Cabeludo [#74]

Quando chegou na altura do ombro Caio decidiu: agora vai.

Ele via aqueles roqueiros nos clipes da TV, plenos anos 80, e achava que o ápice da masculinidade e do famoso ímã mulherístico era o cabelo grande. A genética pelo menos o privilegiara: tinha os fios sedosos e resistentes. A mentalidade do adolescente de cabelo curto persistia, no entanto: lavava o cabelo duas vezes por dia com shampoo anti-caspa paraguaio do mercado da esquina, secava vigorosamente com a toalha, penteava com a mão. Quando a irmã viu que ele falava sério, avisou: cabelo grande não é brincadeira, vai ter que cuidar melhor, gastar dinheiro e tempo, ou vão te chamar de vassourão.

Caio não ligou muito. Se os caras do Iron, Metallica, Purple, Rush, Sabbath, Zeppelin e companhia podiam, ele também podia. Meses mais tarde a mãe notou que ele ficava resfriado com frequência cada vez maior. Disse que se queria ter uma cabeleira vasta não podia lavar todo dia antes de dormir e encharcar o travesseiro. Caio parou de lavar o cabelo à noite. Quando alguém da escola fez menção ao cabelo de vassoura ele se rendeu, falou com a irmã, foi no cabeleireiro dela, o Charlié. Charlié disse que não era assim, se quiser deixar o cabelo crescer tem que fazer do jeito certo. Vai usar shampoo e condicionador da marca X pra não ressecar, vai lavar de três em três dias, vai escovar toda manhã, vai passar creme revitalizador nas pontas, vai voltar aqui pra aparar todo mês, vai usar secador se lavar à noite, vai comprar um pente de dentes de marfim pra dar aquele visú bonito.

Claro que Caio torceu o nariz, mas obedeceu quando Charlié disse que esse pessoal todo, do Robert Plant ao Bruce Dickinson, fazia essas coisas escondido, é claro que fazia, só que a diferença é que eles tinham dinheiro pra pagar gente pra fazer isso por eles. O que não era o caso de Caio.

O resultado é que quando se formou na faculdade o cabelo já chegara à altura da bunda. Estava de saco cheio de gastar uma grana violenta e pelo menos uma hora e meia por dia no cabelo, mas não queria se distanciar daquilo que julgava ser uma obsessão inofensiva. No começo até atraíra as mulheres, depois o negócio ficou exótico demais. Nenhuma tivera coragem de lhe falar ainda, mas a verdade é que muitas morriam de inveja daquela cabeleira sedosa de propaganda de TV. Um dia Caio assistiu uma matéria por acaso, o homem com o maior cabelo do mundo, na Índia. Era uma trança enorme de 7 metros que ele enrolava sobre a cabeça e encharcava com álcool uma vez por ano. Qual o objetivo?, pensou. No ápice de um processo autodestrutivo de introspecção pseudomística, decidiu: agora vai.

Cortou o cabelo, vendeu e fez uma grana. Agora virou um cara moderno, atento às tendências atuais. Segue religiosamente os cortes do Neymar.