Televadores ex machina

Cerpin abre a boca. Desenha palavras com os lábios, a língua, os dentes. Não compreendo nada. Porque não são minhas palavras. Não são as palavras que criei. Não são as palavras que saem da boca que imaginei e materializei pelos códigos que me permitem alterar, modular e torcer qualquer tipo de conceito alcançável pelo homem, limitados apenas pelo potencial criativo e pelo referencial alimentado por outros criadores e pela própria criação que habito.

Vejo Cerpin, o outro Cerpin, deitado numa cama de hospital, recém-desperto do coma suicida induzido pela mistura de morfina e veneno de rato. É este Cerpin que, rodeado pela família e pelos amigos, reconstrói a força pra se despedir com propriedade de todos eles, aos poucos, durante anos, em mensagens cifradas, em abraços tristes. É este Cerpin que luta contra as vozes dos Tremulantes, que luta até sucumbir aos chamados, pois o querem como líder, como imperador de um novo universo agora que Koral Mataxia caiu pelas suas mãos. E somente a dedicação total será aceita. A necessidade da morte de um lado, do renascimento no outro. Ele sabe que é questão de tempo. Sabe o seu destino, por isso caminha até a ponte e observa os veículos intermitentes reverberando no cimento sob seus pés e no asfalto lá embaixo, limiar da transição final.

Mas Moattilliatta ainda não despertou do coma, continua parado na ponte de Nedra Queret, murmurando algo aprendido com Clavietika Tresojos. Talvez o que quer é que eu ouça, o feitiço que me traz até a ponte, me faz sentar e balançar os pés, observando a água púrpura que corre sob nós. De Moattilliatta sobram as asas. É Cerpin quem se mantém do meu lado, Cerpin com a voz de Ojeno Valaso-Cedric e os cabelos de Clavietika Tresojos-Omar.

- Por quê? – ele pergunta.

Eu balanço as pernas. Lembro do seu nascimento. De sua materialização linguística numa manhã quente em Cuiabá. De ouvir as músicas esquizofrênicas do Mars Volta e imaginar enredos pras indecifráveis imagens evocadas durante as corridas noturnas, e de iniciá-lo no campo da vida metafórica justamente com sua tentativa de escapar antes que ganhasse um corpo definido. É uma pergunta justa. Eu a faria, em seu lugar. Mas eu não seria o primeiro nem o último a não ser capaz de respondê-la.

- Por favor – ele diz.

E não lembro de um pedido mais carregado de dor e esperança. Talvez porque esse próprio pedido não exista. Talvez porque ele exista demais, encampando todos os pedidos análogos que se desenharam em algum momento do aprendizado dessa arte demoníaca de brincar com vidas imaginárias. A fraqueza que me acometeu no momento em que o deixei me perceber, em que o deixei brincar de ouvir minha voz, de ouvir as teclas que o contornavam, que o submergiam em perigos cada vez mais tormentosos para tornar a salvação final mais significativa, essa brincadeira da narrativa mitológica que torna a conquista mais frutífera depois que grandes desafios são superados, em que o deixei saber até mesmo o gosto do tereré que impulsiona e dá ritmo a qualquer coisa que escrevo; é essa fraqueza que me acomete e me entrega prostrado à armadilha mais doída da arte: a inconclusão. Não o fim inconcluso, que é um dos fins mais belos; mas a falta do fim, aquele exato ponto que dá o lacre do sentido à obra e que sem ele se torna uma pilha de frases e orações desembocando pelas trilhas mal costuradas das páginas de um livro, de uma tela, de uma narração qualquer.

Cerpin está parado na ponte, observando o rio, como antes esteve parado dentro do cockpit da nave, como esteve parado na areia, no vagão de trem, na escuridão do submarino, no virar da página. Ele não pula. Não termina de atravessá-la. Não acorda no hospital. Não sai dos limites de Nedra Queret. Não respira. Não desenha nada com a boca fossilizada.

Eu me ergo, saio de Nedra Queret, saio do Comatório, salvo o texto inconcluso, abro um novo documento, violo o branco inviolado.


Este drop é o sétimo e último de uma série do Flash Fiction inspirada no álbum de estreia da banda de rock progressivo The Mars Volta, De-Loused in the Comatorium (2003). A sonoridade, as letras enigmáticas e o próprio conto escrito por Cedric Bixler-Zavala e Jeremy Michael Ward, que foi o ponto de partida conceitual da banda, formam a base referencial deste mini-projeto.

Leia os outros drops da série Despiolhado no Comatório:
1 – Percepção extra-sensorial inerciática
2 – Junção exoesquelética da ferrovia
3 – A embriaguez dos faróis
4 – Eriatarka
5 – Cicatriz
6 – Este aparato precisa ser desenterrado