Batata frita [#88]

  • 30 de junho de 2014
  • Categoria: Fantasia

- E a batata?
- Quase pronta, senhor. Só um momento.

Depois de uns dois minutos o menino apareceu com o saquinho engordurado. Trouxe na mesa. O lanche já tava na metade e eu gostava de comer a batata antes. Ali eu não voltava mais. Largueio sanduíche, parti pra batata, molhando no ketchup. Tava quente, boa. Boa demais. Foi uma atrás da outra, um sabor escandaloso, uma coisa que preenchia a boca com vontade, que lembrava a infância, uma crocância de broca, um desafio aos dentes para não gemerem de prazer e continuarem mastigando.

Lá pela metade fechei os olhos. O resto foi mecânico. Só abri quando cutuquei o fundo do saco e achei sal. Passaram umas boas horas. O lanche tava gelado. Na mesa ao lado, um homem e uma mulher em ternos pretos, sentados de braços cruzados, óculos escuros. Entre eles o menino que me trouxe a batata, ainda de uniforme.

- Foi este o meliante que lhe entregou a batata, senhor?
- Foi.
- Lamentamos pelo ocorrido, mas o senhor deve nos acompanhar.
- Como assim?
- A batata frita. Não era uma batata.
- É claro que era. Eu paguei por ela.
- Não nos diga que isso era uma batata. Estamos há duas horas vendo-o comer. Nenhuma batata causaria este efeito nas pessoas.
- Mas eu só pedi a batata! O menino me trouxe, trabalha na lanchonete.
- Ele não trabalha ali. Estava infiltrado. É um fugitivo procurado e agora o envolveu em nossa investigação.
- Que loucura é essa? Eu não vou acompanhar ninguém.
- O senhor precisa vir. Ou os tentáculos do Iobolohon vão tampar suas vias respiratórias antes que anoiteça.
- Yobo quem?
- O bicho que o senhor comeu. Em pedaços. Fritos.
- Não não não.
- Venha conosco. Nossos hospedeiros são bem tratados. A taxa de sobrevivência é superior a 50%.
- E é isso? Me fudi assim, do nada? Fui o sorteado no mundo todo por esse moleque desgraçado?
- Ele não é um moleque, ele é um Gozkarra.
- Ah, então tudo bem, né. Se ele é um Gozkarra tá tudo resolvido.
- Nos perdoe, senhor, a culpa também não é nossa.
- Nunca é de ninguém. E é isso? Vou preso?
- Preso não. Voluntariamente admitido para tratamento médico. O senhor será remunerado.
- Com o quê?
- Dinheiro, é claro. Do que mais gostaria?
- Batata frita. Não sobrou nada do Ioboloco? Nem um pedacinho?
- Ele está delirando. Sim. Sim. Ok, nossa van está no estacionamento. Vamos.
- Só um pedacinho. Unzinho. Unzinhozinho.
- Se controle, senhor.
- UNZINHOOOOOOO.
- Derrube ele, Kob.
- SÓ MAIS UM PEDACINHOOOO– agh.
- Pronto. Consegue levá-lo? Vamos. Para de resmungar, Gozkarra. Agora você tá frito.


*Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:
-Herança inesperada [Trilogia Terror - capítulo 1]
-O monstro no sótão
-Bonihkomara
-Homúnculo
-Golem de churrascaria
-Debaixo da cama
-Alvariomano