azuis. Desceu as escadas, vestindo o manquitolar com gingadas do quadril largo, e entrou na cabine. Fena estava ali, podia dizer pelo cheiro de vinagre que vinha do cabelo dela. Amuada no canto, abraçada à sua trouxa.</p>
<p>Pegou tudo, menina? Chegamos na casa de sua mãe. Você vai descer e, se os deuses forem bons, nunca mais subir. O que aqui tiver seu cheiro será queimado.</p>
<p>Hm-hm, ela resmungou, como costumava resmungar, falando pela entonação.</p>
<p>O capitão sentou na mesa, destampou a garrafa de rum e o serviu no copo de madeira escavada. Aproximou do rosto os papéis que tinha ali em cima, perto da chama da vela. O mapa de seu castelo, o documento real que transferia a posse de todas as suas propriedades, incluindo escravos e navios, ao portador, suas cartas de crédito, a oração que a mãe tinha lhe ensinado no leito de morte. Tudo o que possuía de mais importante, montante pelo qual homens matariam, trairiam, roubariam, dobrado e amarrado num barbante. Voltou a olhar pra cama. Fena continuava do mesmo jeito. Bebeu o vinho.</p>
<p>Sua mãe nunca disse por que você foi parar naquela ilha, ou disse?</p>
<p>Fena quieta.</p>
<p>Ela sabia que alguém chegaria lá, cedo ou tarde. Os marinheiros são tarados por um pedaço desavisado de terra. Aponte algo marcado num mapa a um homem do mar e ele escarra. Diga que nunca foi desenhado numa folha e os olhos brilham. Os verdadeiros homens. Os que conquistam e pilham e sangram e bebem e fodem até o sangue ferver. Mas ela sabia disso. E você, sabia?</p>
<p>Hm-hm.</p>
<p>O capitão ouviu os gritos da proa. O gingado do navio cedeu, as velas recolhidas. As cordas correram, o bote atingiu a água, a âncora mergulhou buscando o solo.</p>
<p>Venha, é hora.</p>
<p>Subiram a escadaria, e com a ajuda da tripulação desceram ao bote onde estava Rosvaldo, já segurando os remos. Na praia, Rosvaldo puxou o bote pra areia e os acompanhou até o limiar das árvores. Ali ficou. Seguiram juntos, o capitão e Fena, até o casebre. Fena disparou, abrindo a porta. O capitão enxergou, depois do limiar, o que não enxergava lá fora. Viu a garota enroscada no pescoço da velha, na cadeira de balanço, as agulhas de tear largadas no chão.</p>
<p>Uma gentileza, é claro, disse a velha. Quero que veja pra quem está entregando tudo o que conquistou na vida.</p>
<p>O capitão tirou o punhado de papéis do bolso, jogou aos pés da cadeira. Fena apanhou e entregou à mãe.</p>
<p>Muito bem, minha filha. Fez bem. A semente?</p>
<p>A garota passou a mão na barriga.</p>
<p>Esplêndido. O animal lhe tratou bem quando revelou sua identidade?</p>
<p>Dessa vez ela demorou a responder, mas logo balançou a cabeça em sinal afirmativo.</p>
<p>Pois bem, disse a velha. Se aproxime, capitão. Se ajoelhe aqui ao meu lado.</p>
<p>O homem obedeceu, desabando sobre o joelho mole. A velha puxou um fio de seu cabelo, um fio de sua barba, e no tear trançou ambos com um fio preto de lã. Deu na boca da filha. A menina engoliu.</p>
<p>Vê, capitão? Levante. Ande. Pule. Respire. Meu jogo é minha honra.</p>
<p>O capitão levantou, mais rápido do que esperava. Fisgou um golfo de ar, os pulmões quase explodindo, e soltou um urro que findou numa gargalhada.</p>
<p>Quanto tempo?, ele perguntou.</p>
<p>Até o nascimento da criança, disse a velha. Sabe, é engraçado. Um velho encarquilhado como você. Não visse minha ilha, viveria menos tempo do que esses meses até o nascimento de minha neta. Pra você, minha filha foi uma bênção.</p>
<p>Não é o que dirão minha esposa, meus filhos, meus netos de verdade.</p>
<p>Eles aprenderão a se virar, capitão. Sem suas benesses. Sem sua herança. Esta fica pra sua última filha. Que é de verdade também, seu tolo.</p>
<p>Tolo? Quem procura seu destino é tolo? Tolo é quem o desconhece. Você, Fena. Acha que sobreviverá ao nascimento da criança? Já viu alguma das suas irmãs com a filha no colo? Desperdiço minhas horas aqui.</p>
<p>O capitão cuspiu, deu meia-volta e saiu. Na praia, disse a Rosvaldo que remasse de volta. Mergulhou e nadou feito um peixe, escalou o navio pela corda, a tripulação enfileirada na amurada, boquiaberta. Hasteou uma das velas sozinho, disse aos homens que hasteassem as outras. E partiu, que as horas no mar tinham o dom de escorregar feito azeite, e ele tinha as que lhe restavam em alta conta.</p>
<p>Pela primeira vez em muito tempo, o capitão viu a linha do mar se chocar com a do céu, as nuvens enrodilhadas num cobre ferruginoso. Poucos homens tinham os dias contados e se permitiam sorrir com convicção. Os dentes do capitão brilhavam.</p>
<hr />
<p><a href="http://flashfiction.com.br/wp-content/uploads/2019/01/Mafagafo-edição-2-número-3.jpg"><img class="alignnone size-large wp-image-2818" src="http://flashfiction.com.br/wp-content/uploads/2019/01/Mafagafo-edição-2-número-3-733x1024.jpg" alt="Mafagafo edição 2 número 3" width="610" height="852" /></a><br />
*Este drop foi originalmente publicado na <a title="Revista Mafagafo" href="https://mafagaforevista.com.br/" target="_blank">Revista Mafagafo</a> (número 2, parte 3) em novembro de 2018. A Mafagafo é uma revista digital (em formatos pdf e para e-readers) que publica noveletas e novelas de ficção científica e fantasia em formato seriado. São sempre ciclos de 4 números, com todas as histórias desmembradas em quatro partes. A partir do número 2, a revista passou a publicar também minicontos (chamados de ficção relâmpago), utilizando a mesma métrica que utilizamos aqui no Flash Fiction: de 300 a 1.000 palavras. A Mafa é gratuita para download nesse link, e só &#8220;cobra&#8221; um compartilhamento em alguma rede social: <a title="Mafagafo Edição 2" href="https://mafagaforevista.com.br/edicao-2" target="_blank">https://mafagaforevista.com.br/edicao-2</a></p>
