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	<title>Flash Fiction &#187; Terror</title>
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	<description>Ficção em Drops</description>
	<lastBuildDate>Tue, 30 Jun 2020 23:21:03 +0000</lastBuildDate>
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		<title>A busca onírica de Alberto Carter</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Aug 2017 15:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Paródia / Pastiche]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A primeira e única vez em que conversou com os sacerdotes Nasht e Kaman-Thah na caverna da flama, Alberto sentia uma coceira incansável nos dedos da mão direita. Contrariando suas recomendações, desceu os setecentos degraus até o Portão do Sono Profundo e adentrou as Terras do Sonhar.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A primeira e única vez em que conversou com os sacerdotes Nasht e Kaman-Thah na caverna da flama, Alberto sentia uma coceira incansável nos dedos da mão direita. Contrariando suas recomendações, desceu os setecentos degraus até o Portão do Sono Profundo e adentrou as Terras do Sonhar.</p>
<p>Quando pisou entre os ramos retorcidos das árvores da Floresta Encantada, a mão latejava em carne viva. Os zoogs, seres pequenos e peludos com grandes olhos brilhantes, que não recusam um pedaço de carne humana quando ela se apresenta assim sem esforço, respeitaram a sua presença e deixaram que percorresse incólume suas trilhas iluminadas por fungos fosforescentes, dali até a grande rocha musguenta de tempos imemoriais que evitavam a todo custo e além. Em um dos círculos de pedra onde os zoogs costumavam celebrar e fazer sacrifícios, prestou respeito aos seus anciões, e afirmaram que ele só continuava vivo porque tinha o mesmo cheiro do seu antepassado, o cheiro do único humano respeitado na trégua entre os zoogs e os gatos de Ulthar depois da guerra. Ele aceitou um pouco do vinho de árvore da lua que ofereceram a contragosto e seguiu viagem.</p>
<p>Depois da floresta e da ponte de pedra que cruzava o rio Skai, Ulthar se erguia com suas ruas de paralelepípedos nas guinadas e curvas das montanhas, escondidas por casas de teto pontiagudo e chaminés entre edificações robustas de estuque depois dos pomares dispersos e das fazendas cercadas. Alberto viu as silhuetas dos prédios das universidades, encrustados como coroas numa sequência de picos à sua direita. Seguiu para o centro, num baixio onde o cheiro de temperos era cada vez mais forte e as ruas cada vez mais cheias de gente e de gatos, de todas as cores e tamanhos. Seu tataravô havia frisado muitas vezes que matar um felino em Ulthar era punível com a morte, e tratá-los bem era mais que uma cortesia; era formar alianças. Alberto sentiu a vontade que qualquer sonhador sente em sua primeira visita, a de partir dali para alcançar as cidades reluzentes escondidas depois dos oceanos, as terras de Lomar, Mnar, Leng e os jardins de Yin, de ver com os próprios olhos as ruínas amaldiçoadas de Sarnath ou de conhecer o rei Kuranes na majestosa Celephaïs. Mas sabia que sua incursão deveria ser breve.</p>
<p>Sentiu o toque direto nos ossos quando foi coçar a mão, o sangue pingando do cotovelo ao erguê-la para observar o estrago. Conversando com os feirantes e lojistas das praças, conseguiu o endereço de sua tataravó. Ela agora morava aos pés da Universidade Feminina de Ulthar, como o tataravô supunha, criando um pequeno rebanho de vacas e suprindo a instituição com leite fresco e queijo. Quando atravessou a porteira bamba e se dirigiu para o casebre, de onde saía um fio de fumaça pela chaminé, já havia perdido os ossos da mão. A mulher reconheceu o tataraneto assim que abriu a porta, mesmo sem nunca tê-lo visto. A aparência dela era a mesma das fotos, percebeu Alberto, os cabelos castanhos ainda intocados pelo branco. Ela o abraçou e perguntou o que havia acontecido com sua mão. Ele ignorou a pergunta e disse o que tinha vindo ali para dizer.</p>
<p>A tataravó ouviu o pedido, mas balançou a cabeça. Já não possuía mais a chave, e não a daria mesmo que ainda a tivesse. Disse que o seu tataravô, ainda que amado por muitos nas Terras do Sonhar, seguia odiado por aqueles que importavam: os deuses, desgostosos no castelo sobre Kadath, e ela não podia arriscar a fúria divina e a vida de tantos pelo capricho de um, que ansiava por pisar naquelas terras uma vez mais antes que a morte o levasse. Alberto disse que o velho estava desesperado. Tirou as botas e mostrou os pés chamuscados. Afinal ela entendeu e disse que viajaria pessoalmente para confrontá-lo. Selaram dois cavalos e partiram. Os zoogs lhes concederam passagem em troca dos animais, quando alcançassem o Portão. Subiram os setecentos degraus, atravessaram a caverna da flama e por fim venceram os últimos setenta degraus até o mundo acordado.</p>
<p>Ela abriu os olhos na poltrona de um quarto, onde o tataraneto dormia profundamente na maca enquanto o velho manipulava um fogareiro sob seus pés, a pele torrada, o cheiro insuportável. Todo o antebraço direito de Alberto tinha sumido, restando o cotoco enegrecido. Sentiu asco vendo a figura decrépita do antigo marido se virar, um olho fosco e sem vida, e a chamar pelo nome. Ele disse que sabia ser aquele o único método de trazê-la ali, e tinha urgência. Ela tentou se erguer e levantar as mãos mas estava paralisada. Ele a beijou, tirou o colar que adornava o seu pescoço, de onde pendia o rubi que havia escavado do monte Ngranek em seu caminho para Kadath tantas eras atrás, e enfiou a adaga entre suas costelas, até o cabo.</p>
