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	<title>Flash Fiction &#187; Mistério</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Baldo e a sola furada</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2019 20:07:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>
<p>É, tá quente, seu Ferreira. Não te falei? É essa terra amaldiçoada. Sabe, o senhor pode não tá tão longe da verdade. Cadê o seu filho?</p>
<p>O homem foi buscar o filho na casa. O garoto veio, apoiado em duas muletas, um dos pés enfaixado. Baldo observou sua palidez, usando um macacão sem camisa por baixo, todo suado. Me conta o que aconteceu, rapaz. O pai saiu logo atrás. Conta pra ele, filho. Ele entende dessas coisas. O garoto apontou o chão sob os pés do detetive.</p>
<p>Eu tava brincando com meus primos, senhor. Os menores com caminhões de madeira e os maiores de pega-pega. Eu tava correndo com o tênis novo que ganhei no natal, e aí de repente senti uma dor muito forte no pé e caí. Quando fui olhar, a sola tava com um buraco e meu pé também, minando sangue. Parecia que eu tinha pisado num prego. Comecei a gritar e a mãe veio lá de dentro pra acudir. Começaram a procurar o prego pela grama, a criançada toda enxotada pra dentro de casa, com medo de que pisassem também, mas a gente caçou e caçou e não encontrou nem prego, nem farpa de madeira nem nada parecido. No pronto-socorro, o médico disse que não tinha nada no buraco e costurou.</p>
<p>A mãe saiu da casa, secando as mãos num pano de louça. E isso tem três semanas, e o guri só piora. Teve febre e tudo.</p>
<p>Baldo acendeu um cigarro, cravando os dentes na bunda do filtro antes da primeira tragada. Teve febre todos os dias? A mãe franziu o cenho. Todas as noites, na verdade. Ah, sim. O detetive olhou em volta, analisando o chão. Lembra onde foi exatamente que aconteceu, rapaz? Não, senhor. Eu tava correndo, não lembro direito. Não tem problema. Vocês ainda têm o tênis que ele usou no dia? O furado? Tá no quarto dele. Já pego pro senhor.</p>
<p>Baldo sentou na ponta da varanda. Apontou com o rosto a cadeira mais próxima, olhando pro rapazote. Ele se deixou cair ali, apoiando as muletas no colo. O pai só observava, tentando evitar que o rosto se crispasse numa careta, sem sucesso. A mãe reapareceu com o tênis.</p>
<p>Baldo o pegou e virou. O solado tinha um buraco da grossura de uma caneta na altura do calcanhar. Puxou do bolso um saquinho, desamarrou e salpicou um pouco de pó. Nada. Resmungou. Então entregou o tênis ao garoto. Cospe aí, filho. Em cima do pó. Cuspir, o senhor disse? Isso, não precisa ter vergonha não. O guri cuspiu. E logo uma fumacinha cinzenta se ergueu de onde a saliva encostou.</p>
<p>Baldo encarou os pais. Ele não tem falado nada estranho esses dias, quando tem febre? Não, senhor, responderam o pai e a mãe juntos. Então ainda é tempo. Baldo pegou o saquinho, entregou pra mãe. A senhora tem açúcar em casa? Claro. Então bata um pouco de açúcar com água, qualquer semente de fruta e tudo que tiver dentro desse saquinho aqui. E traga pro garoto beber. O que tem aí dentro? Sálvia, sal, alecrim e algumas outras ervas. Tá bom. Semente de maçã, pode ser? Pode, sim.</p>
<p>Enquanto a mãe preparava a bebida, Baldo se aproximou do rapaz. Abriu seus olhos, checou as orelhas, tateou o cabelo suado, e por fim pediu pra ele abrir a boca o máximo que pudesse. Investigou. Ah, sim. O pai se aproximou pra ver o que o detetive via. O senhor descobriu algo? Sim, já vai ver.</p>
<p>A mãe veio com a batida esverdeada. Baldo a entregou ao moleque. Quero que você beba isso de uma vez só, entendeu? Não pode parar no meio. O garoto pegou, cheirou e olhou de perto a bebida antes de virá-la em três grandes goles. Então apagou, o copo rolando dos dedos. Os pais se agitaram. Se acalmem, é assim mesmo. Deitou o garoto no chão, puxou seu queixo, enfiou os dedos em pinça no céu da boca e puxou. Nada. Tentou de novo, com mais força. A mão saiu com um pedaço de algo amarelado na ponta.</p>
<p>Minha nossa senhora, o que é isso? A mãe apertava as mãos contra o peito. O pai chegou a centímetros do negócio. Um dente? Exatamente, seu Ferreira. Como que um dente velho desses foi parar na boca do meu filho? Ele subiu pelo pé, seu Ferreira. Não tem mais problema, tá resolvido. O seu garoto tá bem, ele vai ficar bom. A boca vai sangrar ainda, mas logo para. Me chamaram a tempo. Vou voltar daqui a dois dias pra ver como ele anda. E pra salgar a terra. Vou trancar o pedaço de onde veio esse dente pra evitar outros acidentes. Isso que aconteceu aqui só acontece uma vez, quando acontece. Tudo bem? Não se preocupem. Quando eu voltar, acertamos o serviço.</p>
<p>Baldo deixou a casa com o osso no bolso. Fazia tempo que não via disso. Tivesse o dente florescido inteiro na boca do garoto, não poderia mais fazer nada porque já não seria o garoto. A sorte que às vezes sorria, o adicional inesperado sobre o serviço cumprido. Carregava pra casa um dos ingredientes mais caros e raros em sua profissão: um dente enfeitiçado de bruxa.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a title="FF #270 - Baldo e a ponte" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/" target="_blank">-Baldo e a ponte</a><br />
<a title="FF #252 - Baldo e o asilo" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/">-Baldo e o asilo</a><br />
<a title="FF #234 - Baldo e a comida podre" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-comida-podre/">-Baldo e a comida podre</a><br />
<a title="FF #205 - Baldo e o morto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-morto-205/">-Baldo e o morto</a><br />
<a title="FF #187 - Baldo e a garoa" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-garoa-187/">-Baldo e a garoa</a><br />
<a title="FF #116 - Baldo e o chapéu" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-chapeu-116/">-Baldo e o chapéu</a><br />
<a title="FF #105 - Baldo e o alçapão" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-alcapao-105/">-Baldo e o alçapão</a><br />
<a title="FF #62 - Baldo e os choros da noite" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-os-choros-da-noite-62/">-Baldo e os choros da noite</a><br />
