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	<title>Flash Fiction &#187; Policial</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Baldo e a sola furada</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2019 20:07:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Baldo se abaixou, deitando a mão na terra.</p>
<p>É, tá quente, seu Ferreira. Não te falei? É essa terra amaldiçoada. Sabe, o senhor pode não tá tão longe da verdade. Cadê o seu filho?</p>
<p>O homem foi buscar o filho na casa. O garoto veio, apoiado em duas muletas, um dos pés enfaixado. Baldo observou sua palidez, usando um macacão sem camisa por baixo, todo suado. Me conta o que aconteceu, rapaz. O pai saiu logo atrás. Conta pra ele, filho. Ele entende dessas coisas. O garoto apontou o chão sob os pés do detetive.</p>
<p>Eu tava brincando com meus primos, senhor. Os menores com caminhões de madeira e os maiores de pega-pega. Eu tava correndo com o tênis novo que ganhei no natal, e aí de repente senti uma dor muito forte no pé e caí. Quando fui olhar, a sola tava com um buraco e meu pé também, minando sangue. Parecia que eu tinha pisado num prego. Comecei a gritar e a mãe veio lá de dentro pra acudir. Começaram a procurar o prego pela grama, a criançada toda enxotada pra dentro de casa, com medo de que pisassem também, mas a gente caçou e caçou e não encontrou nem prego, nem farpa de madeira nem nada parecido. No pronto-socorro, o médico disse que não tinha nada no buraco e costurou.</p>
<p>A mãe saiu da casa, secando as mãos num pano de louça. E isso tem três semanas, e o guri só piora. Teve febre e tudo.</p>
<p>Baldo acendeu um cigarro, cravando os dentes na bunda do filtro antes da primeira tragada. Teve febre todos os dias? A mãe franziu o cenho. Todas as noites, na verdade. Ah, sim. O detetive olhou em volta, analisando o chão. Lembra onde foi exatamente que aconteceu, rapaz? Não, senhor. Eu tava correndo, não lembro direito. Não tem problema. Vocês ainda têm o tênis que ele usou no dia? O furado? Tá no quarto dele. Já pego pro senhor.</p>
<p>Baldo sentou na ponta da varanda. Apontou com o rosto a cadeira mais próxima, olhando pro rapazote. Ele se deixou cair ali, apoiando as muletas no colo. O pai só observava, tentando evitar que o rosto se crispasse numa careta, sem sucesso. A mãe reapareceu com o tênis.</p>
<p>Baldo o pegou e virou. O solado tinha um buraco da grossura de uma caneta na altura do calcanhar. Puxou do bolso um saquinho, desamarrou e salpicou um pouco de pó. Nada. Resmungou. Então entregou o tênis ao garoto. Cospe aí, filho. Em cima do pó. Cuspir, o senhor disse? Isso, não precisa ter vergonha não. O guri cuspiu. E logo uma fumacinha cinzenta se ergueu de onde a saliva encostou.</p>
<p>Baldo encarou os pais. Ele não tem falado nada estranho esses dias, quando tem febre? Não, senhor, responderam o pai e a mãe juntos. Então ainda é tempo. Baldo pegou o saquinho, entregou pra mãe. A senhora tem açúcar em casa? Claro. Então bata um pouco de açúcar com água, qualquer semente de fruta e tudo que tiver dentro desse saquinho aqui. E traga pro garoto beber. O que tem aí dentro? Sálvia, sal, alecrim e algumas outras ervas. Tá bom. Semente de maçã, pode ser? Pode, sim.</p>
<p>Enquanto a mãe preparava a bebida, Baldo se aproximou do rapaz. Abriu seus olhos, checou as orelhas, tateou o cabelo suado, e por fim pediu pra ele abrir a boca o máximo que pudesse. Investigou. Ah, sim. O pai se aproximou pra ver o que o detetive via. O senhor descobriu algo? Sim, já vai ver.</p>
<p>A mãe veio com a batida esverdeada. Baldo a entregou ao moleque. Quero que você beba isso de uma vez só, entendeu? Não pode parar no meio. O garoto pegou, cheirou e olhou de perto a bebida antes de virá-la em três grandes goles. Então apagou, o copo rolando dos dedos. Os pais se agitaram. Se acalmem, é assim mesmo. Deitou o garoto no chão, puxou seu queixo, enfiou os dedos em pinça no céu da boca e puxou. Nada. Tentou de novo, com mais força. A mão saiu com um pedaço de algo amarelado na ponta.</p>
<p>Minha nossa senhora, o que é isso? A mãe apertava as mãos contra o peito. O pai chegou a centímetros do negócio. Um dente? Exatamente, seu Ferreira. Como que um dente velho desses foi parar na boca do meu filho? Ele subiu pelo pé, seu Ferreira. Não tem mais problema, tá resolvido. O seu garoto tá bem, ele vai ficar bom. A boca vai sangrar ainda, mas logo para. Me chamaram a tempo. Vou voltar daqui a dois dias pra ver como ele anda. E pra salgar a terra. Vou trancar o pedaço de onde veio esse dente pra evitar outros acidentes. Isso que aconteceu aqui só acontece uma vez, quando acontece. Tudo bem? Não se preocupem. Quando eu voltar, acertamos o serviço.</p>
<p>Baldo deixou a casa com o osso no bolso. Fazia tempo que não via disso. Tivesse o dente florescido inteiro na boca do garoto, não poderia mais fazer nada porque já não seria o garoto. A sorte que às vezes sorria, o adicional inesperado sobre o serviço cumprido. Carregava pra casa um dos ingredientes mais caros e raros em sua profissão: um dente enfeitiçado de bruxa.</p>
<hr />
<p><em>*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:<br />
<a title="FF #270 - Baldo e a ponte" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-ponte/" target="_blank">-Baldo e a ponte</a><br />
<a title="FF #252 - Baldo e o asilo" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-asilo/">-Baldo e o asilo</a><br />
<a title="FF #234 - Baldo e a comida podre" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-comida-podre/">-Baldo e a comida podre</a><br />
<a title="FF #205 - Baldo e o morto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-morto-205/">-Baldo e o morto</a><br />
<a title="FF #187 - Baldo e a garoa" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-garoa-187/">-Baldo e a garoa</a><br />
<a title="FF #116 - Baldo e o chapéu" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-chapeu-116/">-Baldo e o chapéu</a><br />
<a title="FF #105 - Baldo e o alçapão" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-alcapao-105/">-Baldo e o alçapão</a><br />
<a title="FF #62 - Baldo e os choros da noite" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-os-choros-da-noite-62/">-Baldo e os choros da noite</a><br />
<a title="FF #35 - Baldo e a luz do elevador" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-a-luz-do-elevador-35/">-Baldo e a luz do elevador</a><br />
<a title="FF #28 - Baldo e o Halls preto" href="http://flashfiction.com.br/baldo-e-o-halls-preto-28/">-Baldo e o Halls preto</a><br />
<a title="FF #14 - Moleque bom" href="http://flashfiction.com.br/moleque-bom-14/">-Moleque bom</a></em></p>
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		<title>Suzinha tem sono pesado, mas não tanto</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Nov 2018 20:01:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Acordei e vi o copo de leite e as bolachas que mamãe deixou na mesa antes de sair. Ela disse ontem à noite, sentada na beira da cama, que precisava acordar muito muito cedo pra ir no médico. Não tinha com quem deixar a Suzana, minha irmãzinha, então eu ia faltar a escola pra ficar em casa e cuidar dela.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Acordei e vi o copo de leite e as bolachas que mamãe deixou na mesa antes de sair. Ela disse ontem à noite, sentada na beira da cama, que precisava acordar muito muito cedo pra ir no médico. Não tinha com quem deixar a Suzana, minha irmãzinha, então eu ia faltar a escola pra ficar em casa e cuidar dela.</p>