<p>A dor pulsava e se alastrava quando ela viu, de pé no canto do quarto, os olhos como duas galáxias reluzentes, a silhueta do caos rastejante em sua forma humana, que havia visto uma única vez na juventude e que povoava seus pesadelos desde então. Seu antigo amor entregou o colar a Nyarlathotep e então pegou em suas mãos e juntos andaram alguns passos até sumirem. O banido Randolph Carter voltava às Terras do Sonhar, o que implicaria na destruição de Ulthar e de tudo que ela amava, e não havia nada que pudesse fazer exceto aguardar o gelo da morte e observar o legado moribundo da sua paixão estendido na maca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p>Este drop é uma homenagem ao mestre do terror cósmico, H. P. Lovecraft, com foco no ciclo de histórias ambientadas nas Terras do Sonhar, e à reimaginação desse universo pela lente inventiva de Kij Johnson (<a title="The Dream-Quest of Unknown Kadath" href="http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/dq.aspx" target="_blank">The Dream-Quest of Unknown Kadath</a> e <a title="The Dream-Quest of Vellitt Boe" href="https://www.amazon.com.br/Dream-Quest-Vellitt-Boe-Kij-Johnson-ebook/dp/B01DJ0NARW" target="_blank">The Dream-Quest of Vellitt Boe</a>, mais especificamente).</p>
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		<title>Da travessia na noite profunda</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Jul 2017 23:19:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Na primeira noite, deitamos em uma clareira. Um fica acordado, de sentinela, mas os lobos chegam sorrateiros e o homem se acaba sem escândalo com o rasgo no pescoço borbulhando sangue. Sobrevivemos, acostumados a acordar tateando a lâmina, mas a matilha leva a metade. Depois disso não dormimos mais.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na primeira noite, deitamos em uma clareira. Um fica acordado, de sentinela, mas os lobos chegam sorrateiros e o homem se acaba sem escândalo com o rasgo no pescoço borbulhando sangue. Sobrevivemos, acostumados a acordar tateando a lâmina, mas a matilha leva a metade. Depois disso não dormimos mais.</p>
<p>Quando o sol dá as caras, enterramos os corpos e seguimos, tentando decifrar o mapa que carrego no bolso. Que ele tenha sido desenhado por um bebum que se gabou de atravessar várias vezes esse trecho maldito logo se torna uma piada de mau gosto. É com os seus pedaços rasgados que começamos a fogueira da segunda noite. Um homem vai cagar no mato e não volta. De manhã, achamos um braço.</p>
<p>Eu, que já havia perdido a fé, volto a rezar. O dia revigora e trotamos até os músculos das pernas travarem, mas não encontramos a cachoeira, o marco final, a essa altura relegado a lenda. A noite vem e com ela os tremores. O único que não resiste a fechar os olhos amanhece comido por formigas gigantes, escondido debaixo do cobertor.</p>
<p>Os restantes observam o cadáver carcomido e decidem voltar, não importa o quanto eu ache que estejamos próximos do fim. Me dão um ultimato: acompanhá-los ou seguir sozinho. Amaldiçôo sua fraqueza e meu próprio medo. Refazendo o trajeto, não consigo afastar a sensação de que a cachoeira estivesse atrás do próximo monte.</p>
<p>A floresta parece reconhecer nossa desistência. E continua nos despachando, mais calma e inventiva. Um tropeça, escorrega pela encosta e acaba atravessado por um galho. Outro tenta acender o fogo e queima o olho, a ferida cresce e empretece e em poucas horas ele está minando pus pela boca aberta. Outro é eletrocutado por um raio. Outro come frutas venenosas e vomita sangue. Outro se engasga com água. Sobramos apenas eu e o menor dos homens que contratei, e suspeito que é o medo, e apenas isso, que instila nele a febre que acaba por consumi-lo, delirante.</p>
<p>A floresta me poupa, me cozinhando no fogo baixo da adrenalina. Não durmo há dias, tomado pelo cansaço, pela sede e pela dor de cabeça. Os sussurros da noite e da mata me despertam solavancos inconscientes e começo a ganir feito um cachorro. Me arrasto como posso para regressar ao início da jornada. O cheiro é a primeira pista verdadeira. O caminho, farejado. As quatro patas batem leves no solo e finalmente mato a fome abocanhando a carne quente de um homem, junto de vários outros adormecidos em uma clareira. Sei qual será o meu fim se continuar aqui, desafiando suas lâminas, então arranco um naco suculento e me afasto para mastigar, atrás das árvores, enquanto meus irmãos lutam.</p>
<p>Sobram poucos de nós. Passamos a caçar animais pequenos e juntar forças para futuros ataques. Nossas fileiras engrossam. Os lobos continuam chegando.</p>
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		<title>Em Busca de Abrigo</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Oct 2016 21:25:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Segura a cabeça que lhe entregaram. Alisa o cabelo como quem espreme os dedos diante do pai antes de confessar a irmã com o joelho quebrado no fundo do poço, era brincadeira, ela me empurrou, eu empurrei ela e. Tabefe.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Segura a cabeça que lhe entregaram. Alisa o cabelo como quem espreme os dedos diante do pai antes de confessar a irmã com o joelho quebrado no fundo do poço, era brincadeira, ela me empurrou, eu empurrei ela e. Tabefe.</p>
<p>Ergue a cabeça pros homens ao seu redor. Eles espremem os olhos, abrem a boca e se curvam, colando as testas no chão, colando as costelas salteadas uma a uma no chão, envergados sobre os joelhos nus, ralados.</p>
<p>O primeiro deles balbucia algo, ela sobe no degrau de pedra no centro da cabana. Do caldeirão de barro sobe um cheiro azedo que não é de comida. Ela olha, esperando notar a borbulha no caldo pastoso. Vazio.</p>