<a title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a title="FF #28 - Baldo e o Halls preto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a title="FF #14 - Moleque bom" href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/">-Moleque bom</a></em></p>
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		<title>Das minhas férias em termas tibetanas</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jul 2016 19:13:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Contraqwert me aconselhou a trazer uma sunga. Agora eu entendo. As águas termais deste resort tibetano são mesmo incríveis. Uma massagem no espírito, dizem as propagandas.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Contraqwert me aconselhou a trazer uma sunga. Agora eu entendo. As águas termais deste resort tibetano são mesmo incríveis. Uma massagem no espírito, dizem as propagandas.</p>
<p>Subo enrolado numa toalha e vejo Contraqwert mexendo no computador, dois copos com sombrinhas penduradas nas bordas, ao seu lado, vazios.</p>
<p>Enchendo a cara antes do trabalho?, digo. Pedi sem álcool, diz ele.</p>
<p>Visto meu look de férias. Ligo na recepção e peço um travesseiro extra. Três minutos pra batida na porta.</p>
<p>Boa tarde, senhor. Aqui o seu travesseiro.</p>
<p>Ah, sim, obrigado, digo. Entre, por gentileza, vou pegar uma gorjeta na carteira. Aliás, pode dar uma olhada no chuveiro? Ouvi um barulho estranho mais cedo.</p>
<p>O garoto entra no boxe. Contraqwert vem da sacada, entra atrás dele, enfia a agulha na lateral do pescoço, certeira na jugular. Se há algo que sempre elogiei em meu parceiro é sua mira perfeita.</p>
<p>Deitamos o garoto na cama e pegamos a oculária. Contraqwert acopla o tubo removedor sobre o olho esquerdo e liga. O globo desencaixa da órbita, paira no centro do tubo. Ele prega a ponta do eletrodo no nervo ocular com uma pinça cirúrgica. Ligamos a tela. A oculária reproduz imagens capturadas que permanecem por até 24 horas, coletadas dos dados enviados ao córtex visual. Retrocedemos as imagens até o muquifo do garoto, o prato que comeu no almoço, a sala de aula de uma faculdade, o teto do seu quarto e, finalmente, os corredores do resort na noite anterior. São vários clientes. Logo o identificamos. Ontem ela era um senhor negro, entre cinquenta e sessenta anos, de cabelos ralos e óculos quadrados.</p>
<p>É uma troca rápida. O garoto entrega a ele uma cartela de pilhas AA. O senhor entrega o dinheiro. Suas mãos não se tocam. São três notas de 1 dólar americano. Pego a carteira do bolso da sua calça. As notas não estão ali. Volto a cena, reparando no que o rapaz conseguiu ver do quarto pela porta entreaberta. A cama está perfeitamente arrumada, o quadro na parede intocado, a sacada fechada. O lugar já foi verificado à exaustão. Não temos nada.</p>
<p>Procuro nos outros bolsos do garoto. Contraqwert desprega o eletrodo e devolve o olho à órbita. Acho notas amassadas dentro do bolso do paletó. Duas notas de cinco dólares e três de um dólar. Ensaco as notas pequenas, puxo o lacre à vácuo. Talvez consigam a digital do homem que ela foi ontem. Talvez rastreiem-no até sua origem. Talvez achem outra coisa. De grão em grão.</p>
<p>Contraqwert borrifa o fungo restaurador no olho do garoto. Anestésico e calmante. Tirando a coceira por alguns dias, ele ficará bem.</p>
<p>Recolhemos nossas coisas do quarto, fechamos a conta na recepção e entramos no carro. Seguimos pro aeroporto ao som de Deep Purple.</p>
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		<title>Dos meus dias de sushiman</title>
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		<pubDate>Wed, 11 May 2016 08:00:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Contraqwert tá certo. A umidade dessa cidade é uma bosta. Já é a quinta camiseta que uso hoje.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Contraqwert tá certo. A umidade dessa cidade é uma bosta. Já é a quinta camiseta que uso hoje.</p>
<p>Fatio o peixe em tiras iguais. Assento na ponta da faca e jogo na chapa, cada cliente de frente pra uma. Eles temperam como preferem. Uns com cominho. Outros com pimenta do reino. Sal rosa. Ervas finas. Alho e cebola. Canela. Azeite. Quinze segundos e viro com o garfo. Começo a fatiar outro filé.</p>
<p>Os clientes fisgam seus pedaços com os hashis e deixam a textura macia ricochetear pelos dentes. A senhora mais à esquerda levanta. 14 pedaços. Uma cliente satisfeita. Em seu lugar senta Jonosburgo. Ele prepara os hashis nos dedos.</p>
<p>Outra rodada, tiras temperadas, mandam pra dentro. Jonosburgo sorri, a fama do lugar não era enganação. Prometo e cumpro, meu camarada.</p>
<p>Pego um novo filé. Fatio na linha que imagino ser até onde a infiltra pode ter corrido a essa hora. Primeira tira. As demais. Pra chapa. Chapinhar sislizante, fumaça embaçando tudo. Espeto na ponta, viro. Jonosburgo tempera com azeite, embebe, escorre na chapa, sisliza, manda pra dentro. Mais duas fatias. Uma meio emburrado, pesado. A outra nem chega à boca. Jonosburgo cai de lado. Um garçom o ampara nos braços. Os clientes continuam mastigando. Um jovem ocupa o seu lugar. Todos se entreolham. Ninguém mais cai. Outra fatia, o almoço segue. Antes que engulam, junto as duas mãos, agradeço com uma mesura e peço licença. Minha suplente assume.</p>
<p>Desvio das mesas e dos garçons, entro na cozinha, sigo até os fundos, chego a tempo de ver Contraqwert amarrando os braços de Jonosburgo na cadeira. Pra que isso, digo, tirando o uniforme e a camiseta empapada. Caso ele acorde, ele diz. Não vai acordar, Contra, eu dosei certo dessa vez. Seguramos a cabeça pra trás. Abro a boca. Puxo o cantor do bolso e coloco entre os dentes. Vai, digo, apertando o cantor.</p>
<p>A infiltra demora uns bons segundos. Ela surge serpenteando pela língua do homem, um tubinho gelatinoso piscando uma luz amarela. Abro o cantor pra ela se esquentar ali dentro. Os dados começam a descarregar nos óculos. Passo adiante o que não serve, o café, o sanduíche e as frutas, o vinho em demasia, os amendoins. Ali. A saliva no beijo. O DNA. Envio o pacote pro laboratório. É um começo. Um ponto de partida pra reconstruir a forma que ela assumiu ontem à noite. Hoje já não será mais a mesma, com o mesmo corpo, o mesmo cheiro, a mesma voz. Mas pra quem não tinha nada, um ponto de partida é uma vitória.</p>