<p>[Aliás, grato à Jana Bianchi por organizar esse projeto mirabolante e dar visibilidade a tantos autores e autoras do país. Vale a pena conhecer e divulgar essa revista bacanuda - e se você também escreve, em breve abrem as inscrições para o próximo número.]</p>
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		<title>Eles chegaram, senhora. Peço pra entrarem?</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jan 2019 22:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O trote é ritmado, a estrada lisa, e não fossem as cãibras nas pernas e as dores na bunda seria bem possível dormir aqui em cima. Nossos cavalos seguem devagar, as rodas da carroça guinchando vez ou outra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O trote é ritmado, a estrada lisa, e não fossem as cãibras nas pernas e as dores na bunda seria bem possível dormir aqui em cima. Nossos cavalos seguem devagar, as rodas da carroça guinchando vez ou outra.</p>
<p>— Depois dessa curva fica a cidade dos cachorros, Nelson. Aí são mais umas duas horas até a capital.</p>
<p>— Então só mais duas horas prum banho quente e uma cama macia.</p>
<p>— Se a audiência for concedida assim que a gente chegar, você quer dizer.</p>
<p>— A rainha vai nos atender rápido. Ela não vai querer esse fedor na porta do castelo.</p>
<p>Jodapê se referia aos corpos empilhados na carroça, cobertos com um pano velho manchado de sangue seco, bálsamo pros olhos, não pro nariz. Como andávamos sem trégua, os abutres não se atreviam a descer. Diferente das moscas, que rodeavam e se enfiavam pelos cantos do pano e faziam festa. Por isso as cabeças seguiam penduradas nos lombos das montarias, essas sim em sacos bem fechados pra serem erguidas, reconhecidas e depois enfiadas em estacas em alguma praça pública.</p>
<p>Os cavalos a princípio se assustavam com o cheiro de sangue que volta e meia soprava num vento contrário, mas logo se habituaram. Ao longo do caminho, os viajantes mantinham distância, e não arrumavam coragem pra perguntar do que se tratava a carga. Nossas caras também não ajudavam. Eu e Jodapê havíamos passado os últimos cinco meses caçando, alternando horas de sono entrecortadas em galhos enodoados e cavernas de chão pontiagudo, ou no conforto ocasional da terra. Não era questão de honra. Era trabalho, puro e simples. Um contrato. E tínhamos vindo de muito longe pra honrá-lo.</p>
<p>Os oito cadáveres haviam sido homens treinados pelo mesmo ancião que treinou nosso avô, um mestre reconhecido por suas habilidades incomuns, mágicas, diriam muitos. Mas há muito ele tinha desaparecido e esses últimos discípulos, abandonados no meio do treinamento, resolveram espoliar seu legado como bem entendessem. Que era mantendo um reino rico no fio da espada, a salvo em troca de fortuna. A rainha não deu importância quando primeiro recebeu a ameaça. E então perdeu boa parte de seus lordes e ao menos um parente nas mãos dos oito homens, espalhados pelo reino. De todas as mortes, uma única coincidência: sem testemunhas, sem pistas.</p>
<p>Quando o mensageiro chegou, atravessando o mar e as semanas que separavam nossas terras, prontamente decidimos agir, menos pela recompensa e mais para honrar a memória de nosso avô e seu mestre e por um fim àquela desonrosa demonstração de força, a técnica suprema a serviço do crime rasteiro. Descemos do navio e iniciamos o trabalho lentamente, nos acostumando ao território, sintonizando o respirar da terra. Ao cabo de meses de preparação, enfileiramos as serpentes e cortamos suas cabeças uma por uma, antes que soubessem do risco que corriam.</p>
<p>— O que vamos fazer agora, Nelson?</p>
<p>— Não tenho a menor ideia, primo. Acha que o ancião andou treinando outros por aí?</p>
<p>— É uma boa pergunta.</p>
<p>Nosso reino está pacificado. O terceiro de nosso grupo, outro primo mais jovem, ficou pra trás, como salvaguarda. Um é suficiente. Agora estamos eu e Jodapê há muito fora de casa, longe pela primeira vez, encerrando nossa missiva. Resta voltar? Do pouco que Jodapê diz, percebo também nele o fascínio pela outra opção.</p>
<p>Sem dúvida nos será oferecido o paraíso na terra em troca de nossos serviços, uma vez comprovada a eficácia. Sem dúvida recusaremos. Mastigo um gomo de tangerina quando viramos a última curva na estrada e depois de um monte se descortina o castelo, ainda atordoante pros nossos olhos, com suas cores vivas e os topos das torres arredondados feito chama de vela.</p>
<p>— É o castelo.</p>
<p>— Vejo o mesmo que você, primo.</p>
<p>— E o que vê depois dele?</p>
<p>— O mar. E as terras que ainda não conhecemos.</p>
<p>— Então está certo, Nelson. Vemos o mesmo.</p>
<p>Adentramos os portões do castelo, minha barba tosca escondendo o sorriso.</p>
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		<title>Baldo e a sola furada</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2019 20:07:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>
<p>É, tá quente, seu Ferreira. Não te falei? É essa terra amaldiçoada. Sabe, o senhor pode não tá tão longe da verdade. Cadê o seu filho?</p>
<p>O homem foi buscar o filho na casa. O garoto veio, apoiado em duas muletas, um dos pés enfaixado. Baldo observou sua palidez, usando um macacão sem camisa por baixo, todo suado. Me conta o que aconteceu, rapaz. O pai saiu logo atrás. Conta pra ele, filho. Ele entende dessas coisas. O garoto apontou o chão sob os pés do detetive.</p>
