Homúnculo [#131]

Cardoso era feito de terra. Argila. Barro molhado e moldado feito vaso por mãos que sabiam qual linha tracejar ao redor dos lábios, sob os olhos, no meio da testa. E era das linhas que se aproveitava para não abrir a boca, para transmitir com um olhar de soslaio a reprovação que derrubava qualquer sucesso, a felicidade vislumbrada nos dentes do sorriso luminoso, a preocupação de sobrancelhas avizinhadas e derramadas, a dor da velhice que não enxerga sentido nos erros da juventude.

Era um monumento maia ou asteca, corpo burilado com palito de dente, ganhando vida com um empurrão, um estalo. Ou pelo menos me parecia, da minha pequenez, sempre às avessas e às escuras para não atrapalhar sua passagem, que seria como descarrilhar um trem com o peso do mundo, ficar no caminho desse homem enorme e consistente. Porque quando queria o era, duro feito rocha e irredutível, a voz cavernosa prenhe de finalidade. O núcleo mole, adormecido na proteção da casca, só se revelava na proximidade do sono, nas curtas horas que precediam o abraço do ninho de colchas. Nas melhores noites a dureza evaporava e era possível moldá-lo um pouco, desarrebitar o nariz, estender os dedos, castrá-lo do furor inexplicável com carinhos suaves.

Cardoso se tornou cada vez mais arenoso. Não gostava de mostrar, usava roupas largas para esconder as fragilidades epidérmicas que revelavam um coração como qualquer outro. Por isso nadava. Esperava a chuva encher os buracos da estrada de terra e se abrigava nas poças rejuvenescedoras, sorvendo o néctar barrento. Mas nada trazia de volta a consistência. As linhas tão devidamente traçadas se fundiram e deram lugar a outras, menos férteis e vivas.

O dia fatídico chegou. Ajoelhado, mãos na barriga, o terror revolvendo as entranhas, escalando a garganta atrás da luz do sol, se arrebentando contra os dentes rachados do agreste, dissolvendo tudo. Ali ele se desfez, na minha frente, retornando ao punhado de pó carente de propósito que todos somos no início. E eu o enfiei na tigela, misturei com água e moldei de novo, membro por membro, dobra por dobra, linha por linha. Porque eu precisava de alguém. E Cardoso era forte. Como era forte.


*Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:
-Herança inesperada [Trilogia Terror - capítulo 1]
-O monstro no sótão
-Batata frita
-Bonihkomara
-Golem de churrascaria
-Debaixo da cama
-Alvariomano