Azul

  • 29 de janeiro de 2015
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Ela gostava de subir a colina quando o sol se escondia, feito um menino levado fugindo das palmadas da mãe. Os olhos não ardiam e podia mantê-los abertos pelo tempo que ele levava para se inflar de coragem, sempre suficiente para sentir a imensidão tomar conta dos sentidos.

Passava incontáveis porções de tempo nessa brincadeira, testando a paciência que os anos cultivaram. As pernas gemiam diante do peso, mas já aprendera a negociar suas limitações, e costumava teimar em alcançá-las, ciente de que só o esforço impedia que se reduzisse a um entulho. As juntas estalaram quando se virou, encarando a descida. Ignorou o ponto marrom disforme brotando a dezenas de metros e se concentrou na morada retratada pelos pincéis dos grandes artistas que só ela via, embora sem os olhos.

Os pés torceram a grama. Ao lado do casebre estava o pequeno monte de terra, a pá caída. Gastou dois dias coordenando os esforços físicos que possibilitaram a escavação. Um jovem o teria feito em uma soma ínfima de tempo, mas só ela sabia o quanto significava que suas velhas juntas fossem as responsáveis por ferir a terra de modo tão grosseiro. Os braços desacostumados doíam.

Viu o borrão pardo na soleira da porta. Com alguns passos se materializou naquela figura inquisitiva, testemunhando um futuro para si não muito distante. A primogênita chegara na noite anterior, convocada através dos sonhos. Vencer a distância não foi fácil, mas não era um chamado que podia ignorar, tampouco um para o qual se calculava tempo ou distância.

Só agora, na claridade do dia, a mãe via no rosto envelhecido da filha as rugas, linhas tortas que eram o mapa de uma vida. A natureza consumia todos, cedo ou tarde, e não era de se admirar o conhecimento que acumulava. Mais dois passos e notou as lágrimas. Abriu os braços com esforço e surpreendeu-se com o próprio choro ao ser envolvida num aperto trêmulo.

Desvencilhou-se, encarou a vala e deitou. Observou as poucas faixas brancas no céu, encantada com a delicadeza do menino arteiro de se esconder em momento tão oportuno. Poucos segundos separavam o êxtase contemplativo do movimento amargurado da cria devolvendo terra à terra, sepultando-a no seio da vida. Sentia-se plena e satisfeita, incapaz de formular qualquer tipo de agradecimento digno. Por isso focou o borrão azul, como sabia fazer tão bem, e quando o menino pulou do esconderijo rilhando os dentes em provocação, fechou os olhos, inundando-se com o calor, deixando o último suspiro escapar sem pressa.