<p>Levamos Jonosburgo pro banheiro dos clientes. Temos a clareza de espírito de esperar o homem que está lá dentro sair. Abaixamos sua calça, o sentamos na privada e encostamos a cabeça na parede. Ele vai acordar perto do horário de encerramento, sem saber como chegou ali, tonto e com fome. Pelo menos acordará num restaurante.</p>
<p>Pego minhas coisas no armário e Contraqwert me espera no carro. Ele me parabeniza pela missão. Eu o agradeço pela assistência. Deixamos a cidade ao som de Queen.</p>
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		<title>Alcoólicos Anônimos</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2015 19:07:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>“Então, gente. Eu tô vindo aqui há dias, mas só agora me senti na liberdade de falar. Quero agradecer a todos pelas palavras. As histórias de superação de vocês têm me ajudado a superar a minha, podem ter certeza disso.” Encaro os quarenta e poucos pares de olhos que me fulminam no palanque.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>“Então, gente. Eu tô vindo aqui há dias, mas só agora me senti na liberdade de falar. Quero agradecer a todos pelas palavras. As histórias de superação de vocês têm me ajudado a superar a minha, podem ter certeza disso.” Encaro os quarenta e poucos pares de olhos que me fulminam no palanque.</p>
<p>“Não consigo lembrar exatamente quando comecei a beber. Na adolescência era uma coisa social, entre amigos, nas quais vez ou outra passei da conta, vomitei, enfrentei ressacas medonhas. Mas lembro de ser mais contida que outras amigas, que entraram em coma alcoólico, tiveram episódios de amnésia. Uma delas até capotou o carro. Por sorte nada sério. Mas foi suficiente pra eu parar por um tempo. Só voltei a beber no fim da faculdade.</p>
<p>“Foi o stress, talvez. De terminar a monografia, da rotina tediosa do estágio no laboratório, da pressão de conseguir um bom emprego sem currículo, de me culpar por não dar brechas pros meninos a fim de estudar mais e mais. Eu ainda era virgem no último ano, então vocês podem entender minha apreensão.” Alguns sorrisinhos previsíveis.</p>
<p>“Uma amiga tinha acabado de comprar um apê e resolveu fazer um chá de casa nova que virou uma festa que virou uma grande putaria, com gente de fora chegando a noite toda. No dia seguinte, acordei no sofá pelada, inchada e suja. A casa tava aberta, muitos móveis quebrados e os presentes que levamos todos roubados. Demorei alguns meses pra descobrir, achando que as dores de cabeça e cólicas eram resultado do stress. Não eram. Eu tava grávida.</p>
<p>“Resolvi não contar pros meus pais. O que eles pensariam? Inventei uma desculpa pra não ver eles do momento que a barriga ficou visível até depois do parto. Aborto foi sempre uma opção, claro, mas uma que nunca aceitei. Eventualmente conversei com as meninas daquela noite, as que eu conhecia. Nem mesmo a dona do apartamento sabia quem eram metade das pessoas lá, e ela também apagou a certa altura da festa. Uma legião de estranhos, e qualquer um podia ser o pai. Depois que a Gabriela nasceu, pedi o teste de paternidade pros poucos conhecidos da lista que fizemos, e todos primeiro esbravejaram perguntando como eu achava que seriam capazes de fazer algo abominável como o que eu insinuava, mas acabaram concordando quando citei testemunhas da presença deles e o envolvimento da polícia. Nenhum resultado bateu.” Três pares de olhos, prum lado e pro outro. Mulheres, mais sensíveis ao assunto.</p>
<p>“Passei muito tempo pensando como poderia descobrir quem fez isso. Não havia câmeras, os vizinhos não falaram nada que desse pra aproveitar, o porteiro daquela noite não quis se envolver. Os que ficaram até tarde disseram que rolou muita coisa mas o que viram foi, ou pareceu ser, consensual. Não havia outro caminho a seguir. Que é mais ou menos o momento em que nos rendemos a coisas absurdas, certo?” Um pigarro trava na minha garganta. Tomo um gole de água. Quarenta e poucos pares de olhos hipnotizados.</p>
<p>“Talvez muitos de vocês não acreditem num raro talento chamado psicometria. Eu mesma não acreditava. Mas é possível que pessoas com dons aflorados ou treinados enxerguem nas vibrações de um objeto o seu histórico de interações. Policiais já se utilizaram dos dons desses ditos paranormais para auxiliar em investigações sem muitas pistas, com sucesso em algumas delas. Consegui, depois de muita pesquisa, encontrar uma psicômetra na Paraíba. Viajei até sua cidade e levei as roupas que usei naquela noite, ainda guardadas. Não necessariamente a pessoa que me despiu foi a pessoa que abusou de mim, mas imaginei que fosse um bom ponto de partida. Ela identificou o homem, que deixou sua assinatura energética registrada na calça, na blusa, na calcinha, no sutiã.” Quarenta e poucos pares de olhos tremelicando.</p>
<p>“É claro que ela não pôde me dizer seu RG e CPF, mas o descreveu. Uma característica marcante se sobressaía, a descendência oriental, ainda que bastante miscigenada, e seria mais fácil afunilar minha investigação dessa forma. Como o apartamento era próximo do campus e como a esmagadora maioria dos presentes possuía mais ou menos a nossa idade, a probabilidade de ser um aluno era alta. As buscas nos arquivos da faculdade foram complicadas, e uma justificativa convincente foi necessária pra convencer a administração da necessidade do meu acesso. É claro que não citei a psicômetra, ou poderiam supor que eu partia de uma investigação fantasiosa, o que não era o caso.” A expectativa nesses olhos é tamanha que se eu der um grito ou fizer um movimento brusco creio que metade das pessoas cai da cadeira.</p>