<p>Eu tava brincando com meus primos, senhor. Os menores com caminhões de madeira e os maiores de pega-pega. Eu tava correndo com o tênis novo que ganhei no natal, e aí de repente senti uma dor muito forte no pé e caí. Quando fui olhar, a sola tava com um buraco e meu pé também, minando sangue. Parecia que eu tinha pisado num prego. Comecei a gritar e a mãe veio lá de dentro pra acudir. Começaram a procurar o prego pela grama, a criançada toda enxotada pra dentro de casa, com medo de que pisassem também, mas a gente caçou e caçou e não encontrou nem prego, nem farpa de madeira nem nada parecido. No pronto-socorro, o médico disse que não tinha nada no buraco e costurou.</p>
<p>A mãe saiu da casa, secando as mãos num pano de louça. E isso tem três semanas, e o guri só piora. Teve febre e tudo.</p>
<p>Baldo acendeu um cigarro, cravando os dentes na bunda do filtro antes da primeira tragada. Teve febre todos os dias? A mãe franziu o cenho. Todas as noites, na verdade. Ah, sim. O detetive olhou em volta, analisando o chão. Lembra onde foi exatamente que aconteceu, rapaz? Não, senhor. Eu tava correndo, não lembro direito. Não tem problema. Vocês ainda têm o tênis que ele usou no dia? O furado? Tá no quarto dele. Já pego pro senhor.</p>
<p>Baldo sentou na ponta da varanda. Apontou com o rosto a cadeira mais próxima, olhando pro rapazote. Ele se deixou cair ali, apoiando as muletas no colo. O pai só observava, tentando evitar que o rosto se crispasse numa careta, sem sucesso. A mãe reapareceu com o tênis.</p>
<p>Baldo o pegou e virou. O solado tinha um buraco da grossura de uma caneta na altura do calcanhar. Puxou do bolso um saquinho, desamarrou e salpicou um pouco de pó. Nada. Resmungou. Então entregou o tênis ao garoto. Cospe aí, filho. Em cima do pó. Cuspir, o senhor disse? Isso, não precisa ter vergonha não. O guri cuspiu. E logo uma fumacinha cinzenta se ergueu de onde a saliva encostou.</p>
<p>Baldo encarou os pais. Ele não tem falado nada estranho esses dias, quando tem febre? Não, senhor, responderam o pai e a mãe juntos. Então ainda é tempo. Baldo pegou o saquinho, entregou pra mãe. A senhora tem açúcar em casa? Claro. Então bata um pouco de açúcar com água, qualquer semente de fruta e tudo que tiver dentro desse saquinho aqui. E traga pro garoto beber. O que tem aí dentro? Sálvia, sal, alecrim e algumas outras ervas. Tá bom. Semente de maçã, pode ser? Pode, sim.</p>
<p>Enquanto a mãe preparava a bebida, Baldo se aproximou do rapaz. Abriu seus olhos, checou as orelhas, tateou o cabelo suado, e por fim pediu pra ele abrir a boca o máximo que pudesse. Investigou. Ah, sim. O pai se aproximou pra ver o que o detetive via. O senhor descobriu algo? Sim, já vai ver.</p>
<p>A mãe veio com a batida esverdeada. Baldo a entregou ao moleque. Quero que você beba isso de uma vez só, entendeu? Não pode parar no meio. O garoto pegou, cheirou e olhou de perto a bebida antes de virá-la em três grandes goles. Então apagou, o copo rolando dos dedos. Os pais se agitaram. Se acalmem, é assim mesmo. Deitou o garoto no chão, puxou seu queixo, enfiou os dedos em pinça no céu da boca e puxou. Nada. Tentou de novo, com mais força. A mão saiu com um pedaço de algo amarelado na ponta.</p>
<p>Minha nossa senhora, o que é isso? A mãe apertava as mãos contra o peito. O pai chegou a centímetros do negócio. Um dente? Exatamente, seu Ferreira. Como que um dente velho desses foi parar na boca do meu filho? Ele subiu pelo pé, seu Ferreira. Não tem mais problema, tá resolvido. O seu garoto tá bem, ele vai ficar bom. A boca vai sangrar ainda, mas logo para. Me chamaram a tempo. Vou voltar daqui a dois dias pra ver como ele anda. E pra salgar a terra. Vou trancar o pedaço de onde veio esse dente pra evitar outros acidentes. Isso que aconteceu aqui só acontece uma vez, quando acontece. Tudo bem? Não se preocupem. Quando eu voltar, acertamos o serviço.</p>
<p>Baldo deixou a casa com o osso no bolso. Fazia tempo que não via disso. Tivesse o dente florescido inteiro na boca do garoto, não poderia mais fazer nada porque já não seria o garoto. A sorte que às vezes sorria, o adicional inesperado sobre o serviço cumprido. Carregava pra casa um dos ingredientes mais caros e raros em sua profissão: um dente enfeitiçado de bruxa.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a title="FF #270 - Baldo e a ponte" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/" target="_blank">-Baldo e a ponte</a><br />
<a title="FF #252 - Baldo e o asilo" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/">-Baldo e o asilo</a><br />
<a title="FF #234 - Baldo e a comida podre" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-comida-podre/">-Baldo e a comida podre</a><br />
<a title="FF #205 - Baldo e o morto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-morto-205/">-Baldo e o morto</a><br />
<a title="FF #187 - Baldo e a garoa" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-garoa-187/">-Baldo e a garoa</a><br />
<a title="FF #116 - Baldo e o chapéu" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-chapeu-116/">-Baldo e o chapéu</a><br />
<a title="FF #105 - Baldo e o alçapão" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-alcapao-105/">-Baldo e o alçapão</a><br />
<a title="FF #62 - Baldo e os choros da noite" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-os-choros-da-noite-62/">-Baldo e os choros da noite</a><br />
<a title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a title="FF #28 - Baldo e o Halls preto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a title="FF #14 - Moleque bom" href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/">-Moleque bom</a></em></p>
