Camelódromo [#02]

Os colares dourados reluziam, enfileirados sobre um pano preto esticado na mesa. Um deles brilhou mais forte, um pingente de golfinho refletindo a lâmpada gorda no teto alto, chamando a atenção da cliente. Uma folha de papel dobrada duas vezes trazia os números num rabisco rápido: 15.

- Esse aqui é 15?
- É sim, dona.
- É de ouro?
- Claro que é.
- Por 15 reais?
- Pô dona, cê tá de brincadeira. Vendendo um negócio desses no camelô por 15 reais e cê me pergunta se é ouro?
- Mas é bijuteria fajuta?
- É bijuteria. Fajuta nunca.
- Quando eu uso sai a cor. Dura um dia.
- Mas é um dia como nenhum outro, dona.
- Não, nem começa.
- Faço dois por 25.
- Não, já te falei, sai a cor.
- Dois por 20, então. Um fim de semana de rainha. E engana mesmo, a senhora tá vendo.
- É, até que engana. Mas só tenho 18 aqui na bolsa.
- Fechado, dona.

O sorriso do vendedor exibiu um dente dourado no canto esquerdo da boca.

Ela entregou o dinheiro. E riu.


*Na semana seguinte a cliente voltou ao camelódromo. Confira AQUI.