<p>“Depois de rastrear as centenas de descendentes orientais que foram alunos ativos na época, comecei a investigar cada um deles. A grande maioria não batia com a altura e o peso aproximados, o que reduziu a lista a menos de vinte suspeitos. É claro que recorri novamente à bebida nos anos em que descobri seus paradeiros e passados, e não raras foram as vezes em que me intoxiquei até o esquecimento e acordei ao lado de desconhecidos. Mas a essa altura eu já tinha ligado as trompas e sabia que bebia pra esquecer o fato de que meus pais criavam Gabriela e não me permitiam chegar perto dela. Como precisava deles pra me dedicar à minha obsessão, aceitei a condição até que pudesse chegar ao fim da história. O que está bem perto de acontecer.”</p>
<p>Quarenta e poucos pares de olhos cravados em mim. Apenas um, mais puxado, me encarando com legítimo pavor.</p>
<p>“Obrigada pelo apoio de vocês.”</p>
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		<title>Cena do crime</title>
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		<pubDate>Thu, 07 May 2015 21:18:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O detetive Cademartori encontra o corpo de Cornélio Funke boiando no rio, asfixiado com uma linha resistente ou arame, morto há três dias. É identificado pela carteira de habilitação no bolso. Era casado com Amanda Bluth e há um apartamento registrado em seu nome. O detetive Cademartori visita o local e interroga o síndico, descobrindo que ambos eram conhecidos pelo isolamento, sem reclamações dos vizinhos. Ninguém lembra de tê-los visto nos últimos dias. A porta está trancada e é arrombada. Ninguém no local.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O detetive Cademartori encontra o corpo de Cornélio Funke boiando no rio, asfixiado com uma linha resistente ou arame, morto há três dias. É identificado pela carteira de habilitação no bolso. Era casado com Amanda Bluth e há um apartamento registrado em seu nome. O detetive Cademartori visita o local e interroga o síndico, descobrindo que ambos eram conhecidos pelo isolamento, sem reclamações dos vizinhos. Ninguém lembra de tê-los visto nos últimos dias. A porta está trancada e é arrombada. Ninguém no local.</p>
<p>No centro da sala há uma mesa com dois cinzeiros cheios, uma revista amassada, uma unha fincada na madeira, duas gotas de sangue, um punhado de macarrão com molho de tomate, um garfo de três dentes, um cabelo encaracolado.</p>
<p>1. A mesa possui um tampo redondo de um metro de diâmetro encaixado numa estaca de madeira de um metro e dez de altura que termina em quatro pés curvados, parafusados no chão. Possui marcas de queimadura na superfície, escoriações nas laterais, resíduos de bebidas diversas sobre o tampo, mais de quarenta chicletes grudados na face inferior. Há uma reentrância no centro causada pela queda de um prato ou travessa pesado, na diagonal.</p>
<p>2. Nos cinzeiros há mais de 200 bitucas, a maioria fumada até o limite do filtro. Em algumas há resíduos de batom. Existe uma marca consistente em pouco mais da metade, uma mordida na ponta do filtro. Todos os cigarros que não foram fumados até o fim possuem batom.</p>
<p>3. A revista é de moda, com mais de 150 páginas, em sua maior parte fotos de corpo inteiro de modelos. Ela está torcida em formato de U, a capa mais arqueada que o miolo. As páginas que contêm a dieta de uma atriz famosa foram arrancadas. Há o resto esmagado de um mosquito na contracapa, na parte superior.</p>
<p>4. A unha lascada está pintada de vermelho, quebrada no meio, na diagonal. Está encaixada na reentrância da mesa, o rasgo apontando pro teto. O amarelamento na face interna é característico do uso frequente de nicotina.</p>
<p>5. As duas gotas de sangue estão próximas uma da outra, formando com a unha uma linha cuja próxima gota deveria estar onde a mesa acaba. A primeira gota é ligeiramente menor que a segunda, mas ambas possuem uma circunferência ovalada, sugerindo que caíram de um ponto em movimento que se afastava da mesa.</p>
<p>6. O macarrão é de parafuso, voltas espiraladas em torno do eixo. O molho de tomate é industrializado. Marcas de molho arrastadas por alguns centímetros até o punhado de macarrão, e poucas gotículas circundando-o, indicam que foi derrubado ou jogado sobre a mesa.</p>
<p>7. Não há vestígio de comida no garfo. Há duas impressões digitais bem claras na empunhadura, uma maior e outra menor.</p>
<p>8. O cabelo tem 28 centímetros, foi arrancado na raiz e descreve um longo S na mesa, uma das pontas presa sob um dos cinzeiros. Há tintura vermelha no folículo capilar e traços de hidratante. </p>
<p>9. Exames revelam: a saliva dos cigarros não mordidos corresponde à encontrada nos 40 chicletes e corresponde ao DNA do cabelo, do sangue e da unha. Os demais cigarros foram fumados por uma segunda pessoa. Vestígios colhidos pela casa confirmam ambos fumantes como o casal. Exames de impressão digital revelam o mesmo nas marcas do garfo e na revista.</p>
<p>Quatro dias depois do crime: o detetive Cademartori localiza Amanda Bluth e sua amante Isis Tomine num hotel na saída da cidade. O ferimento fechado com 12 pontos na testa de Isis Tomine é resultado de pancada com um prato de cerâmica, segundo as próprias palavras. Amanda Bluth, cuja unha do indicador está rasgada na ponta, tem o cabelo cortado preto e curto, mas fotos recentes atestam que era ruiva. O batom vermelho dos cigarros é compatível com o que carrega na bolsa. Também na bolsa, enroladas nas páginas rasgadas da revista de moda, o detetive Cademartori encontra duas alianças de ouro. Nenhuma das duas mulheres é presa.</p>
<p>Uma semana depois do crime: o detetive Stochard encontra o corpo do detetive Cademartori e o corpo de Amanda Bluth boiando no rio. Ambos asfixiados e ambos com alianças de ouro nos dedos anelares inchados. O detetive Stochard retorna à cena do crime mas suas investigações são insuficientes para conectar Cademartori com o casal morto. O assassino dos três continua foragido.</p>
<p>Um mês depois do crime: o caso é oficialmente abandonado até o surgimento de novas evidências.</p>