<p>Mamãe já tinha falado desse médico antes. Não pra mim, pra Margarida, a melhor amiga dela. Às vezes as duas sentavam no sofá depois da janta e conversavam sobre esse homem de quem não gostavam, mas achavam bom que ele tivesse lá caso precisassem. Eu ouvia pela fresta da porta, lendo meus livros no quarto. Pelo jeito a tia Margarida já tinha consultado com ele algumas vezes, minha mãe acho que ainda não tinha pegado aquela doença de que elas tinham tanto medo. Era algo que se pegava de tanto trabalhar e que era uma grande injustiça de Deus, mas eu não entendia direito como minha mãe ficou doente se tinha sido dispensada do serviço há tanto tempo. A gente só vivia com o que a vovó mandava enquanto ela procurava outro emprego. Tia Margarida parecia viver do mesmo jeito, a vó dela que ajudava.</p>
<p>Tomei meu café da manhã e fui ver o berço da Suzinha, dormindo, no quarto de mamãe. Ela saiu com tanta pressa que não arrumou a cama. Dobrei o cobertor e estendi o lençol, tomando cuidado pra não fazer barulho.</p>
<p>Li um pouco do Peter Pan sentado no sofá, com a janela aberta e o som dos carros e dos feirantes lá fora. Cansei de ler e peguei meus quatro carrinhos e fui pro corredor do prédio. Peguei o giz amarelo, que quase não aparecia no chão sujo, e fiz as marcas da rua. Comecei a dirigir eles, estacionando nas laterais e andando, fazendo uma corrida ou outra até a porta do Sr. Esteves, um senhor que não gostava da minha mãe nem da gente. Mamãe dizia que ele não gostava de ninguém. Ouvi uma tosse. Mas não do lado de lá da porta, e sim da escadaria do corredor.</p>
<p>Eram dois lances de escada até o andar de baixo, e entre os lances tinha um janelão que dava pra rua de trás do prédio. A rua dos alfaiates. Diante do janelão, um homem de terno cinza e boina na cabeça, olhando lá pra fora. Um pedaço longo de ferro e madeira que nunca vi antes encostado contra o vidro. O homem se virou e me viu no topo da escadaria. Sem falar, fez um gesto pra eu ir embora. Sentei no primeiro degrau. Coloquei os carrinhos entre meus pés.</p>
<p>Moleque, volta lá pra dentro. Cadê tua mãe?</p>
<p>Saiu. Tô sozinho em casa, cuidando da minha irmã.</p>
<p>Certo. Vai lá cuidar dela.</p>
<p>Ela tá dormindo.</p>
<p>Eu tô ocupado aqui, moleque. Trabalhando. Você não pode ficar aqui.</p>
<p>Você trabalha no prédio? Vai trocar essas janelas sujas?</p>
<p>Não hoje. Hoje só tenho que observar umas coisas.</p>
<p>Que trabalho é esse de observar as coisas? Nunca ouvi falar.</p>
<p>Vamos, vai lá pro teu apartamento.</p>
<p>Daqui a pouco, moço. Por enquanto eu preciso dirigir por toda a escadaria. Eu preciso gastar a gasolina dos carros.</p>
<p>Ele resmungou e ficou encarando o mundo lá fora. Fui descendo os degraus um por um, os carrinhos de um lado pro outro, as rodinhas rolando pela madeira torta e deslizando pra baixo. Quando cheguei no tablado, onde o homem tava, ele olhou pra mim de novo e puxou do bolso uma nota.</p>
<p>Quantos anos você tem, moleque?</p>
<p>Sete.</p>
<p>Sabe de quanto é essa nota aqui?</p>
<p>Vinte.</p>
<p>Isso. Já te deram uma nota de vinte antes?</p>
<p>Balancei a cabeça.</p>
<p>Então toma. É sua se você subir e voltar pro apartamento.</p>
<p>Já tô terminando. Só tenho que descer até ali, o andar de baixo.</p>
<p>Ele se tremeu todo, olhando pra fora. Arregalou os olhos. Soltou o ferrolho no meio da janela e empurrou o trinco. O vidro de cima se abriu um pouco. Ele me deu um tapão na cabeça, me puxou pelas costas e jogou contra a escada.</p>
<p>Agora, fedelho. Ou vai se ver comigo.</p>
<p>Senti as lágrimas crescerem nos olhos. Subi, pisando duro, os carrinhos espremidos nas mãos. Olhei pra trás mais uma vez e vi ele em cima do batente da janela, pegando o pedaço de ferro e madeira encostado na parede. Quando cheguei na frente do apartamento, juntei os outros carrinhos do chão e o giz e então parei de chorar porque ouvi um barulhão. Da escadaria. Depois passos. Começaram a abrir as portas do corredor. A perguntar, com cara de susto, o que tinha acontecido. O Sr. Esteves abriu, me olhou com raiva, e seguiu todo o pessoal que começou a descer. Voltei pra ponta da escadaria, com medo de que o homem ainda tivesse por ali. O pessoal se juntava ao redor da janela, olhando lá pra fora, falando, apontando.</p>
<p>Eu desci. Todo mundo tão empolgado que ninguém viu minha nota de 20 no chão, grudada contra a escora do último degrau. Peguei e enfiei no bolso. Tentei enxergar alguma coisa, um festival de pernas. Me empurrei por entre elas e pulei pra me erguer no batente. Mas o marido da dona Ivone, que às vezes tava arrumando o armário da mamãe quando eu chegava da escola, me pegou pelos braços antes de eu conseguir ficar de pé e subiu e me colocou dentro do apartamento. Antes de fechar a porta, me olhou bem sério.</p>
<p>Fica aqui dentro, Bruno. Aconteceu uma coisa feia lá fora, não é coisa pra criança, tá bom?</p>
<p>Eu fiquei. Não pelo que ele falou, mas porque ouvi o choro da Suzinha, e eu prometi pra mamãe que ia cuidar bem dela.</p>
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		<title>Um dia terei uma iguana chamada Mário</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Sep 2018 15:53:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Canuto abriu o pote de analgésicos e mastigou três, lavando o rosto na pia. No espelho, mexeu num dos dentes inferiores, mole, e tentou puxá-lo. Não queria sair, mas não ia ficar ali por muito tempo. Secou o rosto com cuidado, a toalha vermelha da testa aberta. Pegou água oxigenada e borrifou. Gritou vendo borbulhar o talo, secou de novo, borrifou anti-séptico. Jogou tudo na pia marrom de sujeira e se largou no sofá da sala, mamando em uma garrafa de uísque. Olhou o tubo de laser em cima da mesa, a carteira aberta com o distintivo arranhado pra cima.</p>
<p>Canuto precisava voltar pra rua. Que na hora em que deixou o armazém pra trás o relógio começou a correr. Não levava mais de uma hora pra verem aquilo com os próprios olhos, ou, se fosse azarado, pra mandarem um drone na frente. E aí os quatro corpos no chão, a mercadoria desaparecida, o alarme, a mensagem no comunicador da base e a convocação pra guerra, a defesa a postos. Não entraria no apartamento de Mishiko nem com o departamento de polícia inteiro a tiracolo se demorasse, se não levantasse dali e partisse. Mamou de novo.</p>
<p>Acordou com as pancadas na porta. Ziguezagueou entre as embalagens do chinês e abriu pra Pexa, sua parceira de última hora. Ela ralhou e xingou e olhou de perto o corte. Pegou uma cola no armário e segurou fechado o machucado e mandou ver, e já foi puxando pelo braço, precisavam ir. Canuto pegou o tubo de laser e o casaco e a seguiu pela escadaria até o terraço do prédio, onde a hoverviatura da Homicídios estava estacionada.</p>
