Areiaiera

O copo enche, milimétrico. Cabeça na areia, boca aberta, a garoa umedecendo os grãos sobre os dentes, a gengiva, a língua. Quando pesa nas pálpebras e escorre em grandes gotas, Pietro abre os olhos. Ao redor chicotadas de vento, manada de nuvens movidas a contra-gosto, picos macios de dunas em sucessão desordenada.

Nota o copo no chão, já na metade. O gole arde, traqueia em brasa, respiração ruidosa e árida. Devolve o copo, rezando pra garoa enchê-lo até a boca.

As mãos mergulham no monte aos seus pés, os joelhos afundam e as pás de palmas iniciam o lento processo de cavucar o solo. São horas sentindo o suor escorrer pelas costas. Os dedos encontram algo duro que afina no aperto. Um tufo de cabelo. Desobstrui as beiradas, punhados na direção do vento. Na altura do queixo reconhece Marieta.

Dá tapas no rosto da esposa. Alcança o copo, linha magra, empurra a cabeça, abre os lábios e retira o grosso de areia de dentro, enfiando os dedos até sentir a passagem livre. Deixa escorrer o líquido e sopra. Ela arregala os olhos e tosse. Franze o rosto numa careta miúda, linhas de expressão amontoadas. Pietro continua cavando, as unhas caídas em algum lugar da areia escaldante. São horas até libertá-la de vez e desmaiar, esgotado.

Marieta deposita na boca do amado o risco do copo. O envolve e acaricia. Ele acorda durante o vendaval que corrói tudo acima do abrigo. O beijo é de pedregulhos prestes a inaugurar o fogo. Se encaixam. É rápido e desajeitado, ambos sorriem, o balanço não é interrompido nem mesmo com as lambidas que derrubam areia e enterram cada vez mais fundo.

O gemido ecoa submerso.

Mais tarde, muito mais tarde, quando inúmeros vendavais dançaram com a duna irrigada, os dedos de uma garota atravessam a superfície. Aos poucos rasteja pra fora, pra dentro do mundo. Se vê livre, sorridente no nada, e rói o cordão umbilical com dentes quebradiços. Acha o copo cheio e bebe. A cada gole os pulmões saltam, o peito cresce, o estômago fertilizado pela primeira vez bombeia vida pra todos os lados.

A criança carrega o copo pelos dias seguintes. Quando sente a garoa no rosto, encontra o corpo de um homem quase todo soterrado e deposita o copo ao seu lado. Segue até a dobra do horizonte revelar uma miríade de pontas, coberturas que abrigam os homens. Sente o vendaval derradeiro chegar no sabor do vento e apressa o passo para alcançá-las antes que seja obrigada a retornar à terra, ao útero da mãe.

Marieta, o rosto já descoberto, é incapaz de pedir ao marido que pare de desenterrá-la. Pietro, na gana de salvar a esposa, nunca quebrará o copo, que acredita ser a única esperança. É o exato oposto.