<p>Um ano depois do crime: o detetive Robalo investiga o assassinato de um pacato casal cujos corpos são encontrados boiando no rio, asfixiados. As investigações não revelam nada substancial. Fazendo a óbvia ligação com o antigo caso Funke-Bluth, Robalo percorre as fotos e as evidências armazenadas numa caixa nos arquivos da polícia. Nota uma mínima mancha escura sob o corpo do mosquito na contracapa da revista de moda. Envia o material para a coleta de DNA. O resultado revela sangue humano e feminino não compatível com o de Amanda Bluth. Pressionado pela mídia, o comissário aloca Stochard para trabalhar em conjunto com Robalo e decifrar os casos. Robalo, detetive em ascensão, laureado como prodígio após a prisão de três assassinos foragidos e um carismático homem do povo, já apontado como provável sucessor do comissário, inicia uma caçada brutal com o manhoso Stochard a tiracolo. O apelo é tamanho que o maior jornal da cidade aloca sua mais notável repórter policial, que cobriu ostensivamente o caso Funke-Bluth, para acompanhá-los e produzir uma série de matérias.</p>
<p>A primeira coisa que Isis Tomine faz ao encontrar Robalo na delegacia é confessar que é sua maior fã.</p>
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		<title>Baldo e a ponte</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/</link>
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		<pubDate>Thu, 30 Apr 2015 20:05:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Baldo chegou na cidade amaldiçoando cada buraco e desnível da estrada de chão. A bunda dormente reclamava, assim como as costas e os joelhos. Tá cansado, dotô?, disse Péricles, o assistente e sobrinho do prefeito, num sorriso carniceiro que deixava o dente quebrado à mostra. Baldo não respondeu, como não respondeu a muitas perguntas de Péricles pelo caminho.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Baldo chegou na cidade amaldiçoando cada buraco e desnível da estrada de chão. A bunda dormente reclamava, assim como as costas e os joelhos. Tá cansado, dotô?, disse Péricles, o assistente e sobrinho do prefeito, num sorriso carniceiro que deixava o dente quebrado à mostra. Baldo não respondeu, como não respondeu a muitas perguntas de Péricles pelo caminho.</p>
<p>Saltou da caminhonete na frente da prefeitura, um casarão largo e imponente, erigido no centro da cidade como um pináculo guardando a tudo e a todos, as casas pequenas e empoeiradas, as donas de casa tristonhas mastigando o amor doído dos maridos que se demoravam no puteiro lamentando a miséria e o calor, as crianças lambuzadas de mingau correndo pelas ruelas com joelhos ralados, os cachorros sarnentos bebendo na beira do Rio Itupeba, que atravessava a cidade. Bateu o pó da calça e bateu palma, ao que respondeu uma voz maltratada. Uma senhora negra e carcomida apareceu, o pegou pelo braço e caminhou pra dentro do corredor central. O dotô é o detetive que seu Josué mandou chamar, num é? Veio lá de Cuiabá, é? Vim sim, dona. E lá, comé que tá? Quente, Baldo respondeu, enfiando um cigarro no canto da boca. Pode fumar, dotô. Eu gosto do cheiro. Seu Josué fuma só cachimbo, é fedido, esse num é.</p>
<p>Ela bateu duas vezes e empurrou com o ombro. Seu Josué era um branquelão sentado na cadeira de couro, chapéu de vaqueiro e óculos de lentes enormes e amareladas. O índio! Finalmente! Ele saltou da cadeira, apertou a mão do detetive e saiu pros fundos do casarão. Dona Rosa, passa um café pra gente que daqui a pouco tamos de volta. Entraram na caminhonetona e o prefeito girou a chave e o monstrengo roncou e rugiu. Então, seu Baldo, o problema, como eu disse no telefone, é a ponte. Ontem mesmo convenci um pedreiro a fincar a primeira coluna de sustentação. Ele entrou na água pra marcar o lugar e saiu mordendo a língua e falando coisa com coisa. Amarraram o coitado, ficou louco. Baldo balançou a cabeça, olhando pelo buraco da janela.</p>
<p>Logo chegaram ao rio, trinta metros de uma margem a outra, correnteza calma. Mais adiante um balseiro carregava um grupo de pessoas para o lado de lá. As outras duas balsas estavam estacionadas, os balseiros cochilando embaixo de uma árvore.</p>
<p>Baldo desceu, tirou as botas, as meias, a calça e entrou na água. Catou um punhado de areia, cutucou com o dedo. Saiu. É, seu Josué, não é nada no rio. Uai, seu Baldo, não é possível. Baldo vestiu a roupa e foi na direção dos balseiros. Acordaram com o barulho de mato moído. Dia, disse Baldo. Dia, a resposta. Tô aqui com o prefeito tentando entender o que tem de errado com o rio. Tem nada errado não, disse um deles. O rio é arredio, só isso, disse o outro. Arredio, Baldo resmungou, olhando pro terceiro balseiro, que agora voltava com a balsa vazia. Vocês trabalham com isso há quanto tempo? Ah, alguns anos, né, Tonho? É, alguns anos. E ele?, Baldo apontou o terceiro. O Valmir tá aqui faz tempo, respondeu o próprio prefeito. Quanto tempo? Vish, faz tempo.</p>
<p>Valmir chegou devagar, flutuando sobre o rio, se impulsionando com o galho no leito úmido. Era velho, muito velho, extraordinariamente velho. Os cabelos brancos caíam perto da cintura, os nós dos dedos eram do tamanho de batatas, os pés rachados e quebradiços. Baldo tirou do bolso da calça um saquinho de veludo e jogou o conteúdo ao redor de si. O que é esse pó branco?, disse o prefeito. Sal grosso. Valmir pulou na margem. Baldo o encarou nos olhos e cuspiu.</p>
<p>Você veio pra me tirar daqui, não veio? A voz cavernosa desequilibrou o detetive. Eu vim, Valmir. Chega. Quantos dias já conseguiu dessa gente? Não o suficiente, disse o velho. Bom, é uma pena. Baldo agarrou a corrente com os totens de madeira e recitou algo numa língua esquecida. O velho gemeu, caiu de joelhos. Por favor, nunca fiz mal a ninguém. Estou aqui há mais tempo que eles. Por favor. Baldo continuou. O velho rolou pra dentro do rio, guinchando até a água tapar a boca. Baldo largou a corrente e abriu os olhos. O que aconteceu?, disse um dos balseiros, pulando pro rio atrás do parceiro. Não havia nada lá. O outro estava paralisado. Pronto, seu Josué, Baldo disse para o prefeito boquiaberto. Agora pode construir sua ponte. E os habitantes de Costado envelhecerão do jeito correto.</p>
<p>De volta ao casarão, recebido o dinheiro, dona Rosa acompanhou Baldo até a caminhonete para a viagem infernal de volta. Ocê não tomou o café por mó di quê, dotô? A senhora sabe muito bem, dona Rosa. O detetive espremeu o beiço, aguçou os olhos. É nosso segredinho, né, dotô? Dona Rosa, fui contratado pra cuidar do rio. Não do café. Pode ficar tranquila. Então boa viagem, dotô.</p>