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		<title>Da manufatura de caixões geometricamente improváveis</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/da-manufatura-de-caixoes-geometricamente-improvaveis/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2019 19:17:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Depois que a cratera surgiu, não demorou pro povo começar a descer por umas escadarias escavadas na face das rochas e voltar com asas, escamas, duas cabeças.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Depois que a cratera surgiu, não demorou pro povo começar a descer por umas escadarias escavadas na face das rochas e voltar com asas, escamas, duas cabeças.</p>
<p>A coisa pegou.</p>
<p>Menos pra nós.</p>
<p>Minha família ficou conhecida por honrar a ordem natural da vida, e de nossos antepassados até hoje seguimos incólumes, a linhagem livre de metamorfoses. Nos tornamos os únicos, isolados no centro da cidade. Quem carrega nas veias nosso sangue só pode estabelecer relação com humanos puros, e portanto grupos familiares saem em peregrinação sempre que alguém atinge a maioridade, voltando da viagem com um par a tiracolo de lugares onde a sanidade ainda impera.</p>
<p>O preconceito que vigorava contra os metas se inverteu. Não nos dão empregos, não cumprimentam, evitam nossa rua. Nas lojas, nos vendem com visível desgosto. Nos restaurantes, nos isolam nas mesas do fundo ou dizem que não há lugar, por mais que mesas vazias se enfileirem diante dos olhos. A maioria dos médicos não nos atende. Por isso, aprendemos a nos virar. Fazemos caixões. Os mortos não reclamam e os vivos estão desolados demais pra se preocupar com picuinhas. E fazemos isso melhor e mais barato que qualquer meta.</p>
<p>Aos mais velhos e experientes fica a incumbência de buscar a madeira. Há muito nos privaram da facilidade de conseguir algo das madeireiras da cidade, pelo preço exorbitante que nos cobram. Então viajamos às cidades vizinhas, o que leva alguns dias, sempre em grupos armados pra manter distantes os salteadores e as gangues violentas de metas. Os adultos em boa idade cuidam do corte e da construção dos caixões, os mais jovens do atendimento na edícula na frente do terreno, e as crianças da limpeza, juntando o pó de serra, varrendo os galpões e as casas.</p>
<p>O pomar se transformou numa pequena vila com a multiplicação da família. Somos atualmente 113, distribuídos em nove casas mais o casarão original, reservado sempre aos mais velhos, que ocupam os quartos com janelões no segundo andar e aproveitam o pouco vento que às vezes sopra.</p>
<p>Nas reuniões familiares, não raro em volta da fogueira entre as casas, alguma matriarca lê passagens do diário de nosso antepassado que primeiro testemunhou tudo. Mondalião era seu nome do meio, nome pelo qual é lembrado. Pelas suas palavras, vislumbramos a derrocada daqueles antigos conterrâneos, que se rendiam à curiosidade sem olhar pra trás. Por muito tempo ele lutou contra a própria vontade de descer pela cratera e descobrir o que os deuses mesquinhos lhe reservavam, se um benefício supremo, como conferido aos que voltavam de lá imortais, ou as deformidades que muitos carregavam a contragosto. Mas foi forte. Perseverou.</p>
<p>Os sonhos de migração, de uma vida onde não há exclusão e preconceito, que acometem em especial nossos jovens, são desde cedo dissuadidos com a invocação constante de nossa missão sagrada, legada por Mondalião: deve haver ao menos um foco de resistência à depravação em nossa terra, ou ela se tornará completamente maculada, e os deuses da cratera a engolirão. Ficamos aqui para salvaguardar os que nos demonizam.</p>
<p>E sufocar nossos próprios pecados.</p>
<p>Há sete anos não tiro os sapatos perto da família, nem de meus filhos, e apenas meu marido, que nasceu em outra cidade e chegou adulto, me entende e não liga pros meus pés de pedra.</p>
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		<item>
		<title>Conselhos a troco de nada</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/conselhos-a-troco-de-nada/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/conselhos-a-troco-de-nada/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 05 Dec 2018 21:31:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Num dos cruzamentos a caminho de casa, percebo um homem parado na esquina seguinte tirar uma das mãos do bolso pra checar as horas. Algo no jeito que se mexe me parece familiar. Atravesso a faixa, e quando passo na sua frente, ele diz</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Num dos cruzamentos a caminho de casa, percebo um homem parado na esquina seguinte tirar uma das mãos do bolso pra checar as horas. Algo no jeito que se mexe me parece familiar. Atravesso a faixa, e quando passo na sua frente, ele diz</p>
<p>Rodrigo.</p>
<p>Meu nome. E me acompanha.</p>
<p>Sei que você acabou de sair da faculdade e tá indo pra casa. Vou junto, é rápido. Não se preocupa, não sou ladrão, não quero vender nada. Preciso te contar uma coisa ou outra.</p>
<p>Continuo andando. Ele volta a checar as horas.</p>
<p>Olha, eu pensei muito no que devia te falar aqui e agora, quando te encontrasse. Você não vai entender se eu explicar demais, e a gente nem tem tempo pra isso. O que você precisa saber é o seguinte: África do Sul. Não vale a pena. Eu sei que não parece fazer sentido. Mas vai fazer, um dia. Você vai ser convidado a se mudar pra Joanesburgo. Não vá. Tem país pra burro pra conhecer, lugar que você nem sabe que existe mas vai descobrir se abrir um mapa e olhar as letras miúdas. Só evita a África do Sul, mesmo que te pareça uma boa.</p>
