O monstro no sótão [#59]

  • 30 de junho de 2014
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Acendo a luz, entro no sótão e vejo aquela coisa gosmenta espalhada pelo quarto, movimentos sofridos como se um último suspiro a animasse, tentáculos verdes e viscosos tateando as paredes, subindo, deixando um rastro luminoso e nunca alcançando o teto onde deve imaginar estar a saída, lá em cima, lá fora, suspeitando talvez que haja algo mais nesse universo que um quarto embolorado e úmido, uma cela desprezível que um ser desse porte e magnitude teve o descabimento de escolher, embora talvez não houvesse muita escolha e não houvesse também modo de predizer onde chegaria se o que noto em certo quadrante do seu couro liso for de fato uma espécie de ferimento, uma gastura, algo enegrecido e estranho que parece resultado de um fogo vivo irreconhecível, infligido talvez por um algoz cruel que lhe legou uma única e infeliz possibilidade de fuga pelos vórtices da realidade, pelas dobras do espaço, pelas lombadas do tempo até aqui, neste sótão escuro, neste meu depósito de inutilidades onde nada mais resta além deste corpo estranho e moribundo que parece possuir tudo e tenta, num fervor de último espasmo, me arrancar a vida, um tentáculo me agarrando pelo pescoço e me fisgando para uma bocarra desdentada e fétida que se abre para dar um vislumbre de seu âmago, me digerir os pensamentos como quem degusta uma refeição, os raciocínios testados e aprendidos de uma mente humana comum, conceitos matemáticos, físicos e químicos básicos que extrapolados se tornam equações gigantescas e incompreensíveis dentro do meu crânio minúsculo, e um ardor de alegria se espalha pelo seu corpo disforme e me infecta e me regurgita quando parece compreender finalmente, germinando minha parca semente de sabedoria, o que fazer a partir do momento em que se situa num ponto específico do universo e do ambiente que o aprisiona, e os tentáculos se retraem numa técnica exasperada que parece transbordá-lo com uma energia ofuscante e fecho os olhos como que ferido mas não há nada que faça ardê-los, nada mais que um susto inofensivo, e quando reabro o visitante inesperado não está mais diante de mim, restam apenas os traços nojentos no chão e nas paredes, manchas gelatinosas e translúcidas de algo que desafia os parâmetros sensíveis da realidade e cutucam o cérebro com um grito rouco que parece disposto a violar minha sanidade, agora muito mais propensa à rachaduras depois do contato físico e prolongado, e a única coisa que parece fazer sentido é tentar voltar atrás e apagar a memória com pano e álcool, mas nem borrar aquela distinção terrível é possível, e tento atenuar de todas as formas o impacto apocalíptico do ato tão simples e costumeiro de entrar por aquela porta e me deparar com um horror musguento prostrado no canto esquecido da minha solitária casa, meu casulo e protetorado menor diante das intempéries do mundo.

Apago a luz.


*Os monstros têm lugar cativo no universo Flash Fiction. Conheça outras aberrações que já deram as caras por aqui:
-Herança inesperada [Trilogia Terror - capítulo 1]
-Batata frita
-Bonihkomara
-Homúnculo
-Golem de churrascaria
-Debaixo da cama
-Alvariomano