<p>Olha pra abertura da cabana, as lâminas de pano encostadas uma na outra. Conta os homens curvados no caminho até ela. Engole saliva.</p>
<p>Deixa a cabeça escorregar dos dedos e cair no caldeirão. Ela rodopia no globo ressequido, gritando, corruptelas que parecem primeiro sair da boca de um rato, engrossando até ganharem definição, até se tornarem palavras reconhecíveis.</p>
<p>Tira a cabeça de dentro com as duas mãos, amassa os cabelos, enrola o bigode, espreme os lábios; a cabeça abre a boca e mostra a língua. Os homens se erguem e se engalfinham.</p>
<p>O vencedor pisoteia os corpos até ela e, com a única mão que lhe resta, mostra a faca. Ela agora abraça a cabeça como quem abraça o próprio recém-nascido. É um corte limpo da lâmina, a cabeça do vencedor rola, a mão ensanguentada arranca do seu colo a cabeça do caldeirão e a enfia no seu lugar.</p>
<p>Ele dá a ordem. Ela entra no caldeirão.</p>
<p>Lá de cima ouve a voz retumbante que sai daquela boca, em contraste com sua própria voz afinando. Sente encolher cada vez mais, rodopiando nas paredes terrosas, até o corpo se tornar um graveto retorcido sob o pescoço. O homem a tira dali com os dedos em pinça, alisando seu cabelo.</p>
<p>Durante todo o tempo em que limpam a cabana, em que o caldeirão é esfregado, em que o homem que a segura estala a língua, testando os novos dentes em mordidas vazias, ela mantém os olhos fixos na cortina da saída, pensando que a coragem que sobrava quando ela entrou correndo, fugindo das palmadas do pai, faltou em todos os momentos em que as palmadas do pai eram o que mais queria.</p>
<p>Os homens entram, tomam seus lugares, e então seu novo corpo entra. Parece assustado. Só busca a filha.</p>
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		<title>Eriatarka</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2016 22:05:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ninguém veio.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ninguém veio.</p>
<p>As vozes voltaram a reverberar, agora entrecruzadas, roucas. Eram balidos, latidos. A escuridão e a segurança do submarino se liquefizeram e deram lugar aos contornos cada vez mais aparentes do teto com uma lâmpada oculta por um plástico fosco. Cerpin aos poucos recobrou o controle do pescoço. Piscou, olhando os arredores. Havia ao seu lado um cirurgião com jaleco branco e um crachá, &#8220;Dr. Wolfram Tarant&#8221;.</p>
<p>– Quase no fim. Não se mexa.</p>
<p>Os latidos vinham dos braços do Dr. Tarant, que não passavam de corpos longilíneos e peludos com cabeças de cachorro no lugar de mãos. Um deles rugiu, o bisturi entre os dentes.</p>
<p>– O que fez comigo?</p>
<p>– Nada que não seja essencialmente necessário. Precisa de asas se quiser voar.</p>
<p>– Asas?</p>
<p>– Sua metamorfose está quase completa. Moattilliatta, o último dos grandes Teraquetzales. É uma honra, assim como um pesar, fazer parte disso.</p>
<p>Cerpin não sentiu dores ou qualquer outra sensação tátil enquanto ouvia o médico cortar e costurar por baixo da maca e pelas laterais.</p>
<p>– Entenda que sou apenas um instrumento. Tremula Metacarpi. Eles é que dão as cartas.</p>
<p>– Não! – lembrou do pesadelo e do bicho rastejante que o seguira pelo deserto.</p>
<p>– Sossegue, rapaz. Você entendeu tudo errado. Só chegou tão longe pois é exatamente o que eles esperam. Precisam de um novo líder. Mas não um com o corpo flácido e limitado. Precisam da sua essência num maquinário imponente, num veículo adaptado às dificuldades que está prestes a enfrentar.</p>
<p>– Quem são eles?</p>
<p>– Você deveria saber melhor que eu. O que posso mostrar, se fechar os olhos, é a forma do seu inimigo.</p>
<p>Cerpin fechou. Viu, correndo pela floresta, um javali com as patas afundando no solo e presas avantajadas dançando à sua frente. O animal possuía uma espécie de aura gravitacional, muito mais ameaçadora que as presas, que tragava as cores das folhas, da grama, da terra e do céu, gravitando em torno de sua cabeça como um planetoide lançado no espaço, orbitado por asteroides incansáveis.</p>
<p>– Agora entende por que isso é necessário? – disse o médico.</p>
<p>Cerpin sentou na cama. Voltava a sentir o corpo, na verdade outro corpo.</p>
<p>– A escolha é sua – o Dr. Tarant espiralou no ar.</p>
<p>Sentiu as aranhas escalando novamente seus pés, saindo das paredes, acoplando-se às larvas que cobriam a espinha. Foi erguido aos poucos, abriu a boca para que as formigas que percorriam seus braços adentrassem a boca e entupissem as vias respiratórias com o fluido protetor. A vértebra se ergueu do chão, moldando-o. As amebas pulsaram e a tampa do cockpit foi fechada.</p>
<p>Antes de partir, ouviu um barulho difuso. Ora lembrava o rabisco de um lápis, ora o digitar de um teclado. Algo estralou. O impulso mergulhou sua consciência no nada.</p>
<hr />
<p>Este drop é o quarto de uma série do Flash Fiction inspirada no álbum de estreia da banda de rock progressivo The Mars Volta, <a title="Wikipedia - De-Loused in the Comatorium" href="https://en.wikipedia.org/wiki/De-Loused_in_the_Comatorium" target="_blank">De-Loused in the Comatorium</a> (2003). A <a title="Youtube - De-Loused in the Comatorium" href="https://www.youtube.com/watch?v=Zgjv0PQiJCs" target="_blank">sonoridade</a>, as <a title="The Mars Volta Lyrics" href="http://www.azlyrics.com/m/marsvolta.html" target="_blank">letras enigmáticas</a> e o próprio <a title="De-Loused in the Comatorium - short story by Cedric Bixler-Zavala and Jeremy Michael Ward" href="https://xivilization.net/~marek/binaries/DeLoused_storybook.pdf" target="_blank">conto</a> escrito por Cedric Bixler-Zavala e Jeremy Michael Ward, que foi o ponto de partida conceitual da banda, formam a base referencial deste mini-projeto.</p>