<p>Por que você tá me dizendo isso?, pergunto, primeira vez que abro a boca. Estranho ouvir a melodia da minha própria voz.</p>
<p>Os motivos. Taí o problema. Lembra que falei que se explicasse não faria sentido e não daria tempo? Mesma coisa aqui. Só guarda isso. África do Sul.</p>
<p>Ele some, e não é como se eu piscasse ou olhasse pro lado. É um passo depois do outro e então passo nenhum.</p>
<p>Na frente da padaria onde tomo café da manhã, outro homem olhando as horas, o mesmo jeito. Mas só tem um braço. Ele diz</p>
<p>Rodrigo</p>
<p>e me acompanha.</p>
<p>Já te falaram pra não ir pra África do Sul? Poisé. Tem outro problema, alguns anos pra frente. Escócia. Evite a todo custo. Não há nada por lá que valha a pena.</p>
<p>E você não pode me contar os detalhes, presumo?</p>
<p>Isso mesmo, ele diz, e desaparece.</p>
<p>Na esquina do meu prédio, outro homem checando o relógio. Esse de tapa-olho.</p>
<p>Rodrigo, o Vietnã</p>
<p>e mais nada.</p>
<p>Quando entro no apartamento, vejo um homem de cadeira de rodas terminando de escrever um bilhete sobre a mesa, a pulseira do relógio tão folgada que daria três voltas no pulso cadavérico, as duas pernas acabando em cotocos na altura dos joelhos. Ele nem tem tempo de me olhar. Mas eu já conheço o rosto. Desaparece.</p>
<p>Pego o bilhete.</p>
<p>“Vá de uma vez pra África do Sul. Ignore todo o resto.”</p>
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		<title>A vida no Colégio Candeias é um inferno</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-vida-no-colegio-candeias-e-um-inferno/</link>
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		<pubDate>Thu, 13 Sep 2018 17:24:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comédia]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Cara Diretora,</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Diretora,</p>
<p>Eu, bem como meus colegas, estamos francamente horrorizados com a conduta da professora Ester, da disciplina de Feitiços. Já fizemos reclamações informais antes, mas resolvemos formalizar aqui nesta carta as nossas insatisfações e informar a senhora de alguns desdobramentos que julgamos interessantes e que precisam da sua ciência e aval.</p>
<p>Não bastassem os cutucões ao Ratão (Everardo Gomes), que todos a essa altura já sabem ser filho da sua vizinha e inimiga mortal (algo com relação a cachorros e plantas), as atitudes em sala de aula da professora têm se mostrado reprováveis e, o que é pior, ofensivas e até perigosas.</p>
<p>Talvez o exemplo mais flagrante tenha ocorrido no dia 11.04, quando aprendemos a fazer os rabos para curvas fechadas das nossas vassouras de voo. Aprendemos que é necessário alimentar uma iguana por cinco dias com favas embebidas no xarope de raízes de cicatrização acelerada, para só então cortar o seu rabo, ingrediente essencial do revestimento a ser aplicado na vassoura. Mas a professora Ester não só resolveu não ministrar à sua iguana o xarope como disse que a escola estava formando apenas jovens leite com pera (palavras dela), e que nos velhos dias a humanidade lidava com a natureza sem essa frescura toda. Então ela procedeu à cortar o rabo da iguana, que se debateu na mesa até que ela cortasse sua cabeça, abrisse a barriga, retirasse todas as entranhas e instasse os alunos a acender uma fogueira no pátio, onde ela assaria a iguana pra podermos provar o que é comida de verdade.</p>
<p>Sabemos que ela foi advertida e que a escola recebeu uma notificação do Ministério de Maus-Tratos aos Animais em Utilização Para Fins Mágicos, mas isso não parece ter mudado muito a sua postura. Detalhamos a seguir alguns acontecimentos pós-iguana:</p>
<p>No dia 27.04, durante uma demonstração das utilizações do fogo fátuo, ela queimou todos os pelinhos do braço e pediu que a gente desse um jeito de acabar com aquele cheiro insuportável. Ela não disse que a substância queimada por fogo fátuo se torna tóxica e metade da sala desmaiou antes que o inspetor aparecesse e conjurasse um feitiço extintor, que ainda não tínhamos aprendido.</p>
<p>No dia 28.04, o dia seguinte, quando dois alunos não vieram porque ao desmaiar se machucaram nas quinas das mesas, a professora Ester contextualizou a nossa história para um feitiço de linguagem, e frisou que durante a Grande Guerra da Fronteira os bolivianos foram traiçoeiros, e que não deveríamos nunca confiar neles, mesmo hoje. A mãe da Tinha (Renata Esperanza Tonus) é boliviana. Ela pediu à professora para retirar o que disse, explicando que sua mãe era inclusive funcionária do Ministério brasileiro. A professora não só reforçou a implicação como fez um feitiço de mudez e imobilidade na aluna pelo resto da aula.</p>
<p>No dia 01.05, tradicional feriado quando muitos estudantes voltam para suas casas, ela fez um feitiço de evocação e trouxe às suas cadeiras todos aqueles que estavam com suas famílias, passeando, comendo ou até dormindo depois do almoço, afirmando que apenas os feriados do mundo mágico é que deveriam ser respeitados no colégio. Vale destacar que o Cabeça (Bruno Gomide) estava tomando banho, e assistiu a aula enrolado numa toalha tirando o sabão dos olhos.</p>
<p>No dia 05.05, ela achou um piolho na sua cabeça e o comeu.</p>
<p>No dia 06.05 ela achou outro piolho e disse que quem não acertasse as respostas da prova oral teria que comer o piolho. Felizmente, todos acertaram.</p>