<p>Péricles riu, abrindo a porta da caminhonete. Baldo fechou a cara.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/" title="Baldo e o asilo">-Baldo e o asilo</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-comida-podre/" title="FF #234 - Baldo e a comida podre">-Baldo e a comida podre</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-morto-205/" title="FF #205 - Baldo e o morto">-Baldo e o morto</a><br />
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<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-chapeu-116/" title="FF #116 - Baldo e o chapéu">-Baldo e o chapéu</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-alcapao-105/" title="FF #105 - Baldo e o alçapão">-Baldo e o alçapão</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-os-choros-da-noite-62/" title="FF #62 - Baldo e os choros da noite">-Baldo e os choros da noite</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/" title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/" title="FF #28 - Baldo e o Halls preto">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/" title="FF #14 - Moleque bom">-Moleque bom</a></em></p>
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		<title>Baldo e o asilo</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Feb 2015 19:27:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quer dizer que o problema sou eu? Olha, seu Honório, creio que sim. O senhor tá com quantos anos mesmo? 143, filho. Baldo balançou a cabeça. O asilo ficava em Pomerode, cidade de Santa Catarina com forte influência da imigração alemã. O problema era que os velhos, além do alemão, agora falavam também árabe, romeno, grego, latim, hebraico. E esqueceram a velhice e as doenças, bebendo, fumando e se rendendo a grandes orgias no refeitório, no salão, no jardim. Nos arredores assassinatos, assaltos, suicídios e acidentes de trânsito se tornaram rotina. Passarinhos caíam mortos nas ruas, cachorros e gatos se atracavam em batalhas homéricas. A polícia vinha, indagava, esquecia e se envolvia na loucura toda. Seu Honório era o único inalterado, no epicentro do furacão. Com 143 anos. Só podia ser ele.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Quer dizer que o problema sou eu? Olha, seu Honório, creio que sim. O senhor tá com quantos anos mesmo? 143, filho. Baldo balançou a cabeça. O asilo ficava em Pomerode, cidade de Santa Catarina com forte influência da imigração alemã. O problema era que os velhos, além do alemão, agora falavam também árabe, romeno, grego, latim, hebraico. E esqueceram a velhice e as doenças, bebendo, fumando e se rendendo a grandes orgias no refeitório, no salão, no jardim. Nos arredores assassinatos, assaltos, suicídios e acidentes de trânsito se tornaram rotina. Passarinhos caíam mortos nas ruas, cachorros e gatos se atracavam em batalhas homéricas. A polícia vinha, indagava, esquecia e se envolvia na loucura toda. Seu Honório era o único inalterado, no epicentro do furacão. Com 143 anos. Só podia ser ele.</p>
<p>Me explica, seu Honório, viver tanto assim não é normal. É coisa do índio. Que índio? Quando eu tava com uns 70 anos morava em Corumbá, na divisa com a Bolívia. Era tudo Mato Grosso ainda, não tinham dividido o estado. Encontrei um índio na beira da estrada todo ferrado, três facadas na barriga. Coloquei no carro e levei pro hospital. Salvaram. Ele veio me visitar depois, disse que colou um guerreiro valente em mim, que eu ia viver muito ainda. E vivo até hoje. Só pode ser isso, né? Pode ser, seu Honório. Fecha os olhos pra mim, por favor. Baldo passou a mão sobre a cabeça do velho. Sentiu um choque nos dedos, foi empurrado, ouviu um grito numa língua desconhecida. É, seu Honório. É o índio.</p>
<p>Baldo olhou pela janela do quarto. No gramado do asilo, três velhas peladas dançavam ao redor de um leitão assando em uma fogueira. Uma quarta se balançava num galho. Seu Honório era atração turística. O ciclo vital já estourara toda e qualquer previsão e rebentaria a qualquer momento. Espíritos levianos de todos os cantos se concentraram ali, apostando no momento em que a proteção do índio falharia. A reunião inesperada transbordou e contagiou o outro lado. O caos estava restrito ao local e proximidades, mas só acabaria quando seu Honório se fosse.</p>
<p>Olha, seu Honório, o índio é forte mesmo. Isso tudo só tá acontecendo porque o senhor demorou demais. Quebrou as regras. Agora começou a atrair coisa ruim. O único jeito é se entregar, infelizmente. Morrer, você diz? Isso. É tudo o que eu mais quero, filho. Eu tento, inclusive. Mas não consigo. Que graça tem viver desse jeito? Até pra respirar dói tudo. Não aguento mais. Conversa com esse índio, vê se ele me deixa. Baldo ficou surpreso. Se seu Honório queria morrer, não havia motivo para o espírito do índio impedir. Era raza brava mesmo. Puxou da mochila um pacote de sal grosso, pediu para o velho colocar folhas de sálvia sob a língua e segurar um pedaço de granito branco. Vou tentar quebrar o contato dele com o senhor por alguns segundos. Vai, filho, faz de uma vez. Baldo jogou o sal, vocalizou o mantra e sentiu o peso do índio se afastar. O velho arregalou os olhos, levou a mão ao peito, caiu morto. O coração só aguentava com ajuda.</p>
<p>Baldo saiu rápido da área afetada, receoso de ser afetado também. Desviou das pessoas confusas pelo caminho. Logo voltariam ao normal, o interesse ali esgotado. Sentiu uma presença forte segui-lo. Muito além de Pomerode ela ainda o acompanhava. Ganhara um inimigo. Mais um.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