<p>Leia os outros drops da série Despiolhado no Comatório:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/percepcao-extra-sensorial-inerciatica/" title="Percepção extra-sensorial inerciática" target="_blank">1 &#8211; Percepção extra-sensorial inerciática</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/juncao-exoesqueletica-da-ferrovia" title="Junção exoesquelética da ferrovia" target="_blank">2 &#8211; Junção exoesquelética da ferrovia</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-embriaguez-dos-farois" title="A embriaguez dos faróis" target="_blank">3 &#8211; A embriaguez dos faróis</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/cicatriz/" title="Cicatriz" target="_blank">5 &#8211; Cicatriz</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/este-aparato-precisa-ser-desenterrado/" title="Este aparato precisa ser desenterrado" target="_blank">6 &#8211; Este aparato precisa ser desenterrado</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/televadores-ex-machina/" title="Televadores ex machina" target="_blank">7 &#8211; Televadores ex machina</a></p>
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		<title>A embriaguez dos faróis</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-embriaguez-dos-farois/</link>
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		<pubDate>Wed, 02 Mar 2016 12:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Cerpin andou pelo deserto até chegar na praia. Sentou numa elevação rochosa na orla e enquanto o céu escurecia encarou o horizonte aquoso. Toda vez que fechava os olhos ouvia vozes desconexas discutindo algo de maneira acirrada. Não entendia o que falavam. Caso se concentrasse elas silenciavam, percebiam alguém à espreita tentando desvendar suas maquinações.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Cerpin andou pelo deserto até chegar na praia. Sentou numa elevação rochosa na orla e enquanto o céu escurecia encarou o horizonte aquoso. Toda vez que fechava os olhos ouvia vozes desconexas discutindo algo de maneira acirrada. Não entendia o que falavam. Caso se concentrasse elas silenciavam, percebiam alguém à espreita tentando desvendar suas maquinações.</p>
<p>Não seria boa ideia passar mais tempo ali, naquele lugar aberto e indefensável, então Cerpin começou a andar. Logo o encontrariam. Tinha apenas uma pista de quem ou o quê o perseguia. “Tremula Metacarpi”. Não que as palavras significassem algo. Um vislumbre no pesadelo da noite anterior.</p>
<p>Um desenho disforme na areia logo se materializou numa pilha de restos naufragados de embarcações. O céu continuava escurecendo, esquecido de que a manhã era o reino do sol. Cerpin separou as peças entranhadas uma da outra, madeiras, vigas, placas enferrujadas, uma vela esburacada, remos manchados de sal. Demorou pra ficar contente com o rearranjo. Quando empurrou a embarcação remendada na água e pulou dentro, estendendo a vela que soprava lamuriosa pelo rasgo como o apito entrecortado de um navio, notou algo serpenteando sob a areia do deserto, vindo na sua direção. A coisa alcançou o resto das embarcações que Cerpin dispensara e viu elas serem engolidas. Por pouco não estava ali. Amarrou tiras de um tecido carcomido no corpo e fez nós nas quinas enferrujadas para mantê-lo firme.</p>
<p>Horas mais tarde, quando o céu voltou a se abrir, cansado de chacoalhar, ele identificou um risco vertical à distância, um dedo, que piscava no ápice de hora em hora. Um farol. O barquinho seguia o vento, programado. O farol se multiplicou, e entre eles Cerpin viu carapaças metálicas estendidas pela superfície, boiando como cadáveres inflados. Submarinos, dezenas deles, alguns com feridas de explosão visíveis, as cascas arreganhadas em círculos, lançando dedos negros para dentro como um círculo de bruxas erguendo as mãos durante um ritual de invocação. O barco de Cerpin bateu contra o primeiro sub e se despedaçou. Ele pulou na carapaça e viu com tristeza o sepultamento dos pedaços que o haviam trazido ali. Tentou divisar algo além do campo de submarinos, e mais adiante viu uma asa. Ao lado, um mastro quebrado. Um cemitério de embarcações? Não fazia sentido. Por que não afundavam, ali onde o oceano era tão profundo? Os faróis rodavam e rodavam suas luzes ritmadas contra o brilho do dia. Olhando pra cima, notou a mancha escura no céu, que parecia tê-lo seguido mar adentro.</p>
<p>As vozes se tornaram audíveis mesmo com os olhos abertos. Soavam mais aguerridas, como se perto de alcançar o objetivo, gritando precauções e estímulos. Cerpin correu sobre as carapaças metálicas, costurando um caminho pela água. Escorregou algumas vezes, caiu no mar gelado e escalou de volta. A sombra e as vozes o perseguiam. Viu uma abertura num dos submarinos. Entrou, receoso de olhar pra trás. Sentiu algo pinicar a pele. Gotas pretas caíam do céu carregado. Apertou os botões do controle na parede e uma placa se elevou e deu passagem a uma escuridão que parecia muito mais segura que o lado de fora. Bateu nos controles correspondentes e a porta se fechou, isolando-o. As vozes cessaram.</p>
<p>Sentou no chão, cansado. Alguém viria. Alguém tinha que vir. Por ele, ficaria sentado até o mundo enrugar e as coisas se acabarem. Mas estava ali por um motivo, que ele mesmo desconhecia. Alguém viria. Apertou os dedos, esperando.</p>
<hr />