<p>Pararam na rua, a uma quadra de distância. Esgueirando pelas barracas de comida e lojas de néon pulsante, pararam na esquina, escorados num prédio encardido. Pexa contou as janelas. Na 34, uma luz acesa. Canuto olhava os dois broncos parados perto da porta de acesso ao elevador, um deles comendo um pastel. Confiscou uma Coca-Cola na banca mais próxima e seguiu com passos firmes na direção deles.</p>
<p>O senhor, o senhor esqueceu a Coca. O senhor pagou e esqueceu.</p>
<p>Não comprei Coca.</p>
<p>Disse o bronco na última mordida já recebendo o soco no queixo engordurado e o taser de Pexa voou no outro bronco antes que puxassem seu tubos. As algemas elétricas nas mãos atrás das costas com o gravitacional ligado pra não saírem do lugar até chegar a coleta. E subiram, os andares um a um piscando no painel do elevador. A câmera interna quebrada de tempos. Pexa preparou o tubo de laser na mão. Canuto tateou o seu no bolso, sentiu um papel amassado no fundo; a página arrancada do catálogo Sidney’s com o preço abusivo de uma iguana, seu novo sonho de consumo.</p>
<p>No corredor, seguiram até o apê com a foto de um urso panda pendurada abaixo do olho mágico. Bateram três vezes.</p>
<p>Quem?</p>
<p>Detetive Canuto, Departamento de Polícia de São Francisco.</p>
<p>A porta foi aberta. Mishiko estava sentado do outro lado de uma mesa, um sem fim de molas e chips e peças de plástico e placas metálicas e sacos de estopa e pinças e catodos ao alcance dos dedos, na frente do olho uma lente trianguladora.</p>
<p>Boa noite, policiais. Como posso ajudá-los?</p>
<p>Fecha a matraca, Mishiko. Levanta e coloca as mãos nas costas.</p>
<p>Fora ele, havia outros cinco homens na sala. Nenhum deles segurando um tubo ou um revólver ou uma escopeta ou algo semelhante. Ainda.</p>
<p>Mandado, policiais?, disse Mishiko. De busca ou prisão? Cinco segundos pra me mostrarem, ou tão fora das garantias da lei, como sabem.</p>
<p>O que Canuto e Pexa sabiam era que o tempo do juiz expedir um mandado não colava, e abrir ali a info de que o flagra e a confissão de um homem agora morto, o segundo em comando de Mishiko, lhes permitia levá-lo sob custódia, podia não exatamente alegrar os seus convivas.</p>
<p>O tempo acabou, policiais. Então?</p>
<p>É rotina, Mishiko, disse Pexa. Você abriu a porta, nós entramos. Temos umas perguntas pra fazer, mas na delegacia.</p>
<p>Não, não, não. Você não entenderam. Eu não vou a lugar nenhum.</p>
<p>E os homens não tiveram que se mexer. Porque um drone varou a janela, girou fazendo um recon, soltou um tirambaço de laser na testa de Mishiko e voou pra fora. Os cinco homens respiraram fundo, agora sim puxando os tubos.</p>
<p>Que porra foi essa, disse Canuto.</p>
<p>Calminha aí, rapazes, disse Pexa. Não tivemos nada com isso. Ou a gente entraria aqui se só quisesse derrubar o chefe de vocês?</p>
<p>Dando passinhos curtos, um atrás do outro, Canuto e Pexa retrocederam, saíram do apartamento, entraram no elevador esperando um feixe varando parede ou teto, que não veio. Respiraram.</p>
<p>Que merda, disse Pexa.</p>
<p>Uma merda, sim, disse Canuto. Mas aquele modelo de drone é militar. Das colônias. Não é fabricado na Terra. E eu sei quem contrabandeia ele pra Califórnia.</p>
<p>Vamos pra delegacia, o capitão precisa saber disso tudo.</p>
<p>Lá fora, Canuto confiscou um yakisoba também. Uísque abria o apetite.</p>
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		<title>Rawlena s01e01 &#8211; Lasanha e gato</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/rawlena-s01e01-lasanha-e-gato/</link>
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		<pubDate>Thu, 07 Jun 2018 21:14:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Rawlena caminhava com passos curtos pelos corredores residenciais do nível 119. Sabia que abaixo do centésimo não havia equalizador e o ar ficava mais escasso. Guardar o fôlego pro momento certo era muitas vezes a chave em extrações tão abaixo do nível terreno. Quase nunca aceitava trabalhos ali, mas a grana andava curta e podia aproveitar a viagem pra checar o irmão, que vinha caindo desde que perdeu o emprego, a família e qualquer noção da realidade.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Rawlena caminhava com passos curtos pelos corredores residenciais do nível 119. Sabia que abaixo do centésimo não havia equalizador e o ar ficava mais escasso. Guardar o fôlego pro momento certo era muitas vezes a chave em extrações tão abaixo do nível terreno. Quase nunca aceitava trabalhos ali, mas a grana andava curta e podia aproveitar a viagem pra checar o irmão, que vinha caindo desde que perdeu o emprego, a família e qualquer noção da realidade.</p>
<p>Administrava os atalhos da lente na palma da mão esquerda. Apertou a pele e o mapa se materializou. Parou diante de uma das centenas de portas no corredor. Apertou outro ponto da mão e o infravermelho revelou um quadrado de cor intensa perto do chão, atrás de uma segunda parede, e as formas e cores de um corpo humano sentado perto da entrada. Abriu o cano do estojo e o encostou no identificador da porta. Em segundos os nanorrobôs derrubaram a segurança e a porta deslizou pro lado.</p>
<p>João comia lasanha no sofá, em nada afetado pela presença dela. Rawlena entrou, pistola apontada.</p>
<p>— João Matias Souza, sabe por que estou aqui?</p>
<p>— De burro nunca me chamaram. Posso acabar de comer antes?</p>
<p>Ela foi até a outra ponta da sala e olhou pela abertura da cozinha. O ponto de calor vinha do forno, agora desligado. O resto do apê estava vazio.</p>
<p>— É bolonhesa. Quer um pedaço? Tem metade aí em cima da pia.</p>
<p>— Vamos logo com isso, João. Tenho mais o que fazer.</p>
<p>— Só um minutinho.</p>
<p>Ela sabia o que viria na sequência. Ele parecia não saber: seu transporte até o nível 34, onde Tia Anatólia começaria conversando e acabaria com pedaços dele pelo chão do apartamento. A hierarquia só funcionava porque quem estava abaixo da Tia temia o que poderia acontecer caso não seguisse as ordens. Rawlena não sabia qual a transgressão do homem. Era importante que não soubesse, facilitava o trabalho. Mas ela podia supor. E dada as bolsas amarelas sob os olhos dele, a suposição era de que a noropía que deveria revender tinha acabado na sua própria corrente sanguínea.</p>
<p>João assistia um canal de documentários antigos. Na tela, um grupo de mergulhadores vestido com roupas emborrachadas e tanques de oxigênio investigava manchas num recife de corais. Rawlena também adorava docs antigos. Havia saído uma única vez da cidade, e não viu o mar.</p>
<p>— Tem alguma coisa que eu possa fazer pra você não me levar? Pra dizer que não tinha ninguém em casa?</p>
<p>— Não. Meu serviço não é esse.</p>
<p>— Eu sei que não é. Mas não custa perguntar.</p>
<p>Ele raspou o molho com o garfo, depositando-o em cima do último pedaço. Enfiou na boca.</p>
<p>— Pronto agora? Se colaborar vai ser muito mais fácil.</p>
<p>— Pronto. Só vou deixar o prato na pia.</p>
<p>— Deixa aí no sofá. Vamos, não força a barra.</p>
<p>— Se eu deixar o prato aqui, meu gato pode lamber. Ele tem intolerância a qualquer coisa que não seja ração.</p>
<p>— Gato? Você tem um gato?</p>
<p>— Foi difícil, confesso. Gael, querido, venha cá, venha cá.</p>
