A deusa na urna (3) [#82]

Me vi diante de um cômodo circular e sombrio.

Um tapete grosso de pó dominava o chão de terra, no centro, e ao seu lado uma grande e desconfortável cadeira de madeira abrigava um esqueleto. Ele estava sentado, os braços nos repousos, a caveira equilibrada sobre a espinha e o encosto. Vestia um terno preto puído e rasgado, e me lembrei da menção da senhora Sturgens às roupas lúgubres de Edward O’Malley. O esqueleto só podia ser dele. Mas quem acendera as tochas que iluminavam o corredor e a câmara, se do homem restavam apenas ossos?

Um barulho seco me chamou a atenção para o fundo do salão. Lá, uma grande urna dourada cheia de hieróglifos, gorda no centro e estreita nas extremidades, fora destampada. De dentro saiu uma grande serpente, os estreitos olhos amarelos fixos nos meus. Era o mesmo animal que O’Malley descrevera em seu diário. Tentei me mover mas não consegui.

A enorme cobra veio vagarosa, se enroscou em minhas pernas e abocanhou minha barriga, deixando ali duas marcas fundas que não sangraram. Senti que algo inoculado pelas suas presas se espalhava pelo resto do corpo. Lembrei do ferimento de O’Malley, na barriga da mesma forma que o meu. A cobra se desenroscou e voltou à urna. Deixando apenas a cabeça para fora, se virou e começou a falar naquela língua sibilante e estranha. Eu a entendi de imediato. Disse que sua temporada na região chegara ao fim, que já consumira toda a energia que encontrara dentro dos veios daquela terra. Os resquícios de seres mágicos que ali viveram em tempos imemoriais ainda rastejavam, incautos, alimento para deuses caídos e esquecidos como ela, lutando para sobreviver escondida até que a hora do ressurgimento chegasse.

Quando consegui me mover, dei as costas e saí correndo daquele lugar assombroso. Entrei no carro e voltei para Londres. Comecei a sonhar com a cobra e esqueci o que causara meu ferimento. Comprei um diário. Passei a ter ideias mirabolantes a respeito de uma casa, uma mansão no interior da Escócia. Mesmo sem o mínimo treinamento para arquitetura ou engenharia, os desenhos e cálculos fluíram de minhas mãos. Em pouco mais de quatro anos a casa estava construída com o dinheiro da venda da mansão e do terreno que me foram legados por O’Malley. No porão da nova morada depositei uma velha urna, um artefato egípcio que parecia ter algum valor. Eu a evitava e ela continuava lá, intocada num porão esquecido.

A vida seguiu sem problemas, e eu sentia uma estranha satisfação, como se meu propósito tivesse sido encontrado. Me adequei rapidamente à tranquilidade de uma cidade interiorana e me tornei mais reservado com o tempo, um homem caseiro e soturno. Quando voltava do trabalho, admirava à distância minha casa solitária na colina. Por algum motivo eu lembrava de uma viagem que fiz ao interior inglês quando ainda morava em Londres, mas minha memória já não era mais a mesma.


*Este foi o último capítulo da Trilogia Terror. Confira os outros:
[1] Herança inesperada
[2] A casa na colina

**Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:
-O monstro no sótão
-Batata frita
-Bonihkomara
-Homúnculo
-Golem de churrascaria
-Debaixo da cama
-Alvariomano

  • http://www.barrasobliquas.com Leandro Leal

    Nossa, muito bom! Bem instigante! Estou sempre em busca de narrativas de terror, e adorei a sua proposta, o mais admirável de tudo é o seu poder de concisão! Ecos de Lovecraft em breves linhas é o trabalho de um grande escritor. Parabéns!

    • http://flashfiction.com.br Santiago Santos

      Oi, Leandro! Que bom que você gostou, e esse é dos antigos! Infelizmente produzo pouco terror porque é das literaturas que menos consumo, mas vira e mexe sai alguma coisa; de um universo de 400 drops, há apenas 12 deles com a tag terror. Acho que tem mais coisa ali de que você vai gostar, em especial “A busca onírica de Alberto Carter”, que é baseado na novela de Kadath, do Lovecraft. Obrigado e um abraço!