<p>Este drop é o terceiro de uma série do Flash Fiction inspirada no álbum de estreia da banda de rock progressivo The Mars Volta, <a title="Wikipedia - De-Loused in the Comatorium" href="https://en.wikipedia.org/wiki/De-Loused_in_the_Comatorium" target="_blank">De-Loused in the Comatorium</a> (2003). A <a title="Youtube - De-Loused in the Comatorium" href="https://www.youtube.com/watch?v=Zgjv0PQiJCs" target="_blank">sonoridade</a>, as <a title="The Mars Volta Lyrics" href="http://www.azlyrics.com/m/marsvolta.html" target="_blank">letras enigmáticas</a> e o próprio <a title="De-Loused in the Comatorium - short story by Cedric Bixler-Zavala and Jeremy Michael Ward" href="https://xivilization.net/~marek/binaries/DeLoused_storybook.pdf" target="_blank">conto</a> escrito por Cedric Bixler-Zavala e Jeremy Michael Ward, que foi o ponto de partida conceitual da banda, formam a base referencial deste mini-projeto.</p>
<p>Leia os outros drops da série Despiolhado no Comatório:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/percepcao-extra-sensorial-inerciatica/" title="Percepção extra-sensorial inerciática" target="_blank">1 &#8211; Percepção extra-sensorial inerciática</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/juncao-exoesqueletica-da-ferrovia" title="Junção exoesquelética da ferrovia" target="_blank">2 &#8211; Junção exoesquelética da ferrovia</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/eriatarka/" title="Eriatarka" target="_blank">4 &#8211; Eriatarka</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/cicatriz/" title="Cicatriz" target="_blank">5 &#8211; Cicatriz</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/este-aparato-precisa-ser-desenterrado/" title="Este aparato precisa ser desenterrado" target="_blank">6 &#8211; Este aparato precisa ser desenterrado</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/televadores-ex-machina/" title="Televadores ex machina" target="_blank">7 &#8211; Televadores ex machina</a></p>
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		<title>Junção exoesquelética da ferrovia</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Feb 2016 08:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Experimental]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Cerpin ainda sentia a morfina correndo no sangue. Lembrava de mastigar bolinhas pretas e de buscar refúgio nas páginas de um livro.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Cerpin ainda sentia a morfina correndo no sangue. Lembrava de mastigar bolinhas pretas e de buscar refúgio nas páginas de um livro.</p>
<p>Empurrou a tampa do cockpit, amebas gigantes pulsando em toda a extensão, expurgando o ar venenoso da viagem. As aranhas se desentrelaçaram, desfazendo a camada do assento, afundando-o na estrutura óssea, vértebra primordial que o acolhera. Sentiu algo escalando a garganta. As formigas se enfileiraram sobre a língua e saíram, pinicando os resquícios do fluido que escorrera da boca nos baques inesperados. Por fim as larvas enganchadas ao redor da espinha, responsáveis pela casca que o mantinha ajustado sobre as aranhas, aos poucos desencravaram e escorreram pelas reentrâncias da nave. Cerpin segurou no pilar central de osso e se puxou pra fora. Rolou pela terra e bebeu o ar enquanto o sol o curava da viagem improvável pelo tempo e pelo espaço.</p>
<p>Levantou e andou, imerso numa bacia de óleo ou graxa ou gordura. Culpou a morfina. Viu vagões de trem enferrujados rodeando um acampamento, barris de latão aninhando fogueiras, a luz contornando rostos que aqueciam mãos. Cerpin ignorou todos eles e andou até o vagão mais próximo. Um abajur de bambu discernia o interior, no canto um colchão abarrotado e vago. Perguntou ao mendigo mais próximo se podia deitar e não esperou resposta.</p>
<p>“Três córneas, dois pés, pele séptica, barbante pomposo”, cantarolava o mendigo.</p>
<p>Com a chegada da noite Cerpin pressentiu a sombra. Ela se arrastava pelo deserto e encontrou o acampamento e rodeou as pernas dos mendigos que se coçavam e bebeu angústias como quem bebe gim e dourou sua metapele nos fogos e sentiu o pulsar estrangeiro naquele vagão e correu com milhares de patas ectoplásmicas pela terra e sua aproximação berrava morte e sangue e se prendeu no ferro e escalou o caixote até a bocarra aberta e sentiu as respirações pausadas dos homens apagados e pulsou. Cerpin se viu afogando numa poça de água escura, as paredes dobrando e lançando estilhaços que perfuravam seu corpo, decapitado e plantado numa ilha com árvores nascendo do chão que era o pescoço. A sombra exalou e inspirou. Cerpin se encolheu instintivamente e o mendigo ao seu lado acendeu o abajur. A sombra deslizou pra fora e rabeou pelo deserto atrás de outra presa.</p>
<p>Acordou ouvindo o mendigo choramingar. Cerpin ainda sentia os próprios tremores. Onde dormi?, pensava, vendo o dia fatiar o vagão. Deixou o colchão embolorado, o lençol furado, se esquivou das poças de mijo e saiu. O efeito da morfina acabara, ou parecia ter acabado. Sabia que algo o ameaçara à noite, em sonho ou não. Podia ver gravada no lençol que cobria as vistas as inscrições “Tremula Metacarpi”.</p>
<p>Fugia, fugia dos tremulantes. Fugia sem saber o motivo, sem saber pra onde. Fugia.</p>
<hr />
<p>Este drop é o segundo de uma série do Flash Fiction inspirada no álbum de estreia da banda de rock progressivo The Mars Volta, <a title="Wikipedia - De-Loused in the Comatorium" href="https://en.wikipedia.org/wiki/De-Loused_in_the_Comatorium" target="_blank">De-Loused in the Comatorium</a> (2003). A <a title="Youtube - De-Loused in the Comatorium" href="https://www.youtube.com/watch?v=Zgjv0PQiJCs" target="_blank">sonoridade</a>, as <a title="The Mars Volta Lyrics" href="http://www.azlyrics.com/m/marsvolta.html" target="_blank">letras enigmáticas</a> e o próprio <a title="De-Loused in the Comatorium - short story by Cedric Bixler-Zavala and Jeremy Michael Ward" href="https://xivilization.net/~marek/binaries/DeLoused_storybook.pdf" target="_blank">conto</a> escrito por Cedric Bixler-Zavala e Jeremy Michael Ward, que foi o ponto de partida conceitual da banda, formam a base referencial deste mini-projeto.</p>
