Cicatriz

No deserto Sowvietna, nos arredores de Nedra Queret, Cerpin estava sentado na areia. As dunas se amontoavam e borravam e colavam uma na outra. Sobrevoava, pouco acima de sua cabeça, um misto de formiga, borboleta e gente, uma figura com asas enormes de aspecto divino e três olhos no rosto. Clavietika Tresojos. Ela batia e batia suas asas, a boca aberta e um grito perdido no ar. Afundava no chão cada vez mais, os olhos fixos nela.

O Sowvietna era na verdade o cemitério onde acontecera a sangrenta guerra civil comandada por inimigos que, em tempos esquecidos, haviam sido amigos inseparáveis. Ojeno Valaso e Recherche Bellicose. O governo conjunto foi pacífico até a sede de poder e extravagância de Recherche se tornarem claras. Os sinais foram muitos. A proibição da língua vigente e a implementação de seu próprio código de palavras e ruídos, espelhado num defeito de fala; a construção de presídios e reformatórios; o uso de cadáveres e sua transformação em phixias, soldados revividos como homens-formigas; a perseguição política; por fim, a nomenclatura de imperador. A resistência de Ojeno foi rapidamente desmontada. Acuado, procurou refúgio no deserto.

Muitos foram os anos de busca e desenvolvimento mágico até tomar contato com Clavietika. Ojeno estudou e dominou aquele invólucro energético, uma das muitas facetas personificadas da magia, e rondou o grande território de Nedra Queret experimentando e alinhando seus poderes para o conflito inevitável. Um acidente no deserto com dois phixias alertou Recherche de sua existência. A população já se rendera de vez ao regime truculento e a servitude fora estabelecida, mas no íntimo torcia por qualquer força externa que desafiasse o imperador.

Uma tropa de phixias, despachada para buscar Clavietika, a encontrou em poucos dias. Clavietika fez com que os projéteis dos inimigos atravessassem sua forma translúcida e lançou um grito subsônico que alterou a frequência mental dos soldados, transformando-os em suicidas violentos. Se atacaram e arrancaram os próprios olhos. Clavietika deixou aquele cenário de carnificina para trás e restaurou as forças nos lagos depois dos limites do deserto.

Os phixias, então cientes dos poderes da Tresojos, passaram a usar capacetes protetores. No encontro seguinte, Clavietika emitiu um raio energético e destruiu os capacetes antes que os soldados descobrissem alguma forma de atingi-la. A matança foi reencenada. Ao verificar os corpos caídos, Clavietika não notou um dos soldados ainda vivo, de alguma forma resistindo ao seu canto. Ele conseguiu avançar até penetrar o corpo translúcido e ali depositar um inibidor nervoso. Acompanhando tudo pela base, Recherche ordenou a ativação do inibidor. Um grupo que ficara na retaguarda ativou-o remotamente e os fluidos metafísicos que energizavam Clavietika foram neutralizados. Rasgaram-na pela boca, descartando as cascas de uma pele já inofensiva, e encontraram ali dentro Ojeno Valaso.

A população, ciente de que a ameaça fora liquidada, se viu novamente refém do jugo do imperador e procurou agradá-lo xingando o prisioneiro e jogando coisas nele enquanto era arrastado pela cidade até o palácio. Preso, foi torturado. Sua execução seria realizada após uma procissão pública, com sanguessugas grudadas na cabeça, e durante a procissão foi lacerado diversas vezes. Seu corpo desmilinguido foi submetido ao clássico método de extermínio de Recherche: uma lupa que amplificava o poder solar e reduzia qualquer coisa do outro lado a cinzas. Os habitantes as usariam para se pintar como símbolo de vitória.

Ojeno lembrou de seus estudos no deserto, do encontro com Clavietika, de Cerpin correndo entre linhas de palavras que fluíam numa página ou num invólucro, de dedos que batiam em teclas, de rabiscos de lápis num papel, de uma intenção brutal impulsionada por um gosto de erva e água gelada numa boca sedenta.

O eco fantasmagórico de Clavietika aos poucos desapareceu no ar acima de Cerpin. Ele não sabia se continuava afundado na areia escaldante do Sowvietna, se continuava no cockpit, protegido e cruzando tempo e espaço, se sonhara tudo aquilo. Parecia ouvir um alto-falante no fundo, anunciando a hora dos remédios, a hora das visitas, a hora de dormir. As asas de Clavietika bateram uma última vez, e sem aquela translucidez no meio do caminho o azul do céu preencheu tudo.


Este drop é o quinto de uma série do Flash Fiction inspirada no álbum de estreia da banda de rock progressivo The Mars Volta, De-Loused in the Comatorium (2003). A sonoridade, as letras enigmáticas e o próprio conto escrito por Cedric Bixler-Zavala e Jeremy Michael Ward, que foi o ponto de partida conceitual da banda, formam a base referencial deste mini-projeto.

Leia os outros drops da série Despiolhado no Comatório:
1 – Percepção extra-sensorial inerciática
2 – Junção exoesquelética da ferrovia
3 – A embriaguez dos faróis
4 – Eriatarka
6 – Este aparato precisa ser desenterrado
7 – Televadores ex machina