Alugador [#181]

Quando aluguei meu pai ele não falava nada.

Daí ensinei que pai tem que falar, ensinar, dar lição de moral, puxar orelha, cobrar. Demorou pra aprender. Mas aprendeu, todo mundo aprende. Quando já tava bem treinado aluguei minha mãe.

Ele ficou alvoroçado. Só pensava em putaria. Foram dois meses pra se acostumarem um com o outro. Ela aprendeu a cozinhar, que comida de mãe é insuperável. Depois veio aquele amor sem limites, carinho, intuição, a placidez característica da presença feminina no mundo.

O cachorro e a planta aluguei na sequência. Pra ver se levavam jeito. A planta não durou duas semanas mas o cachorro ficou vivo e gordo, então menos mal.

Aluguei minha irmã. Ela nasceu com dois problemas. 1 – rins fraquinhos perigando parar a qualquer momento. 2 – ser filha única, pois a criança fica com várias sequelas, a pior achar que o mundo é mais dela que dos outros. Sorte que eu chegaria em breve pra resolver isso.

Aluguei um corpo. Minha mãe fez tudo direito, não fumou, não bebeu, não comeu porcaria. Nasci saudável. No meu aniversário de cinco anos percebi que a mana já se enfezara o suficiente pra aprender a dividir as coisas, material e imaterial. Tava bem ruim, tadinha, quase não saía da cama, parou de crescer.

Eu soube que era a hora quando ela foi dormir e esqueceu do meu beijo, de tão cansada.

Aluguei um mágico, apresentação única na sala. Sempre quis ver de perto. Segurei a mão dela até o fim. O último truque foi fazer surgir do nada uma pílula colorida, redondinha feito salsicha. Engoli e fiquei maravilhado olhando tudo perder a cor e o contorno. Meus pais choraram mas lá no fundo sabiam que só vim pra cumprir esse propósito. Os rins ficaram pra ela, claro, com o resto salvaram outras duas crianças. Tudo previsto na cláusula contratual quando comecei com essa história de alugar.

Aluguei um sorriso usando os créditos restantes. Ele veio antes da hora, a maninha ainda na mesa de operação. Ninguém entendeu, o médico assustou, mas ela, que querida, sorriu no exato momento em que ganhava a segunda chance, sorriu e deixou uma lágrima correr do canto do olho e eu ri também e sumi e depois disso não lembro mais de nada.