<p>No dia 10.05, anteontem, a professora Ester trouxe de sua casa uma lista de números. Ela os escreveu no quadro. Os números variavam de 50 a 70, com alguns chegando às casas decimais de 80 e 90. Apenas um destoava, menor que todos os outros, 19. Então ela disse que nos últimos meses tinha recolhido pertences e cabelos nossos e feito um proibido feitiço de clarividência para saber com que idade cada um de nós iria morrer. Ficamos horrorizados, sabendo que em poucos anos um de nós morreria, e mesmo insistentemente questionada, ela disse que não revelaria de quem era o número. Quando começaram as lágrimas, ela voltou atrás e disse que era apenas uma brincadeira, mas apontou o Ratão e disse para ele cuidar com o que comia. O Ratão entrou em desespero e passamos o resto da aula tentando acalmá-lo.</p>
<p>É por esses episódios, talvez nem todos do seu conhecimento, diretora, que pedimos o afastamento da professora Ester, e que alguma substituta seja encontrado para a disciplina. Já ficou claro, pensamos, que ela é incapaz de ministrar aulas de forma segura, e que nosso aprendizado está sendo prejudicado.</p>
<p>Também aproveitamos para informá-la que nossa sala está iniciando as atividades de um grêmio estudantil, e que pretendemos convidar os demais alunos dos diferentes anos do colégio para integrá-lo e discutir problemas que julgarmos dignos de atenção, criando assim uma ponte de comunicação com a direção que formalize e integre nossos interesses. Espero que possamos construir isso juntos, já que as leis do Ministério da Educação são claras no tocante à permissão da criação de grêmios caso os estudantes assim desejem.</p>
<p>Aviso de antemão que o assunto mais premente, após a resolução do caso com a professora Ester, é a reativação das Olimpíadas. Estamos abertos para o diálogo, e esperamos contar com o apoio incondicional da senhora nessa busca para melhorar a qualidade da nossa escola e nossa vida escolar.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p><em>Eduarda Tavares Souza e alunos do 2º ano B</em></p>
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		<title>Registro #03 &#124; Matozinhos &#8211; MG &#124; Piara Co.</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jul 2018 03:28:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>“Aqui, Carina. A trilha acaba aqui.”</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>“Aqui, Carina. A trilha acaba aqui.”</p>
<p>Joberval agachado diante da árvore. Aos pés dela, na terra, uma ferida preta, uma mancha queimada, a grama erradicada no centro, ao redor tudo machucado, preto, comido. Os homens param no entorno, se movendo num programado perímetro. Agacho ao lado de Joberval.</p>
<p>“É, parece que morreu aqui o bicho”, ele diz.</p>
<p>“Não morreu. Olha a árvore.”</p>
<p>No tronco, veios escuros dominam a textura da casca. De baixo pra cima os veios diminuem em quantidade, mas aumentam em grossura, seguindo até a copa. Me levanto, tocando a folha de um galho baixo. É uma mangueira. Mas os poucos frutos não estão amarelos. Nem verdes. Possuem uma coloração azul escura, com os mesmos veios intensos. Puxo o canivete e corto o galho que conecta uma fruta à haste.</p>
<p>A manga se espatifa aos meus pés com um fedor que invade as narinas de imediato. A carne se espalha, mole, se agarrando ao chão e penetrando-o. O que sobra no resto da carcaça azulada parece ferver em contato com o ar, e borbulha por alguns segundos. Puxo os óculos de proteção da mochila e uma pinça e aproximo o rosto. Remexo a sopa fétida, sentindo o caroço grande nadando ali. Viro de ponta-cabeça. O que sobra da carne some no chão, e resta o caroço peludo e negro. Puxo um dos sacos de coleta e o enfio ali dentro.</p>
<p>Aperto o botão do rádio. “Eduarda, traga uma caixa de coleta pra minha posição. Vamos levar algumas mangas.”</p>
<p>Joberval conversa com seus homens, olhando ao redor. Não há mais perigo. Peço pra recolherem todos os frutos — com cuidado pra não se romperem — e guardarem na caixa. Depois pra derrubarem a árvore. Um deles volta pra van atrás de um machado. Sigo nessa mesma direção, refazendo a trilha que seguimos até a clareira. Joberval me acompanha, um braço apoiado na coronha do fuzil preso na bandoleira.</p>
<p>“Vamos procurar por mais desses bichos na área?”, ele diz.</p>
<p>“Era só esse. Eles não costumam aparecer por aqui.”</p>
<p>“Quer dizer que costumam aparecer em outro lugar?”</p>
<p>“De uns tempos pra cá.”</p>
<p>“Maravilha.”</p>
<p>“Não duvido nada a Valéria aumentar a tua equipe. O caldo tá engrossando.”</p>
<p>“Bom, é um trabalho honesto. Quem entra, tá ciente das possibilidades. Enquanto você deixar a gente vivo tá valendo, doutora.”</p>
<p>“Isso não era o tipo de coisa que eu tinha em mente quando me contrataram. Não coloca essa responsabilidade nas minhas costas.”</p>
<p>“A gente desempenha a função que nos cabe, doutora. Fica tranquila.”</p>
<p>No início da trilha, a carcaça de um bicho enorme — e penso no genérico termo bicho com estranheza, já que conheço o nome de centenas deles, e esse não bate com nenhum — a cabeça coalhada de balas, bem como o resto do corpo, e a barriga explodida de dentro pra fora. Os tentáculos e as garras caídos em profusão, Eduarda registrando de todos os ângulos possíveis com uma câmera. Na van, a assistente dela entrega o machado e a caixa pro homem da segurança colher as mangas.</p>
<p>Carlos, nosso motorista, guia e faz-tudo, fuma um cigarro sentado numa pedra. Sua camisa tem uma mancha enorme de sangue atravessada no peito, mais uns respingos na cara. O sangue é de um dos nossos soldados, caído todo torto mais adiante. Ferreira, ou Fernandes. Merda, nem tive tempo de gravar o nome.</p>
<p>“El bicho era brabo. Você está bien, Carina?”</p>
<p>“Eu tô bem, e tu? Por pouco a garrada não sobrou pra você.”</p>
<p>“Pues. Ferraz deu un passo e se colocou na minha frente. Cree?” Ferraz, esse era o nome do sujeito.</p>
