Biscoito da Sorte [#204]

  • 7 de agosto de 2014
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Os bons políticos, professores e pegadores têm uma coisa em comum: a cara de pau.

É um atrevimento calculado, pensado, ainda que dosado com uma porcentagem de incerteza. Aprendem a falar bonito, alto e claro, olhando nos olhos, para cima, para frente. Braços expansivos, pernas rígidas, atitude despreocupada escondendo qualquer vacilo. Olhar pragmático que traduz auto-confiança alta, mesmo que fingida. Convicção forte no que diz, crença inabalável no que acredita e cuidado minucioso na escolha de argumentos.

Esses são os agilizadores. Nem sempre se tornam políticos, professores ou pegadores, é verdade. Mas produzem, visualizam, tornam viável, plausível. Uns preferem suar, labutar e construir com o próprio esforço, outros são melhores em delegar. Não importa, desde que existam, desde que o mundo seja orgânico, se altere, evolua, cresça. Os que prezam o lucro se tornam empresários. Os que prezam a emoção artistas. Os que prezam o espiritual Madres Teresas e Dalai Lamas.

Os obreiros vêm na esteira. Aqueles que não idealizam mas fazem. Que constroem pontes e casas e prédios. Que controlam um submundo de roldanas e cacarecos e mantêm uma ordem aparente sobre a qual a humanidade se apóia. Que são obrigados a ouvir porque não sabem falar, ou não querem, ou não podem. Os que não têm tanta cara de pau assim.

Há uma distinção muito clara de poder entre as duas esferas. Mas uma essência se completa na outra. É uma retroalimentação saudável, que se utiliza das habilidades inatas dos indivíduos, inferindo que há uma lógica a ser construída dentro de um organismo auto-sustentável. Mas erros de cálculo acontecem quando há tantas variáveis envolvidas. Obreiros se passam por agilizadores e vice-versa. O desperdício é identificado e nem sempre resolvido. É característica humana a faculdade de ignorar o óbvio quando o encontra.

Essa e outras confusões se tornam escolhas interessantes no mundo artístico. As artes bebem da contradição. Nada melhor que um político tímido, um pedreiro prolixo, um professor gago, um contador escritor, uma criança séria ou um velho bobo para contar uma história. Os bêbados e os loucos, à margem dessa máquina triturante, são gênios carismáticos e recorrentes da ficção. O âmago distorcido. O erro é tão mais interessante que o acerto. O conflito que a resolução. O desenrolar que o fim. Talvez, inseridos num contexto de luta diária, prerrogativa da sobrevivência, nos conforte beber das lutas alheias, abocanhar as excentricidades que tornam a vida justificável para os outros e entender o que nos motiva a seguir em frente. As estranhezas são muito caras a quem acredita que a vida é mais que essa predisposição automática que nos é imposta enquanto peças de um jogo. A boa arte produz desconforto, pois traz à tona as fragilidades que tentamos ignorar.

As mentiras que contamos para nos convencer que a vida é como queremos ela seja nos torna artistas. E ela, a vida, se encontra espalhada nessas divagações, pulsando como palavras salientadas num aparente descaso que ninguém , dizendo muito com pouco. Um homem feliz é um mentiroso convicto que reconhece os sinais pelo caminho, os decodifica e absorve, e vive apesar deles.