- Alô, oi, acho que a bateria foi pro pau

Aguardando o socorro da seguradora no carro, observo os transeuntes. Chiclete balança no batuque dentário, neném assustado olha as motos, homem tropeça mexendo no celular, irmãos trocam murros nos braços, jovens mochilados saem da escola conversando e ignorando o vento quente chupado pelo asfalto que chupa tudo e deixa a essência desse tudo escorrida como tinta fresca na parede.

O tiozinho do lava jato sai pra averiguar o babaca que estacionou entre as duas vagas. Em justa causa, foi o que consegui fazer no embalo da descida pra não travar a rua. Uma hora e nada. A reunião já foi pro espaço. Se eu tiver sorte, ainda dá tempo de chegar em casa, tomar um banho e esticar na piscina da academia, preciso me cansar pra esquecer os números e os chefes e a merreca na conta e fazer a dose de vodka que tomo antes de dormir ter gosto de alguma coisa.

Anoitece. Não demora muito e o boteco da esquina abre, distribuem as cadeiras enferrujadas da Brahma, jogam os tacos sobre a mesa e equilibram as caixas de som nos parapeitos de cimento, Chrystian e Ralf, Ovelha, Soriano.

Cansado de esperar pelo auxílio da seguradora, fecho o carro, atravesso a rua e peço uma cerva. Canela de pedreiro. Abro os botões da camisa menos os dois últimos, uma vibe caminhoneiro que incorporo quando tô cansado e puto. Peço um maço de Vila Rica e acendo um pra mim e outro pra ela, a tiazinha que senta na mesa roendo a unha do mindinho, a única não pintada de vermelho. Ela ri alto, um sorriso estridente. Eu gosto, me lembra algo, não sei exatamente o quê.

O guri que limpa as mesas vê que não chega ninguém e aceita uma sinuca. Tem anos que não mexo com isso mas já nas primeiras tacadas parece que nunca deixei de jogar. Duas fichas e o primeiro cliente aparece. É o seu Antônio, com a barbicha branca, contador de piada. Logo o bar tá cheio. Vou bebendo, vira e mexe tiro uma partida do bolso e mato, converso com ela, peço uma calabresa acebolada, ela come esfomeada, a desgraçada parece que nunca comeu na vida.

Sinto o ácido úrico atacado com a cerveja alojada nos pés, trem ruim da porra, e peço a conta. Ela diz que eu não pago, onde já se viu. Pego a última ficha contra o Tião, ele me abraça no fim, diz que a filha tá doente, digo pra ele ser forte e pegar uma dose por conta da casa. Peço pro meu filho ajeitar tudo quando o pessoal for embora, só fechar a porta que amanhã cedo eu varro. Digo pra ela não demorar que tô cansado, subo a escadaria, olho o caminhão estacionado na rua do fundo, ninguém mexe com ele que é meu e respeito é tudo, tomo um banho e acendo um cigarro na sacada.

Rossi no rádio, ouço as risadas e os copos batendo na mesa. Mais pra baixo na rua observo o carro, os pneus murchos, os vidros quebrados, empoeirado que nem as pirâmides. Ela chega e entra no chuveiro. Jogo a bituca fora e vou pra cama, cansado, cansado.