A odiosa canção do ambulante [#169]

Na época em que estive preso o ambulante foi nosso pior pesadelo.

Fui sentenciado à companhia de assassinos e ladrões, amontoados num curral de barro, urina e merda. Os guardas nos obrigavam a limpá-lo com mãos nuas e baldes furados enquanto riam e estalavam chicotes nos couros manchados de sol e vísceras podres que as crianças jogavam por sobre o muro. Durante todo aquele tempo lutando por migalhas e amaldiçoando a sorte a esperança de esganar o vendedor me deu forças.

Ele nos acordava quando o céu ainda se agarrava a fiapos escuros e enrubescia no horizonte, lixando a garganta com a voz fina e cantada, tiras de carne temperadas com cominho e pimenta, massas recheadas de geleia e manteiga, costelas besuntadas com creme de milho, aspargos suculentos, tomates maduros, sopas de mariscos, filés de peixe grelhados, arroz com brócolis refogado no alho, tortillas crocantes de cebola, frango assado com ervas, figos recheados com suspiro e doce de leite, canudos de presunto e ovos, queijo macio, bolos e tortas e o paraíso destrinchado numa cozinha prenhe de toda a poesia escancarada da fome.

Todos nós, imundos e desfalecidos, acordávamos ouvindo canções de iguarias que não provaríamos, estômagos revirados berrando dentro de carcaças cada vez mais sorridentes diante da foice da morte que assolava nossa tumba e balançava as pernas no alto do muro, assoviando, esperando a hora de descer e nos ceifar e dizer que o inferno era aquilo.

Chegou o dia em que a música foi interrompida por estampidos, gritos secos e passos desesperados. Um trovão adormecido se materializou numa bola de canhão que abriu um buraco na parede e se enterrou nos ossos de dois pobres demônios. Eu escapei cambaleante e vasculhei as redondezas e o encontrei escondido atrás da própria carroça nos fundos da igreja e enquanto defensores esgoelavam os sinos fechei os dedos em seu pescoço até senti-lo mole e frio e duro e avancei sobre tigelas e panelas, enfiando comida com areia e sangue na boca e mastigando com gengivas inchadas, e continuei comendo depois de levar cinco tiros nas costas, de ser esfaqueado, de perder a perna e ter a garganta talhada, continuei comendo quando a batalha acabou, quando a cidade se transformou num cemitério fantasma, quando os abutres e os lobos e os cães famintos se refestelaram ao meu lado e me deixaram para trás, eu, meu ambulante e meu paraíso na Terra.