<p>Leia os outros drops da série Despiolhado no Comatório:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/percepcao-extra-sensorial-inerciatica/" title="Percepção extra-sensorial inerciática" target="_blank">1 &#8211; Percepção extra-sensorial inerciática</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-embriaguez-dos-farois" title="A embriaguez dos faróis" target="_blank">3 &#8211; A embriaguez dos faróis</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/eriatarka/" title="Eriatarka" target="_blank">4 &#8211; Eriatarka</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/cicatriz/" title="Cicatriz" target="_blank">5 &#8211; Cicatriz</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/este-aparato-precisa-ser-desenterrado/" title="Este aparato precisa ser desenterrado" target="_blank">6 &#8211; Este aparato precisa ser desenterrado</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/televadores-ex-machina/" title="Televadores ex machina" target="_blank">7 &#8211; Televadores ex machina</a></p>
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		<title>Areiaiera</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/areiaiera/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2015 21:37:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O copo enche, milimétrico. Cabeça na areia, boca aberta, a garoa umedecendo os grãos sobre os dentes, a gengiva, a língua. Quando pesa nas pálpebras e escorre em grandes gotas, Pietro abre os olhos. Ao redor chicotadas de vento, manada de nuvens movidas a contra-gosto, picos macios de dunas em sucessão desordenada.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O copo enche, milimétrico. Cabeça na areia, boca aberta, a garoa umedecendo os grãos sobre os dentes, a gengiva, a língua. Quando pesa nas pálpebras e escorre em grandes gotas, Pietro abre os olhos. Ao redor chicotadas de vento, manada de nuvens movidas a contra-gosto, picos macios de dunas em sucessão desordenada.</p>
<p>Nota o copo no chão, já na metade. O gole arde, traqueia em brasa, respiração ruidosa e árida. Devolve o copo, rezando pra garoa enchê-lo até a boca.</p>
<p>As mãos mergulham no monte aos seus pés, os joelhos afundam e as pás de palmas iniciam o lento processo de cavucar o solo. São horas sentindo o suor escorrer pelas costas. Os dedos encontram algo duro que afina no aperto. Um tufo de cabelo. Desobstrui as beiradas, punhados na direção do vento. Na altura do queixo reconhece Marieta.</p>
<p>Dá tapas no rosto da esposa. Alcança o copo, linha magra, empurra a cabeça, abre os lábios e retira o grosso de areia de dentro, enfiando os dedos até sentir a passagem livre. Deixa escorrer o líquido e sopra. Ela arregala os olhos e tosse. Franze o rosto numa careta miúda, linhas de expressão amontoadas. Pietro continua cavando, as unhas caídas em algum lugar da areia escaldante. São horas até libertá-la de vez e desmaiar, esgotado.</p>
<p>Marieta deposita na boca do amado o risco do copo. O envolve e acaricia. Ele acorda durante o vendaval que corrói tudo acima do abrigo. O beijo é de pedregulhos prestes a inaugurar o fogo. Se encaixam. É rápido e desajeitado, ambos sorriem, o balanço não é interrompido nem mesmo com as lambidas que derrubam areia e enterram cada vez mais fundo.</p>
<p>O gemido ecoa submerso.</p>
<p>Mais tarde, muito mais tarde, quando inúmeros vendavais dançaram com a duna irrigada, os dedos de uma garota atravessam a superfície. Aos poucos rasteja pra fora, pra dentro do mundo. Se vê livre, sorridente no nada, e rói o cordão umbilical com dentes quebradiços. Acha o copo cheio e bebe. A cada gole os pulmões saltam, o peito cresce, o estômago fertilizado pela primeira vez bombeia vida pra todos os lados.</p>
<p>A criança carrega o copo pelos dias seguintes. Quando sente a garoa no rosto, encontra o corpo de um homem quase todo soterrado e deposita o copo ao seu lado. Segue até a dobra do horizonte revelar uma miríade de pontas, coberturas que abrigam os homens. Sente o vendaval derradeiro chegar no sabor do vento e apressa o passo para alcançá-las antes que seja obrigada a retornar à terra, ao útero da mãe.</p>
<p>Marieta, o rosto já descoberto, é incapaz de pedir ao marido que pare de desenterrá-la. Pietro, na gana de salvar a esposa, nunca quebrará o copo, que acredita ser a única esperança. É o exato oposto.</p>
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		<title>Alvariomano [#189]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/alvariomano-189/</link>
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		<pubDate>Tue, 01 Jul 2014 02:31:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Realismo Fantástico]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O mercado brota na esquina.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O mercado brota na esquina.</p>
<p>Encontro Alvariomano na prateleira de temperos exóticos, entre a pimenta com gergelim e o molho shoyu. Não parece grande coisa tão pequeno, mas já possui aquela voz irrecusável que massacra qualquer fagulha de vontade. Pergunto pro moço se é o único em estoque e o próprio Alvariomano responde com um grave que faz escorrer cera do ouvido: você só precisa de um.</p>
<p>A mulher do caixa o segura pelo tronquinho e passa o pé no leitor. O menino abre a sacola pra colocá-lo dentro mas uma simples encarada de canto de olho de Alvariomano é suficiente pra fazê-lo entregar o crachá e o uniforme à supervisora, sair tropeçando e viver o resto dos seus dias incapaz de acreditar em si mesmo e na bondade alheia.</p>