<p>Ela ouviu o miado do gato, e então viu ele saindo pela outra porta, a do quarto, e se aproximando. Era um persa branco, de narizinho redondo e olhos escondidos na nuvem de pelos. Ele veio devagar, se enroscou nos pés do dono. Mas ela não notou a mancha de calor do animal no infravermelho. Não era de verdade.</p>
<p>— Você pode cuidar dele? Se ficar aqui sozinho, vai morrer. Ou sabe-se lá o que pode acontecer quando vierem limpar.</p>
<p>— O bicho teria que estar vivo pra morrer, você sabe disso.</p>
<p>— Não me impede de gostar e querer o bem dele.</p>
<p>— Eu volto aqui pra buscar, ou mando alguém. Tá bom? Agora você vai me ouvir? Vamos andando?</p>
<p>João abraçou o gato e o largou no chão. Saiu pela porta e foi andando pelo corredor.</p>
<p>Em seu trabalho, Rawlena nunca havia encontrado alguém tão resignado. Quando ela buscava um alvo, a pessoa sabia o que sua presença significava. Por isso atirava, corria, lutava, se esgoelava. Reagia de alguma forma. Se fosse um serviço tranquilo, qualquer um poderia fazer, e não apenas pessoas com suas habilidades.</p>
<p>No fim do corredor, diante da plataforma, João parou e ficou olhando fixo pra linha luminosa na parede que mostrava sua posição. Levaria alguns minutos ainda. Rawlena pensava em desacordá-lo e levá-lo arrastado, como era o costume, mas não parecia necessário. Por precaução, juntou suas mãos nas costas e as prendeu com um lacre. O homem não reagia. Ela falou uma coisa ou outra, ele nem virou o rosto. Então segurou suas bochechas e o obrigou a olhar pra ela. Quando ele abriu a boca, um miado.</p>
<p>Ela voltou correndo, xingando, ignorando o ar rarefeito. Quando chegou no apartamento, procurou pelo gato. Seus scanners logo indicaram que não estava ali. Incapaz de puxar pros pulmões uma quantidade decente de ar, se escorou no braço do sofá. Fechou os olhos, controlou as inspirações. Não queria desmaiar, não agora.</p>
<p>Por que Tia Anatólia não a avisou que o homem tinha dinheiro suficiente pra comprar um pacote de upload de consciência? Por que alguém com acesso a isso trabalharia pra Tia Anatólia, pra começo de conversa? E agora um fugitivo nas mãos. Ou melhor, longe delas.</p>
<p>Olhou o prato de lasanha largado no sofá. Limpinho. Lambido até o último resquício.</p>
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		<title>Das parcerias que nascem desfeitas</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2018 20:10:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Experimental]]></category>
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		<description><![CDATA[<p><strong>O fim:</strong> Souza achou que não faria a menor diferença, não pra Melanie. Estavam juntos há coisa de um ano, ela e o grupo, e eles dois há uns três meses. Mas em outro nível. Da cama pras reuniões pra cama pros assaltos pros bancos traseiros pros bares pros banheiros imundos com as portas de trinco quebrado.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O fim:</strong> Souza achou que não faria a menor diferença, não pra Melanie. Estavam juntos há coisa de um ano, ela e o grupo, e eles dois há uns três meses. Mas em outro nível. Da cama pras reuniões pra cama pros assaltos pros bancos traseiros pros bares pros banheiros imundos com as portas de trinco quebrado.</p>
<p><strong>O começo:</strong> ele foi o típico cara certo no lugar certo na hora certa.</p>
<p><strong>Cara certo:</strong> Souza cresceu numa família pancada. Depois que o pai faleceu, baleado numa briga com um vizinho na cidadezinha em que moravam, viajou com a mãe roubando postos de gasolina e mercados de bairro. Sua irmã ainda era muito pequena pra entender qualquer coisa, então a maior parte do tempo ele ficava no banco traseiro cuidando dela, balançando a cadeirinha, enquanto a mãe ia e voltava, esbaforida, com a sacola cheia jogada no banco do carona. Até o dia em que ele, aos oito anos, perguntou onde tavam chegando, apontando uma placa. A mãe deixou os filhos com uma irmã, que os colocou na escola. Antes de se formar, a mãe voltou e o levou de volta pra estrada, treinando-o como motorista prum assalto a banco que acabou com ela plantada num hospital pra morrer pouco depois. Com 15 anos, ele escolheu continuar com o resto do grupo da mãe, um bando de salafras que vivia de roubos pequenos e arriscados, e assim terminou de se criar. Um morria, outro ia preso, outro desaparecia, e os grupos iam se metamorfoseando conforme os tempos, ele junto.</p>
<p><strong>Lugar certo:</strong> o Furada, butecão de esquina no centro, com muitas mesas de plástico na calçada e umas boas mesas de sinuca lá dentro, residência certeira do baixo clero do crime. A contraparte puteiro com os quartos de teto baixo tava fechada há coisa de uma década, e o ocasional tráfico que rolava solto nas dependências, com os óbvios 10% escorregados na mão da Miriam, a dona, tinham se acabado há mais tempo ainda, quando um policial honesto resolveu dar de herói e acabou quase morto na porrada, o que não favorecia ninguém, e desde então a Miriam se contentava com a cerveja e os salames e as porções de coraçãozinho e torresmo e calabresa, reclamando dos impostos que não pagava e falando da época de ouro do bar, mesmo todo mundo sabendo que aquilo nunca tinha passado de um butecão ensebado com cerva barata e aporrinhação zero.</p>
<p><strong>Hora certa:</strong> o grupo de Melanie tentava se distrair jogando sinuca num canto do Furada, falando da burrice do desfalque inesperado, o motora preso por não pagar a pensão da filha. Tinham planejado uma série de assaltos em bairros grã-finos da cidade. Os procuradores, juízes, fazendeiros, empresários que ainda não tinham se mudado pros condomínios fechados e guardavam algo graúdo nos cofres de armário, nas gavetas de relógios, nas caixas de joias, e acima de tudo nas garagens, as caminhonetes repassadas proutro grupo que vendia na Bolívia. Nada muito lucrativo, muito inteligente. Souza, por outro lado, amargava a dissolução das últimas companhias e pensava numa desculpa pra se livrar do Bolo, o único restante da última leva, um cara não muito sagaz que podia ser apontado como responsável indireto por duas mortes no passado recente. Aí Souza viu Melanie. Os dois se pegaram perto do balcão, e ele acabou na roda dela, e ouviu a história, contada meio que pra impressionar o desconhecido, e viu que eles precisavam de um motorista, e calhava dele ser um bom motora.</p>
<p><strong>O fim, novamente:</strong> o problema era que Melanie, diferente dele, realmente se importava com os comparsas. Então quando ele propôs que os dois pegassem toda a grana desse assalto em questão, uma grana preta que tinham descoberto num escritório de advocacia que era do operador de propinas do partido do governador, e dessem no pé, ela hesitou. Hesitou porque não queria ir embora, não queria trair os comparsas, não queria, no fundo, ficar dependente de Souza, de quem gostava mas desconfiava, já que, no fundo, ele não levava nada a sério. Então ele sossegou, disse que era só uma besteira que tinha passado pela cabeça, e foram pro serviço. No fim, a polícia chegou no escritório logo depois de Melanie sair com a primeira e maior parte numa mala, e no tiroteio os outros morreram. Acabou que os dois repartiram a grana e Souza foi embora, sem Melanie saber se foi ele quem avisou a polícia.</p>