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		<title>Baldo e a comida podre</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Nov 2014 20:57:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>É verdade, tá podre. Dá aqui, deixa eu ver. Baldo pegou a bandeja de carne moída crua, tocou, cheirou, lambeu. Era fresca, recente, nada daquele lixo que provou da panela. O que era estranho. Ele viu Martha cozinhar e servir na travessa, bonita e cheirosa. E então preta, fedida e podre.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>É verdade, tá podre. Dá aqui, deixa eu ver. Baldo pegou a bandeja de carne moída crua, tocou, cheirou, lambeu. Era fresca, recente, nada daquele lixo que provou da panela. O que era estranho. Ele viu Martha cozinhar e servir na travessa, bonita e cheirosa. E então preta, fedida e podre.</p>
<p>João levantou da cadeira. Sabe dizer o que é, seu Baldo? Ainda não, seu João, mas com certeza o problema não é a Martha, ela é uma excelente cozinheira. Brigada. Agora, se me dão licença, quero conhecer o resto da casa. É melhor eu fazer isso sozinho. E em silêncio.</p>
<p>Deixou o cheiro enjoativo da cozinha para trás. Foi até o quarto do casal. Nada. Nada no banheiro nem na despensa, na sala ou na varanda. Saiu pra rua. Observou a residência à distância. Era uma modesta construção socada entre duas casas sem reboco. Portão enferrujado. Pintura manchada. Piso de cimento quebrado. Pensou em João e Martha, no desespero da fome. Toda comida ali apodrecia antes que colocassem na boca. Por enquanto se viravam nos vizinhos, mesas tão magras quanto as suas. E mesmo cientes do preço o chamaram. Entrou e dessa vez notou rastros apagados na face interna do muro. Como se uma criança esfregasse a mão suja de terra.</p>
<p>Ladeou a casa. O fundo era dominado pelas roupas no varal, quatro fios pregados nas paredes. Também um tanque e um barril com sacos de lixo até a boca. Puxou o barril e viu esquecida no canto uma vasilha com velhas marcas de água dentro. Voltou para a cozinha.</p>
<p>Pedi pra me falarem se morava outra pessoa ou animal na casa. Vocês disseram que não. Mas tinha um cachorro aqui, certo? Ô, seu Baldo, não mentimos não. Era o Rex, mas já morreu tem mais de ano, por isso nem falamos. Sem problema. Me contem do Rex. Era um vira-lata que achamos, carinhoso. Enquanto tava aqui cuidava da casa. Depois que se foi já assaltaram duas vezes. Como é que ele morreu? Morreu doente. Bem magro. A gente tratava ele na medida do possível. Dava comida, água, tirava carrapato. Davam comida? Bastante comida? Bastante não, nunca teve muita. Fomos uma vez ficar com minha sogra no hospital. Voltamos depois de cinco dias. Na pressa esquecemos de deixar comida. Água ele tomou da chuva. Emagreceu, ficou fraco. Não se recuperou mais. Morreu pouco depois. Dinheiro não tinha pra levar no veterinário, deu que acabou.</p>
<p>Tá bom. Já volto. Baldo saiu e retornou com um pacote de ração e duas vasilhas. Encheu uma de comida e outra de água, colocou no canto da cozinha. Pronto, dona Martha. Agora faz a carne de novo. Fez, do mesmo jeito, serviu na travessa. Comeram. Boa. Que aconteceu, seu Baldo? Não tô acreditando. O Rex tava com fome. Essas coisas acontecem. Troquem a comida e a água todo dia, joguem a velha fora. Vocês não vão ver nem sentir nada, mas não faz diferença. Esse pacote aqui é suficiente, vai durar algumas semanas. Mas não pode ser, seu Baldo. Tá me dizendo que é o fantasma do Rex? Ele morreu tem mais de ano! Dona Martha, o tempo do lado de lá passa diferente do de cá. Não tem hora certa pra essas coisas. É isso. Olha, seu Baldo, quanto é mesmo? Não é nada. Pode ficar tranquilo. Foi cortesia. Pelo Rex.</p>
<p>Baldo saiu de lá faminto. O espírito do cachorro era forte.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
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		<title>Baldo e o Morto [#205]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-morto-205/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Aug 2014 18:41:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://flashfiction.com.br/?p=1055</guid>
		<description><![CDATA[<p>Ei, você aí. Você mesmo. Vamos voltar, não tem nada pra fazer na cidade. O morto parou, apontou o próprio peito. O homem fumava um cigarro, sentado na ponta de uma lápide, vestido com um sobretudo que na escuridão o fazia parecer uma pedra, não fosse a fumaça. Ele só balançou a cabeça. Você mesmo, só tem a gente no cemitério. Faz favor aqui.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ei, você aí. Você mesmo. Vamos voltar, não tem nada pra fazer na cidade. O morto parou, apontou o próprio peito. O homem fumava um cigarro, sentado na ponta de uma lápide, vestido com um sobretudo que na escuridão o fazia parecer uma pedra, não fosse a fumaça. Ele só balançou a cabeça. Você mesmo, só tem a gente no cemitério. Faz favor aqui.</p>
<p>O morto foi na sua direção, as peles penduradas que os insetos ainda não haviam comido, costelas aparecendo, boca rasgada até o pescoço mostrando a carne preta e podre do interior. Trouxe consigo um cheiro azedo, que o homem disfarçou colocando o cigarro embaixo do nariz. Tá falando comigo? Sim, com você mesmo. Não tá com medo? Nada. A única coisa abominável em você é o cheiro. Mas a maioria das pessoas foge. É claro, já se olhou no espelho? Senta aqui, quero bater um papo. Não dá, tô com as pernas meio desencaixadas da bacia, se sentar soltam de vez. Tá bom, fica de pé, então.</p>
<p>Puxou outro cigarro do bolso do paletó e acendeu na bunda do anterior, macerando a bituca no gramado. Escuta, me chamaram pra trocar ideia contigo, tenho experiência nesses assuntos. Em falar com os mortos? É, nisso também. Conheci muita gente que morreu e não quis ficar morta. A cidade é pequena, todo mundo sabe das tuas andanças, e tem uns apavorados que nem querem mais sair de casa, o que é ruim pros negócios. Eles tão com medo? Pois que fiquem. Calma lá, amigo, quero entender o que tá acontecendo. Talvez possa me usar de intermediário pra conseguir o que precisa e deixar todo mundo em paz. Eu não quero deixar ninguém em paz. É isso que você não tá entendendo.</p>