<p>“Coitado. Bom, pelo menos foi só um.”</p>
<p>“Não sei não, mira.”</p>
<p>Ele aponta outro dos seguranças, coçando o braço lanhado por um dos tentáculos, o machucado evoluindo do vermelho normal de arranhado prum roxo bem parecido com o da manga. Vou na direção dele, pensando em como fui inútil aqui, em como não fui capaz de prever porcaria nenhuma. Nada do que sei, nada do que aprendi, serviu. Achamos o alvo, metemos bala e perdemos um, talvez dois homens. Agora temos o resto da sua cria, ou seja lá o que era aquilo que saiu rastejando da barriga dele e parece ter se refugiado em caroços de manga.</p>
<p>Antes de chegar na cidade, o homem machucado tem um ataque convulsivo e morre. O braço, escuro e inchado, começa a feder. Ensacamos ele também. Voltamos pra base da Piara Consultoria em São Paulo com dois sacos no cargueiro, dois a mais que na última missão.</p>
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		<title>Do abrigo antigo da água</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/do-abrigo-antigo-da-agua/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Mar 2018 19:59:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ouviu isso, Januário?</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ouviu isso, Januário?</p>
<p>Pararam. O vento ciscando nas folhas. Um pio ou outro. As solas das botas pranchando a terra, os ramos. As respirações atravessadas.</p>
<p>Ouvi nada não, Ed.</p>
<p>Parecia um grito. Mas longe. Será que um dos índios se machucou, topou com cobra?</p>
<p>Sei não. Continua. A gente tem que chegar no rio.</p>
<p>Não havia trilha. Havia um caminho de mato alto por entre as árvores, de chão firme, onde as botas fincavam. As espingardas penduradas batiam nas coxas.</p>
<p>Acho que a gente não tá indo pro lado certo, Ed. Certeza que é presse lado?</p>
<p>Certeza eu não tenho. Mas lembro de ter visto lá de cima que era pra cá.</p>
<p>Pra cá, pra lá. Você viu o tanto de curva. Qual era o ponto de referência?</p>
<p>O sol, caralho. Vai indo, tamos certo sim.</p>
<p>Suor descia pelas dobras da testa, ladeava os olhos, pingava do nariz, do queixo barbado. Mosquitos zuniam de ouvido a outro, mas não pousavam, sem pista seca na pele queimada, movediça.</p>
<p>Aí, Januário. De novo.</p>
<p>Agora ouvi. É bicho, não é índio. Tem outro.</p>
<p>Tá vindo da frente ou de trás?</p>
<p>De trás. Anda, homem, acelera!</p>
<p>O urro vinha a intervalos cada vez menores, mais próximos. Januário agora segurava a espingarda à frente do corpo, engatilhada, e repisava as pisadas de Ed, que abria caminho. No casaco de Ed a riqueza. O rugido muito próximo. Januário parou, virou, apontou.</p>
<p>Continua, Ed! Vou segurar o bicho! Te encontro no rio!</p>
<p>Ed não respondeu. Mas ouviu. Não bem um grito. Um rasgo. Em algum momento a bandoleira da espingarda prendeu num galho. Com um tranco que quase deslocou seu ombro, a arma ficou. As árvores rareavam. O urro. Ed viu o rio, brilhando centenas de metros à frente. Precisava atravessá-lo. Alcançar a outra margem.</p>
<p>Avançou mais alguns metros. Rolando. A cabeça percorreu o resto da inclinação e estacionou numa pedra. Os olhos voltados pro rio não fecharam ângulo na fonte das fungadas quentes, atrás, investigando o corpo.</p>
<p>No bolso do casaco, o dente ensanguentado da cria.</p>
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		<title>Dos riscos da super aposentadoria</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Mar 2018 16:36:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>ASTRO VOLTOU — alardeiam as telas em gritos ou legendas enormes, coroadas pela imagem esfumaçada de algo se aproximando pelo ar e então disparando pra cima feito um míssil, mergulhando nas nuvens que espiralam em seu rastro. Nem um segundo. Mas em câmera lenta, frame por frame, é possível ver com facilidade os contornos da figura humana, o colante preto, os braços unidos apontando pra cima.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>ASTRO VOLTOU — alardeiam as telas em gritos ou legendas enormes, coroadas pela imagem esfumaçada de algo se aproximando pelo ar e então disparando pra cima feito um míssil, mergulhando nas nuvens que espiralam em seu rastro. Nem um segundo. Mas em câmera lenta, frame por frame, é possível ver com facilidade os contornos da figura humana, o colante preto, os braços unidos apontando pra cima.</p>
<p>Vi isso primeiro na televisão da lanchonete na esquina de casa. Minhas pernas me carregaram até a cadeira na mesa da ponta antes de desligarem de vez, e pedi uma água. O garçom perguntou algo mas não respondi, de olho no replay das imagens.</p>
<p>Se Astro voltou mesmo, tô fudida. Daqui uma hora, um dia, uma semana. Ele vai aparecer. Ou nem isso. O teto desaba ou uma bala de hortelã atravessa meu pescoço. E não é suficiente fazer as malas e me enfiar no primeiro ônibus, navio ou avião; se ele lembrar meu nome vai chegar aqui na cidade, e mesmo que meu apartamento já não exista, algum amigo ou colega de trabalho serve. O cheiro. A lembrança viva na memória da retina.</p>
<p>Claro que o dia não rende no escritório, e finjo uma dor de estômago pra passar incólume. Gasto o tempo pensando em como justificar pro ser mais poderoso do planeta como o deixamos no escuro quando Rusga reapareceu com uma nova arma. Acreditei mesmo que a ideia da Canário era provar que a equipe não precisava viver sempre à sombra do líder e que daríamos conta sozinhos. Não imaginava que ela… Justo ela. A explosão matou milhares. Astro não vai entender. Eu não entenderia. Aí o nervoso se traduz numa dor verdadeira de estômago e acabo saindo mais cedo.</p>