<p>Alvariomano pede pra eu instalar sua cama na bancada da cozinha, onde fica rodeado por caixas de leite que azedam sem explicação. De manhã, senta no meu ombro e se agarra à correntinha de ouro. Quando cruzamos com alguém na rua ele fala. É sempre algo que machuca, incomoda, desarma, intimida, apavora. Me pergunto como conhece a intimidade desses desconhecidos, mas fico quieto, sei que é melhor não saber. Ele chega do passeio e dorme até a manhã seguinte, acordando reenergizado pro novo festival de atrocidades que se atiram da sua boquinha. A cada dia cresce alguns centímetros.</p>
<p>A agressividade das suas palavras piora com o tempo. Não consigo mais dormir, comer, trabalhar. Vendo o carro, as coisas da casa e as roupas até que vendo a própria casa e durmo na calçada com Alvariomano do tamanho de uma criança de 10 anos agarrado às minhas pernas. Por fim acordo de sonhos com aranhas mortas e esqueletos retorcidos. Procuro o mercado, mas tudo o que acho no lugar é um casebre abandonado.</p>
<p>Quando Alvariomano já é homem feito, formado em maldade e falta de caráter, belo, alto e encorpado, enquanto de mim resta uma tripa seca e uma nisca de cabelo, a mulher o encontra e diz que chegou a hora. Ele se despede de mim com um beijo negro antes de agradecer por tudo. Me encolho no chão, mordo os punhos e espero. Alguém me pega, acaricia com dedos quentes e me coloca na prateleira, mirrado, indefeso, incapacitado, mas obstinado e dono de um vozerio grave, a língua irrefreável preparada para semear a vingança contida nas memórias borradas de uma vida que já não recordo.</p>
<hr />
<p><em>*Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:<br />
<a title="FF #80 - Herança inesperada (1)" href="http://flashfiction.com.br/heranca-inesperada-1-80/">-Herança inesperada [Trilogia Terror - capítulo 1]</a><br />
<a title="FF #59 - O monstro no sótão" href="http://flashfiction.com.br/o-monstro-no-sotao-59/">-O monstro no sótão</a><br />
<a title="FF #88 - Batata frita" href="http://flashfiction.com.br/batata-frita-88/">-Batata frita</a><br />
<a title="FF #111 - Bonihkomara" href="http://flashfiction.com.br/bonihkomara-111/">-Bonihkomara</a><br />
<a title="FF #131 - Homúnculo" href="http://flashfiction.com.br/homunculo-131/">-Homúnculo</a><br />
<a title="FF #167 - Golem de churrascaria" href="http://flashfiction.com.br/golem-de-churrascaria-167/">-Golem de churrascaria</a><br />
<a title="FF #179 - Debaixo da cama" href="http://flashfiction.com.br/debaixo-da-cama-179/">-Debaixo da cama</a></em></p>
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		<title>A deusa na urna (3) [#82]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-deusa-na-urna-3-82/</link>
		<comments>http://flashfiction.com.br/a-deusa-na-urna-3-82/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 15:26:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>	Me vi diante de um cômodo circular e sombrio.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	Me vi diante de um cômodo circular e sombrio.</p>
<p>	Um tapete grosso de pó dominava o chão de terra, no centro, e ao seu lado uma grande e desconfortável cadeira de madeira abrigava um esqueleto. Ele estava sentado, os braços nos repousos, a caveira equilibrada sobre a espinha e o encosto. Vestia um terno preto puído e rasgado, e me lembrei da menção da senhora Sturgens às roupas lúgubres de Edward O&#8217;Malley. O esqueleto só podia ser dele. Mas quem acendera as tochas que iluminavam o corredor e a câmara, se do homem restavam apenas ossos?</p>
<p>	Um barulho seco me chamou a atenção para o fundo do salão. Lá, uma grande urna dourada cheia de hieróglifos, gorda no centro e estreita nas extremidades, fora destampada. De dentro saiu uma grande serpente, os estreitos olhos amarelos fixos nos meus. Era o mesmo animal que O&#8217;Malley descrevera em seu diário. Tentei me mover mas não consegui.</p>
<p>	A enorme cobra veio vagarosa, se enroscou em minhas pernas e abocanhou minha barriga, deixando ali duas marcas fundas que não sangraram. Senti que algo inoculado pelas suas presas se espalhava pelo resto do corpo. Lembrei do ferimento de O&#8217;Malley, na barriga da mesma forma que o meu. A cobra se desenroscou e voltou à urna. Deixando apenas a cabeça para fora, se virou e começou a falar naquela língua sibilante e estranha. Eu a entendi de imediato. Disse que sua temporada na região chegara ao fim, que já consumira toda a energia que encontrara dentro dos veios daquela terra. Os resquícios de seres mágicos que ali viveram em tempos imemoriais ainda rastejavam, incautos, alimento para deuses caídos e esquecidos como ela, lutando para sobreviver escondida até que a hora do ressurgimento chegasse.</p>
<p>	Quando consegui me mover, dei as costas e saí correndo daquele lugar assombroso. Entrei no carro e voltei para Londres. Comecei a sonhar com a cobra e esqueci o que causara meu ferimento. Comprei um diário. Passei a ter ideias mirabolantes a respeito de uma casa, uma mansão no interior da Escócia. Mesmo sem o mínimo treinamento para arquitetura ou engenharia, os desenhos e cálculos fluíram de minhas mãos. Em pouco mais de quatro anos a casa estava construída com o dinheiro da venda da mansão e do terreno que me foram legados por O&#8217;Malley. No porão da nova morada depositei uma velha urna, um artefato egípcio que parecia ter algum valor. Eu a evitava e ela continuava lá, intocada num porão esquecido.</p>