<p>Olhou a cidade, levantou o braço descarnado, o dedo restante da mão apontando as luzes espalhadas ao pé do morro. Fui pescador ali. Muito tempo. Depois mendigo. Fui judiado. Me bateram, xingaram, tiraram aos chutes da praça. Me jogaram na lama. Mijaram em mim enquanto eu dormia. Nem o padre quis salvar minha alma. Então é por isso que você tá saindo à noite? Pra atazanar a vida de todo mundo? Claro, quero dar o troco. Colocar um pouquinho de terror no coração dessa gente maldosa. Olha, eu até entendo sua revolta, mas fui chamado pra acabar com o problema. Quero saber se a gente pode resolver isso de forma pacífica, civilizada. Civilizada? O que eles fizeram comigo foi civilizado? Foi por isso que eu voltei. Nada mesmo pra te convencer? Nada. Então desculpa.</p>
<p>O homem levantou e chutou a barriga do morto. O tronco se desgrudou de vez das pernas e voou, batendo na lápide. Se ajeitou com os braços na grama e encarou o estranho, indignado. As pernas continuavam em pé, paradas no ar. Pegou uma em cada braço e foi na direção do túmulo aberto. Ei! O morto o seguiu, se balançando com as mãos no chão. Ei! Minhas pernas! Preciso das minhas pernas! Não precisa mais. Jogou-as dentro do caixão. Você não tá entendendo! É meu direito fazer isso! Ganhei essa chance! Lamento, amigo, as pessoas tão incomodadas. O prefeito já pagou uma bolada pra resolver o pepino. Ah! O prefeito! Aquele salafrário! É um almofadinha que engana todo mundo! Pode até ser, mas é bom pagador. Vem cá. Não, me larga! Desculpa. Pisando no peito do morto, puxou um braço de cada vez. Eles se soltaram com facilidade. Por fim puxou a cabeça. Não! Por favor! Não me ente&#8211; A terra silenciou a cabeça falante. O homem terminou de encher o buraco com a pá, depois puxou um frasco do bolso, jogou o líquido nas mãos para tirar o cheiro e acendeu outro cigarro.</p>
<p>Descendo o morro, Baldo, detetive sobrenatural, pensou em parar num boteco para uns tragos. Mas não achou nenhum aberto. Ainda temiam o morto-vivo e fechavam antes da meia-noite. Teve que se contentar com o frigobar da pousada.</p>
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<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/" title="Baldo e a ponte">-Baldo e a ponte</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/" title="FF #252 - Baldo e o asilo">-Baldo e o asilo</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-comida-podre/" title="FF #234 - Baldo e a comida podre">-Baldo e a comida podre</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-garoa-187/" title="FF #187 - Baldo e a garoa">-Baldo e a garoa</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-chapeu-116/" title="FF #116 - Baldo e o chapéu">-Baldo e o chapéu</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-alcapao-105/" title="FF #105 - Baldo e o alçapão">-Baldo e o alçapão</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-os-choros-da-noite-62/" title="FF #62 - Baldo e os choros da noite">-Baldo e os choros da noite</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/" title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/" title="FF #28 - Baldo e o Halls preto">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/" title="FF #14 - Moleque bom">-Moleque bom</a></em></p>
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		<title>Baldo e a garoa [#187]</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jul 2014 02:26:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>
		<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>	Essa garoa fina, o homem falou. Caindo há dois meses, sem folga.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	Essa garoa fina, o homem falou. Caindo há dois meses, sem folga.</p>
<p>	Baldo balançou a cabeça, ergueu a mão em concha, deixou os pingos raquíticos enlagoarem a palma. Sorveu um gole, concentrou no gosto ácido, de onde vinha, para onde ia, o inusitado. Nada. Água. Chuva. Não mais que isso. O pessoal já não guenta mais esse aguaceiro, doutor, a plantação tá afogada, o gado derrapa, as ruas são lama até as canelas, os cascos respingam terra em tudo que é parede. Lembra o dia exato em que a garoa começou a cair, seu Osvaldo? Ah, doutor, se não me engano foi no dia de São Garanhucha, ia ter a fogueira na festa, a chuva não deixou e continuou caindo.</p>
<p>	Baldo entrou na casa do prefeito, sentou na mesa, tomou outro gole do café preto. Quem é São Garanhucha? Desculpa, seu Baldo, é claro que o senhor não sabe quem é São Garanhucha. Acho que ninguém aqui fora de Conceição sabe quem ele é. Foi um padre nosso, de faz tempo, ajudou a fundar a vila que virou cidade, morreu defendendo o povo dum bando de bandido pra lá da fronteira que queria atear fogo em tudo. Hum, resmungou Baldo. Faz quanto tempo que ele morreu? Cem anos, foi por isso que a gente fez a festa pra celebrar. Data importante, o povo gosta de desculpa pruma farra. Se bem que a chuva melou tudo. Então vocês nunca fizeram festa assim pra São Garanhucha antes? Não, doutor, só missa. Festa era pra ser a primeira.</p>
<p>	Seu Osvaldo, o senhor me disse que o homem morreu impedindo que queimassem a cidade. Por que decidiu comemorar a data fazendo uma fogueira? Uai, doutor, toda festa tem fogueira. Seguinte, seu Osvaldo, marca outra festa, comemora como fosse o dia e não inventa de mexer com fogo. Isso vai resolver o problema da chuva? Só tentando pra saber.</p>
<p>	Na noite seguinte, a cidade se reuniu espremida sob as tendas encharcadas na praça. Depois da oração serviram torta fria de frango, cerveja e vinho. Nem fogueira, nem vela, nem forno, nem fogão. Nada de fogo. A chuva parou à meia-noite, com o brinde a São Garanhucha. Baldo recebeu o cheque de seu Osvaldo, entrou no carro e pegou a estrada. Um profissional responsável, deixou para acender o isqueiro apenas quando chegou à cidade vizinha. Tragou o cigarro e soprou a fumaça pela janela fria, o vento rodopiando na orelha e seguindo em trás.</p>
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<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/" title="Baldo e a ponte">-Baldo e a ponte</a><br />
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<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/" title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/" title="FF #28 - Baldo e o Halls preto">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/" title="FF #14 - Moleque bom">-Moleque bom</a></em></p>
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