<p>Na volta pra casa, paro na padoca e fico travada diante das estufas pelo que parecem horas até decidir por um pão doce e um pote de nata, que balançam desengonçados na sacola até o prédio. Entro no apê, guardo a nata na geladeira e ligo a luz da sala.</p>
<p>Ele tá sentado na poltrona, um pé cruzado sobre o outro. O colante preto, as botas surradas, o cabelo encaracolado bagunçado pelo vento. O rosto liso, sem as rugas que já inundaram os cantos dos meus olhos. Do mesmíssimo jeito que era naqueles tempos.</p>
<p>— Nunca achei que você gostasse de papel de parede — ele diz.</p>
<p>— Eu não gosto. Alugado.</p>
<p>— Achei que seria mais honesto se pudesse me ver.</p>
<p>— Ah, sim. O rei da honestidade.</p>
<p>— Sabe, Rosali. Desde que acordei confesso que venho tentando. Entender. Mas não consigo.</p>
<p>— Sabe que não era nossa intenção. Fomos enganados—</p>
<p>— Todos perderam o poder? Ou só você?</p>
<p>— Bom, acho que vai ter que descobrir, não é?</p>
<p>— Acho que sim — ele diz, e seus olhos se inflamam.</p>
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		<title>Da melodia afiada da fala</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/da-melodia-afiada-da-fala/</link>
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		<pubDate>Thu, 01 Mar 2018 00:23:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A água cai de lado, martelando o asfalto conforme as golfadas do vento. Noites chuvosas são as piores porque me fazem lembrar da primeira noite, quando Marla ainda estava viva, quando o que eu pensava ainda me pertencia, quando abraçar sua cintura ou tirar seus cabelos da frente dos olhos eram ações que eu tomava por iniciativa e gosto, não por outra coisa.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A água cai de lado, martelando o asfalto conforme as golfadas do vento. Noites chuvosas são as piores porque me fazem lembrar da primeira noite, quando Marla ainda estava viva, quando o que eu pensava ainda me pertencia, quando abraçar sua cintura ou tirar seus cabelos da frente dos olhos eram ações que eu tomava por iniciativa e gosto, não por outra coisa.</p>
<p>A chuva lava o carro e os vidros, escorrendo morosa nas janelas que nos permitem olhar além da calçada, da grade, do jardim, acima, na segunda janela da fachada, a luz viva no recorte da moldura de alumínio.</p>
<p>Ligue o rádio, ele diz, e ligo na estação de sempre. Ella Fitzgerald em um de seus scats. A sincronia é tamanha que o suave batucar de pés que ele faz no banco traseiro eu imito no tapete do motorista. Perguntar qualquer coisa é inútil. Guardo a chance pros momentos cruciais. Ele não sente necessidade de me explicar qualquer coisa, de demonstrar qualquer lógica. Às primeiras perguntas seguiram os pedidos de silêncio que se prolongaram por dias, até que o tédio o fez reaver a vontade de ouvir minha voz, e assim o fez. O pouco que entendo é o que intuo. E intuo que ele está se vingando. Não sei por quê, não sei até quando. Talvez porque consiga fazer o que faz. Talvez até que sejamos velhos caquéticos, ou até que alguém consiga pará-lo. Não espero estar vivo a essa altura, se for o caso.</p>
<p>A chuva cai fina quando a luz da janela é apagada, e o desfile de jazz e soul segue preenchendo a câmara acústica da Pajero. Ele ainda espera Coltrane, Miles e Aretha darem o ar da graça.</p>
<p>Desligue o carro e venha abrir a porta, ele diz.</p>
<p>Abro o guarda-chuva e andamos até o portão.</p>
<p>Abra isso, ele diz.</p>
<p>Tiro do bolsão do sobretudo o alicate, despedaço o cadeado. Ele segue na frente. Damos a volta na casa. Nos fundos, um cachorro late.</p>
<p>Quieto e parado, ele diz.</p>
<p>O cachorro continua latindo com a bunda grudada no chão, mudo.</p>
<p>A porta, ele diz.</p>
<p>Pego as chaves de pressão, cavuco a tranca até encontrar os pontos. Ficamos um tempo parados, os olhos se acostumando. Ele sobe as escadarias. Sigo. No corredor do andar de cima, quatro portas. Uma delas aberta, o banheiro. Abro a próxima. A cortina está fechada, então não vemos nada delineado nas sombras. Ele acende a luz.</p>
<p>Uma cama com lençol rosa, uma menina de cerca de 5 anos, um coelho de pelúcia ao lado do travesseiro. Ela se mexe com o incômodo da luz, vira, suspira, mas não acorda. Sinto o sangue pulsar no céu da boca, nas gengivas, respiro pelos dentes. Ele apaga a luz e sai. Estremeço.</p>
<p>A terceira porta é de um escritório, a janela sem cortinas deixando a luz da rua entrar, o cômodo que vimos aceso lá de fora. Vazio.</p>
<p>Abra e acenda a luz, ele diz, diante da última porta.</p>
<p>Na claridade recém-descoberta, um homem barbudo e uma mulher, ambos grisalhos, sob as cobertas. Ela abre os olhos e o cutuca. Ele se vira pra alcançar os óculos na cômoda. Olha na nossa direção.</p>
<p>Barbosa, diz, mas é tudo que tem tempo de dizer, porque o homem que me guia, cujo nome descubro depois de meses comendo, dormindo e vegetando ao seu lado, fala.</p>
<p>Asfixiem, diz. E eles levam as mãos aos pescoços. A mulher se contorce sobre a cama. O homem levanta e se arrasta em nossa direção, tentando falar, tentando engolir, e cai. Barbosa chuta seu rosto. O filete de sangue do nariz coroa o roxo das bochechas, o olhar perdido.</p>
<p>Ele dá meia-volta. Não respiro quando passamos novamente pela porta da menina. Refazemos o caminho até o carro. Ele diz o nome do bar dos últimos dias, onde temos bebido como velhos amigos. Onde ele ainda não decidiu dizer a todos que arranquem as roupas e fodam até a morte ou bebam até os estômagos explodirem.</p>
<p>Sorria, ele diz. Meus dentes despontam no retrovisor.</p>
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