A mais bela arte [#78]

  • 30 de junho de 2014
  • Categoria: Fantasia

No século XVI, o pequeno reino de Houbartille vivia uma revolução artística impulsionada pelos gostos atrevidos e esforços patrocinadores do rei Louhar. Concursos e bolsas foram criados e multiplicados, saraus premiados organizados todos os finais de semana nos jardins da capital. Os dotes artísticos dos que possuíam dentro de si aquela chama criadora, e que a suprimiam pintando casas ou redigindo relatórios econômicos e outras funções básicas roubadas de estrelato, puderam enfim brilhar.

Certo dia o rei Louhar percebeu que sua semeadura gerara frutos: a sociedade já se encontrava afeita à arte e os grandes artistas eram louvados. Foi então que propôs uma grande competição. Em um mês escolheria, dentre as obras apresentadas, a mais bela e significativa, e presentearia seu autor com um título e terras vizinhas à capital. O reino entrou em polvorosa. Artistas venerados se recolheram à escuridão de suas casas para criar. Os iniciantes e os inseguros se reuniram e criaram irmandades, se aprofundando em debates para definir qual a maior obra de arte que poderia ser criada com o tempo que tinham. O rei declarou que qualquer tipo de manifestação artística seria aceita.

Quando a data chegou, a população se entregara com tamanho fervor à empreitada que foram necessários vários dias para apresentar as obras criadas. Quadros e esculturas foram apreciados, espetáculos e danças encenados, romances, contos, poesias e tratados filosóficos lidos, músicas ouvidas, comidas degustadas. Ao fim, o rei Louhar estava impressionado com as centenas de criações incentivadas pela sua oferta tentadora, mas se sentia enfastiado, como se aquilo tudo fosse mais do mesmo, representações do que já vira antes, mesmo que aperfeiçoadas; belas e geniais mas não arrebatadoras. Talvez sua expectativa fosse alta demais, inalcançável.

No fim um velhinho, um antigo criador de cavalos que agora vendia seus quadros na praça, disse que perdera noites de sono tentando imaginar a tal obra perfeita. Disse que só poderia criá-la trapaceando. Chamou seus dois filhos e eles se aproximaram com marretas. Foram até uma das paredes do salão do trono e começaram a quebrá-la. Os guardas avançaram para impedi-los, mas o rei, curioso, permitiu que continuassem. No fim abriram um buraco considerável, lixaram as quinas e o velhinho apareceu com uma grande moldura de madeira. Colou-a à parede, encaixada com perfeição no buraco, e pediu que o rei aguardasse alguns momentos.

Impacientes, os espectadores esperaram o que pareceu uma eternidade até o velhinho dizer que a hora chegara. Pediu ao rei que descesse de seu trono e se posicionasse na frente do buraco. Lá fora, o sol se escondia por trás das montanhas, e uma última fatia incandescente brilhava num laranjado forte, a atmosfera lírica se espalhando pelas florestas do reino, folhagens altas e rios largos refletindo aquele último suspiro que em breve sumiria, transformando um céu púrpura recheado de nuvens gordas numa escuridão estrelada, joias raras decorando um pescoço negro. O velhinho disse que nada poderia superar aquela tela, nenhuma mão humana chegaria perto de tamanha perfeição. O rei Louhar aquiesceu e voltou ao seu trono arrebatado, enfim.


*Séculos mais tarde, artefatos do mítico reinado de Houbartille ressurgiriam. Confira AQUI.