13 aninhos

  • 22 de junho de 2015
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Vem, Maria, deixa de ser boba. Entra aqui.

Ela entra. São catorze constelações de ossos pendurados em gengivas, umas mais numerosas que outras, umas mais cariadas que outras, umas mais brilhantes que outras.

Dá uma voltinha, Maria.

Ela dá. Passa as mãos nos pelinhos arrepiados dos braços. A calcinha do Snoopy tem um buraquinho na costura lateral. Pedregulhos pinicam os pés, pedrinhas pontudas tão afiadas que pouco importa que não estejam ali.

Não tampa os peitos, Maria.

Ela abaixa os braços. Alguém grita te peguei! lá fora. Ela lembra do Juninho, o primo que toma conta nas noites em que a tia trabalha. Lembra da mordida que deu na sua coxa, brincando. O roxo não saiu. Ela percebe a ferida ali mas só ela percebe. Ela para.

Alguém pediu pra você parar, Maria?

Ela volta a girar.

Não, não. Agora senta ali. Tira o Snoopy. Vai, Maria. Abre bem pra mostrar o produto.

Ela empurra pra baixo fazendo um rolinho. Senta na pedra e abre bem as pernas do jeito que o Cabelo, menino lindo, gosta. Catorze constelações se aproximam, irrigando o céu com astros pulsantes. Ela sabe que não há vento no espaço sideral mas ele carrega as vozes do mesmo jeito. Não dura muito.

Cê topa mudar de cidade, Maria?

Ela nem pergunta pra onde, só balança a cabeça. Aliviada de pensar que Juninho não vai crescer ouvindo história da prima. Aliviada de saber que alguém só vai chegar e pingar na carteira da mãe e ir embora dizendo que tá tudo bem e não vai faltar comida pra ela nem pro Juninho. Aliviada de saber que aquilo ali não é nada, nem vislumbre do que vem pela frente, e nota a tênue redenção presente nesse agora de expectativa, momento em que mesmo com o inferno posto à mesa é possível se concentrar no teto, na lagartixa esbranquiçada, na joaninha prestes a ser engolida viva, na rachadura e nos tons do cimento, no grito lá fora, no morro que se empilha e se contorce com casas enfileiradas feito escamas nas costas de um gigante. Ela volta a enxergar quando o brilho de treze bocas é engolido por cortinas de carne e resta apenas uma, mas não é possível encará-la pois é como um farol mirado nos olhos, e mantê-los abertos arde mais que tudo.

Pode colocar a roupa, Maria. Cê vai com o Rodô. Vai lá fora e pede pra Aninha entrar.