<p><strong>Depois do fim:</strong> Souza voltou com o rabo cheio da grana pra casa da tia, que precisava, entre outras coisas, reformá-la. Não pisava ali desde que tinha partido com a mãe. A irmã de Souza estava terminando o colégio e pensava seriamente em fazer faculdade. Souza ficou feliz, que é o que sempre acontecia antes do dinheiro acabar, e deixou a maior parte da grana ali antes de voltar pra cidade pra encontrar o Bolo, que mandou mensagem avisando que tava andando com uma turma nova e porreta que ele precisava conhecer.</p>
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		<title>Dos cadarços desamarrados</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Apr 2018 20:07:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Experimental]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ajudo a segurar o Valmar pelos pés, enquanto Morro segura os braços e o genro do Morro enfia uma pinça enorme de ferro na barriga dele, cavucando pra pegar a bala. Os gritos são abafados pelo pano enfiado na boca do coitado, branco de tanto perder sangue, suando frio, o cabelo encharcado. Fora, os homens andam de um lado pro outro da rua, porque sabem que estamos escondidos em uma das casas. Se ouvirem os gritos amarfanhados do Valmar, ferrou. Por outro lado, se não tirarmos a bala e costurarmos, ele não vive mais cinco minutos.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ajudo a segurar o Valmar pelos pés, enquanto Morro segura os braços e o genro do Morro enfia uma pinça enorme de ferro na barriga dele, cavucando pra pegar a bala. Os gritos são abafados pelo pano enfiado na boca do coitado, branco de tanto perder sangue, suando frio, o cabelo encharcado. Fora, os homens andam de um lado pro outro da rua, porque sabem que estamos escondidos em uma das casas. Se ouvirem os gritos amarfanhados do Valmar, ferrou. Por outro lado, se não tirarmos a bala e costurarmos, ele não vive mais cinco minutos.</p>
<p>A bala enfim aparece na ponta da pinça, amassada contra algum osso, e despenca no chão. Largo os pés de Valmar e me aproximo da janela, puxando a cortina, pegando o revólver do bolso.</p>
<p>Que cê tá vendo, Marlon?, diz Morro.</p>
<p>Tem dois deles fumando lá na esquina, digo. Não tô vendo mais ninguém. Vou tentar a janela da cozinha.</p>
<p>A cozinha fica na lateral da casa que dá pro outro lado da rua. Vejo mais homens batendo em uma porta duas casas pra baixo. Um senhor abre. Eles falam algo e entram, empurrando.</p>
<p>Eles tão checando as casas, digo. Logo vão chegar aqui.</p>
<p>Ferrou, diz Morro.</p>
<p>E se vocês se entregarem?, diz o genro dele, único honesto — e ingênuo — aqui.</p>
<p>Eles querem sangue, guri. Taí o Valmar de prova.</p>
<p>Bom, segura ele de novo, diz o garoto. Preciso costurar.</p>
<p>Ele dá uns pontos, Valmar volta a gritar, e então ouvimos as batidas. Olho pro guri assustado, casado com a única filha do meu comparsa. Vou até a porta.</p>
<p>Dou os dois tiros que restam na madeira, um pra cada lado. Então me afasto, e tiros lá de fora varam porta adentro. Corremos pros fundos. Apanho o Valmar da mesa e coloco nas costas. Bicho pesado da porra. O Morro sai da casa empurrando o guri na frente, mas os homens já tão ali fora de butuca.</p>
<p>O guri cai primeiro, sangue espirrando dos dois lados, e o Morro cai na sequência. Não olho pros atiradores, sei que são no mínimo seis. Pulo um, pulo outro, continuo. Valmar pesa, mas dá nada.</p>
<p>Corre, Marlon, diz o Valmar, ou acho que diz, balançando igual lambari na terra nas minhas costas, você sempre foi bom nisso.</p>
<p>É verdade. Meu pai, que trabalhou na polícia depois de pedir dispensa do exército, treinava comigo todo dia cedo, antes do serviço. A gente saía antes da minha mãe acordar, ia até o porto e voltava. Ele comprava pão, e a mãe de camisola com o café pronto, sempre, quando a gente chegava.</p>
<p>Correr é coisa de objetivo. Ele me falava isso. Você estipula uma meta, como uma volta completa no bairro, ou até a ponte, ou até ali adiante, depois das casas do outro lado da rua, onde não tem mais ninguém atirando. Você dispara e começa a pensar noutra coisa, evita o mero pensamento de desistir</p>
<p>porque você não vai desistir, mesmo que enfrente uma subida e perca o fôlego e sinta os pulmões ardendo, você não para,</p>
<p>só desacelera, mas continua, e danem-se os obstáculos, o peso no ombro, as balas varando</p>
<p>as coxas, as costelas,</p>
<p>o peito, você continua</p>
<p>porque não pode</p>
<p>nem de longe</p>
<p>admitir</p>
<p>que vai</p>
<p>desis</p>
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		<title>Da redenção que se escolhe</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Apr 2018 19:56:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Cinco anos na cadeia. E quem vem me buscar? O Grilo.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Cinco anos na cadeia. E quem vem me buscar? O Grilo.</p>
<p>Grilo: panaca de quinta categoria que na época em que fui preso era um pela-saco do caralho. Do tipo que você não dá um ano pra espanar, falar bosta, fazer mancada e ser despachado ou apagado. Mas não. Ainda tá no batente. Não levo dois minutos pra sacar que ele não subiu nada na vida dentro da organização, continua burro de carga, mas com o tempo se tornou de casa, de confiança, e vira e mexe recebe essas incumbências de relativo prestígio, como comprar o buquê pra patroa de última hora pro aniversário esquecido, levar os envelopes gordos nas delegacias, buscar o irmão do chefão que acabou de ser solto.</p>
<p>O pão que o diabo amassou: não é só duro, é intragável. Explica a magreza, a calvície, a palidez das bochechas macilentas, cansadas da papa sem sal que ajuda a minar a força de quem cumpre pena. Ser irmão do bã-bã-bã ajuda a manter as coisas lá dentro azeitadas, e mostra que a preocupação foi minimamente suficiente pra assegurar que eu não morresse. Mas tomar uns sopapos, isso seria impossível evitar, visto que meu tempo como xerife fez enxergar atravessado boa parte dos condenados, que acabaram lá por minha causa. Explica o braço quebrado, os pontos no rosto, o furo nas costas de uma faca de escova afiada, e também as rapaduras embrulhadas na fronha, as revistas de mulher pelada embaixo do colchão, eu ainda ter todas as pregas do cu.</p>
<p>A viagem: Grilo fala que se eu quiser trabalho, sou bem-vindo no galpão. Não sei o que é pior. “Se eu quiser” ou “galpão”. Braçal mesmo, peão, pra lá e pra cá com caixote no lombo. A mensagem não poderia ser mais clara. Puta que pariu. Cinco anos lá dentro pra aliviar a barra dele, era de se pensar que o puto daria a conta por acertada. Pelo jeito não, e nem perto. Grilo para num posto de alfândega, na entrada da cidade. Descemos e ele conversa com um fiscal barrigudo, falando do horário em que os carros vão passar por aqui à noite, carregados. São oito. E devem seguir viagem intocados. Cumprimentam-se. O fiscal me olha. “Bem-vindo de volta, xerife”, ele diz.</p>