<p>	A vida seguiu sem problemas, e eu sentia uma estranha satisfação, como se meu propósito tivesse sido encontrado. Me adequei rapidamente à tranquilidade de uma cidade interiorana e me tornei mais reservado com o tempo, um homem caseiro e soturno. Quando voltava do trabalho, admirava à distância minha casa solitária na colina. Por algum motivo eu lembrava de uma viagem que fiz ao interior inglês quando ainda morava em Londres, mas minha memória já não era mais a mesma.</p>
<hr />
<p><em>*Este foi o último capítulo da Trilogia Terror. Confira os outros:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/heranca-inesperada-1-80/" title="FF #80 - Herança inesperada (1)">[1] Herança inesperada</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-casa-na-colina-2-81/" title="FF #81 - A casa na colina (2)">[2] A casa na colina</a></em></p>
<p>**Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/o-monstro-no-sotao-59/" title="FF #59 - O monstro no sótão">-O monstro no sótão</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/batata-frita-88/" title="FF #88 - Batata frita">-Batata frita</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/bonihkomara-111/" title="FF #111 - Bonihkomara">-Bonihkomara</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/homunculo-131/" title="FF #131 - Homúnculo">-Homúnculo</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/golem-de-churrascaria-167/" title="FF #167 - Golem de churrascaria">-Golem de churrascaria</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/debaixo-da-cama-179/" title="FF #179 - Debaixo da cama">-Debaixo da cama</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/alvariomano-189/" title="FF #189 - Alvariomano">-Alvariomano</a></em></p>
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		<title>A casa na colina (2) [#81]</title>
		<link>http://flashfiction.com.br/a-casa-na-colina-2-81/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jun 2014 15:24:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flash Fiction]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Mistério]]></category>
		<category><![CDATA[Terror]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>	Cheguei no hotel e continuei a leitura do diário de onde havia parado. Felizmente, as reclamações da infância sofrida de Edward O&#8217;Malley acabavam perto da metade, e a caligrafia mudava drasticamente daquele ponto em diante, uma escrita mais corrida e, pelo que me parecia, apavorada.</p>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>	Cheguei no hotel e continuei a leitura do diário de onde havia parado. Felizmente, as reclamações da infância sofrida de Edward O&#8217;Malley acabavam perto da metade, e a caligrafia mudava drasticamente daquele ponto em diante, uma escrita mais corrida e, pelo que me parecia, apavorada.</p>
<p>	Ele relatava um machucado estranho que ganhara não sabia como: dois buracos fundos na barriga. Em seguida vinham os pesadelos que começara a ter com uma cobra, sibilante e horrenda, que lhe falava numa língua estranha e incompreensível. Os sonhos começaram quando tinha 14 anos, perto de seu aniversário, e seguiriam ocorrendo pelos 7 meses seguintes em que escreveu antes de parar abruptamente, na data que coincidia com a fuga de casa. Depois de algumas semanas passou a entender o que a cobra dizia: ele fora escolhido para construir seu altar na Terra. Neste ponto o diário era tomado por desenhos geométricos e anotações miúdas e ilegíveis, símbolos estranhos e listas de materiais de construção, plantas baixas e cálculos. Havia no fim um desenho à mão livre que muito se assemelhava com a casa na colina que era a minha herança, cuja visão me fascinara.</p>
<p>	Assim que terminei a leitura, no meio da tarde, resolvi voltar à mansão, dessa vez decidido a entrar. Subi a trilha abandonada atropelando o matagal que dominava o terreno, estacionei e peguei a lanterna do porta-luvas. A grande porta da frente estava destrancada. Abri com cuidado e o cheiro de mofo e pó inundou minhas narinas. Com passos vacilantes entrei, cuidadoso para não quebrar o silêncio, temeroso de que algo ou alguém estivesse por ali de tocaia. Procurei no diário uma página que me chamara a atenção antes, o desenho de um corredor oculto anexo à biblioteca. Folheando até encontrá-la, percebi como o interior da casa refletia com perfeição as anotações perdidas que O&#8217;Malley fizera pelo menos 10 anos antes de iniciar a construção do lugar, constatação que me causou arrepios.</p>
<p>	A biblioteca ficava nos fundos. Na mesa havia um grande livro preto aberto, mas o ignorei e procurei alguma abertura atrás da estante. Notei uma rachadura fina no gesso perto de uma das quinas e forcei o móvel com todo o meu peso. Me vi diante de um pequeno corredor. Nas paredes, tochas acesas indicavam que ainda havia vida naquele lugar exótico, e tomado por alguma espécie de curiosidade mórbida, dei o primeiro passo.</p>
<p>	O corredor úmido e frio seguia reto por alguns metros mas logo descia, uma rampa íngreme e circular que adentrava o coração da colina sob a casa. No fim uma pesada porta de madeira com um trinco enferrujado barrava a passagem. Eu sentia o coração acelerado, incapaz de entender porque fazia aquilo se todos os meus sentidos de preservação gritavam para que eu desse as costas e fugisse de volta para Londres. O diário em minha mão parecia me imbuir com um desejo sobrenatural de seguir em frente, e obedeci ao impulso virando o trinco e empurrando a porta.</p>
<hr />
<p><em>*Este foi o segundo capítulo da Trilogia Terror. Confira os outros:<br />
<a href="http://flashfiction.com.br/heranca-inesperada-1-80/" title="FF #80 - Herança inesperada (1)">[1] Herança inesperada</a><br />
<a href="http://flashfiction.com.br/a-deusa-na-urna-3-82/" title="FF #82 - A deusa na urna (3)">[3] A deusa na urna</a></em></p>
]]></content:encoded>
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