<p>A chegada: uma choradeira. Margô tá na cozinha, atabalhoada com as travessas e panelas, então chega por último, e me abraça por sobre nossos oito filhos, nenhum abaixo da minha cintura, nem o Marco, que era um bebê quando fui preso. Óri, o mais velho, tá do meu tamanho, a voz mais grossa que a minha. Ela me abraça, não me beija, só deixa minha cabeça repousar na curva entre ombro e cabeça e aspiro cheiro de xampu misturado com o da pele dela. Carne ensopada com purê de mandioquinha, é tão óbvia a vontade de me agradar que chega a doer. Uma chuveirada, as roupas antigas recém-lavadas nas gavetas, nossa cama macia forrada. Desço e sentamos na mesa e me contam as novidades, só um pouco, que são muitas, e o entusiasmo não deixa se fazer presente a realização de que essas crianças me desconhecem e Margô, entre distância e saudade, é paisagem carente de redescoberta.</p>
<p>O futuro: dá mostras de ser bem mais modesto que os dias lá dentro me fizeram sonhar. Burro de carga mesmo, lado a lado com o Grilo e o resto, mas sem metade da confiança que ele tem. Meu irmão aparece depois de dias, diz estar feliz de me ver. Mas é uma felicidade sem sorriso, sem intimidade, sem o soquinho no ombro. Se é pras coisas voltarem ao que eram, vai demorar. Não tem muito que eu possa fazer. Não tem muito que um ex-xerife ex-presidiário pode descolar de emprego, e não tem muita aventura possível com uma família assim grande pra sustentar. Quero dizer a ele que sinto muito, que não era minha intenção tomar o seu lugar quando as coisas deram errado. Mas ele sabe que foi. E eu sei que é só por uma espécie de pena e ligação fraterna que ele não me deixou morrer lá dentro, ou agora, aqui fora, não me mandou pra longe.</p>
<p>Meu irmão: é o que sempre disseram. Bondoso demais pra liderar. Mas o puto tá aí, há décadas. E é de se esperar que o tempo já tenha convencido seus homens, pelo menos, a não pisarem na bola. Por isso a surpresa quando o Grilo, o próprio Grilo, vem me propor algo nas linhas do que propus a homens de calibre muito maior há cinco anos. Ele se surpreende, mas meu irmão nem um pouco, quando chego com a carcaça balbuciante do Grilo no seu escritório e explico o que ele e mais uns outros tinham em mente. O Grilo confessa antes de levar um tiro na cara. Meu irmão não fala nada, nem agradece, só me dispensa. Eu não espero nada em troca, não por isso.</p>
<p>A insônia: incrível como uma temporada no inferno muda as perspectivas do cidadão, penso, deitado na cama, olhando o teto, uma mancha de bolor enorme tomando aos poucos conta da casa.</p>
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		<title>Faróis esfaqueando a chuva</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Dec 2017 18:26:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mainstream]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Rógevaldo, leva essa Brahma lá fora.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Rógevaldo, leva essa Brahma lá fora.</p>
<p>Claro, dona Deva.</p>
<p>Róge pega pelo pescoço, o corpo embranquecido. Desvia das mesas do salão do bar e abre a porta de tela. Na varanda, o desconhecido empinando a cadeira nos pés traseiros, pernas cruzadas sobre a amurada de madeira, cigarro enfiado nos dedos do braço caído ao lado do corpo, camisa aberta e o pelo do peito pulando pro alto, calça manchada de óleo ou graxa ou barro, botas apontando pro céu molhado e pra goteirona que se atira duma telha lascada, formando um lago sonoro no chão de terra, terra ensopada até os carros mais adiante, reluzindo sob o poste, os olhinhos dum gato debaixo do carro mais próximo, o motor ainda quente.</p>
<p>Aqui, senhor.</p>
<p>Róge tira a garrafa vazia do banco e coloca a nova no lugar. Puxa o abridor do bolso e arranca a tampa.</p>
<p>Quem mandou trazer essa?</p>
<p>Dona Deva, achei que o senhor tinha pedido.</p>
<p>Não tem problema. Tem cigarro aí na casa?</p>
<p>Derby e Free. Marlboro acabou ontem, o caminhão ainda não chegou.</p>
<p>Traz um Derby. Salame, tem?</p>
<p>Opa. Já já trago.</p>
<p>O último cigarro da carteira de Marlboro vai devagar, amassado nos dedos, filtro afinado. A fumaça vaza no abrir de boca e no respirar vagaroso. Sai espessa, dura. Do outro lado da varanda há uma cadeira igual, vazia. Supõe que nos dias sem chuva o lugar fique mais cheio, a única biboca boa num fim de mundo como esse. É sempre um fim de mundo diferente, mas igual nisso, nas bibocas. Róge volta com o cigarro e um prato com fatias de salame cortadinhas e metade de um limão. Empurra a garrafa e o copo e faz caber tudo em cima do banco. O desconhecido tira o lacre do cigarro, abre a tampa, oferece.</p>
<p>Fuma?</p>
<p>Não, senhor.</p>
<p>Quantos anos, rapaz?</p>
<p>Dezessete.</p>
<p>E não fuma aqui nesse cu do mundo? Duvido. Fica desse lado de cá, longe da porta. Ela não vai te ver. Toma. Só tem duas mesas lá dentro. Ela dá conta. Senta aí.</p>
<p>Róge pega a cadeira, traz pro lugar indicado e senta. Acende um cigarro, dá uma tragada curta, olha pra chuva também. O desconhecido olha pra ele.</p>
<p>Não cansou daqui ainda?</p>
<p>Quem não cansa? Eu vou embora. Mas dona Deva não guenta aqui sozinha. Não consegue pagar funcionário ainda. Então vou esperar ela ajeitar as coisas e vou pra cidade, estudar.</p>
<p>E vai ajeitar como?</p>
<p>Vão abrir uma escola estadual aqui na rua. Não dá pra ver agora, mas é ali na frente, de dia dá pra ver o esqueleto. Pai de aluno, funcionário, professor, ela acha que vai movimentar aqui. Nem tanto o bar, mais a parte de mercearia mesmo.</p>
<p>Tomara. E o estudo? Alguma ideia já?</p>
<p>Medicina e direito é que não. Já viu a concorrência? Algo fácil. Tanto faz. Depois da prova eu vejo. O que eu passar na Federal. O senhor faz o quê?</p>
<p>E quando é essa prova?</p>
<p>Final do ano. Não me inscrevi pra desse, já passou. Vou ver se consigo no outro.</p>
<p>Consegue sim.</p>
<p>E o senhor, faz o quê?</p>
<p>Frentista. Aqui e ali.</p>
<p>Cadê o caminhão?</p>
<p>Dessa vez tô de carro. Era coisa pequena.</p>
<p>Transporta o quê?</p>
<p>O que pagarem.</p>
<p>E o senhor tá aqui pra recolher ou entregar?</p>
<p>Nenhum. De passagem. A chuva fez eu dobrar na entrada, vou passar a noite.</p>
<p>Tem a pousada da dona Ivana. Ela dorme cedo, mas abre qualquer hora quando tem cliente.</p>
<p>Vou lá depois. Agora quero relaxar um pouco.</p>
<p>Dá pra viver bem? De frentista?</p>
<p>Não vou reclamar não, viu. Dá pra pagar minhas contas. Umas geladas. Mas tem vida mais fácil. Se eu pudesse voltar e aprender outra coisa, aprendia.</p>
<p>O senhor é novo. Ainda dá tempo.</p>
<p>Tempo sempre dá. E o saco pra pegar o jeito de outra coisa? Vai ver, guri. É um parto. Se sentir que não é aquilo que tu quer fazer, pula fora logo, não acomoda a bunda em cadeira torta não.</p>
<p>Tranquilo. Se sair daqui já tô no lucro. Haha.</p>
<p>Te entendo. E tua família?</p>
<p>Só dona Deva. Minha mãe morreu pouco depois que eu nasci. Dona Deva me criou, era prima dela. Josefa. Nome de velha, né?</p>
<p>É. A gente não escolhe nome, dá nisso.</p>
<p>Escuta, vou voltar lá pra dentro. O senhor me dá licença. Brigado pelo cigarro.</p>
<p>Nada.</p>
<p>Róge volta duas vezes, pra levar o prato vazio e trocar a garrafa. Na terceira o homem pede pra ele chamar dona Deva, quer dar uma palavrinha. A chuva amainada, só uns respinguinhos xoxos. Dona Deva sai secando as mãos num pano de prato. O homem desempina a cadeira e desce a escadinha do bar.</p>
<p>Vem comigo, Deva. Só vou te dar um negócio e seguir meu rumo. Não precisa falar nada.</p>
<p>Ela segue o homem até o carro, o gato foge pra debaixo do carro vizinho. Ele pede pra ela esperar ao lado da porta. Vai até o porta-malas, levanta as pernas do corpo, puxa a mochila, abre, vê a cabeça dos montinhos de notas de real. Entrega a mochila pra Deva.</p>
<p>Róge na porta do bar, olhando Deva parada diante do carro, os faróis recuando, fazendo a volta, a carcaça preta embicando pra estrada. A chuva vai voltando, mansa, insistente.</p>
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		<title>berátna :cinko :criançada é zika</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/beratna-cinko-criancada-e-zika/</link>
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		<pubDate>Wed, 27 Sep 2017 15:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>.parecem dois crianços, pelo tamanho, e não usam roupa refrigerada como todo mundo .o + alto tem quatro braços, num deles um pistoleto, noutros dois facónes longomonstros .o menor tem dois braços mas eles não terminam em mãos e sim em bloquetos revestidos de onde saem duas lâminas .fodeu gostoso</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>.parecem dois crianços, pelo tamanho, e não usam roupa refrigerada como todo mundo .o + alto tem quatro braços, num deles um pistoleto, noutros dois facónes longomonstros .o menor tem dois braços mas eles não terminam em mãos e sim em bloquetos revestidos de onde saem duas lâminas .fodeu gostoso</p>
<p>¹.não tenho pikas contra ustedes, na vera_digo_.façam o que quiserem, tão livres, só quero abrir</p>
<p>.descolo o cabeço do tubo que me mocoza e o maior tá co pistoleto mirado em mim mas não atira .volto a mocozar mas enfim olho pro tubo e há um anfíbio, ou gente-anfíbio, os olhinhos grudados no vidro bem onde tô .pulo pra trás .os dois crianços continuam me encarando, ou parecem me encarar, não dá pra ver o cabeço deles dentro dos capacetos fumês .não fazem mención de atacar, então nem volto a levantar o pistoleto .o menor passa uma lâmina no pescoço da felony e o cabeço cai no colo .trampo feito sem erro agora</p>
<p>.o menor vai até o fundo do saleto, uma das lâminas retrocede e desaparece dentro do bloqueto e alguns tocos que lembram dedos surgem das extremidades .ele começa a manipular a tela .logo vejo um sequêncio de vids das câmeras internas .felony rola sangrando pra dentro da porta, se levanta e vai correndo até os fundos .eu entro logo atrás, co pistoleto em punho .faço o reconhecimento do primeiro saleto enquanto felony libera a tranca da porta onde eles tão mocozados .me aproximo de felony, eles aparecem, me mocozo atrás do tubo</p>
<p>¹?tão vendo .eu só queria pranchar ela .nem sabia que ustedes existiam .que isso aqui existia</p>
<p>.o menor continua manipulando a tela .as imagens das câmeras pulam e fotos dos cientistas do lab ganham destaque .a de tóide é alargada e ocupa a tela toda .o garoto se vira pra mim, ou vira o capaceto na minha direção, e aponta a foto</p>
<p>¹.tóide forman_digo</p>
<p>.o maior abaixa o pistoleto e ca única mão livre aponta a tela também</p>
<p>¹.é o tóide forman_volto a dizer_.ele me contratou pra pranchar a felony, que tá aí no chão .foi isso que eu vim fazer, só isso .recebi pra fazer o serviço e pronto</p>
<p>.a guarda deles suavizada, posso meter um balaço em cada. mas algo me diz que não vai ser suficiente, então fico na santapaz</p>
<p>¹?quem são ustedes ?o que tavam fazendo aqui</p>
<p>.o menor manipula a tela .surge a foto dum prédio .não conheço direitudo o complexo b, mas reconheço o endereço porque foi dos poucos lugares que frequentei</p>
<p>¹.é o prédio do tóide</p>
<p>.o maior enfia o pistoleto atrás da cintura do calço, e coloca os facónes numa bancada .o menor já tá ca outra lâmina recolhida .não querem zika .o maior passa a manipular a tela também .roda um vid de fazhora, ca data de três anos atrás na ponta, e dentro de um tubo tem um crianço com quatro braços, encolhido, electrodos e fios plugados no corpinho .ele tá sem o capaceto e parece um crianço normal a não ser pelas veias estouradas e o lábio leporino .corta prum vid dum guri menorzín numa mesa de operações, as mãozinhas amputadas e os bloquetos sendo analisados por tóide + felony + vários cientistas .o prédio volta a ocupar a tela</p>
<p>¹.sei onde é .saquei .só preciso abrir no final ?combinado</p>
<p>.o maior levanta os quatro dedóns fazendo sinal de joia e anda na direção do primeiro saleto .o menor pega dois casacos com gorro do armário do banheiro .lá fora se vestem, mocozando os corpinhos cabeçudos .a porta fica escancarada .o maior vira o contêiner de lixo cheio no chão e o montagal se esparrama pela rua .o menor derrama algo de dentro do bloqueto e logo tá tudo pegando fogo .os tronxos logo logo farejam</p>
<p>.seguimos pelas ruas até um ponto de carreto auto-dirigível .abro a porta traseira e eles se enfiam .sento na frente .falo o endereço de tóide e o carreto acelera .eles olham pra fora pelos janelos, cada um prum lado, inexpressivos atrás dos capacetos escuros, acho que pirando pakas no festival luminoso dos holos .a pele dos braços e pescoços é cinzenta e há esporos, espiños em alguns pontos</p>
<p>.o carreto para diante do prédio</p>
<p>¹.é esse aí_digo_.horizonte 34, apartamento 14</p>
<p>.os dois saem, duas silhuetas cruzando a calçada e entrando no prédio .saio do carro também, olhando as barracas e identificando o yaki de aanssaq onde fiz o primeiro reconhecimento meses atrás, quando o alvo ainda era tóide .ironiamonstra .peço um pra viagem e saio garfando, na direción da fronteira .tronxo de alfândega fecha o olho quando a gente desce de complexo, ainda + com grano, zika é subir .grano é só metade do combinado pro pranchamento, mas melhor que nada .na esquina ouço o barulho e olho pro prédio e vejo brilhando no ar os estilhaços do janelo junto com dois pedaços de gente que eram tóide forman despencaindo na noite</p>
<p>.vida de moco tem dessas, na vera .cê nunca sabe co que pode topar</p>
<hr />
<p>Esta é a quinta e última aventura de berátna. Confira a lista completa:<br />
<a title="berátna :uno :lar doce lar" href="http://flashfiction.com.br/beratna-uno-lar-doce-lar/" target="_blank">- berátna :uno :lar doce lar</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-dos-moco-e-profissa/" title="berátna :dos :moco é profissa" target="_blank">- berátna :dos :moco é profissa</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-tri-tempo-na-xilindra/" title="berátna :tri :tempo na xilindra" target="_blank">- berátna :tri :tempo na xilindra</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/" title="berátna :kuátro :tudo por grano" target="_blank">- berátna :kuátro :tudo por grano</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-cinko-criancada-e-zika/" title="berátna :cinko :criançada é zika" target="_blank">- berátna :cinko :criançada é zika</a></p>
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		<title>berátna :kuátro :tudo por grano</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Sep 2017 14:37:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Policial]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>.lugar de moco é no escuro, socadinho na parede do beco .o desconforto moco mastiga pensando no grano no fim do trampo .moco mastiga até mesmo uns meses na xilindra, coisa que o felo da puta do tóide achou que podia fazer desde que pagasse .e maldición, podia mesmo, que co bolso fofo fico na fina .pediu desculpa pela mão e pra compensar mandou instalarem a extensión + de ponta na enferma, e eu já tava tão acostumado co ela que na vera quase agradeci e pedi pra explodir a outra e pagar + uma .fiquei impressionado co trabajo de me rancarem da xilindra depois de pranchar o tororó, que + fácil era me pranchar e pronto .mas tóide se mostrou um cabro de palavra .ou melhor, um cabro que tinha + um trampo .a real é essa, não dói não, vida de moco é isso</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>.lugar de moco é no escuro, socadinho na parede do beco .o desconforto moco mastiga pensando no grano no fim do trampo .moco mastiga até mesmo uns meses na xilindra, coisa que o felo da puta do tóide achou que podia fazer desde que pagasse .e maldición, podia mesmo, que co bolso fofo fico na fina .pediu desculpa pela mão e pra compensar mandou instalarem a extensión + de ponta na enferma, e eu já tava tão acostumado co ela que na vera quase agradeci e pedi pra explodir a outra e pagar + uma .fiquei impressionado co trabajo de me rancarem da xilindra depois de pranchar o tororó, que + fácil era me pranchar e pronto .mas tóide se mostrou um cabro de palavra .ou melhor, um cabro que tinha + um trampo .a real é essa, não dói não, vida de moco é isso</p>
<p>.outro alvo no complexo b .esse não é grã-fino igual tóide, não tem grano pra habitar horizonte co brisa .mora no fervo, que complexo b tem fervo também se souber procurar, mas trabalha no mesmo lab do tóide .subordinado dele, pelo jeito, embora tóide não tenha falado zika de hierarquia, do que fazem ou deixam de fazer .na vera moco não tem que saber pikas, moco tem que pranchar alvo, receber e abrir .fechando o trampo é de volta pro complexo c, que o b é maravilho mas não é lar, não dá pra confiar em ninguém .e é zika pegar trampo direto co cliente, sem mediação do súbaru, que filtra e protege como pode seus mocos .não pago a comissión mas fico no escuro, e moco trampa no escuro mas não vive no escuro que aí já é pedir pra acordar pranchado .zóio na nuca define</p>
<p>.antes de fechar contrato, confirmei co súbaru os pingos nos is, que do jeito que as coisas tinham ido tive zero tempo de checar qualquer coisa, foi acordar na xilindra de folga forçada por uns meses .achei um comú raspado e súbaru mandou a gueixinha enfiada entre as pernas abrir e falou comigo emocionado, na vera, o cúmpa achou que eu tinha partido mesmo dessa, não me acharam no complexo b porque meu doc caiu quando ficharam no sistema e fui registrado como zé, dos muitos zés na xilindra que chegam sabe-se lá de onde e foda-se porque dali não vão sair mesmo .mas eu saí, e súbaru quase não acreditava .ele disse que era mesmo o tóide o contratante e perguntou se tava feito .eu disse que explicava direito quando voltasse pra casa, tava zerinho, tinha que resolver umas coisas antes .fiquei imaginando como ele ia reagir ao ver um dos mocos ca mão biônica, isso é raromonstro no c, nossa vida é mambembe de+, oxi</p>
<p>.pedi três dias, pra verificar a rotina do alvo e achar outro pistoleto decente .não precisava de tudo isso mas tinha que passar um tempo socado no tanque de água salina curtindo hidromassagem no toba .ninguém é de ferro .tóide adiantou metade do grano, e não cobrei baratín, então comi como rei e tiro um breque no ar-condicionado perfumado do espelunco, do qual já sinto saudademonstra</p>
<p>.o alvo é felony moraso, cientista e sujeita metódica, o que sempre ajuda os mocos .bate ponto no lab na matina, almoça no comedouro da esquina, trampa até oito e meia da noite, última a sair, tranca tudo, dá pulo no mercado no caminho do fervo, em casa assiste uns holos e tira um breque .três dias e tudo na mesma hora, alvo é reloginho mesmo .na noite do terceiro dia me enfio no beco doutro lado da rua .hora que tóide e seus cúmpas de trampo saem nem olha pra cá, ciente</p>
<p>.oito e meia felony sai .daqui anda até o busutubo e não tem canto + sussa no caminho, então é aqui mesmo .rua vazia = moco sorrindo, como hablan .ela vira de costas pra porta reforçada, começa a digitar o sequêncio da tranca .saio mansinho, miro o cabeço, aperto o gatilho .pistoleto felo da puta é modificado e dá tranco e o tiro vai centímetros pra baixo e pega na base do cabeço, soprando sangue, carne e dente na porta .felony se joga pra frente e rola pra dentro do corredor .corro pra não deixar a porta ensanguentada fechar sozinha .enfio o pé bem no estreitinho de luz que vem lá de dentro, empurro e vasculho co pistoleto .pikas da felony .fela da puta</p>
<p>.entro, ouvindo a estáctica elétrica da iluminación no teto .adiante tem um saleto com várias cadeiras vazias e telas ligadas, números e gráficos e em algumas também uns tubos enormitudo com gente dentro, gente colorida, gente com braço ou perna a +, gente com bola saindo da barriga, gente cos ossos tortos, gente que não parece gente .dá nojo .pikas de felony aqui, mas vejo felony numa das telas, ela diante doutra porta digitando algo noutra tranca .tem uma passagem no fim desse saleto em que tô e só pode ser ali que ela se enfiou, o saleto dos tubos .me vejo numa das telas também, e fodeu se não for só circuito interno, tóide vai ficar lóki</p>
<p>.entro pela passagem e ando no saleto entre os tubos, evitando encarar eles, e vejo felony sentada no chão contra a parede, um buraco enorme no rosto comendo parte do nariz e toda a boca por onde pingoteja sangue no colo, a roupa encharcada .karalhos, fiz estrago .me aproximo mas sei que já era .a porta que ela liberou abre e dois bichos aparecem, armados, os rostos mocozados em capacetos escuros .pulo pra trás duns tubos, pensando merda, onde me enfiei</p>
<hr />
<p>Esta é a quarta aventura de berátna. Confira as outras:<br />
<a title="berátna :uno :lar doce lar" href="http://flashfiction.com.br/beratna-uno-lar-doce-lar/" target="_blank">- berátna :uno :lar doce lar</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-dos-moco-e-profissa/" title="berátna :dos :moco é profissa" target="_blank">- berátna :dos :moco é profissa</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-tri-tempo-na-xilindra/" title="berátna :tri :tempo na xilindra" target="_blank">- berátna :tri :tempo na xilindra</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-kuatro-tudo-por-grano/" title="berátna :kuátro :tudo por grano" target="_blank">- berátna :kuátro :tudo por grano</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/beratna-cinko-criancada-e-zika/" title="berátna :cinko :criançada é zika" target="_blank">- berátna :cinko :criançada é zika</a></p>
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